quinta-feira, 2 de maio de 2013

HOJE O MONDEGO FICARÁ QUIETO



«CAPAS ONDULANTES DA COR DA NOITE ESCURA», SERÃO HOJE O SIGNIFICADO DESSA PALAVRA NOBRE, ANCESTRAL E COMOVENTE, QUE É COIMBRA.
O HILÁRIO CANTARÁ PELAS VIELAS, AO SOM DA GUITARRA QUE CHORA. O FADO DE COIMBRA LEVARÁ LÁGRIMAS AOS OLHOS DAQUELES, QUE ESTA NOITE, IRÃO PERCEBER PORQUE RAZÃO COIMBRA TEM MAIS ENCANTO NA HORA DA DESPEDIDA.
O MONDEGO FICARÁ QUIETO, ENQUANTO LÁ DO ALTO, A SUBLIME, RESPEITÁVEL E COIMBRÃ TORRE DA UNIVERSIDADE OBSERVA, COM TERNURA, A TRADIÇÃO QUE A SEUS PÉS SE DERRAMA, BEIJANDO A MUITAS VEZES SECULAR SÉ VELHA.
É A SERENATA MONUMENTAL QUE ACONTECE!

quarta-feira, 24 de abril de 2013

25 DE ABRIL: HEROICIDADE DE UM POVO


Naquela manhã, como todas as manhãs, saí de casa ás 8 horas e percorri os cerca de 500 metros até ao liceu. Logo á entrada senti que algo de anormal se passava, pois existiam muitos colegas e professores na escadaria do Liceu que frequentava, o D. João III, (liceu masculino, esclareça-se, já que o Liceu cheio de atractivos, e que nos puxava como um íman, era o liceu feminino D. Maria, e ficava a cerca de um quilómetro, no final da ingreme descida e subida dos Lóios). Como achei tal situação muito estranha, logo perguntei o que se passava. Disseram-me então que em Lisboa estava a acontecer qualquer coisa e que as aulas estavam suspensas. Juntei-me ao maralhal em grande agitação. Eramos suficientemente esclarecidos, a nível político, para percebermos que a agitação tinha a ver com o regime. Todos, e éramos algumas centenas, ficámos suspensos pela expectativa. Eram onze horas chegaram notícias mais esclarecedoras que davam conta de que, parecia, que o regime fascista tinha caído, mas que o Governo Civil de Coimbra não o queria admitir, pelo que vinha uma enorme coluna militar para cercar Coimbra. Pouco tempo depois ouvimos, na rádio, um dos primeiros comunicados, senão mesmo o primeiro, de um capitão do exército a pedir calma ao povo de Lisboa e a dizer que o quartel do Carmo estava cercado. Foi a confirmação! Decorria um Golpe de Estado em Portugal. Rapidamente, não sei quantos de nós, mas algumas dezenas, em acto contínuo, fomos em corrida desenfreada para junto do Quartel General, que ficava a cerca de um quilómetro do liceu e deparámo-nos com muitas dezenas de militares na rua. Não a mais de cem metros encontravam-se as instalações da PIDE. Corremos para lá. Fomos dos primeiros a chegar. Cerca de meia hora depois eramos já mais de mil populares, gritando e vociferando a plenos pulmões. Foram virados carros da PIDE, houve tentativas de assalto ao edifício, mas os militares opuseram-se. Era muito perigoso, pois os agentes, amuralhados estavam armados. Toda essa confusão foi o primeiro acto revolucionário que se deu em Coimbra, e eu estive lá. Lembro-me de ver unimogues cheios de soldados, a saírem do quartel general e fazerem uma barreira de protecção á PIDE, e nós, em uníssono, a gritarmos- SOLDADO, AMIGO, O POVO ESTÁ CONTIGO.
Corria o brilhante, e para sempre vivo na minha memória, dia 25 de Abril de 1974. Apenas por mais cinco dias haveria de ter 17 anos.
Muitos anos depois, em 2004, passei pelo local. O edifício onde um dia esteve a PIDE, em Coimbra, ainda lá estava, com o mesmo gradeamento, e o mesmo ar sinistro. E á sua frente, bem no largo, onde eu estive presente, fui dar com um belíssimo monumento erigido á liberdade. Percebi muito bem o sentido daquele monumento. E junto a ele, tocando-lhe, chorei convulsivamente, pois Coimbra, durante muitos anos, escondera de mim aquele monumento. Chorei, porque o senti na alma, porque soube e sei, que um milímetro daquela estrutura me pertence.
Sinto-me um privilegiado, porque durante a minha vida tive a oportunidade de sentir o quanto uma revolução nos faz mexer o sangue.
Assim eu pudesse continuar a sentir-me, por tudo de bom que, 39 anos depois, estivesse eu a beneficiar em resultado dessa mesma revolução.
Aqueles que comem tudo e não deixam nada, afinal, não foram totalmente aniquilados. Talvez um novo Zeca Afonso que nos dê uma nova versão da letra, e uma fórmula nova, seja necessário.

