sexta-feira, 10 de outubro de 2014

VIII JANELA SOBRE O MEU PAÍS: CONIMBRIGA, CIDADE ROMANA

Nas imediações da pequena localidade de Condeixa-A-Velha, a 17 quilómetros de Coimbra, encontram-se as ruínas da cidade romana da Lusitânia- Conimbriga.
Fundada no séc. I a.c., no reinado do Imperador Augusto, Conimbriga foi cidade importante, sede de bispado. Com o declínio do império romano, em 468 da nossa era Conimbriga foi atacada pelos Suevos, tendo perdido muito do seu fulgor e importância, pelo que a sede do bispado foi transferida desta cidade para a cidade vizinha de Aeminium (actual Coimbra). Rapidamente Conimbriga decaiu, tendo acabado por ser completamente abandonada.
Em resultado de intensas escavações que ali tiveram lugar durante todo o séc. XX, por parte do Instituto de Arqueologia de Coimbra e da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, Conimbriga voltou á vida, vendo de novo homens e mulheres passeando-se pelas suas ruas, enquanto vão imaginando os homens e mulheres de há dois mil anos calcorreando os mesmos caminhos, descendo os mesmos degraus, ensombrados pelas mesmas pedras.

Conimbriga é a génese da minha mui ilustre Coimbra.

sábado, 27 de setembro de 2014

PÂNICO NO GIRO...SARCASMO DE UM PATRULHEIRO

...Um subchefe meio trôpego, com aparência de carroceiro, olhos esbugalhados pelo muito álcool bebido em excesso, o cabelo cheio de caspa, o colarinho da camisa cinzenta da farda denunciando o uso abusivo sem ter sido lavada, transmitindo uma imagem que pouco ou nada se coadunava com as suas funções de chefia, numa instituição pública, acabara de fazer a formatura do primeiro turno de serviço daquele Domingo de Outubro de Mil Novecentos e Oitenta e Seis. A formatura era composta por oito homens, sendo eu um deles. Perfilávamo-nos em duas filas de quatro, num dos claustros do antigo convento setecentista das carmelitas, ocupado desde o principio do século pela Policia de Segurança Pública. Aquela formatura realizava-se, pois, nas instalações do Comando Distrital da PSP de Aveiro.
         O subchefe, numa conversação tosca, atrofiada e confusa, tentando exprimir-se no seu paupérrimo português, interrompido aqui e ali pelo horrível hábito de sugar as excreções das fossas nasais e cuspi-las logo a seguir, transmitia a relação de matrículas correspondentes a carros roubados. Os guardas, que tomavam nota daquelas matrículas, faziam-no de várias maneiras. Os menos aplicados escreviam num papel amarrotado que lhes dançava num dos bolsos das calças; outros, um pouco mais conscenciosos, anotavam as matrículas em papéis que para o efeito guardavam num dos bolsos do dólman; por último, os mais zelosos faziam as suas anotações em pequenas agendas de bolso.
         Transmitida a relação dos carros roubados, o subchefe com funções de comandante da guarda, fez ainda algumas determinações, tais como- «o giro não pode ser abandonado», como se entrado o guarda no seu giro de serviço e por qualquer razão se ausentasse, o tal giro ficaria desnorteado, andaria sem rumo, aflito pela ausência do seu protector. Com certeza que as pessoas que viviam na área do tal giro, se iriam sentir muito infelizes quando dessem conta de que o guarda, que as havia beneficiado com a sua magnânima presença, resolvera ausentar-se. Entrariam em pânico!
         Serôdio sorriu com esta imagem que imaginara. O guarda não podia abandonar o giro, porque com a sua ausência o giro entraria em colapso.
         Serôdio era um dos oito guardas que constituíam a formatura matinal daquele Domingo. Nós os oito, maquinalmente, subimos em grande algazarra as escadas de pedra que levavam ao primeiro andar, polidas pelo tempo, e fomos à sala de transmissões, onde operava o número nacional de emergência «115», buscar os obsoletos e pesados rádios «Motorola» para transmitirmos o que fosse necessário ser transmitido. Qualquer turno de serviço era assim que começava.
         Já na rua, Serôdio dirigiu-se para o giro que tão ansiosamente o aguardava. Voltou-se a rir, a rir sozinho, quando imaginou os moradores da sua área de serviço, que debruçados nos beirais das janelas o aguardavam ansiosamente. Ao verem-no finalmente chegar, todos respiravam de alívio.
         Que desilusão!! Ao chegar ao seu giro, Serôdio olhou vagamente para os prédios. Todas as janelas estavam fechadas e as persianas corridas. Se se ausentasse, o tal giro nem iria saber que ele ali estivera.

