sexta-feira, 15 de março de 2019

EM REDOR DO LUGRE SENHORA DO PRANTO


Estava ali havia três horas e já trouxera um trol cheio de bacalhau. O fundo do dóri já estava repleto de peixe. Sentira de novo movimento na linha. O bacalhau parecia estar a atacar bem o segundo trol. Felizmente que havia dias assim. Outros havia que parecia que o bacalhau fugia dos anzóis como o diabo da cruz. E por vezes com o tempo bem pior que o de hoje. Ainda se estava quase no princípio da campanha. Chegasse lá o mês de Setembro que era ver as mãos a engadanharem-se com tanto frio. Era a vida triste de um pescador do bacalhau.
         Chamava-se Manuel da Benta. Nascera na Gafanha da Encarnação, do concelho de Ílhavo, em 1913. Estava agora com vinte e três anos de idade. Pois que outra vida esperava à maioria dos homens dali senão a pesca do bacalhau? Ílhavo e as Gafanhas pareciam um grande coração que servia como motor à grande faina. Tanto em barcos como em homens. Já o seu pai, que Deus tivesse, por ali andara. Levara-o um golpe de mar. A mãe já nem lágrimas botara quando o vira a ele, pela primeira vez, a embarcar num lugre. Chorara tantas pela vida fora…
         Enquanto trabalhava no peixe já pescado, de vez em quando deitando o olho à linha, olhou em seu redor. A uma largueza de um quilómetro, a partir do lugre que se via lá ao longe, o «Senhora do Pranto», o mar estava cheio de pequenos pontos, que apareciam e desapareciam consoante a ondulação. Eram os outros dóris da equipagem do lugre. Em cada dóri um pescador. Estavam ali trinta e sete. Gente boa, sem dúvida a sua família nos bons e maus momentos no mar.
         A dado momento reparou que algo de pouco bom se passaria com o dóri que estava a uns cem metros de si. Afirmou a vista para ver se conseguia distinguir o pescador. Era…era o Mário Carvalho, o seu bom amigo Mário Carvalho.
- Ó Mário, passa-se alguma coisa?- gritou.
- Dói-me a barriga como a merda- respondeu o outro a gritar.
- Espera, que eu já ai vou- e dando mais linha ao trol que estava na água, pegou nos remos e energicamente remou em direcção do dóri do seu amigo Mário Carvalho.
         Lá chegado, afirmando-se no seu colega e amigo, logo viu que ele não estava bem. O outro pescador tinha um esgar de dor na cara, e estava curvado, agarrando-se à barriga.
- Comi alguma coisa estragada.
- Aqui coisas estragadas comemos nós todos os dias- dizia o Manuel da Benta- é a tripa que te dói?
- Eu sei lá ó Manel. É a barriga toda.
- Se precisares de ir à retrete põe o cú aí do lado de fora do dóri, que o bacalhau não se importa.
- Em calhando lá terá de ser- dizia o outro com um meio sorriso.
         Manuel da Benta olhou para o fundo do pequeno bote. Em três horas nem um peixe...(em continuação, ex. I)

in Nas Arestas da Terra e do Mar

quarta-feira, 6 de março de 2019

SNOOKER NA SAVANA


O fotógrafo estava lá e revela-nos que o engenho humano é extraordinário. No coração de África, bem nas savanas do Maiombe, disputou-se um entusiástico jogo de snooker. Não há tecnologia para criar a mesa, as respectivas bolas e tacos, mas capacidade criativa não falta, não fosse África o berço da humanidade.
            Que ganhe o melhor!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

XXVI JANELA SOBRE O MEU PAÍS- D. PEDRO IV, COMANDANTE DO EXÉRCITO LIBERTADOR


Cada estátua conta uma história, caminhos de eternidade feitos por intermédio do pensamento ou do heroísmo. Injusto será para a memória de quem é representado na estátua, que aquela, ao ser observada e admirada por nós, nada nos diga além da arte do artista que a esculpiu. Mas muitos de nós, portugueses, não são dados a estas coisas da história…infelizmente.
  Na cidade do Porto, entre muitas estátuas, pois que a Invicta foi predestinada ao pensamento e ao heroísmo, podemos observar a enorme e excelente estátua erigida à memória de D. Pedro IV, um agradecimento da cidade do Porto e de todo o Portugal liberal da década de 30 do século XIX. Em face da usurpação do trono por parte do seu irmão absolutista D. Miguel, D. Pedro IV (I do Brasil), veio à frente de um exército formado por 8000 homens, defender os direitos da sua filha, a infanta D. Maria, ao trono português e repôr o liberalismo ditado pela Carta Constitucional, que D. Miguel havia ignorado. Proveniente dos Açores, D. Pedro IV desembarcou a Norte do Porto, na Praia do Mindelo, no dia 8 de Julho de 1832, à frente daquele que ficou conhecido como O Exército Libertador. Este foi o primeiro momento da guerra civil entre liberais e absolutistas, que devastou o reino de Portugal durante dois anos. Dias depois de o exército libertador se ter instalado na cidade do Porto, ir-se-ia dar início ao Cerco do Porto, por parte de 80000 homens formando o exército realista de D. Miguel, dando aso a um ano de muitas história de sofrimento, heroísmo, sangue e morte.
De tudo isto nos pode falar aquela bela estátua de D. Pedro IV a cavalo, na heróica cidade do Porto.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

