sexta-feira, 5 de junho de 2015

X JANELA SOBRE O MEU PAÍS: UM ENCANTO DE CAIS EM S. MARTINHO DO PORTO

Numa manhã de verão o Cais chamou por mim. Já lá não ía há muito tempo. Antigamente, a esta hora, a azáfama das traineiras a descarregarem o peixe era enorme, mas depois a Nazaré absorveu esse trabalho, pelo que agora apenas o Alaska descansa.
Este maravilhoso cais, que alguns dirão que é igual a tantos outros, tem para mim um significado muito especial, pois travei amizade com ele na força da juventude, o que me deixou sempre um toque de magia. As pessoas continuam a passear por ele, absorvendo toda a quietude e beleza. Do lado contrário da baía, a cerca de três quilómetros, encontram-se as dunas de Salir do Porto e a foz da pequena ribeira de Alfeizerão. No meio, todo o areal da Praia de S. Martinho do Porto.
Beijadas pelo mar, que logo á entrada da baía acalma a sua impetuosidade, são visíveis as ruínas da velha Âlfandega, a despontarem do negrume da rocha.

Com condições únicas em Portugal, S. Martinho do Porto é um paraíso na terra. E o seu cais merecedor de ser cenário de um conto de fadas!

domingo, 24 de maio de 2015

ENTRANDO NUM DESERTO MENTAL I

...Instalaram-no numa camarata atribuída à 5ª companhia. Serôdio observou atentamente os seus colegas, que como ele se propunham a ser futuros policias. Ficou decepcionado com a observação. Por estimativa, dos quinhentos e setenta guardas provisórios que com ele formavam a primeira escola de alistados de 1983, previa que talvez apenas cinquenta tivessem concluído o liceu. Dos restantes, a esmagadora maioria não teria estudado além da quarta classe. De que falavam eles? Conversavam das suas realidades, que em nada coincidiam com a sua realidade. Ali, ele não ouvia falar do título de um livro, de um estilo musical, do nome de um L.P. Não que fosse desprestigio falar-se de técnicas utilizadas na construção civil, da melhor forma de se conduzir um tractor ou de qual a melhor maneira de se limpar o carburador de um motor. Mas ali, Serôdio desvinculava-se de tudo o que era cultural e isso entristecia-o. No entanto, em muitos desses seus colegas, ele ia descobrindo personalidades simpáticas, de coração aberto a uma boa amizade, o que atenuava a sua tristeza. Com o passar dos meses, independentemente dos desníveis culturais, todos aqueles rapazes iriam formar um grupo coeso. Algumas vezes, à mente de Serôdio, aflorou o pensamento de que um dia viria a comandar os seus actuais colegas. Pura ilusão, como mais tarde constatou, porque veio a compreender que na policia, em oitenta por cento dos casos, não è promovido quem está melhor habilitado nos aspectos intelectual e psicológico, mas antes quem melhor sabe servir, hipocritamente, a falta de moral e de escrúpulos...(em continuação, pág. 82- ex. XXIX)
in Filhos Pobres da Revolta