         Mas estava! E por ali iria permanecer nas próximas seis horas. Naquela manhã tinha a seu cuidado patrulhar as ruas Dr. Mário Sacramento e S. Sebastião. A meio do percurso ficava a sua casa e a casa dos seus pais, ainda na Viela da Fonte dos Amores. Talvez pudesse fazer um pequeno desvio... Deus o livrasse de tal ideia! Estava em Aveiro havia poucos dias, não queria por isso arranjar sarilhos. O subchefe que estava de ronda não tinha boa cara. Ele ainda era muito novo naquelas andanças, para facilitar!...(em continuação, pág. 79, ex. XXVI)

in Filhos Pobres da Revolta

Março/2003

sábado, 20 de setembro de 2014

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA: HISPÂNIA ULTERIOR E OS LUSITANOS

Hispânia, nome que designava o território que veio a ser chamado de Península Ibérica, e que se mantém, derivou do termo «Spania», de origem Céltica.
Ano de 197 ac.: A Península que confinava com o início do Mar Mediterrâneo, foi administrativamente dividida pelo Império Romano em: Hispânia Citerior e Hispânia Ulterior.
A Hispânia Ulterior era ocupada pelo povo Lusitano, que em 155 ac. começou a oferecer resistência aos romanos, povo invasor.
Em 147 ac., os Lusitanos, continuando a guerra contra os romanos, eram chefiados por Viriato, figura que se tornou mítica na História de Portugal. Em 139 ac. o governador romano da Hispânia Ulterior, Servílio Cipião, deu ordens para que Viriato viesse a ser assassinado, sentença que se cumpriu apenas em 80 ac., governava então a Hispânia Ulterior Sertório.
Escreviam-se as primeiras linhas da História de Portugal.


sábado, 13 de setembro de 2014

ESPERANDO...

...Finalmente a maldita luz daquela janela se apagara. O homem saiu do interior do seu Simca 1100. Fechou a porta do carro, cuidadosamente, com a preocupação de fazer o menor barulho possível. Enquanto calçava umas luvas de plica preta, observava em seu redor, não fosse ser surpreendido por alguém que estivesse a pé na Rua Frei Tomé de Jesus. Estava todo vestido de preto, para melhor se poder confundir com a noite. Reparara que o candeeiro de iluminação pública mais próximo do número 61, distava daquele cerca de vinte metros. Isso era óptimo, porque assim a entrada daquela casa pouco beneficiava da luz emanada pelo candeeiro.
         Tinha a área já muito bem estudada, pois passara toda uma tarde sentado no interior do carro, vendo as movimentações da rua e especialmente observando as pessoas que habitavam o 61. Eram apenas três. Um casal de meia idade e uma jovem e atraente rapariga, que deveria ser filha. Naquele Sábado colocara o carro em frente ao 61 da Rua Frei Tomé de Jesus. Chegara ali já a noite descia. Levara um bom suprimento de alimentos, pois contava em ali jantar, tal como veio a acontecer. Chegara numa óptima hora, pois cerca de meia hora depois de ali se encontrar, viu o casal despedir-se da jovem, desejar-lhe uma boa noite e lançar-lhe um «até amanhã», que para ele soou maravilhosamente. A rapariga iria estar sozinha em casa. Seria um serviço simples, rápido e principalmente rentável.
         O arquitecto Duarte Amorim ia-lhe pagar uma boa maquia... imagine-se, para ele roubar daquela casa apenas um livro, um livro que se intitulava «Contacto». O homem sorria e abanava a cabeça. Aonde podiam chegar a ambição e as fantasias dos ricos.
         Já se apercebera de que a janela que se encontrava do lado direito da porta, janela essa que houvera pouco tempo estivera iluminada, deveria pertencer ao quarto da rapariga. Como o tal arquitecto vira a moça com o livro no regaço, presumia que ela o estivesse a ler, e como tivera a luz acesa até tarde, provavelmente o livro estaria ali, bem à mão de semear. Intuição de quem era ladrão profissional.