UM PUNHAL COMPROMETEDOR


...Pois tivesse falado p’rós montes, p’rós pinheiros. Talvez alguma alma danada o oivisse e espalhasse a notícia pelo povaréu. Agora vir aqui com este paleio. Ele há cada uma – dizia o meu pai, furioso.
- Deixe estar o homem, meu pai. Coitado, já bem basta o que viu.
- E tu acaso sabes se o que ele diz é verdade?
- Yo no minto, sêor. Yo no ir dizer uma coisa destas se no ser verdade! – e nesse momento o inglês levou a mão direita ao interior do casaco, de onde tirou um punhal e colocou-o em cima da mesa. Era uma bela arma, com um punho em madrepérola. O punho era ainda feito de uma madeira muito polida, que se ligava à lâmina. E nessa base de madeira havia sido gravada a fogo a palavra «corga».
- O doctor há-de dizer se yo ter money p’ra ter uma faca destas; e o my name não é esse que aí está. Thank you doctor por ter oivido o que yo tinha p’ra dizer. Cá me vou e mais leve com minha conscença.
         E o inglês foi-se embora, internando-se no negrume da noite, deixando aquele punhal assassino em cima da mesa...(em continuação, ex. XXX)

in Alma de Liberal

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

VOCES CARMELI OU VOZES DO CARMO, UMA RECORDAÇÃO PARA A VIDA


Já alguma vos aconteceu sentirem um vazio, um espaço no mundo ocupado por vós que deixou de existir, saberem que algo pelo qual nutriam simpatia terminou? Pois foi isso que me aconteceu ontem ao tomar conhecimento que o grupo Vozes do Carmo, ontem, terminou.
            Não fui um assíduo interveniente na sua história. Mas as poucas vezes em que tive a oportunidade de dar o meu contributo em actuações, fi-lo com toda a entrega, e senti-me muito feliz, porque o ambiente nos ensaios tinha algo de especial, a Igreja do Carmo em Aveiro.
            Muito embora o grupo tenha sido fundado em 1990 pelo Frei Rui, uma excelente pessoa, com o nome de Vocces Carmeli, só em 1998 os comecei a acompanhar. Em 2000 vencemos o festival diocesano da canção, em Recardães, perante uma plateia de 1500 pessoas, o que continua a ser para mim um grande momento.
            Ainda como Vocces Carmeli participei no espectáculo do 15º aniversário, em 2005.
            Regressaria em 2013 até 2015, indo então encontrar o mesmo grupo, mas com outro nome: Vozes do Carmo. Foram três anos de actuações intensas e muito bem conseguidas, recordando com especial sabor a inesperada ovação em pé, que recebemos da plateia do Teatro Aveirense, na actuação da noite de 25 de Outubro de 2014, culminando a minha prestação no grupo, curiosamente, talvez por artes do destino, com a minha participação no espectáculo da comemoração do seu 25º aniversário, também no Teatro Aveirense.
            Mais um grupo de Aveiro de que fiz parte e que terminou.
            Por quanto de vós trouxe no peito, obrigado Vocces Carmeli/Vozes do Carmo!

domingo, 20 de janeiro de 2019

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- 1185- MORRE D. AFONSO HENRIQUES- VIVA D. SANCHO I


Após D. Afonso Henriques se ter visto reconhecido como rei, pelo papa Alexandre III, em 1179, curiosamente, como que enraivecidos por esse facto, os mouros endureceram a sua acção na Península Ibérica, inclusivamente em território já português que havia já sido conquistado pelo fundador da nacionalidade, D. Afonso Henriques, atacando, entre 1179 e 1181 as praças de Abrantes, Coruche, Évora e Lisboa, sendo sempre rechaçados. Por outro lado os Almóadas avançaram até à linha do Tejo, territórios ainda mal consolidados por parte do domínio português. O Emir de Marrocos, Yusuf I, atravessou o estreito de Gibraltar com as suas tropas, em Maio de 1184, vindo apoiar no ataque às linhas fronteiriças do Tejo, chegando a cercar Santarém, que, no entanto, não caiu nas mãos dos invasores. À frente das tropas portuguesas encontrava-se agora o infante D. Sancho, dada a idade avançada do seu pai D. Afonso Henriques.
            O fundador da nacionalidade, D. Afonso Henriques, faleceria no ano seguinte, a 6 de Dezembro de 1185, sucedendo-lhe no trono o seu filho, o infante D. Sancho, como D. Sancho I, tendo sido aclamado rei três dias depois em Coimbra.
            D. Afonso Henriques foi sepultado na Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, na altura capital do reino, onde ainda se encontram os seus restos mortais, lugar de culto para todo o português. Pelo menos para os portugueses que sentem orgulho na sua história!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

TEMPO DAS FORCAS SE RIREM DE SATISFAÇÃO


...O meu pai e eu, perante aquela revelação, abrimos os olhos de espanto.
- Diz vossemecê que quem matou os dois infelizes foi o filho do Conde de Cértima, o senhor Pedro Corga? – perguntei eu.
- That’s right – respondeu o inglês.
- Vossemecê não tem as aduelas bem apertadas, home – dizia o meu pai, quase escandalizado – atão o filho do senhor conde, um militar, ia-se lá pôr agora a matar gente do povo, gente que serve o pai dele?!
- Mas foi ele e nobody else. Depois foi ao ribeiro, lavou a espada e a faca. Mas quando estava a lavar a faca, ela caiu das mãos dele, pois yo oivi um metal a cair nas pedras. Ele fartou-se de a procurar, mas no a encontrou. Deu uns pontapés nas pedras, foi-se embora furioso e voltou a entrar na little church. Yo estava pregado ao chão, quase no respirava. E algum tempo after saiu com a farda toda vestida, foi buscar o cavalo que tinha atrás da little church e foi-se embora. Yo inda esperar um bocado sem me mexer. Quando senti que tudo estava em silence, levantei-me. A luz inda alumiava um pouco. Fui ver os dois corpos, o do Lúcio e da Adélia. Era blood por todo o lado. Fugi dali very quiqkly.
         Eu fixava o inglês, que por seu turno enchia mais um copo de vinho. Eu estava abismado e perplexo. E disse:
- Mas porque razão me veio vossemecê contar isso, a mim, que sou médico? Porque não foi ter com o regedor?
- Com justiça no gosto de falar. Lembro de coisas passadas. Tive medo de me meter em troubles. Alembrei-me então do doctor, que é boa pessoa. Yo ter de contar isto a someone.
- E agora? O que quer vossemecê fazer? – perguntei eu.
- O que há-de ele querer?! Cala-se muito bem calado. O regedor que descubra o matador, que é esse o seu ofício – interveio o meu pai – e vossemecê, Zé Corno, ou lá como se chama, não se meta em trabalhos acusando da matança o filho do conde ou ainda vai parar ao patíbulo. Olhe no que lhe eu digo! E mais a mais os tempos que correm em que as forcas se riem de sastifação. Os pequenos não podem botar da boca p’ra fora coisas desse tamanho, que achincalham a nobreza. Olhe no que lhe eu digo. Eu não oivi nada, nem tu Joaquim.
- Eu sei, meu pai. Isto é muito grave. E ainda por cima sem provas. Somente existe o testemunho deste homem – dizia eu.
- Mas quais provas? Nem com provas, nem sem provas. Tu ficas calado. Oiça cá – dizia o meu pai dirigindo-se ao inglês – p’ra que veio vossemecê desinquietar quem estava sossegado?
- Se yo no fala, rebento – exclamou o Jack Horn...(em continuação, ex. XXIX)

