sexta-feira, 11 de setembro de 2015

XII JANELA SOBRE O MEU PAÍS- COIMBRA NUMA CAPA NEGRA QUE PASSA, A VOZ DO HILÁRIO QUE CANTA

Estamos na Rua Corpo de Deus, a caminho da Alta, em Coimbra, na minha querida Coimbra. E é em toda a zona da Alta que o coração da tradição pulsa mais forte. É na Alta que o trinado de uma guitarra mais profundamente nos impressiona, nos aperta a garganta de saudade. É na Alta que as capas negras se tornam imponentes, pois foi a Alta que as criou.
Na Alta, na Rua Corpo de Deus, quando a tradição passa, Coimbra rende-se ao seu encanto!

E este futrica do Mondego chora.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

MAUS RUMORES DA CAPELINHA DAS FRAGAS

...Ouviam-se homens falando alto, o que fez com que o conde se levantasse da cadeira em que estava sentado, e se deslocasse à janela do seu quarto, na tentativa de descortinar a origem daquela algazarra. Imediatamente a seguir ouviu-se a voz da governanta, aflita, que aproximando-se do quarto do Conde de Cértima, chamava por ele. O conde não deixou que Maria do Carmo batesse à porta, pois abriu-a mesmo antes da governanta bater. E o conde perguntou:
- Que se passa Maria do Carmo? Que barulheira é esta?
         No rosto da governanta desenhava-se o semblante do medo.
- Gente morta, senhor conde – respondeu ela.
- Gente morta?! – retorquiu o Conde de Cértima, em tom de desagradável surpresa – gente morta onde?
- Junto à capelinha das fragas. Um homem e uma mulher numa poça de sangue.
- O quê? – perguntava o conde, abismado, olhando para mim apreensivamente.
- Onde fica essa capela? – perguntei eu, tão assombrado como o conde.
- A dois passos daqui. É uma capela a que deixei de dar uso depois de ter erigido uma outra no interior desta casa.
- Existe mesmo sangue? – perguntava eu.
- É coisa de matador – dizia o conde – nas minhas terras. Onde chega a indecência. Doutor Joaquim Lopes, por obséquio, vá-me a essa capela e veja o que por lá se passa.
- Ás suas ordens, excelência.
- Maria do Carmo, mande o Tomás e o Zeferino guiarem o senhor doutor – ordenou o Conde de Cértima.
         E assim me vi a caminho da capelinha das fragas, acompanhado por dois rapagões ao serviço de D. Rodrigo Corga. Aliás, já éramos conhecidos, pois haviam sido os mesmos que me tinham acompanhado no regresso a Malhal de Sula, dois dias antes.
         Lá chegado, encontrei alguns assalariados que montavam guarda ao local. A capela era minúscula. Talvez a fé do conde não fosse suficientemente grande, a ponto de o empolgar a construir algo maior. A capela fora construída junto a um pequeno ribeiro, cuja água murmurejava docemente, ao passar por uma zona pedregosa do seu pequeno leito.
- Estão ali os infelizes – apontava um homem.
- Cala-te p’ra aí camafeu. Alguém te preguntou alguma coisa? – disse rudemente um dos meus companheiros, o que se chamava Zeferino.

         Eu olhei para onde o homem indicara. A meia dúzia de metros da capela encontrava-se o corpo de uma mulher bastante jovem; e mesmo à entrada do pequeno templo abandonado, o corpo de um homem, também moço...(em continuação, pág. 43, ex. XX)
in Alma de Liberal
Junho/2009

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

XI JANELA SOBRE O MEU PAÍS- FORUM AVEIRO

 
Uma frágil ponte sobre a ria, que outrora nos levava a um dos locais mais feios da cidade de Aveiro (um cinzento e poeirento parque de estacionamento), atravessando-a hoje vamos entrar, por certo, no sítio mais bonito, arquitectonicamente falando, que Aveiro nos pode oferecer: o Centro Comercial Forum Aveiro, o primeiro centro comercial do país construído ao ar livre. Inaugurado em Setembro de 1998, tem a faculdade de, muito embora não passe de um espaço comercial, me dispor muito bem.