sábado, 20 de abril de 2013

UM DEAMBULAR MALÉFICO


O mouro cavalgava a trote pela herdade. Era sem dúvida os olhos e os ouvidos do Barreto Raposo. A sua atenção era quase completamente direccionada para os trabalhadores de Alfeizerão. Ninguém na sua presença se podia sentir indiferente. Mantinha o mesmo olhar de aço, um rosto sem expressão nem indicador dos mínimos sentimentos. O Barreto Raposo valia-se dele para poder aniquilar à nascença qualquer manifestação de revolta. E o sentimento de revolta existia, adormecido numa hibernação contínua, mas pronto a explodir ao menor sinal de ajuda, que tardava a surgir. O Barreto Raposo não era amigo dos seus assalariados. Não conversava amistosamente com eles, como o fizera o morgado Vitorino. Não era uma mão pronta a ajudar, como o fora o morgado Vitorino. O Barreto Raposo era um tirano, um explorador. As gentes de Alfeizerão sentiam que a presença do Barreto Raposo, na qualidade de proprietário da herdade, estava apoiada por uma história com muito pouco sentido. Que necessidade tivera o morgado em vender a herdade? Ao vendê-la, que necessidade tivera em desaparecer na companhia de um dos filhos e do capataz? Teria o assalto ao solar tido algum relacionamento com a venda da herdade? Estaria o Barreto Raposo implicado no assalto? Todas estas perguntas estavam sem resposta e andavam no ar havia doze anos. Mas o tempo tudo transforma. Até mesmo os menos resignados ao desaparecimento do morgado, já davam mostras de aceitarem a situação como definitiva. A imagem da presença forte e sempre bem saudada do capataz José Chambão, cavalgando por pastos e terras de cultivo, já praticamente caíra no esquecimento de todos. Iam-se habituando ao deambular maléfico do novo capataz, o mouro.
Regressava este de mais uma ronda que fizera aos locais onde os homens suavam o rosto, no esforço de pedirem o pão à terra. Continuava a ostentar a visão terrífica da sua cimitarra. Ele era só um contra um monte deles. Ria-se do seu poder.
Conseguira amedrontá-los a todos. Conseguira também a casa que fora do outro capataz, o mesmo que ele mandara para o inferno. Habitava nela, na companhia do verruga. Aquilo sim era vida. Desconfiava que até mesmo o patrão o temia. Dava-lhe tudo que ele pedisse. Um bom patrão e muitos homens a quem podia provocar medo! Havia coisa melhor?
Ao passar no casario trabalhador despertou-lhe a atenção uma casa. Dela chegavam aos seus ouvidos sons de choro e gargalhadas. Parou o mouro e desceu do cavalo. Aquela era a casa daquela mulherzinha com cabelo vermelho que andava vestida de preto. Estava intrigado o mouro. Só conhecera tristeza naquela casa. De repente tantas gargalhadas?! Alguma coisa haveria. Não que isso prejudicasse a produção da herdade, mas que o patrão gostava de saber de todas as alegrias e tristezas dos que trabalhavam para si, lá isso gostava. E ele mouro, aplicava-se a fundo a descobrir todos os segredos. Essa era uma das formas de ganhar a estima e consideração do patrão. Mas poucas novidades haviam. A vida daquela gente era pobre demais para terem tempo para segredos. Mas que naquela casa havia história, lá isso havia...(em continuação, pág. 107, ex. XXXVII)

