sábado, 28 de dezembro de 2013

CALOIROS, NO SEIO DE CAGARÉUS E CEBOLEIROS


...De entre muitas coisas, Aveiro era também uma cidade universitária. Esse cariz académico acentuou-se no principio da década de oitenta. O desenvolvimento sociocultural que se sentia latente na cidade dos canais, exigia o surgimento de uma universidade com prestígio. O « campus universitarius» que começou por ser composto por dois blocos, distanciados cerca de cem metros um do outro, transformou-se na que è hoje uma pequena cidade dentro da própria cidade.
A Aveiro começaram então a afluir dezenas e dezenas de estudantes, que rapidamente passaram a ser centenas e depois milhares. Eram oriundos de todo o país. E esses estudantes, com a imaginação que lhe è peculiar, depressa criaram a sua própria tradição. No inicio de cada ano lectivo, começaram a viver intensamente a semana à recepção do caloiro. Desde então os aveirenses habituaram-se a ver, em todos os Outubros de cada ano, rapazes e raparigas com os rostos pintados de traços bizarros, de cores garridas, qual tela de Picasso. Eram os caloiros, que no seio dos Cagarèus e Ceboleiros davam os primeiros passos na sua vivência universitária. Também no fim de cada ano lectivo, no mês de Maio, festejando o aproximar do final das aulas, os estudantes agrupados num cortejo, que foi crescendo de ano para ano, criaram «O Enterro do Ano». Comparativamente «À Queima das Fitas» de Coimbra, este «Enterro do Ano» è muito pobre, pois falta-lhe a complexidade logística que envolve a «Queima» de Coimbra, e sobretudo, não se apoia na secular tradição de briosas e velhíssimas faculdades, como acontece na cidade do Mondego. Se em Coimbra a «Queima» è essencialmente composta pelos finalistas de cada curso, em Aveiro, no «Enterro», caloiros e finalistas se misturam, dando largas à sua alegria, uns por terem terminado o curso com êxito, outros por terem ultrapassado mais uma barreira que os separa desse tão almejado final de curso. Mas, com certeza que a «Queima das Fitas» dos primeiros anos (e já depois disso muitas gerações de doutores se formaram), não teria a riqueza e a exuberância dos dias de hoje.

Tal como há muitos anos acontece em Coimbra, em Aveiro começaram a proliferar quartos para alugar a estudantes universitários. Eles começaram a chegar em vagas sucessivas e disseminaram-se por toda a cidade. Com eles trouxeram a sua juventude, a sua alegria, a sua tristeza, os seus dramas. Muitos estavam a centenas de quilómetros de casa. Por isso, ao entrarem em Aveiro, cidade em que eram completamente desconhecidos, os longínquos estudantes eram bafejados pela inebriante sensação de total liberdade. Em Aveiro não existiam os pais, os vizinhos ou até os amigos, que de certa forma condicionavam a conduta de cada um. Para um certo número destes distantes estudantes, Aveiro representava a possibilidade de dar largas à sua necessidade de aventura, o meio há muito esperado para se cometer aquela secreta asneira que sempre se teve vontade de fazer, mas que por acção dos olhos críticos dos que os rodeavam, toda a vida enclausuraram essa mesma vontade. Na cidade da ria tinham tempo, espaço e ambiente para pecarem a seu belo prazer, sem correrem o risco de serem repreendidos...(em continuação, pág. 74, ex. XXIV)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

UM PEQUENO SORRISO PARA O NATAL

A todos vocês, que visitais este meu pedaço de mundo virtual, desejo um real natal muito feliz. Gostaria de ter a capacidade de vos deixar no sapatinho a resolução dos problemas de Portugal, mas como, infelizmente, a não tenho, deixo-vos a minha solidariedade.

domingo, 15 de dezembro de 2013

IV JANELA SOBRE O MEU PAÍS- QUENTES E BOAS



Quando as ruas deste meu país se impregnam do inverno que se instala, e o vento frio nos fere o rosto, ali temos o velhíssimo pregão de «quentes e boas», o nosso tradicional homem das castanhas, que envolto pelo cheiro delicioso e o fumo característico da pequena fornalha que ele controla, nos vende as saborosas, quentes e boas castanhas, acabadas de assar. O homem das castanhas é pronúncio de Natal, neste meu Portugal.