Março/2003

sexta-feira, 8 de maio de 2015

LUCIUS CORNELIUS SULLA- ROMA, ANO 80 A.C

Nestes tempos, social e economicamente conturbados em que vivemos, momentos que não são estranhos a este nosso adorado Portugal, pois que outros já aconteceram e também foram ultrapassados, cada um de nós (os que pertencemos aos comuns mortais, e porque do Olimpo muito distante é feita a nossa vida, o que determina que estejamos expostos a todas as vicissitudes de que se reveste esta já prolongada crise, que nos provoca uma multiplicidade de problemas humanos, tanto de índole económica como sentimental), faz por tentar ultrapassar esses mesmos problemas, das formas que melhor considera serem as ajustadas para auxiliar na luta.  No que me diz respeito, uma das formas que utilizo é a leitura, muito embora  ler seja um feliz hábito que me acompanha desde a adolescência.
E no manancial de livros já lidos, surgem por vezes verdadeiras preciosidades, tanto pela forma como pelo conteúdo, como «O Ferro Velho» de Anthony Burgess ou «O Espião de D. João II», de Deana Barroqueiro, com a consciência de que mais alguns livros existem nesse lote.
 Neste momento leio 1034 páginas de uma escrita soberba e um conteúdo extraordinário: «O Primeiro Homem de Roma», de Colleen McCullough. Uma viagem fascinante ao senado romano, onde tomamos conhecimento da forma como o senado de Roma funcionava, as intrigas, as traições, as amizades, as alianças que se faziam no seio dos senadores, onde ficamos a conhecer a real magnitude do Império Romano e a forma como se fazia a gestão do poder nas várias regiões ocupadas, onde se incluía a velha Hispânia, principalmente a Hispânia Ulterior  onde nos encontramos neste momento. O enredo passa-se no decorrer do último século antes do nascimento de Jesus Cristo, por volta do ano 80 A.C., numa república cuja figura máxima era o Cônsul, tendo numa fase posterior sido substituída pela figura do imperador. E este livro aborda uma questão, na qual eu já havia pensado: Roma e Itália eram a mesma coisa? Até este período de que trata o romance, não, não eram a mesma coisa, tendo essa questão originado uma guerra no interior da república, pois que os italianos pretendiam a cidadania romana, que lhes foi negada pela maioria dos senadores.
O romance, que tem um conjunto formidável de personagens, baseia-se muito na personalidade e feitos de duas delas: Caio Mário e Lúcio Cornélio Sila.
Surpreendentemente um tema magistralmente abordado e escrito (com um enorme trabalho de pesquisa por certo) por alguém, que, na minha opinião, absolutamente nada tinha em comum com a cultura romana, como era o caso da autora, de nacionalidade australiana, falecida no dia 29 de Janeiro deste ano.

Este livro, uma preciosidade de facto!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

TORRES NOVAS, UM PERMANENTE SENTIMENTO PROVISÓRIO

...Já se haviam passado três anos e meio, desde que ingressara na P.S.P. Tivera receio de que, com a dificuldade de memorizar o que lia, não conseguisse ingressar na PSP, tal como lhe acontecera no C.O.M. em Mafra. Mas graças a Deus tudo correra bem. A policia não fora tão exigente como a tropa e ele melhorara imenso no seu problema intelectual.
         Chegara a Torres Novas no dia 24 de Janeiro de 1983. Naquela vila ribatejana estava instalada a E.F.G. (Escola de Formação de Guardas). A escola era um velho edifício restaurado, onde outrora estivera aquartelado um regimento de cavalaria. Estava pintada de cor amarela. A fachada, enorme, pintalgada por inúmeras janelas e portas, sobressaia na massa de casario da vila. Dois canhões do tempo das invasões francesas, pintados de preto, ladeavam a entrada principal do edifício. Era ali que Serôdio iria passar os próximos cinco meses. Lembrava-se da forma tímida como entrara. Afinal estava a entrar num departamento policial, coisa de que o povo português fugia como o diabo foge da cruz. No entanto, depressa se adaptou  ao ambiente, pois estar ali ou na tropa apenas diferia na cor da farda. Ao passo que em Mafra os recrutas vestiam a farda de trabalho número três, de cor verde, em Torres Novas envergavam uma farda de trabalho número três, de cor azul.
         Ainda nesse ano ele pôde constatar que a vida militar afinal diferia em muito da vida policial. Mas, e enquanto fosse guarda provisório, viveria na enganadora sensação de que voltara à tropa.
         Tal como no exército, por ali circulavam homens com patentes idênticas: segundos e primeiros sargentos; alferes, tenentes e capitães. Apenas os nomes mudavam. Respectivamente aos anteriores, passavam a chamar-se então segundos e primeiros subchefes, subchefes ajudantes, chefes de esquadra e segundos comissários. Havia no entanto diferenças enormes. Enquanto que na tropa um galão de alferes ou dois galões de tenente eram utilizados por rapazes novos, na policia o galão de subchefe ajudante ou os dois galões de chefe de esquadra eram atribuídos, na maioria dos casos, a homens velhos e quase em fim de carreira.

         Assim como no exército, os quinhentos e setenta novos guardas provisórios foram divididos por companhias e subdivididos em pelotões. As primeiras formalidades, em consonância com o que se praticava na tropa, foram preencher papelada e tirar a primeira fotografia fardado. Ao contrário do que lhe acontecera com a farda do exército, dentro da farda de policia Serôdio sentiu-se pateta. E depois que viu a fotografia do seu rosto, encimado por aquele abominável boné, sentiu tristeza por ir abraçar aquela profissão. Mas a vida tinha de ser ganha de alguma forma...(em continuação, pág. 81, ex. XXVIII)
in Filhos Pobres da Revolta

Março/2003

sábado, 18 de abril de 2015

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- ANO DE 866: PORTUCALE E A RECONQUISTA CRISTÃ