in QUANDO UM ANJO PECA

Março/1998

terça-feira, 9 de abril de 2013

ARMENTIÉRE, 95 ANOS DEPOIS

Neste dia em que se completam 95 anos sobre a Batalha de La Lys, que teve lugar em Armentiére- Flandres- França, no dia 9 de Abril de 1918, este blogue presta homenagem á memória das centenas de militares portugueses, do Corpo Expedicionário Português, que tombaram nas trincheiras nessa manhã. Um toque de silêncio perpassa a memória.

domingo, 7 de abril de 2013

REFLEXÕES DE LIBERDADE


...A casa teria cerca de dez metros de altura, por quinze de largura. O telhado era piramidal. No topo da casa existiam três pequenas janelas, no que seria o sótão. Apresentava ainda duas fiadas de janelas, com quatro janelas cada e uma porta ao centro, que dava para uma bonita varanda. No piso térreo uma enorme porta, ladeada por duas grandes janelas. A casa estava envolta por uma pequena floresta de carvalhos e acácias. Em frente da casa existia um enorme jardim, que formava pequenas estradas pelo seu interior, sendo que a mais larga levava directamente à porta da casa. Ao ver a grandiosidade daquele jardim, eu sorri, pois lembrei-me do jardim que o meu pai criara para trazer mais conforto e privacidade ao meu consultório. Comparado com o jardim do Conde de Cértima, o jardim do meu pai era insignificante… em tamanho. Mas era muito mais poderoso do que o jardim que agora aos meus olhos se revelava, pois o jardim do meu pai não fora criado em função de um brasão mas em função do amor a um filho. Não tinha a nobreza dum título fidalgo, mas tinha a nobreza do coração de um pai, que sendo do povo e que por isso tinha sentido o despeito que a nobreza por si sentia, tivera a nobreza de aconselhar o filho a saber viver, não demonstrando azedume e desprezo pela fidalguia.
         Ao entrar no enorme jardim, o jovem Adelino se me adiantou e foi avisar que eu chegava. Descia eu da caleche, quando a enorme porta se abriu, surgindo uma senhora.
- Senhor doutor Joaquim Lopes – disse ela, dirigindo-se a mim.
- D. Maria do Carmo, presumo – retorqui eu, com um sorriso.
- Já vi que o Adelino não se calou na jornada – disse ela com um sorriso.
- É um rapaz simpático – disse eu, estendendo a mão direita à governanta do Conde de Cértima.
- Senhor Doutor, faça favor de entrar.
         Reparei que o Adelino levava o meu cavalo e a caleche para as traseiras da casa. Consultei o meu relógio de bolso que o meu pai me oferecera aquando da minha formatura. Eram quatro da tarde.
         Entrei naquela mansão, seguindo a governanta Maria do Carmo. Ela fez-me aguardar numa belíssima sala de espera. Tudo ali transmitia riqueza. Três enormes cadeirões, dispostos ao centro da sala, rodeando uma delicada mesa coberta com uma toalha de puro linho, alva como a neve. Uma estante exibia uma considerável colecção de livros. Do outro lado da sala, uma outra mesa apresentava uma boa quantidade de garrafas de aguardente velha e vinho do Porto. Ao lado, existiam seis copos de puro cristal. Três, enormes, bojudos, próprios para a aguardente velha. Outros três, muito mais pequenos, para ser servido o vinho do Porto. Ao lado da mesa das bebidas, um sumptuoso relógio de parede, com a caixa de madeira e o vidro artisticamente trabalhados. No seu permanente andamento de balancé, o pêndulo marcava quatro e um quarto. Quando me aproximava da estante para ler os títulos inscritos nas lombadas dos livros, surgiu de novo a governanta.
- Senhor doutor, tenha a fineza de me seguir. O senhor conde aguarda-o nos seus aposentos.
         Mais uma vez segui a governanta. Era uma senhora de porte fino, aparentando quarenta a quarenta e cinco anos de idade, toda vestida de preto, de olhar cândido, mas triste. Este seu semblante estava em sintonia com a situação do reino, pois os tempos que se viviam, mais propriamente os vinte e quatro anos que levava o século dezanove, eram profícuos em produzir semblantes como o da governanta. As invasões francesas haviam trazido muita fome e morte; depois, o reino, em vez de se unir perante a catastrófica intervenção francesa, para assim reunir forças e erguer-se das cinzas, fez precisamente o contrário. O invasor reprimira, mas paradoxalmente, trouxera com ele uma semente de esperança para o povo. Ao germinar, essa semente, que em muito interferia com os direitos instituídos da nobreza, provocou a enorme discórdia. O reino encontrara o rumo certo, mas essa estrada era muito sinuosa e perigosa, pelo que fazia com que, principalmente o povo, muito sofresse para seguir em frente.
         A governanta abriu uma enorme porta, fez sinal para eu entrar e eu entrei. Ouvi a porta fechar-se atrás de mim. À minha frente encontrava-se uma grande cama, com a cabeceira constituída por uma profusão impressionante de rendilhados. Grande mestre, o carpinteiro que fizera aquela obra. E na cama lá se encontrava o primeiro conde que eu via na minha vida. Pude verificar que tanto os pobres como os ricos, na doença, apresentavam o mesmo olhar mortiço, os rostos retorcidos pelos esgares de dor. Se retirássemos toda a demonstração de riqueza que envolvia aquele homem, e apenas ficasse o rosto, no vazio, concluir-se-ia que a carne nada tem de nobre. A carne é precisamente igual, tanto nos fidalgos como nos plebeus. O que será então que a nobreza influencia? A mente?...(em continuação, pág. 28- ex.  XII)