sábado, 30 de novembro de 2013

NA REMOTA PICADA DE UM IMPÉRIO DECADENTE

...Já o aquartelamento do Ninda se avistava ao longe, um pequeno rectângulo de construções simples e práticas, quase engolido pela imensidão verde que o rodeava, quando sobre a coluna se abateu mais uma intensa e tropical cortina de água. Álvaro ajeitou melhor o quico à cabeça, de modo a que a pala protegesse os olhos da impetuosidade da chuva. Vá lá, vá lá, que só a iam sofrer por algumas centenas de metros. Mas realmente, que raio de missão fora aquela?! Muito tinha que contar à sua loirinha. Quem efectivamente seriam aqueles três fulanos? De uma coisa ele estava certo, eles è que lhe denunciaram a emboscada. Eles è que o ajudaram a convencer o capitão Rebelo a aceitar aquela informação de proveniência tão duvidosa. Eles trabalharam para que as duas partes não sofressem mortos nem feridos. Inequivocamente eles queriam a paz e não a guerra. Mas eles...eles quem? Quem eram? Porque razão o escolheram a ele? Porque motivo haveria alguém de, num planeta manchado por imensos focos de guerra, usar tamanhos artifícios para instalar a paz naquela remota picada de um império decadente?
         A coluna avançava para o Ninda. Que viesse o rancho melhorado, pois ajudaria à alegria e festa existentes naqueles corações guerreiros, ansiosos pela paz. Assim se tivesse feito toda a história militar de Angola, e não teria havido razão na saudade permanente, vinculada à ondulação branca de um triste lenço no porto de Lisboa...(em continuação, pág 85, ex. XXV)

in VISITADOS

Novembro/1999

domingo, 3 de novembro de 2013

COMBATENTE DO ULTRAMAR AINDA HÁ QUEM TE RECORDE

Há poucos dias fiz uma viagem de combóio entre Lisboa e Aveiro. Estaria eu sentado no meu lugar havia pouco tempo, quando surgiram dois senhores, aparentando os seus sessenta e cinco a setenta anos, muito bem dispostos, um deles deslocando-se com o auxílio de canadianas. Sentaram-se nos lugares a seguir ao meu. E foram duas horas de acalorado diálogo, num passeio por vezes alegre, outras bem triste, pelo manancial riquíssimo da memória.
Moeda, no norte de Moçambique, foi o cenário. Soldados portugueses, unimogues, berliets, picadas, g3, granadas, rebentamentos, emboscadas, «os gajos», o maiombe africano, ferimentos, o sangue, a morte, lágrimas, desilusão, amargura, sofrimento de uma geração, foi o passeio de duas horas em que, inadvertidamente, fui incluído. Memórias tão presentes, tão cheias, tão nítidas, tão frescas, que, como eles recordaram, já levam 48 anos (1965).
Uma conversa que, daqui a mais duas ou três décadas, será impossível de ser ouvida em Portugal, quando tiverem desaparecido os últimos veteranos da guerra do ultramar. Um drama que vai sendo contado aos poucos, em livros que vão sendo publicados, escritos por quem o viveu, tal como estes meus dois companheiros de viagem, a quem tive vontade de dar um grande abraço, apenas não o tendo feito por vergonha.
A Guerra do Ultramar, um sacrífico de treze anos, de toda uma geração, tão esquecido, tão relegado para o desprezo pela nossa actual sociedade.

O 25 de Abril, além de nos trazer a democracia (coitada dela), devolveu-nos também a esperança na vida, uma questão que a juventude portuguesa actual simplesmente não entende.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