in Alma de Liberal

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

PARA VÓS, EM 2019


Amigos
Neste dia em que o mundo ocidental vê mais um ano terminar, o décimo oitavo deste século XXI, e dar início ao próximo, quero expressar os meus maiores desejos progressistas para o meu país. Assim:
1º- votos para que o abençoado governo democrático formado pelo PS, com o apoio  das forças de esquerda, PCP, BE e Verdes, se mantenha até às eleições legislativas de 2019, e se prolongue daí para a frente, continuando a ser capaz de fazer o bom trabalho económico que tem levado a efeito, muito embora eu saiba que há muitos cães a ladrar quando está a passar a caravana.
2º- votos para que Portugal consiga, definitivamente, encontrar a fórmula para pôr cobro a essa lastimável praga que têm sido os fogos florestais, e nesse sentido, eliminar de vez a presença, em lugares chave de combate aos incêndios, de sujeitos criminosamente incompetentes.
3º- votos para que todos os lesados dos incêndios de 2017, os verdadeiros lesados, vejam recuperadas as suas vidas, e para isso conta-se com o afinco do nosso meritório governo.
4º votos para que a nossa justiça atinja os níveis democraticamente eficazes e necessários, no sentido de fazer de Portugal um país onde não seja possível aos ladrões e parasitas de fato e gravata, de feições celestiais e profundamente honestas, contaminarem e infectarem o nosso tecido social.
5º- votos para que Portugal  se mantenha em moda e o nosso turismo seja cada vez mais original e criativo, mas de forma a deixar em paz aqueles que, vivendo em zonas turisticamente apelativas, tenham o direito às residências que fazem parte das suas vidas.
E por último, o meu profundo desejo para que a vida, em 2019, vos ofereça, além de saúde, a concretização dos vossos mais ansiados desejos.
Obrigado pela vossa companhia neste ano de 2018.
Um grande abraço deste vosso amigo
Poeta do Penedo


sábado, 22 de dezembro de 2018

A TRAIÇÃO DE PTAHKNOR AO DEUS CROCODILO SOBEK



...O deus supremo afastou-se então do local paradisíaco onde os deuses descansavam. Entrando na semi-obscuridade das águas do Nilo, enviou mentalmente um chamamento ao deus crocodilo Sobek, que momentos depois se apresentava perante Amon-Rá.
-         Chamaste-me, Amon-Rá?- perguntou o colossal crocodilo.
-         Sim Sobek, chamei. Sabes quem esteve aqui a fazer-me uma visita?
-         Não- respondeu Sobek, intrigado com a pergunta.
-         O deus Seth!- disse Amon-Rá, com aspereza na forma como pronunciou a resposta.
-         Seth? Seth esteve aqui?
-         É curioso Sobek! Como é que tu ainda não sabes que Seth esteve aqui? Não és tu o responsável pela vigilância e segurança de MassiftonRá?
-         Sou, Amon-Rá. Por isso mesmo estou desconcertado. Algo de muito fora do normal deve ter ocorrido para que eu não tivesse sido informado dessa presença.
-         Tens toda a razão, Sobek. Algo de muito anormal, algo chamado suborno aconteceu. Chama o teu Bhokurac Ptahknor e pergunta-lhe se ele não gostaria de ocupar o teu lugar.
-         Como? Ptahknor? Que me dizes Amon-Rá? Em MassiftonRá há ambição e traição?
-         Incorrecto Sobek- corrigiu Amon-Rá- às portas de MassiftonRá há ambição e traição, não em MassiftonRá.
-         Perdoa-me a incorrecção Amon-Rá. Eu sei que não tenho estatuto nem divindade para pertencer a MassiftonRá. Mas sinto-me feliz com o que sou. Se me permites, vou procurar Ptahknor e trago-to à tua presença.
-         Faz isso Sobek, que eu aguardo.
E o deus crocodilo partiu em busca do crocodilo Bhokurac Ptahknor. Ia furioso. A sua imensa cauda varria a água violentamente.
Passado um curto espaço de tempo, o deus crocodilo Sobek surgiu de novo, agora acompanhado pelo Bhokurac Ptahknor.
-         Aqui tens o crocodilo guardião em causa- disse Sobek.
-         Muito bem! Vou ser breve, pois a traição e a corrupção perturbam-me- disse Amon-Rá...(em continuação, ex. XXXIII)