          A princípio ficara um pouco preocupado por o arquitecto Duarte Amorim ter conseguido chegar até ele. Sim, porque uma das habilidades daquela actividade era não ser conhecido fora do seu âmbito de acção. Mas quando soube que o Xavier Amorim era filho do tal arquitecto, sossegou mais o espírito. Embora o miúdo não fosse ladrão, tinha uma forte inclinação para simpatizar com eles. Talvez o rapazola se preparasse para no futuro ser o cérebro de um bando profissional. Burro não parecia ele ser. Seria mais um, de entre muitos, que escondiam as suas actividades ilícitas atrás de uma boa presença, uma privilegiada  posição social, um português refinado, um bom fato, uma lustrosa gravata, um bom perfume; e a raia miúda, como ele, è que levava por tabela. Mas os contitos de reis até que não faltavam... eventualmente dois ou três anitos na cadeia, era o preço que se pagava por um nível de vida bastante aceitável, sem preocupações...(em continuação, pág. 88, ex. XXVII)

in Visitados
Novembro/1999

domingo, 7 de setembro de 2014

FOI COMETIDA UMA INFÂMIA Á NOSSA IDENTIDADE HISTÓRICA

Por estes dias, um estúpido, um senil jovem de 26 anos, em Guimarães, partiu a espada da estátua do nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, e andou a passear-se com ela durante algum tempo, até ter sido detido pela policia e presente a tribunal. A estátua, que ostenta perto de nove séculos de história e independência, lá está, mutilada, como mutilada se encontra a imagem da nossa soberania.
Este acto é demonstrativo do que se pressente, no viver e pensar de uma grande percentagem da população portuguesa, que nenhuma ligação, nenhum orgulho, nenhum interesse demonstra pela história do seu povo. E quem não se rala, nem tem qualquer preocupação em perceber quem é, e porque razão o é, como pode pensar em conceber o seu futuro?
Talvez por todas estas razões, depois de termos sido bravos combatentes, ao cairmos agora numa passividade sufocante, seja possível que em Portugal se multipliquem os agravos á democracia, de toda a ordem.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