VILA DE LÓ, UMA EXPECTATIVA

...- O meu menino está no Bombarral? - perguntou Lucinda.
  - Ouçam - disse o padre José Soares - conversarmos sobre este assunto só pode ser feito dentro de casa. Agora tu Lucinda, não me saias outra vez pela porta fora como espavorida.
E os três entraram na humilde casa de Lucinda, onde esta tomou conhecimento da vivência real daquela  longínqua criança que se alimentara ao seu peito e que naquele momento, tão distante estava das suas verdadeiras origens. E Lucinda soube outra coisa - anjos da guarda podem-se revelar aos mortais de variadíssimas formas, sem sequer a sua presença ser conhecida por quem eles protegem. Mas que a sua acção se faz notar, disso não há dúvidas. Lucinda percebeu ainda que enquanto existirem verdadeiros seres humanos, solidários, de corações puros, a esperança será sempre um valor absoluto.
Riu-se Lucinda, riu-se António Avilar, quando concluíram que ambos traçaram a separação dos gémeos. Riram-se ambos quando perceberam que nas suas mãos e ajuda divina estava a união dos dois gémeos.
Vila de Ló era uma herdade em expectativa...(em continuação, pág. 112, ex. XL)
in Quando Um Anjo Peca

Março/1998


sábado, 5 de outubro de 2013

DUCADO DE AVEIRO

Vagueando pela cidade os meus passos levaram-me a um lugar cheio de história, mas quase escondido, e ignorado, do olhar da maioria dos aveirenses, muito embora esteja a céu aberto, junto ao qual centenas de pessoas passam diariamente, sem se darem conta da sua existência. Quantos aveirenses já ouviram falar da Fonte dos Amores? É uma fonte, desactivada, que está num plano um pouco inferior, relativamente ao passeio, existente mais ou menos em frente á rotunda da «cepsa», a escassos cem metros do quartel dos Bombeiros Velhos.
A fonte é uma construção que tem a aparência de um excerto de uma qualquer muralha, onde existe uma inscrição e um brasão de armas. Na inscrição pode ler-se: «louvado seja O Santíssimo Sacramento e A Virgem Nossa Senhora que foi concebida sem pecado original».
O brasão representa as armas dos duques de Aveiro, e encontra-se completamente picado, reflexo do fim trágico desta casa nobre.
D. Jorge de Lencastre (descendente da rainha D. Filipa de Lencastre, mãe da Inclita Geração), era filho bastardo de El-Rei D. João II e Duque de Coimbra. Pôde pois apresentar o seu filho, de 12 anos, D. João de Lencastre, neto de El-Rei D. João II, já então falecido, na corte. O jovem ficou ao serviço do Príncipe D. João (futuro rei D. João III), tendo El-Rei D. Manuel I lhe atribuído o título de Marquês de Torres novas.
Aconteceu que o então infante D. Fernando anunciou o seu casamento com a fidalga Guiomar Coutinho. Foi quando uma voz se levantou contra este casamento, precisamente a voz de D. João de Lencastre, alegando que Guiomar Coutinho era já sua esposa, muito embora de forma clandestina. O rei D. Manuel I não gostou desta intromissão e mandou prender o jovem, a quem fizera Marquês de Torres Novas, tendo o jovem D. João de Lencastre se mantido preso durante nove anos, até á morte do rei. Rei morto, rei posto, subiu ao trono D. João III, que devolveu a liberdade ao jovem que estivera ao seu serviço, D. João de Lencastre. Mas não satisfeito apenas com a devolução da liberdade, atribuiu a D. João de Lencastre o título de Duque de Aveiro, criando assim uma nova casa de nobreza em Portugal. D. João de Lencastre foi assim o 1º Duque de Aveiro, em Janeiro de 1547.
O 2º Duque de Aveiro, D. Jorge de Lencastre, sê-lo-ia por pouco tempo, pois que nascido em 1548, faleceria com apenas trinta anos, no dia 4 de Agosto de 1578, ao lado de El-Rei D. Sebastião, nas areias escaldantes do Norte de África, na Batalha de muito triste memória de Álcacer-Quibir.
O ducado de Aveiro prolongou-se por 212 anos, tendo tido oito duques, terminando abrupta e tragicamente, no dia 13 de Janeiro de 1759, com a execução pública do oitavo e último Duque de Aveiro, D. José de Mascarenhas e Lencastre, no que ficou conhecido como O Processo dos Távoras.

D. José I, que assinou a ordem de execução, mandou picar os brasões dos Aveiro. Por essa razão o Brasão da Fonte dos Amores se nos apresenta no estado em que se encontra, um sussurro de uma triste memória de Aveiro.