Na verdade um espaço de muito bom gosto!

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

AS MÁS NOVAS QUE OS FRANCESES TROUXERAM

...- Diz-se que na universidade essas coisas do liberalismo se assanham nos homens, como cães raivosos.
- Como decerto é do entendimento de vossa excelência, na universidade as mentes são abertas. Treinam-se para o conhecimento e como tal recebem tudo quanto é novo.
- Sabe doutor, não me agradaria muito receber em minha casa alguém que tivesse aderido à ideologia da distribuição do poder pelo povo.
         Eu parei o que estava a fazer e fixei intensamente o Conde de Cértima. Depois disse:
- Os tempos que correm pelo reino não são bons para ninguém. Vossa Excelência tem um título nobre a defender. Eu, para defender, tenho apenas esta profissão que meus pais me deram. Se vossa excelência tem pretensões politicas, eu não. Apenas peço que me deixem trabalhar. Apenas peço a vossa excelência que me deixe trabalhar… em paz. A minha função na vida é a de colocar ao serviço, de todos, os conhecimentos que me foram ensinados, para a todos aliviar das horas más da doença. Saiba vossa excelência que estou perfeitamente a par das convicções tanto absolutistas como liberais, que conheço bem onde divergem. No entanto, sou leal ao meu rei… e à profissão que Deus permitiu que eu tivesse alcançado.
- Muito bem, doutor Joaquim Lopes. Estou então em presença de um homem que nada quer com a politica!
- Nada!
- Depois de tudo o que me disse, considero-o politicamente esclarecido. Eu não sou falto de tino, doutor. E por isso mesmo reconheço que, dadas as suas origens, possa bem pender para as novidades que em má hora a França nos trouxe. Mas como também o acho boa pessoa, desde que me demonstre ser bom médico, terá em mim um seu doente. Espero não o ver muitas vezes, porque isso seria mau sinal – disse o Conde de Cértima, com um meio sorriso.
- De facto – respondi eu.
         A minha posição naquela casa ficara bem definida. Eu não tinha conseguido esconder a minha costela liberal. A minha presença ali iria ser tolerada em função de uma doença, mas nunca desejada. Maria Clara tornava-se cada vez mais distante.
         Ia eu pronunciar o nome dela quando o destino interveio, evitando que eu o tivesse feito. Decerto teria praticado grossa asneira! É que no momento em que eu ia perguntar ao conde pela sua filha, foi audível no exterior da casa uma agitação, que por certo não era habitual...(em continuação, pág. 41, ex. XIX)

in Alma de Liberal

Junho/2009

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

FERRO VELHO, MEU TESOURO

Um ferro velho, por norma, é um objecto obsoleto, que há muito deixámos de utilizar, e que só por respeito a nós próprios muitas vezes inutilmente guardamos.
Pois eu tenho um ferro velho do qual guardo enorme estima, porque o considero quase um tesouro…um tesouro útil. Comprei-o em 2001, ainda em escudos, na expectativa de que se viesse a revelar algo de bom. Afinal revelou-se algo de muito bom! Mas cerca de um ano depois de o ter adquirido emprestei-o a uma pessoa amiga. E no meu cérebro deu-se uma daquelas brancas que por vezes nos atropela. Um belo dia, de repente, deu-me ganas de pegar no meu valioso ferro velho. Corri tudo…para chegar à triste conclusão de que não o tinha em casa. Só o poderia ter emprestado…mas a quem?
Os anos foram correndo e de vez em quando eu pensava, com nostalgia, no meu ferro velho. Até que decidi ir à procura de um outro ferro velho igual, e comprá-lo, acção que deveria estar para breve.
Não foi preciso. Neste fim-de-semana, eu e a minha mulher fomos jantar a casa de uma pessoa amiga, que no início do jantar me disse que tinha uma coisa para me devolver, porque na sua casa, em França, tinha andado a fazer umas arrumações e de repente deparou-se com uma coisa que eu, há muitos anos, lhe havia emprestado: exactamente! O meu ferro velho. Fiquei exultante de alegria.
Não, este ferro velho não é um utensílio metálico, ou de plástico ou mesmo louça. É um livro, cujo título em português é- «Ferro Velho». Um excelente romance, da autoria do britânico Anthony Burgess,  falecido em 1993. Uma excelente viagem aos bastidores da Segunda Guerra Mundial, tropeçando pelo caminho na questão da independência do País de Gales, ou na que opõe Israel à Palestina, com a cultura russa pelo meio, tudo na óptica dos que amam a lenda do dono da espada Excalibur- a lenda do Rei Artur, tendo por base de tudo isto um sobrevivente do naufrágio do Titanic.