in A Causa de MassiftonRá

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

DEVOLUÇÃO


Estou com quarenta e cinco anos de idade. Segundo a letra da canção do Paco Bandeira entrei na idade de uma ternura muito específica, que além de sentimento tem também experiência e sabedoria. E estou tentado a dar-lhe razão.
De facto a idade dos quarenta é um patamar cronológico de vida, que se pode considerar de excelência. Alia conhecimento a uma ainda enorme vitalidade. Que pode o ser humano querer mais?
Pois aí é que está a questão. No mundo que o homem foi moldando, conhecimento e vitalidade não chegam para se ser feliz! Talvez isso acontecesse naqueles tempos distantes, no fim da Era dos Neandertais e o começo do Homo Sapiens, em que a vida não conhecia a expressão «possuir bens».
Nessas épocas tão distantes de nós, há vinte e oito mil anos, a felicidade dos seres humanos de então residia em três coisas: ser um experimentado caçador, ter uma caverna onde se abrigar e ser muito bom a conseguir, com o atrito de duas pedras de sílex, uma boa faísca através da qual ser-lhe-ia possível fazer uma boa fogueira, para se aquecer e assar a carne da caça.
Mas o Homo Sapiens estava destinado, pelo criador disto tudo, a evoluir. Ao fazê-lo, esqueceu a felicidade daquela vida agreste, difícil, mas com a pureza do que é simples, e começou a complicar. E de complicação em complicação, atravessando a profundidade dos séculos, conseguiu complicar o que já de si foi ficando complicado: inventou o dinheiro!
A partir dessa invenção, ser saudável e ter experiência e conhecimento deixou de bastar para se ser feliz.
Os pobres, na tentativa de mitigarem o seu sofrimento, criaram a expressão: «dinheiro não é felicidade». Como eu gostaria que assim fosse!
Eu sei que há muita gente que, sendo rica, não é feliz. Falta-lhe a saúde. Mas perguntem a um miserável, cheio de saúde, se é feliz. Ele até pode tentar convencer-se de que o é, pois tendo uma vida para viver, tem de a concretizar da melhor maneira possível. Mas num mundo consumista e materialista, que vida pode ter aquele que não tem possibilidade de consumir, a quem está vedado o acesso aos bens materiais que o rodeiam?
Como eu gostaria que o Homo Sapiens actual inventasse agora uma forma de se ser feliz sem dinheiro.
Bem, mas se estou para aqui a divagar, é com um propósito. Quero revelar o conteúdo de uma carta fechada que a vida me abriu.
Chamo-me Mário Feliciano. Filho de gente pobre, não posso dizer que a minha vida, na adolescência e juventude, tenha sido um inferno, mas esteve muito longe de ter sido um paraíso.
Os meus pais, com muita dificuldade, me mantiveram a estudar até ao terceiro ano do Secundário, o que a lei obrigava. Com dezasseis anos de idade, vi o meu pai conseguir-me arranjar trabalho num enorme armazém de produtos agrícolas, onde ele próprio trabalhava, tendo-me ali mantido durante vinte e um anos, tempo este apenas interrompido por aquela meia dúzia de meses em que tive de ir cumprir o meu serviço militar obrigatório.
Trabalhava-se muito, e como já é hábito neste pobre país, ganhava-se pouco. Vida de pobre! A massa trabalhadora a dar tudo o que tem e o patronato, em troca, a dar à massa trabalhadora apenas o que a triste legislação obriga, revestindo-se de uma carapaça onde os escrúpulos fazem ricochete.
Já o meu pai dizia que a vida pode se revelar uma carta fechada. Tive então dificuldade em perceber o que ele queria dizer com isso, até ao dia em que a vida mo ensinou, naquele excepcional dia de 2010.
Nesse dia, já possuidor de carta de condução, que paguei com dificuldade em prestações (esse favor devo ao dono da escola de condução), conduzindo uma carrinha de caixa aberta, fui levar meia dúzia de sacos de batatas a um restaurante. Carregando os sacos, um a um, lá os depositei na cozinha, onde se encontrava o proprietário, que também era o cozinheiro. Foi uma daquelas coisas que não têm explicação! O dono do restaurante e eu nunca nos tínhamos visto na vida, e quando nos observámos, sorrimos um para o outro e ali nasceu uma simpatia mútua. No final do carrego o senhor ofereceu-me uma cerveja, que eu aceitei. Estávamos em Julho e o calor já apertava. E ali, na sua cozinha, conversámos cerca de um quarto de hora. Foi o bastante! Um mês depois deixei o armazém de produtos agrícolas, de há vinte e um anos, dizendo adeus ao explorador do patrão, que não demonstrou qualquer tipo de curiosidade em perceber por que razão me ia embora. Para ele, sair eu ou um canico que por ali tivesse andado vinte e um anos, foi o mesmo. Verdade seja dita que me aguentei ali todo aquele tempo apenas e só para não trazer complicações à vida do meu pai. Mas tendo-o já reformado, assim que tive oportunidade, para mais sendo um novo trabalho oferecido com um sorriso, simpatia e maior justiça salarial, mandei o sacana do explorador para o quinto dos infernos.
Com que alegria e entusiasmo abordei o novo trabalho!
O meu novo patrão, solteiro como eu e uns anos mais velho, chamava-se Albertino Pereira Torres, e o seu pequeno restaurante o «Azeite e Alho».
Era um restaurante simples e popular, direccionado para gente simples como nós, com um cozinheiro que, além da sua contagiante simpatia, tinha nas mãos um tempero de excelência.
Comecei a trabalhar servindo às mesas. O serviço não exigia requinte, porque os clientes apenas requeriam simpatia e boa comida. Por isso não foi difícil a minha adaptação.
Tinha apenas um colega, mais ou menos da minha idade, mas já muito tarimbado naquelas andanças de servir à mesa de forma simples mas eficaz. Com os seus conselhos e a simpatia do patrão, ao final do primeiro mês o trabalho revelava-se-me muito mais gratificante do que aqueles vinte e um anos a carregar caixotes de fruta e sacos de batatas.
Naquela casa comecei a ver a vida por uma perspectiva muito mais colorida. A diferença que pode fazer o carácter de uma pessoa na nossa vida, que tem influência directa no nosso trabalho, pode ser mesmo impressionante. A tal carta fechada de que o meu pai falava, revelou-me uma excelente surpresa. O senhor Albertino Torres transformou-me num tipo um pouco mais feliz, porque trouxe à minha vida um pouco mais de justiça social, ao fazer-me sentir que trabalho e dignidade eram duas realidades que, afinal, estavam ao meu alcance.