in ALMA DE LIBERAL

Junho/2009 

domingo, 31 de março de 2013

EM 1506, FOGUEIRAS NO ROSSIO EM LISBOA




Terminei esta semana a leitura do romance «O Último Cabalista de Lisboa». Não o poderia ter feito em melhor altura do que esta- a Páscoa, já que o enredo do livro se passa na páscoa de 1506.
Um romance baseado em factos reais, o que faz com que a realidade da nossa história seja, por vezes, como neste caso, bastante negra, e numa altura, no momentos dos nossos 873 anos de história em que, como povo, subimos mais alto.
Um daqueles momentos que a história não se preocupa nada, mesmo nada, que não seja ensinado nos bancos da escola.
Aprendi o que foram os cristãos novos. Com os anos aprendi que as nossas alheiras são um legado dos cristãos novos portugueses, para iludirem os cristãos velhos de que comiam, como eles, carne de porco, enchidos de porco. Mas mais nada me foi ensinado. Não aprendi o que aconteceu nessa tenebrosa páscoa de 1506, em Lisboa, muito embora me tenham chegado alguns rumores pelos tempos fora.
Com a leitura deste livro, da autoria de um verdadeiro mestre- Richard Zimler, entrei profundamente nesses acontecimentos horríveis.
Páscoa de 1506- grassa em Lisboa uma seca severa, acompanhada por mais um surto de peste. O povo de Lisboa, instigado então pelos frades dominicanos, acusa os judeus de todos os males, e numa loucura colectiva, levam á fogueira cerca de 2000 judeus cristãos novos- os marranos.
Quando pela primeira vez, no livro, li este vocábulo- marrano- parei um momento. Este é um termo que eu já utilizei, quando queria dizer que alguém se não tinha portado em condições. Lembro-me de, na minha infância, quando alguém brincava com uma criança, provocando-a quase ás lágrimas, de se repreender essa pessoa, dizendo: «não lhe faças judiarias». Portanto, ainda há poucos anos, a nossa memória colectiva se encontrava influenciada com as memórias destes dias…e preservava esse sentimento de repulsa em relação aos judeus.
Em todo o romance está sempre bem presente a sombra da inquisição, muito embora o santo ofício somente trinta anos depois seria instituído em Portugal.
Aos que estão interessados em saber que até os grandes povos podem ter momentos extremamente negativos, este livro será de leitura obrigatória.
E nós, Portugueses, mesmo com políticos fracos, não enfraquecemos, e como sempre fomos, continuamos a ser um grande povo.