PROJECTO ARGUS, PROMESSA DE UM BOM LIVRO, ENQUANTO A GUERRA ACONTECE

...No 61 da Rua Frei Tomé de Jesus o silêncio imperava. Catarina encontrava-se no seu quarto, embrenhada na fabulosa e sedutora imaginação de um autor desconhecido, que fosse quem fosse, escrevera o livro « Contacto ». Ela lia deitada na cama, bem aconchegada pelo calor macio dos cobertores, caricia muito ansiada num Novembro muito frio.
         Era Sábado à noite. Só ela estava em casa. Os pais tinham ido passar a noite a uma quintarola de pessoas amigas, nos arredores de Coimbra, lá para os lados de S. Martinho do Bispo. Claro está que a tinham convidado, mas não, aquela pequena quinta não a seduzia em nada. No seu quarto, no seu pequeno grande mundo, sentia-se muito feliz. Ali residiam as suas tristezas, as suas alegrias, os seus gostos e desgostos, as suas certezas e incertezas, os seus pensamentos sérios, os seus devaneios, o amor de Álvaro expresso nas cartas escritas por ele, que ali no seu quarto guardava. Havia quatro dias que não recebia nem uma letrinha dele. Como isso a fazia sentir-se vazia! Decerto que tivera qualquer coisa para fazer, que o obrigava a afastar-se de uma folha de papel. Como estava a ser tola! Era claro que ele não estava em Angola para escrever cartas, mas... que malvadez o Estado fazia aos casais apaixonados, quando  arrancava os namorados dos braços um do outro e os afastavam por distâncias inimagináveis, durante eternidades, que os angustiavam, desgastavam e envelheciam. Catarina tomou uma expressão de preocupação. Seria possível que Álvaro viesse mais velho? Bem, mais velho viria!  Devia também vir mais tisnado, bronzeado pelo sol africano. Mas vinha mais maduro, mais homem. Deus permitisse que não viesse transformado num durão, como já ouvira muitas histórias de rapazes, que após cumprirem o serviço militar no Ultramar, vinham metamorfoseados em pessoas de coração frio, sem sentimentos de ternura, sempre prontos para uma boa briga. Mas não, com Álvaro tinha a certeza de que nada disso se iria passar, porque ele tinha a capacidade natural de conjugar harmoniosamente o verdadeiro homem que havia em si, com a delicadeza de espirito, a sensibilidade às coisas belas, o saber dar e receber amor.
         O livro mantinha-o aberto, virado com as páginas para baixo, poisado no ventre. A mente divagara um pouco, sinal de que o cansaço e o sono reclamavam aquele momento. Pegou no livro de capa preta e leu de novo as últimas linhas da penúltima página a que chegara. Era a página 80.- « ...anómala fonte rádio intermitente em ascensão recta 18h 34m, declinação mais 38 graus 41 minutos, descoberta por exploração sistemática do céu pelo Argus... ». Sem dúvida o projecto Argus detectara qualquer coisa no céu. O romance prometia. Olhando para o relógio reparou que já passava da uma hora da manhã. Fechou o livro, tendo o cuidado de colocar o marcador de papel amarelo na página 80, e poisou-o na mesinha de cabeceira. Seguidamente embrenhou-se no calor dos cobertores, deixou que toda a cama a envolvesse, apagou a luz e imperceptivelmente começou a escorregar para o mundo dos sonhos, o mundo onde muito se faz sem que disso se tenha consciência...(em continuação, pág. 86- ex. XXVI)

in Visitados
Novembro/1999
        


sábado, 16 de agosto de 2014

SOLDADO MILHÕES, EM ARMENTIÉRES...ESSE HERÓI ESQUECIDO

Durante uma semana, no mês passado, nos programas da manhã, a Rádio Renascença dedicou pequenas rubricas ao centenário da eclosão da I Grande Guerra, que aconteceu no dia 28 de Julho de 1914. E fê-lo, com a sensibilidade histórica de quem respeita a memória dos seus combatentes.
E confesso que enriqueceu os meus conhecimentos sobre o envolvimento de Portugal neste conflito, através do Corpo Expedicionário Português. E conseguiu-o, porque muito embora há muito que dedique a minha atenção á última batalha em que tropas portuguesas se viram envolvidas- a Batalha de La Lys, também conhecida por Armentiéres, nos pântanos da Flandres, em 9 de Abril de 1918, eu nunca tinha ouvido citar o nome de um herói nacional, completamente esquecido, do qual, esta semana a Rádio Renascença trouxe a memória á luz do dia- o soldado Aníbal Augusto Milhais, que ficou conhecido como o «Soldado Milhões».
O Soldado Milhões, nesse trágico dia 9 de Abril de 1918, em que vários milhares de soldados portugueses sucumbiram á avalanche alemã, completamente sozinho na sua trincheira, apenas acompanhado pela sua metralhadora Lewis, enfrentou as colunas alemãs, retardando o seu avanço, o que permitiu a retirada a muitos seus camaradas portugueses e também a soldados ingleses, para as posições defensivas. Deambulando pelas trincheiras, o Soldado Milhões salvou ainda um médico escocês de morrer afogado num pântano no local da batalha, médico este que deu conta do heroísmo do nosso soldado, natural de Valongo- Murça, em Trás-Os-Montes, ao exército aliado.
O Comandante Ferreira do Amaral diria, mais tarde, que o Soldado Aníbal Milhais, embora sendo «Milhais», valia por Milhões, daí a sua alcunha.
O Soldado Milhões é o único militar português, sem qualquer patente, ainda hoje, condecorado com a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, por bravura demonstrada no campo de batalha.
Aníbal Augusto Milhais faleceu a 3 de Junho de 1970.

De um outro português, 96 anos depois, merece bem esta simples homenagem.