Mas as cartas fechadas ainda não tinham acabado.
Trabalhava eu no Azeite e Alho havia dois anos e meio, quando, um dia, ao jogar no euromilhões, a deusa da fortuna apiedou-se de mim, e ganhei vinte e sete milhões de euros. Não, não me enganei. Acho que na altura até me babei. Um homem, de um momento para o outro tornar-se dono de uma fortuna assim, até pode provocar alguma coisa má com tanta emoção! Mas lá me aguentei.
E inebriado com a abundância de dinheiro, não reparei em mais nada, por certo naquilo que tinha obrigação moral de dar conta. Fechei-me num estúpido egocentrismo, talvez até tendo sofrido de um momentâneo e deplorável narcisismo. Com a carteira a rebentar pelas costuras com o peso do dinheiro, olhando, mas sem nada ver, despedi-me do Azeite e Alho e dei um abraço de «até um dia destes» ao meu patrão, o senhor Albertino Pereira Torres. Corria o mês de Julho de 2012. Teria sido uma boa altura para pegar um maço de notas de cem euros, e esfregar com ele a cara mimosa da avantesma do meu antigo patrão.
Portugal afogava-se em dívidas, mas eu tinha de nadar energicamente para não me afogar em dinheiro.
Solteiro, livre como os passarinhos, após rechear bem a triste conta bancária dos meus pais, fui conhecer mundo sem data marcada de regresso, no píncaro dos meus fortes trinta e nove anos de idade, impulsionado pelo avião a jacto que eram os meus milhões. Andei por onde me deu na veneta, e como a minha veneta é enorme…desde a Austrália ao Alasca, da Ásia à Tórrida e mágica África, berço da humanidade, passando pela América do Sul e a luxuriante e densa Amazónia, tudo vi e muito aprendi. Depois, regressado à Terra-Mãe, com o espirito explorador muito mais sossegado, fui comprando enciclopédias e aprendi mais alguma coisa, a juntar ao bocadinho que o terceiro ano do Secundário me oferecera. Até que, passados dois anos, acho que um qualquer remorso me bateu forte.
Terminada aquela euforia inicial eu tinha de dar algum sentido ao dinheiro que tão subitamente ganhara. Sem um significado a dar àquela fortuna, parecia que eu não era merecedor de a possuir. Numa hora muito feliz o senti.
Com o coração a bater forte de emoção, dirigi-me ao Azeite e Alho para rever aquele homem que me ensinara que, afinal, a felicidade não era impossível de ser alcançada.
Cheguei ao restaurante e parei o meu excelente carro bem à sua frente. Havia ali qualquer coisa de anormal. Pus a minha mão direita no manípulo da porta de entrada e rodei…mas a porta não se abriu. O nome do restaurante ainda lá estava, por cima da porta, em letras pintadas de vermelho e amarelo-torrado, mas cheio de teias de aranha carregadas de insectos mortos, e muita sujidade a tirar cor à vida do Azeite e Alho. Não foi difícil perceber aquele drama, um drama de um homem que o não merecia. Essa percepção foi-me ditada pela consciência a martirizar-me. Reparei então num papel colado no vidro triste e empoeirado da porta. Indicava um número de telefone de um administrador judicial. Meu Deus, dois anos depois de me ter ido embora vim dar com o senhor Albertino Torres falido. Por certo que os problemas começaram ainda eu lá trabalhava. Lembrei-me de que a afluência da clientela diminuía. A crise instalava-se em Portugal de forma abrupta e impiedosa. Mas ele nunca me fizera sentir que o restaurante estava em dificuldades. Nunca me faltou com o vencimento…tudo se deve ter precipitado após a minha saída.
Liguei para aquele número de telefone e imediatamente me reuni com aquele administrador. Pedi, com urgência, uma reunião de credores, e montado nos meus milhões, paguei a dívida de uns míseros milhares de euros. No mundo do materialismo ter a força do dinheiro abre qualquer porta, qualquer uma! Já por outros mundos, de que o materialismo desdenha e apelida de ignorante, a potência dominante é apenas e só a essência de cada um de nós. Infelizmente essa essência, embora ande por cá, não pertence a este mundo.
Deram-me a última residência conhecida do falido, o meu antigo patrão. Mas não fui talhado para fazer averiguações, e como podia, entreguei o assunto aos entendidos. Com o meu poderoso smartphone xpto, que uma pequeníssima côdea dos meus milhões me oferecera, logo encontrei uma agência de detectives privados, tendo contratado os seus serviços. Duas semanas depois um detective contactou-me e deu-me a informação de que eu precisava: a localização do senhor Albertino Pereira Torres. Emudeci! Uma hora depois estava lá.
A força dos meus milhões levou-me até um parque de estacionamento que servia um hospital. Estávamos em Dezembro, às portas do Natal. O dia estava soalheiro, mas frio. Eram três da tarde.
Percorri o parque mais em busca de um arrumador que me indicasse um lugar para estacionar, do que propriamente o espaço para estacionar.
Quis ser visível. E fui! Ao fundo daquela rua sem história, que se abria entre duas longas fiadas de carros estacionados, uma à direita outra à esquerda, lá estava o arrumador a fazer-me sinal com as mãos de que havia ali um lugar. Aproximei-me dele e observei-o muito…muito bem, com as lágrimas a abrirem caminho pelos meus poros agora milionários. Tal como um dia me indicara um local para ser feliz, agora aquele arrumador indicava-me um local para estacionar.
Estou muito feliz. E essa felicidade devo-a aos milhões que tenho, que me possibilitaram devolver dignidade material a um homem que, um dia, teve o condão de me ensinar o quanto a nossa essência espiritual pode influenciar a nossa existência material. Aprendida a lição, apenas mostrei ao meu mestre a forma como o fiz.
É Natal, faz muito frio na rua. Mas com o calor do forno, junto ao qual o senhor Albertino Torres de novo é feliz, e eu também, servindo às mesas (não rejeito uma gorjeta), o calor humano aquece a alma.
Neste Natal o restaurante Azeite e Alho, além de poder dar um sabor melhor e diferente ao bacalhau, tem montado um encantador presépio para oferecer magia aos seus clientes.
Passem por cá. Não se irão arrepender!