866- a Península Ibérica encontrava-se invadida pelos árabes há 155 anos. No entanto, desde o primeiro momento, uma região ibérica não foi ocupada, porque os invasores mouros parece não terem sido moldados para regiões montanhosas. Era essa região o Reino das Astúrias, bem no norte da península. E foi precisamente nas Astúrias que nasceu o gérmen da reconquista cristã.
Assim, cento e cinquenta e cinco anos depois, já os reconquistadores cristãos tinham recuperado na Península Ibérica o território que chegava a Viseu, onde se incluía a cidade de Portucale, nome que, duzentos e setenta e sete anos depois, daria origem ao nome de Portugal, esta nação maravilhosa idealizada, planeada e fundada em plena reconquista cristã.


sábado, 4 de abril de 2015

REGRESSO AO NINDA

...As sentinelas que vigiavam através dos abrigos, pertencentes ao pelotão que ficara no aquartelamento do Ninda, viram ao longe a aproximação da coluna. De imediato deram a saber o regresso da companhia. Todos demonstravam imensa satisfação. A missão de reconhecimento fora um êxito. Não houvera baixas nem feridos, e tinham capturado um número considerável de guerrilheiros inimigos. A coluna ao entrar pela pequena ponte improvisada, localizada sobre a vala, era recebida com imenso regozijo. Davam-se abraços e lançavam-se imensas larachas, próprias de quem, vivendo sob a expectativa de permanente perigo, num momento de descontracção soltava a alegria, a natural boa disposição, e fazia um brinde à vida.
         Os cinquenta turras foram bem amarrados, aglomerados no centro da parada, mas de modo a que não fossem vistos do exterior. Dez homens os guardavam, com as g3 apontadas a eles e a patilha de segurança seleccionada para o R  de rajada. Via rádio já fora comunicado que no Ninda se encontravam cinquenta prisioneiros de guerra. O Quartel General haveria de lhes dar destino e encarregar-se-ia de os is buscar.
         Os soldados que tinham integrado a coluna, contavam aos que ficaram o modo pelo qual a missão tivera êxito. Os soldados riam-se e ao mesmo tempo perguntavam-se como tudo aquilo fora possível. Sim, porque numa guerra a sério nunca se vira minas explodirem sozinhas, sem uma força externa que lhes accionasse o detonador, nem turras saltarem que nem doidos, denunciando-se a si próprios, deitando a perder uma emboscada da qual esperariam infligir muitas baixas ao inimigo « portuga». Por isso os soldados portugueses riam, mas não riam de satisfação, antes o faziam por nervosismo, pois estavam cientes de que se não tivesse acontecido algo que o seu entendimento ainda não assimilara, muitos deles não estariam ali vivos, naquele momento. Por isso alcunharam aquela missão de «operação do alferes bruxo», referindo-se eles à previsão certeira que o alferes Santa Cruz fizera da existência da emboscada.

         Todos se preparavam para irem tomar um banho no rio Cuango, pois a chuva já se fora. Agora que tinham cinquenta turras prisioneiros, tão cedo não seriam incomodados pelo inimigo...(em continuação, pág. 91, ex. XXIX)
in Visitados

Novembro/1999

sexta-feira, 13 de março de 2015

ATÉ LOGO MEU FILHO

Esta semana  passei a fazer parte dos pais da geração licenciada, que emigra em busca do futuro que o nosso país, (por vontade dos que tendo o futuro garantido para os seus filhos, por força de corrupções e compadrios, pagos pelo dinheiro que animalescamente ganham e acumulam criminosamente), não tem possibilidade de lhe dar.
Se alguns partem tendo alguém ou alguma entidade á espera, outros fazem-no sem nada levarem na bagagem.
Para os pais que ficam, é uma dor de coração.
No meu caso, o meu filho foi em busca do sonho em arqueologia, já que em Portugal a história parou, o nosso passado não interessa, tudo o que havia para ser descoberto e escavado já o foi, não havendo mais nada. Somos um país sem memória.
Que os nossos rapazes e raparigas, disseminados por essa Europa, tenham a maior felicidade do mundo: a concretização do seu sonho, e que perdoem a este triste Portugal esse abandono, porque ele não tem culpa. E com esse perdão regressem um dia, porque este pedaço lusitano tem que ter um futuro.
E nessa massa de juventude portuguesa andas tu, meu rapaz. Garra nessa luta.

Até logo!