quarta-feira, 15 de julho de 2015

OS QUE PELA ESCRITA NADA SENTEM

Sendo eu um dos portugueses que constam do número dos que, obstinadamente, lutam contra a barbaridade do acordo ortográfico, constato que a muitos dos que fazem parte do meio que directamente me envolve «tanto se lhes dá como se lhes deu» que a língua portuguesa seja ou não alterada, distorcida. Aliás, até é com mágoa que reparo a ligeireza, a prontidão com que os vejo aceitarem as novas normas, anti-democráticas, (pois que o povo não foi chamado a pronunciar-se sobre a vontade de alterar o que de mais precioso tem- a sua língua), e as aplicam, numa demonstração cruel de distanciamento ao que à cultura diz respeito.


Mas tal atitude também não é de estranhar, quando muitos outros talvez não precisassem de nenhum acordo ortográfico para alterar a forma de escrever, porque por sua vontade espontânea são os primeiros a abdicarem das cedilhas, dos acentos circunflexos e do til nas respectivas palavras, descaracterizando o português. Cada qual que conclua e mentalmente acrescente o que está em falta, porque escrever o português correctamente dá muito mais trabalho! E o mais grave é que venho notando esta tendência em documentos oficiais, escritos pelo funcionalismo público.

Se o desinteresse demonstrado por muitos de nós relativamente à nossa identidade cultural, for generalizado, melhor se explica a facilidade que o governo tem demonstrado ao cometer certos tipos de atropelos.

terça-feira, 7 de julho de 2015

NAPOLEÃO E A TROIKA

É verdade que estamos a viver um período muito difícil, não só a nível económico, mas também no que ao sentimento patriótico diz respeito.


A nível económico porque os sucessivos cortes de uma austeridade imposta, nos têm galopantemente empobrecido, para que seja possível o pagamento da maldita dívida, pela qual nem eu nem o meu vizinho tivemos a mínima responsabilidade, o que não impede que tenhamos sido chamados a pagá-la. Estas são as cruéis e omnipresentes injustiças a que o povo está permanentemente votado.

No que ao sentimento patriótico diz respeito, porque se por um lado nós, o povo, nos revoltamos contra a perda da nossa soberania económica, e quando se perde esta soberania, o que é que nos resta?!- por outro lado mais nos revoltamos ainda por assistirmos á atitude subserviente dos nossos governantes perante os poderosos da Europa, assemelhando-se aos pobres lacaios que, de baixo para cima, observando com expressão de enorme fraqueza intelectual o seu senhor, se preparam para avidamente guardar as migalhas que ele, com um sorriso de escárnio, propositadamente deixou.

Portugal tem muito melhor para oferecer!

Mas o povo português, porque é nobre, paciente mas nobre, irá conseguir ultrapassar mais esta tremenda dificuldade, como já ultrapassou outras, porventura piores. E estamos á beira de podermos relembrar um desses factos, pois amanhã se completarão 183 anos sobre a sua ocorrência.

Foi a 8 de Julho de 1832 que o chamado Exército Libertador, formado por 60 navios e 8500 soldados, comandado por D. Pedro IV, desembarcou na Praia do Mindelo, a 20 kms a norte do Porto, para enfrentar o terror absolutista de D. Miguel e dar início a uma guerra civil que duraria dois anos. O povo português depois de ter ultrapassado as tropas napoleónicas, e depois de ter escorraçado a intromissão britânica, nas duas primeiras décadas do Séc. XIX, teve ainda de viver uma guerra fratricida- mas sobreviveu.

Comparado com isto as nossas dificuldades actuais são uma brincadeira. Se depois de três décadas terríveis, como por certo terão sido as três primeiras décadas do século XIX, houve futuro para a nossa juventude, cento e oitenta anos depois, esse engenho e arte que continua a fazer parte de nós, vai promover todos os mecanismos para acelerar a nossa economia.

Caramba, rapaziada, somos Portugueses!!

domingo, 28 de junho de 2015

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA: ANO DE 959- MUMADONA DIAS E ALAVARIUM

Na segunda metade do último século do primeiro milénio, uma mulher houve que se destacou no Noroeste da Península Ibérica (região que integrava o futuro território berço de Portugal) pela acumulação de riqueza que lhe deu muito poder: a Condessa Mumadona Dias.
         Numa época em que os árabes eram uma absoluta ameaça, ocupando ainda toda a parte sul da Península Ibérica, O Conde Hermenegildo Gonçalves, senhor de Portucale e Coimbra, em 930 casou com Mumadona Dias. Já viúva, em 959, a Condessa fez doação de vastos domínios ao Mosteiro de Guimarães, localidade na qual iria construir um castelo (berço de Portugal). Desses vastos domínios doados aos frades de Guimarães, faziam parte terras de Alavarium, a actual Aveiro. Por essa razão, o documento de doação das terras de Aveiro ao Mosteiro de Guimarães, é o documento mais antigo conhecido em que é mencionado o nome de Alavarium (Aveiro), e Mumadona Dias uma mulher para sempre historicamente ligada, para além de Guimarães, também a Aveiro.