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

SEMENTES DE DÚVIDA EM MASSIFTONRÁ

S

...Propositadamente não mencionara o Sumo-Sacerdote estrangeiro, protegido de Amon-Rá, que andava fugido ao ódio do faraó. Esse era o ponto fraco do deus supremo. Que delicia iria ser, quando tivesse em seu poder esse estrangeiro.
No seio dos deuses reinava a estupefacção.
-         Mas o que é que se passa, que forças deixei eu de controlar?- perguntava Amon-Rá.
-         É natural que Seth pense sentir em ti fraqueza- disse o deus ancião Áton- com a liberdade de movimentos que ele vê no faraó...
-         Mas o faraó não é um humano qualquer. Nas mãos dele está o destino material do Egipto. É sensato desacreditá-lo aos olhos dos homens?
-         E será sensato os homens sentirem fraqueza em ti?- perguntou o deus chacal Anúbis.
-         O poder de Amon-Rá é de tal forma grande, que nunca corre o risco de cair em descrédito- disse o deus supremo- se não ataco o faraó directamente, posso fazê-lo rodeando-o, minando a sua influência, sem que disso o comum dos homens se aperceba, mas, ficando essa fraqueza bem perceptível ao faraó, de imediato compreenderá a minha mensagem. Mas não me preocupo com isso porque não sou louco. Tenho a perfeita noção de que uma sacerdotisa não vale a preocupação de um deus. Tenho de ser superior a isso tudo. Muito mais me preocupa a integridade física de Masahemba; e julgo que o faraó tem vontade de o sequestrar. Essa sim, essa é uma questão pessoal, à qual não permitirei ataques.
-         Seth não mencionou o nome de Masahemba, mas estou convencida de que sabe da sua existência e dos seus problemas- disse a deusa Ísis.
-         Ainda bem que me alertas para esse pormenor. O sifto encarregado de contactar Masahemba que parta imediatamente, e leve o meu Sumo-Sacerdote para a casa do abençoado artesão.
-         E em relação ao resto?- perguntou o deus ancião.
-         Ao resto? Que resto? A que te referes?- perguntou Amon-Rá.
-         Ao meio pelo qual foi possível a Seth introduzir-se em MassiftonRá- respondeu Áton.
-         É verdade, já me passava. O que seria de mim sem os vossos conselhos e observações?!- retorquiu Amon-Rá sorrindo...(em continuação, ex. XXXII)

in A Causa de MassiftonRá

terça-feira, 20 de novembro de 2018

XXV JANELA SOBRE O MEU PAÍS- MISTICISMO PORTUGUÊS


Iberos, Celtiberos, Romanos, Visigodos e Reconquista Cristã, um caldeirão de culturas e lendas que é a Península Ibérica e Portugal. Na profundidade de Trás-os-Montes, escondida por penhascos, se revela a existência de um Portugal místico.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

NO GIRO 4

...Sou de Viseu. Por isso durante muitos anos prestei serviço na cidade de Aveiro e foi assim que tive a oportunidade de conhecer a história e a vida do Serôdio.
Naquele seu primeiro Domingo de serviço em Aveiro, patrulhando o giro quatro, que era composto pelas ruas de S. Sebastião, Mário Sacramento e Avenida Araújo e Silva, refugiado em si próprio, escapando assim à solidão das ruas desertas, Serôdio teve a oportunidade de recordar os seus primeiros três anos de vida policial.
Fazia um balanço desastroso; o serviço que tinha de executar até que tinha aliciantes, levando em conta que se tratava do bem estar dos cidadãos. Mas sob as ordens de tais homens, e tendo como logística a miséria que se via, ele perdia todo o incentivo. Corria riscos, perdia noites, era mal remunerado e nem uma palavra simpática recebia em troca. Era este então o tal «espirito de missão»: dar muito e em troca quase nada receber! Como escape para tanta frustração deveria insurgir-se contra os seus colegas «do antigamente»? Era evidente que não. Isso seria um enorme disparate...(em continuação, ex. XXXIX)

in Filhos Pobres da Revolta

Março/2003 

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

POR RESPEITO AO MFA


Regresso ao infeliz tema do assalto aos paióis de Tancos. E faço-o porque me aflige que, de uma forma tão branda, aceitemos o descrédito das Forças Armadas a quem devemos o facto de podermos, neste momento, estarmos a falar de forma tão livre e directa sobre esta questão. Eu vivi intensamente o dia 25 de Abril de 1974 na minha querida cidade de Coimbra. E nesse dia, para mim, as Forças Armadas (que três anos depois integrei), ganharam um valor e um respeito imensos, sentimentos que guardei e guardarei até ao final dos meus dias. Embora não tenha sido nada fácil, orgulho-me de ter servido as Forças Armadas durante dezasseis meses, nessa sumptuosa unidade que é a Escola Prática de Infantaria em Mafra. Por isso me aflige que, muito acima da encenação da recuperação do material roubado em Tancos, não se fale, não se explique, como foi possível esse assalto. Porque aí é que reside a vergonha. Aí é que está o ónus da questão. E não vejo ninguém preocupado em esclarecer como esse facto aconteceu.
Não me adianto mais. Como cidadão e ex-militar apenas exijo essa explicação. A memória do MFA também!

