sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

ESTE PODEROSO CHARLIE

«Não há machado que corte
a raíz ao pensamento
não há morte para o vento.
Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida.
Nada apaga a luz que vive
no amor num pensamento
porque é livre como o vento».

Manuel Alegre

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

UM REI SEM CONCENTRAÇÃO DO PODER- UMA IDEIA PROBLEMÁTICA

...Dois dias depois regressei a casa do Conde de Cértima. A aplicação atempada dos unguentos no braço dorido era fundamental para que surtisse o efeito desejado. Ao reentrar naquela casa, tive a perfeita noção de que, muito acima do médico, quem ali entrava era o homem, pois os meus olhos procuravam avidamente a figura esbelta de Maria Clara.
         A governanta recebeu-me com o seu ar cândido, um semblante que denunciava também o resgate de uma desculpa. O seu olhar não transmitia felicidade, antes uma necessidade imensa de se encontrar consigo própria. Eu sentia-o, sem no entanto o perceber. Aquela casa transmitia à existência feminina, ali presente, um não sei quê de enigmático.
         D. Rodrigo Corga recebeu-me com a ânsia normal que o doente denota pela presença do médico, em quem deposita a esperança da cura da doença que o apoquenta. Mas era apenas isso. O nosso relacionamento baseava-se somente, pelo lado dele, na necessidade de ser curado; e pelo meu lado, pôr em prática os meus conhecimentos para curar. Da parte dele não tinha havido ainda uma palavra calorosa, que denunciasse a vontade de querer conversar comigo, como homem. E isso intranquilizava-me, pois tornava Maria Clara cada vez menos acessível. Teria de tomar uma atitude, pela qual me fosse permitido entrar ali mais vezes e de forma mais hospitaleira. Teria de saber ultrapassar a oposição a esse meu anseio, que residia na pessoa do filho do Conde de Cértima. Ainda o não tinha visto. Por isso, enquanto fazia a aplicação dos unguentos, perguntei:
- E o filho de Vossa excelência, o senhor Pedro Corga?
- O meu filho já regressou aos seus afazeres militares. Foi-se embora ontem à noite.
- E vai a cavalo até ao Porto?
- Não. O exército tem constantemente em deslocação carruagens para transmissão de ordens e de outras questões militares. Na Mala-Posta o meu filho tomou uma carruagem que saiu do Regimento de Infantaria de Coimbra e foi para o Porto. Claro está que a esta possibilidade de transporte apenas têm direito os oficiais. E bem se vê que a arraia miúda não precisa dela, pois o seu burgo está sempre próximo do seu regimento. Agora com os oficiais a história é outra. Não existem assim tantos e têm de ser colocados onde é preciso; e ultimamente as movimentações da tropa têm sido constantes. Isto de surgir no reino a ideia de que o poder não deve estar apenas concentrado no rei, só trouxe problemas. E o que é mais assustador é saber que o próprio rei aderiu a esses ideais. Como sabe, acabou por expulsar o infante D. Miguel do reino, não se sabe muito bem qual o paradeiro da rainha, a senhora D. Carlota Joaquina… e segundo diz o meu filho, tudo isso está a provocar divisões no seio do próprio exército.
- Compreendo, excelência – disse eu, sem levantar os olhos do trabalho que estava a executar.
- Diga-me doutor, e que mal lhe pergunte, de que lado está?

- Excelência, se um rei souber ser justo, se através da coroa que lhe adorna a cabeça tiver amor pelo seu povo, não me faz diferença que o poder seja só dele. Afinal é Deus que lho confere...(em continuação, pág. 40, ex. XVIII)
in Alma de Liberal

Junho/2009

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O 15º ANO DO SÉCULO XXI E DO III MILÉNIO

Amanhã as marcas do belo espumante muito português vão assistir, extremamente satisfeitas, ao escoamento das suas produções. Em cada canto deste velhíssimo país, á meia noite, as rolhas de cortiça vão alegremente saltar, e o liquido generoso vai correr. Entra 2015!
E é focado nessa imagem, e com a mente fechada ao fluxo de torrentes de tristeza que nos amarguram a todos, que estes futrica do mondego e poeta do penedo, as mentes que melhor ou pior vão preenchendo este blog, desejam a todos quantos nos visitam uma passagem de ano excelente, e um 2015 pleno de felicidade.