Já tenho leitura para as férias!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

MÁGICOS DA MINHA VIDA



Há dias dei comigo a pensar em quem me tem influenciado positivamente na vida. É claro que não me refiro aos pais, nem aos avós. Refiro-me àqueles cujo universo nunca foi o meu, mas cujas acções tiveram a capacidade de preencher momentos da minha vida. E cheguei a uma conclusão, sem que tenha necessitado de grande esforço mental para os encontrar:

Eça de Queiroz- nascido em 1845, falecido em 1900. Ler a sua extensa obra tem sido não só um enorme divertimento, mas também horas de aprendizagem no que à forma genial de escrever diz respeito. Toda essa envolvência contribuiu para que eu me tivesse tornado numa pessoa culturalmente um pouco mais enriquecida.

José Hermano Saraiva- nascido em 1919, falecido em 2012. Um extraordinário professor de História de Portugal, um comunicador por excelência, um acérrimo defensor da cultura. A gama de episódios seus gravados, que guardo, representam para mim um enorme tesouro cultural. Neles se revela a história e o sentir de todo o nosso povo. Horas e horas de extraordinário prazer.

Jon Lord- nascido em 1941, falecido em 2012. Como teclista fabuloso dessa banda de élite, chamada Deep Purple, Jon Lord conseguiu fazer vibrar todos os meus sensores musicais, mostrar-me como bela é a música. Um verdadeiro deus na terra.

A estes três homens o meu eterno obrigado pela magia que souberam transmitir à minha vida!

terça-feira, 21 de julho de 2015

SETH INSPIRA O AROMA DA NOBREZA DO NILO








 ...Atravessadas montanhas de areia, na sua solitária e invisível jornada, depressa o deus Seth entrou na orla fluvial do Nilo. Encheu o peito e inspirou com sofreguidão o cheiro a terra molhada, empapada de sedimentos, que a nobreza do rio Nilo nela depositara. Estava privado de uma carícia, que até a um deus deixava saudades – o cheiro do vivificante Nilo. Mas, em contra-partida, não tinha regras a respeitar. Ele era o deus supremo do mundo que habitava - o reino das areias. E ali estava, à beira do Nilo, pronto a demonstrar a todos, que mantinha intactas todas as capacidades de um deus. Ir-lhes-ia fazer ver que melhor fora não terem feito dele um renegado.
         Ao tocar com os seus pés na água fez por se tornar visível. Tinha o corpo de um homem bem constituído, de tronco nu, vestido pela cintura de roupagens militares, peças de cabedal, sobrepostas, que lhe envolviam a cintura, pintadas de azul, vermelho e castanho. A sua cabeça, composta por olhos e testa de águia, nariz e boca de chacal, virava-a em todas as direcções, para assim poder ter a real percepção do meio que o rodeava.
         A maciez da água fez-lhe fechar os olhos de satisfação. Que bem precioso perdera! Tinha de dar um jeito na sua condição. Ao sentir de novo aquele ambiente, tomava consciência do quanto grotesco era viver entre escorpiões.
         Já chegava de meditações. Num impulso atirou o corpo para a frente e mergulhou nas cálidas águas do Nilo. Deu umas braçadas na sua forma original, transformando-se seguidamente num peixe tiláquia, fazendo-se envolver pelas moléculas que envolviam os siftos. E tomou o rumo de MassiftonRá...
(em continuação, pág. 60, ex. XXIII)

in A Causa de MassiftonRá
Novembro/2005