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

PARA OS QUE ESCREVEM UM PORTUGUÊS À CALHOADA


Parece-me que qualquer pessoa minimamente sensata, concordará com a afirmação de que o tesouro maior de um povo é a sua língua. É através dela que, escrevendo ou falando, nos comunicamos naturalmente, e sem qualquer tipo de dificuldade na compreensão, com todos aqueles que têm por mãe pátria o chão que também é o nosso.
            Sendo a língua a característica mais importante que identifica cada povo, e a nossa, especificamente, uma língua bem difícil de ser aprendida, pensava que tal como eu, todos os portugueses a estimavam e até, porque não dizê-lo, a mimavam, empenhando-se por, orgulhosamente, a falar e escrever correctamente.
            Infelizmente não é isso que venho constatando. Os atropelos à nossa língua, a falta de interesse em que a expressão escrita seja correcta, é constante.
            E o mais grave é as entidades comerciais serem as primeiras a dar o exemplo, incentivando assim a que os jovens escrevam português à «calhoada».
Recebi esta mensagem:
 «Outono e sinonimo de prevencao! Troque os pneus e faca a revisao da sua viatura, pague com o cartao…».
Estes senhores decerto que além de pneus também vendem facas!
O (~) til, que é um sinal tão bonito e que origina um som que só nós portugueses sabemos pronunciar, é simplesmente suprimido…porque dá muito trabalho. Quanto aos acentos agudos…vai lá que já te apanho.
            Já não bastava o maldito e anti-patriótico acordo ortográfico vir denegrir a língua de Camões, também nos defrontamos agora com a preguiça no escrever.
Sejamos portugueses em toda a acepção da palavra se fazem favor!

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

QUANDO SE ENCONTRA ARTE FILHA DA MADRUGADA



Hoje dei-me ao trabalho de dar uma vista de olhos sobre papéis velhos. Quantos tesouros se podem guardar em velhos papéis.
Estávamos em pleno Junho de 2004, decorria em Portugal o Campeonato da Europa de Futebol. A cidade de Aveiro recebeu no seu novo estádio dois jogos desse campeonato. Toda a cidade se transfigurou, recebendo os milhares de visitantes, não propriamente turistas mas antes amantes do futebol, a maioria adeptos das quatro selecções que jogaram na nossa cidade.
A segurança foi um dos serviços públicos, a nível nacional e local, que mais esteve em foco durante esse mês de Junho. E tinha de o ser, já que Portugal tinha sobre si os olhos de todo o mundo.
Em Aveiro o coração do serviço de segurança recebeu reforço. Ele foi um dos elementos que foi reforçar as hostes que trabalhavam em prol da segurança de todos.
Uma manhã bem cedo, ao entrar de serviço, ele passou com o olhar pelo interior da guarita de sentinela existente à entrada do coração do serviço de segurança, e apercebeu-se de que existia uma folha branca de papel esquecida no tampo da mesa rudimentar, que tinha qualquer coisa desenhada. Aproximou-se e… por momentos ficou imóvel de espanto. Naquela folha alguém, por certo quem estivera de serviço durante a noite, desenhara aqueles espantosos aviões de guerra e aquele navio de guerra a lapiseira, alguns do tempo da II Guerra Mundial. Ele desconfiara de quem era o autor daqueles desenhos e confirmou-o na escala de serviço. Claro, o Leal, só poderia ter sido ele.
Aqueles desenhos não mereciam ficar ali esquecidos, não mereciam ir para o lixo, não mereciam o desapego do seu criador, que por certo ali os abandonou por ter já criado imensas obras de arte a que nunca deu qualquer valor. Foi apenas por hábito que os abandonou. Criou-os para que lhe fizessem companhia durante a noite. Chegado o dia, cerrou o breve postigo do seu talento e obrigou-o a ficar de novo adormecido.
Ele guardou a folha branca de papel e assim que encontrou o autor dos desenhos disse-lhe que a tinha guardado, e perguntou-lhe porque razão ele não investia na sua arte. O autor sorriu e respondeu que não era pintor.
Hoje, passados todos estes anos, ele reencontrou aquela folha branca, entre papéis velhos, e resolvi dar-lhe alguma vida, homenageando assim o talento desconhecido de um camarada que, andando por aí, pelas madrugadas fora terá criado outras obras de arte para oferecer ao sol.
Tanto artista sem talento que, na sua mediocridade, se põe nos bicos dos pés e enche exposições com telas cheias de tinta de muitas cores. Outros há que…
Que maravilha!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

MAUS E TRISTES TEMPOS AQUELES DAS REPRESÁLIAS


...Foram tempos difíceis. Os velhos guardas, sentindo-se inferiorizados pelo superior nível cultural de alguns colegas mais novos, não perdiam a oportunidade de desdenhar deles, ou mesmo recusar-lhes ajuda, quando os viam em situações delicadas, fruto da sua inexperiência. No que dizia respeito aos subchefes e oficiais, era um perfeito tormento. Contavam-se pelos dedos os subchefes, chefes de esquadra ou comissários, que naturalmente aceitassem o facto de  terem sob o seu comando guardas, que culturalmente  os ultrapassavam com facilidade. Valendo-se do seu estatuto hierárquico de superiores aos guardas, que, no entanto, eram intelectualmente mais evoluídos, ministravam-lhes represálias, tais como cortes de folgas ou imposição de serviços de patrulha suplementares, para assim lhes quebrar o ânimo, quando não era a instauração de processos disciplinares, baseados em pequenas faltas, mas que no momento eram astuciosamente empoladas.
No início da década de oitenta este clima era vivido mais nos dois grandes comandos do país, Lisboa e Porto, e no comando de Aveiro, que servia como comando trampolim, onde muitos guardas passavam anos aguardando a sua transferência, geralmente para os comandos de Bragança, Viseu e Coimbra. Nos restantes comandos, muitos do interior, as transferências faziam-se muito lentamente, pelo que as novas mentalidades apenas alguns anos depois lá chegariam. Serôdio em Lisboa e eu em Aveiro, ambos fôramos protagonistas e vítimas da lenta mudança. A mim alcunharam-me de «O Beirão»...(em continuação, ex. XXXVIII)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003