sábado, 16 de março de 2013

A CAMINHO DOS PADRÕES DO ABSOLUTISMO





...Fiquei sem palavras. Nunca tinha ouvido o meu pai falar assim. O meu pai era um doutor da vida. Fiquei orgulhoso dele. O meu pai tinha razão no que dizia. Toda a vida se sentira humilhado pela nobreza. Ao fazer de mim médico, não me fazia nobre, mas proporcionava-me os requisitos para ser respeitado pelos nobres. O discurso do meu pai refreou os meus ímpetos liberais, pois eu sabia que, muito embora o meu pai fosse um convicto liberal, não que soubesse algo sobre a carta constitucional de 1822, mas apenas porque aspirava a mais liberdade, a experiência da vida dizia-lhe que as classes dominantes nunca iriam ser tão estúpidas, que se despojassem dos seus direitos em prol do povo, pelo que, eu, que através da minha actividade clínica poderia tirar proveitos dessas mesmas classes dominantes, deveria ser suficientemente inteligente para, não deixando de ser liberal, ter consciência de que a mudança politica que se operava no reino, estava a ser feita pela própria classe dominante. O povo limitava-se a seguir os acontecimentos. Mas, e se o povo resolvesse ser ele a tomar a rédea desses mesmos acontecimentos?
         Olhei-me ao espelho do consultório. Tinha um bom aspecto. As minhas espessas suíças até ao meio das faces, faziam-me parecer mais velho, mas talvez isso fosse conveniente. Acabei por seguir o conselho do meu pai e ataviei-me em condições.
         Levei hora e meia a percorrer a distância que separava Malhal de Sula da povoação do Luso, onde o Conde de Cértima tinha construído a sua casa senhorial.
         Eu, viajando na minha charrete e o jovem criado, que se chamava Adelino, montado na mula, lá fomos calcorreando os caminhos por entre espessos pinhais. O sol abrasador de Agosto ensopava-nos em suor. Para tornar a viagem menos monótona, fui conversando com o jovem criado, que me falou sobre o seu mundo: a casa onde servia.
         D. Rodrigo Corga tinha cerca de sessenta anos de idade, um pouco mais velho do que o meu pai. Era viúvo e tinha dois filhos: a Senhora D. Maria Clara Corga e o filho mais novo, o Senhor Pedro Corga. Na casa havia uma governanta, a Maria do Carmo, que directamente planeava as tarefas de toda a criadagem.
         Eu, algumas vezes ouvira falar no Conde de Cértima, mas desconhecia a existência dos seus filhos. Seriam pessoas para a minha idade, certamente.
         Decerto este Pedro Corga pouco sabia ler, ou não o saberia mesmo. Mas tinha o futuro assegurado pelo título de nobreza que o seu pai detinha. No seio do povo existiam poucos, mas já existiam alguns homens que conheciam o poder das letras; no entanto, não era esse o facto que os impediria de muito terem de batalhar na sua existência para darem alguma dignidade à sua vida. Em contrapartida, os nobres, ignorantes que fossem, tinham como certa a dignidade na vida, pelo simples facto de terem nascido nobres. Este era um dos padrões do absolutismo, padrões esses que o liberalismo tentava contrariar. Eu sabia que o meu pai dissera o que dissera não por convicção, antes por precaução.
         Finalmente o jovem criado apontou para o sítio onde se localizava a residência do Conde de Cértima. Era uma enorme casa com três fiadas de janelas, em arquitectura setecentista. Reparei que por cima da porta principal existia um brasão de armas: na vertical uma espada, com a ponta virada para cima, ladeada por uma oliveira. Em baixo, a toda a largura do brasão, representava-se o que parecia ser um rio, alusão provável ao rio Cértima, que banhava aquela zona. Nunca soube, nem me preocupei em saber, o significado da espada e da oliveira...(em continuação, pág. 25- ex. XI)
in ALMA DE LIBERAL

Junho/2009