Obrigado pela vossa sempre presente e simpática visita! 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

DO FUNDO DO SEGREDO UMA EXPRESSÃO ENIGMÁTICA

...Eu estava em brasa, mas seguindo o sábio conselho do meu pai, preferi ficar-me por ali, muito embora eu tivesse a percepção de que não conseguira disfarçar a faceta liberal do meu ponto de vista político. Olhei então para um relógio de parede, mais um, existente numa das paredes da sala de jantar. Marcava oito horas. Queria sair dali o mais depressa possível, tentando, no entanto, que o Conde de Cértima visse em mim o seu médico e nada mais do que isso.
- São oito horas. Vossa excelência, senhor conde, ir-me-á desculpar, mas tenho de me ir embora.
- Durma cá, doutor Joaquim Lopes. Mando que a Maria do Carmo prepare um dos quartos de hóspedes.
- Fico muito agradecido a vossa excelência, mas meus pais ficariam em cuidados. E ainda hoje quero estudar uns apontamentos que tirei sobre uns desarranjos intestinais que afligem as pessoas de um só lugar.
- Então mandarei que dois dos meus homens o acompanhem. Os caminhos hoje em dia não são seguros.
- Agradeço a amabilidade, excelência. E não me esquecerei das aplicações dos unguentos nesse braço.
         E pouco depois encontrava-me a subir para a minha caleche, tendo por companhia dois fortes mocetões, cada qual no seu cavalo. A governanta Maria do Carmo acompanhou-me até à caleche. Aproveitando o facto de tanto o conde, como o filho, não se encontrarem ali, fiz uma pergunta à governanta:
- Senhora Maria do Carmo, poder-me-á responder a uma pergunta?
- Se eu souber a resposta, lha darei, senhor doutor – respondeu a governanta um pouco intrigada.
- É sobre a senhora D. Maria Clara.
- Que tem a filha do senhor conde? – perguntou ela, com um semblante de relutância em falar sobre aquela bela mulher.
- É precisamente isso que eu gostava de saber. O que tem aquela bela senhora, que faz dela o rosto da tristeza?
- Talvez lhe não fizesse mal que o senhor doutor a visse, um dia destes, com os olhos de médico.
- Não me pareceu que sofra de alguma doença.
- Maleita é decerto. Talvez não seja do corpo, mas quem sabe… talvez a palavra de um médico trouxesse a cura tão desejada.
- Quer-me dizer que algo há!
- Boa viagem, senhor doutor. Que Deus permita que venha a esta casa mais vezes – disse-me a governanta, fixando-me bem nos olhos, dirigindo-se de seguida para a casa do seu amo.
         Esta pequena conversa com a governanta, trouxe-me a certeza de que algo existia naquela casa, que fazia com que aquela esbelta mulher, Maria Clara, quase se desvanecesse no seio daquela família.
         Durante toda a viagem pensei na Maria Clara. Apercebi-me então de que estava completamente absorvido na imagem daquela mulher. Sorri para comigo mesmo. Em Coimbra embeiçara-me por duas tricanas, aventuras que terminaram com tremendas nódoas negras feitas por varapau de fútricas ciumentos. Mas, na verdade, ainda não existira nenhuma mulher que tivesse retido a minha atenção. Talvez para isso tivesse contribuído, em muito, a minha educação eclesiástica. Já ia sendo tempo de os assuntos do coração me trazerem alguns afazeres. Os meus pais já me haviam sondado sobre isso, tendo até adiantado nomes de raparigas, filhas de outros lavradores. Mas ao homem não é dado o poder de comandar a sua vida, muito embora ele julgue que sim. O ar cândido, belo e sofredor de Maria Clara me havia impressionado, e acho que tinha despertado em mim algo que até ali estivera adormecido.
         Algum tempo depois vim a saber que, após a minha saída, Pedro Corga, o filho do conde, me considerou um perigoso pedreiro-livre, achando não ser benéfica a minha presença naquela casa, dado eu me poder transformar numa má influência para a sua irmã, que ele bem tinha reparado na intensidade com que eu a olhara, tendo-lhe o pai respondido que ainda era o chefe daquela casa, como tal, eu entraria ali como médico e nada mais do que isso; e caso eu tivesse outras intenções, ele, à parte a idade que já tinha, ainda possuía autoridade para me pôr no meu lugar e saber defender a filha de más influências.