terça-feira, 2 de outubro de 2018

PORTUGAL E CATALUNHA, UMA LUTA EM COMUM



Já aqui uma vez disse que admiro imenso a escrita da nossa escritora Deana Barroqueiro, não só pela forma extremamente cinematográfica como escreve, mas também pela enorme investigação histórica que faz, no sentido de escrever os seus romances históricos. Sinto que as suas pesquisas são fidedignas apresentações da história.
            E não podia ser em melhor momento que eu podia ler o seu último romance: 1640, (que ainda não acabei) que, obviamente, nos fala sobre a restauração da nossa independência.
            E digo que não podia ser em melhor momento, porque ao ler o romance aprendi que, de certa forma, devemos aos catalães a possibilidade de a nossa revolução ter tido sucesso. É que em finais de Novembro de 1640 a nossa nobreza foi convocada pelo rei Filipe III (IV de Espanha), e pelo governo do Conde Duque Olivares para ir ajudar na revolta da Catalunha, que há 378 anos se levantou em armas contra a opressão espanhola. A nossa fidalguia pensou então que, guerra por guerra, antes lutar pela causa portuguesa. E fizeram a revolução de 1640, quando o governo espanhol tinha muitas das suas forças desviadas para a Catalunha.
            Os catalães ainda continuam a lutar pela sua independência, como se viu ontem na televisão.

sábado, 29 de setembro de 2018

TANCOS, UMA TRISTE VERGONHA


Quando desapareceram as armas em Tancos, a parte da minha alma de militar, que ainda preservo, ficou quase estarrecida. Além de todo o tipo de coisas perfeitamente vergonhosas e escandalosas, que se têm passado neste nosso pobre país, só faltava isto: o exército passar pela triste vergonha de se deixar roubar, de deixar que um paiol fosse assaltado. No meu tempo de serviço militar um paiol era o correspondente ao altar de um templo. Muitas sentinelas de serviço, divididas por turnos, muitas rondas diárias e não eram necessários sistemas de vigilância. Tudo funcionava na perfeição.
            Os tempos mudam e parece que no seio da tropa mudaram muito.
            Agora, para meu espanto, ao fim de alguns meses de investigações, vejo o director da Polícia Judiciária Militar ser detido, o chefe da polícia que efectuava as investigações a esse assalto. A sério??? Mas o que é que se passa?
            E gostaria que me explicassem, que não percebo mesmo: no meio de todo este filme infeliz, o que é que o posto da GNR de Loulé teve a ver com tudo isto? Loulé? Nos cafundeu do Algarve? Relacionado com um assalto à base de Tancos, no Ribatejo? Estou desejoso de perceber esta charada!

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

SOBRE UM ESPÓLIO HISTÓRICO DE VERDEMILHO


Acabei de ler uma notícia no Diário de Aveiro que me deixou chocado. Não que tenha sensibilizado, no mau sentido, os meus sentimentos de compaixão pelo próximo ou de injustiça cometida contra alguém. Nada disso. Antes o espanto, a incredulidade perante o desinteresse do município pela história local, um momento que foi o despoletar de uma crise, terrível mas necessária.
            O actual dono daquela que foi a casa do desembargador Joaquim José de Queiroz, avô paterno do nosso Eça de Queiroz, no sentido de restaurar a dita casa, viu-se na necessidade de oferecer todo o espólio documental, relacionado com a revolta de 16 de Maio de 1828, à biblioteca particular de José Pacheco Pereira, uma vez que a Câmara Municipal de Aveiro não se interessou por receber esse espólio.
            Para os que, eventualmente, possam não saber, afinal de que se tratou essa revolta?
            Em 1828 D. Pedro IV, então D. Pedro I do Brasil, ordenou que o seu irmão, o infante D. Miguel, retornasse do exílio na Áustria, para onde o pai de ambos (o rei D. João VI) o enviara, e tomasse a regência do reino, durante a menoridade da futura rainha, a infanta D. Maria, com a obrigação de jurar cumprir a carta constitucional de 1822. Juramento feito, D. Miguel tomou conta da regência do reino. O seu primeiro acto político foi o de dissolver a Câmara de Deputados, a 13 de Março de 1828, contrariamente ao que jurara havia pouco tempo. Dissolvida a Câmara, todos os deputados regressaram aos seus círculos políticos. Joaquim José de Queiroz foi um deles. Profundamente escandalizado com tamanha afronta cometida contra a carta constitucional e ao liberalismo, rapidamente em Aveiro urdiu uma revolta contra o regime absolutista de D. Miguel, que se supunha definitivamente extinto de Portugal, com o apoio do Batalhão de Caçadores Dez de Aveiro, transformando-se este movimento no primeiro grito de revolta, em Portugal, contra o regime absolutista, que eclodiu em Aveiro a 16 de Maio de 1828. Os preparativos desta revolta tiveram lugar na casa do deputado Joaquim José de Queiroz, no lugar de Verdemilho, a dois passos da então já cidade de Aveiro.
Os revoltosos seguiram para o Porto e a revolta acabou por ser esmagada pelas forças leais a D. Miguel e à sua mãe, a rainha D. Carlota Joaquina. Tudo acabou de forma trágica. Muitos dos cabecilhas fugiram para Espanha, mas sete foram apanhados e enforcados na Praça Nova, no Porto. As suas cabeças foram cortadas e enviadas para Aveiro e espetadas em estacas, por várias ruas, para exemplo. Essas sete cabeças repousam hoje no cemitério Central da cidade. Joaquim José de Queiroz nunca foi apanhado, mas nunca se ausentou do país, vindo a falecer apenas em 1850.
E digam-me lá se a documentação que retrata este momento, não deveria permanecer na cidade onde os factos ocorreram, guardada com carinho e emoção?
Quem somos nós se não percebermos de que forma chegámos aonde estamos?