Por essa razão em 1959 Aveiro celebrou o seu milénio como povoação. 

sábado, 13 de junho de 2015

SIFTO- NOTÍCIAS DO DEUS SUPREMO


...Na noite a seguir a se ter evadido do templo, Masahemba encontrava-se deitado sobre a fofa cama de erva, que rompia numa das margens do ribeiro, cujo caudal era formado pela água que vinha directamente do tanque sagrado do templo de Amon-Rá. Entretinha-se a observar as estrelas, que na sua solidão, lhe sorriam e lhe contavam segredos, que só os ouvidos experimentados de um Sumo Sacerdote seriam capazes de entender. De repente foi puxado à realidade, terminando assim aquele tão elevado diálogo.
         Masahemba sentira uma presença. E não se enganara, pois junto a si encontrava-se o sifto que o trouxera do templo. E mais uma vez, embora a escuridão fosse total, o sifto era perfeitamente visível, através da aúrea que, no escuro, recortava a sua silhueta.
- Aqui estás tu de novo, meu querido rapazinho- disse Masahemba erguendo-se da sua posição de deitado.
- É reconfortante voltar a ver-te, Masahemba. O deus supremo ficou radiante ao saber que tu estavas em segurança.
- Sim, estou bem, mas esfomeado.
- Eu sei! Por isso te trago aqui pão e aves.
De imediato o Sumo Sacerdote pegou na sacola que lhe era estendida. Abriu-a e comeu com voracidade o pão e a carne de faisão e perdiz.
- Aqui, o tempo tem-te sido bom conselheiro?- perguntou o sifto.
- Porque perguntas?- questionava Masahemba com a boca cheia.
- Amon-Rá tem curiosidade em saber se já arquitectaste algum plano para a tua sobrevivência.
- Vou-me manter por aqui até o meu cabelo crescer. Quando deixar de ter a aparência de um Sumo Sacerdote, misturo-me com a multidão e conto com a protecção do disfarce de felas. Vai ser um disfarce cansativo, mas pelo menos preservo a minha liberdade… e a vida. Nada mais me resta fazer.
- Amon-Rá não pretende para ti uma sorte tão humilde como essa. Amon-Rá desconfia do silêncio que vai pelo palácio real. A qualquer momento, alguma acção o faraó irá pôr em movimento para te encontrar. O faraó berrou que nem um louco quando lhe foi transmitido que tu não estavas no templo.
- Que fez o faraó das outras duas sacerdotisas?
- Fê-las aias da já rainha Nefertiti.
- Nefertiti já é rainha do Egipto? Lembrar-se-á ela de mim?
- Isso pouco importa Masahemba- respondeu o sifto- Nefertiti é rainha, rainha de um faraó que te odeia. Por isso não acalentes esperanças de ela interceder por ti. A rainha de cabelos da cor do fogo apenas quererá ser agradável e submissa ao seu faraó. Amon-Rá já encontrou uma família que te vai acolher. Será assim mais fácil para ti iniciares a tua inserção na sociedade dos homens. Trouxe-te um saiote de felas. Mantém-te bem camuflado na densidade de toda esta abençoada vegetação, que amanhã, ao pôr do sol, eu virei buscar-te  e conduzir-te-ei a casa da tal família que te irá receber. A bênção de Amon-Rá fica contigo.
         E o sifto desapareceu numa veloz corrida, chapinhando pelo ribeiro, em direcção ao Nilo.

         Que sorte lhe estaria reservada? Haviam já passado quinze dinastias de faraós e o Egipto prosperara na abençoada sabedoria desses reis, bem como a harmonia que sempre existira entre esses mesmos faraós e os deuses. Pois tinha de acontecer no tempo em que ele chegara ao Egipto, surgir um faraó herético, para lhe dar cabo da vida. O que o Egipto representara para ele sabia-o bem. Mas, dali para a frente, o que ele iria representar para o Egipto, isso era uma incógnita… uma amargurada incógnita...(em continuação, pág. 59, ex. XXII)
in A Causa de MassiftonRá
Novembro/2005

sexta-feira, 5 de junho de 2015

X JANELA SOBRE O MEU PAÍS: UM ENCANTO DE CAIS EM S. MARTINHO DO PORTO

Numa manhã de verão o Cais chamou por mim. Já lá não ía há muito tempo. Antigamente, a esta hora, a azáfama das traineiras a descarregarem o peixe era enorme, mas depois a Nazaré absorveu esse trabalho, pelo que agora apenas o Alaska descansa.
Este maravilhoso cais, que alguns dirão que é igual a tantos outros, tem para mim um significado muito especial, pois travei amizade com ele na força da juventude, o que me deixou sempre um toque de magia. As pessoas continuam a passear por ele, absorvendo toda a quietude e beleza. Do lado contrário da baía, a cerca de três quilómetros, encontram-se as dunas de Salir do Porto e a foz da pequena ribeira de Alfeizerão. No meio, todo o areal da Praia de S. Martinho do Porto.
Beijadas pelo mar, que logo á entrada da baía acalma a sua impetuosidade, são visíveis as ruínas da velha Âlfandega, a despontarem do negrume da rocha.