         Pedro Corga, oficial do exército, era um homem de aguçado olhar e raciocínio certeiro...(em continuação, pág. 38, ex. XVII)
in Alma de Liberal

Junho/2009

domingo, 21 de dezembro de 2014

TEMPO DE NATAL

A todos os que nos lêem ou simplesmente visitam, este blogue deseja um Natal muito feliz e rico em amor, muito amor, e que em casa de cada um se realize a tradição que no respectivo país faz bater mais forte os corações. Em minha casa, aguardando pelo Pai Natal, estará presente o eternamente português bacalhau, como acontecerá na esmagadora maioria dos lares portugueses.
Que seja possível a paz entrar onde faz falta, e que o amor tenha força para terminar com todo o tipo de injustiças. Eu sei que este desejo é um lugar comum, mas, infelizmente, a guerra e a tragédia também o são. Se o nosso desejo neste lugar comum que é paz, por tanto ser desejado, se tornasse realidade para um quilómetro quadrado que fosse, não me importaria em ser repetitivo.
Boas Festas para todos vós.

domingo, 14 de dezembro de 2014

O CONDE DE MONTE CRISTO

Muito embora o enredo de «O Conde de Monte Cristo» seja sobejamente conhecido, nunca tinha lido o livro, que me surgiu nas mãos, quando fazia uma arrumação. E fui lê-lo. Uma desilusão! Na minha opinião este será um dos poucos casos em que a cinematografia suplanta a criação escrita. A idéia é muito boa, mas é só. E talvez por isso o livro tenha tido tanto êxito no cinema. Literáriamente a construção é muito fraquinha. Dá a sensação que o livro foi escrito a despachar. Sucedem-se numa cadência demasiado rápida, tanto  as armadilhas que foram montadas ao conde, como o decurso da sua prisão, e depois as várias etapas de vingança que o Conde de Monte Cristo vai congeminando, para derrotar os seus inimigos. Na realidade Edmond Dantés bem pode agradecer aos realizadores de cinema o facto de ter ficado tão conhecido. Que Alexandre Dumas me perdoe.

sábado, 6 de dezembro de 2014

ENTRE MASSIFTONRÁ E SETH, RASTEJA UM TEKHAIB FRIO E IMPLACÁVEL

...O Tekhaib era um enorme escorpião, que quando tomava a forma de um ser humano, dava lugar a um homem de envergadura respeitável, proeminentes músculos peitorais e fortíssimos braços e pernas. O rosto era rectilíneo, com uma enorme boca e o olhar frio, não transparecendo qualquer tipo de bondade.
- Tekhaib, que opinião tens sobre as notícias trazidas pelos obreiros?
- Meu amo das areias, se existe uma desavença entre Amon-Rá e o faraó, isso quer dizer que ambos estarão abertos a uma solução que resolva a questão para um dos lados- dizia o Tekhaib com um sorriso malicioso.
- Explica-te melhor, meu escorpião eleito.
- Se Amon-Rá tiver uma oportunidade de reaver a sacerdotisa, não a perderá. Se por outro lado, ao faraó for dada a oportunidade de eliminar Amon-Rá…
- Isso é um disparate, Tekhaib. Nenhuma força existe, capaz de aniquilar o deus supremo. Se essa força existisse eu já a teria utilizado.
- Peço perdão, meu amo das areias, pela minha estupidez.
- Estás perdoado, porque sei que muito longe te encontras de imaginar o poder de um deus. Não passas de uma insignificante criatura rastejante…
- Insignificante, mas que tu utilizas com muito proveito, meu amo das areias- interrompeu o Tekhaib, falando com sarcasmo.
- Sim, já sei que te sentes muito orgulhoso por seres o meu ajudante mais próximo, mas tem cuidado com esses sentimentos de grandeza. Aqui, eu sou o cérebro e a vontade. Tem isso sempre bem presente Tekhaib.
- Eu tenho, meu amo das areias, eu tenho- disse o Tekhaib, fazendo uma vénia em sinal de submissão.
- Se até agora não tive qualquer intervenção no conflito existente entre o deus supremo e o faraó, vou passar a ter, e fazer por criar maior ódio entre os dois. Ambos me desprezam. A ambos levarei notícias minhas e aproveitar-me-ei o mais que puder de toda a confusão que vier a gerar. Há mais algum pormenor que eu ainda não saiba?
- O faraó mudou de nome, proibiu o culto de Amon-Rá e vai impor a adoração do deus Áton. Enquanto não tiver criado um templo a  Áton na nova cidade que quer construir, ele próprio irá adorar o deus ancião no seu próprio palácio, pelo que mandou eleger um sumo sacerdote.
- O faraó mandou que um escriba fosse eleito a sumo sacerdote para o culto a Áton, no seu próprio palácio?!!- dizia Seth, sorrindo rasgadamente, com os olhos de águia a brilharem- mas essa é uma óptima notícia.
- Porquê, meu amo das areias?- perguntava intrigado o Tekhaib.
- Porquê, meu escorpião eleito? Porque esse sumo sacerdote serve como ponto da grande discórdia. Esse sumo sacerdote vai morrer… ou melhor, vai ser morto ás ordens de Amon-Rá.
- E achas que Amon-Rá o vai matar?
- É claro que não.
- Então?!!!
- Então… vais tu matar esse sumo sacerdote, dando a entender que  essa foi a vontade de Amon-Rá.
- Já percebi. Aí está o que se chama uma grande bronca. Mas, meu amo das areias, e o outro?
- Qual outro Tekhaib, qual outro?- perguntava o deus Seth um pouco impaciente.
- O outro Sumo Sacerdote.
- Esse não tem qualquer importância para mim; e mais cedo ou mais tarde, o faraó acaba por matá-lo.
- Mas os obreiros disseram que o próprio Amon-Rá faz questão de o defender.
- Faz?- perguntou Seth intrigado- porquê?
- Esse tal Sumo Sacerdote era filho de um estrangeiro que deu a vida defendendo a honra de Amon-Rá.
- Ai sim? Amon-Rá defende um estrangeiro e expulsa um deus de MassiftonRá? Um igual a si? Nesse caso, esse Sumo Sacerdote adquire uma súbita importância. A esse terei o prazer de matar e de o anunciar a Amon-Rá. Está na hora de eu ir fazer uma visita a MassiftonRá.
- Meu amo das areias, lembro-te de que lá não és bem vindo. Corres sérios riscos.
- Ouve meu escorpião eleito, um deus nunca corre riscos, nem graves nem leves. No máximo, poderá um deus ser vexado… mas isso já eu fui há muito. Por isso vivo nesta espelunca, enquanto os meus semelhantes se refastelam no paradisíaco ambiente de MassiftonRá. Assumes o comando deste covil. Eu vou-me divertir.

         E o deus Seth partiu em direcção a Tebas, espalhando a sua funesta sombra, mistura de águia e chacal, apelando a todas as forças do mal que lhe dessem apoio e imaginação para a empresa a que se propunha...(em continuação, pág. 57, ex. XXI)

in A Causa de MassiftonRá
Novembro/2005