Com condições únicas em Portugal, S. Martinho do Porto é um paraíso na terra. E o seu cais merecedor de ser cenário de um conto de fadas!

domingo, 24 de maio de 2015

ENTRANDO NUM DESERTO MENTAL I

...Instalaram-no numa camarata atribuída à 5ª companhia. Serôdio observou atentamente os seus colegas, que como ele se propunham a ser futuros policias. Ficou decepcionado com a observação. Por estimativa, dos quinhentos e setenta guardas provisórios que com ele formavam a primeira escola de alistados de 1983, previa que talvez apenas cinquenta tivessem concluído o liceu. Dos restantes, a esmagadora maioria não teria estudado além da quarta classe. De que falavam eles? Conversavam das suas realidades, que em nada coincidiam com a sua realidade. Ali, ele não ouvia falar do título de um livro, de um estilo musical, do nome de um L.P. Não que fosse desprestigio falar-se de técnicas utilizadas na construção civil, da melhor forma de se conduzir um tractor ou de qual a melhor maneira de se limpar o carburador de um motor. Mas ali, Serôdio desvinculava-se de tudo o que era cultural e isso entristecia-o. No entanto, em muitos desses seus colegas, ele ia descobrindo personalidades simpáticas, de coração aberto a uma boa amizade, o que atenuava a sua tristeza. Com o passar dos meses, independentemente dos desníveis culturais, todos aqueles rapazes iriam formar um grupo coeso. Algumas vezes, à mente de Serôdio, aflorou o pensamento de que um dia viria a comandar os seus actuais colegas. Pura ilusão, como mais tarde constatou, porque veio a compreender que na policia, em oitenta por cento dos casos, não è promovido quem está melhor habilitado nos aspectos intelectual e psicológico, mas antes quem melhor sabe servir, hipocritamente, a falta de moral e de escrúpulos...(em continuação, pág. 82- ex. XXIX)
in Filhos Pobres da Revolta

Março/2003

sexta-feira, 8 de maio de 2015

LUCIUS CORNELIUS SULLA- ROMA, ANO 80 A.C

Nestes tempos, social e economicamente conturbados em que vivemos, momentos que não são estranhos a este nosso adorado Portugal, pois que outros já aconteceram e também foram ultrapassados, cada um de nós (os que pertencemos aos comuns mortais, e porque do Olimpo muito distante é feita a nossa vida, o que determina que estejamos expostos a todas as vicissitudes de que se reveste esta já prolongada crise, que nos provoca uma multiplicidade de problemas humanos, tanto de índole económica como sentimental), faz por tentar ultrapassar esses mesmos problemas, das formas que melhor considera serem as ajustadas para auxiliar na luta.  No que me diz respeito, uma das formas que utilizo é a leitura, muito embora  ler seja um feliz hábito que me acompanha desde a adolescência.
E no manancial de livros já lidos, surgem por vezes verdadeiras preciosidades, tanto pela forma como pelo conteúdo, como «O Ferro Velho» de Anthony Burgess ou «O Espião de D. João II», de Deana Barroqueiro, com a consciência de que mais alguns livros existem nesse lote.
 Neste momento leio 1034 páginas de uma escrita soberba e um conteúdo extraordinário: «O Primeiro Homem de Roma», de Colleen McCullough. Uma viagem fascinante ao senado romano, onde tomamos conhecimento da forma como o senado de Roma funcionava, as intrigas, as traições, as amizades, as alianças que se faziam no seio dos senadores, onde ficamos a conhecer a real magnitude do Império Romano e a forma como se fazia a gestão do poder nas várias regiões ocupadas, onde se incluía a velha Hispânia, principalmente a Hispânia Ulterior  onde nos encontramos neste momento. O enredo passa-se no decorrer do último século antes do nascimento de Jesus Cristo, por volta do ano 80 A.C., numa república cuja figura máxima era o Cônsul, tendo numa fase posterior sido substituída pela figura do imperador. E este livro aborda uma questão, na qual eu já havia pensado: Roma e Itália eram a mesma coisa? Até este período de que trata o romance, não, não eram a mesma coisa, tendo essa questão originado uma guerra no interior da república, pois que os italianos pretendiam a cidadania romana, que lhes foi negada pela maioria dos senadores.
O romance, que tem um conjunto formidável de personagens, baseia-se muito na personalidade e feitos de duas delas: Caio Mário e Lúcio Cornélio Sila.
Surpreendentemente um tema magistralmente abordado e escrito (com um enorme trabalho de pesquisa por certo) por alguém, que, na minha opinião, absolutamente nada tinha em comum com a cultura romana, como era o caso da autora, de nacionalidade australiana, falecida no dia 29 de Janeiro deste ano.

Este livro, uma preciosidade de facto!