sábado, 7 de novembro de 2015

PORTUGUÊS, COMEDOR DE PEIXE, ESSE DESEQUILIBRADOR DO PLANETA

Há poucos dias passou uma notícia num dos telejornais, que não sei quantos portugueses terão tomado nota nela. Isto denota que o nosso minúsculo Portugal permanece de alma imensa, e continua a incomodar muita gente.
A notícia referia-se a um estudo feito na Europa sobre nós portugueses. E concluiu que nós somos o país da Terra que mais peixe consome, e que, por tal razão, estamos a colocar em risco o equilíbrio do planeta (não estou a ser exagerado).
É natural que consumamos muito peixe, pois que fomos à beira-mar plantados. É muito natural que consumamos mais peixe do que muitos países que sofrem de interioridade continental, tal como na nossa orla marítima se consome mais peixe do que no nosso interior.
É muito natural ainda que, ao preço a que o peixe está, cada um de nós consuma para aí umas duas ou três toneladas de peixe por ano!!!!!!
Mas nós temos uma das maiores áreas exclusivas de pesca do mundo. Não privamos outras nações do seu próprio peixe, a não ser o bacalhau, ao qual ninguém liga, ou não ligou durante séculos, sendo um dos nossos tesouros gastronómicos. Mas, no Mar de Bering,  pescam-se toneladas e toneladas de bacalhau apenas para isco da pesca do caranguejo real.
O autor desse patético estudo não percebe nada disto, porque se percebesse saberia que os portugueses não podem consumir muito do peixe que a sua zona exclusiva produz, porque estão proibidos fazê-lo pela União Europeia, porque ficaram sem frota pesqueira (por acção de umas inteligências que andam por aí a armar-se em presidentes da república), e porque o peixe está, na verdade, a um preço que não pode ser consumido de forma a perigar o equilíbrio terrestre.
Por amor de Deus, um punhado de gente boa a secar os mares de peixe?!?!
Digam de uma vez por todas, que ficariam muito mais felizes se a Península Ibérica fosse constituída apenas pela Espanha.

Mas, porque acima de sermos ibéricos somos portugueses, da bela sardinha e do belo carapau nunca abdicaremos!!

sábado, 31 de outubro de 2015

FORD T, UMA CARROÇA BARULHENTA

...Era uma bela manhã de Dezembro, soalheira, luminosa. O sol, como que aborrecido por há muito não acariciar o mundo com os seus raios de vida e alegria, surgiu nessa manhã, sorridente e pronto a reavivar as cores de todas as coisas que fazem os corações dos homens transbordarem de emoção. A pardacenta cor do inverno estava ausente. O sol aquecia frescamente o ar. Todas as plantas, desde a ínfima erva à mais robusta árvore, perante a inesperada e fecunda luz solar, numa rápida e preciosa acção química de fotossíntese, exalavam odores campestres, os quais exaltavam os homens a amarem tudo o que era natural. Aquela era uma manhã mágica. E Américo Afonso sentia isso mesmo. Ao volante do seu automóvel Ford, modelo T, ia percorrendo calmamente a distância entre o Bombarral e Alfeizerão, desviando-se das muitas poças de água, autênticos espelhos da natureza, que reflectiam a luz solar e que de quando em vez o cegavam. De vez em quando cruzava-se com camponeses, que atónitos, paravam e num virar completo de corpo e cabeça, seguiam o movimento daquela carroça barulhenta e que por mais que pensassem, não atinavam com a fonte de energia que a fazia mover. Alguns desses simples homens do campo levavam consigo os seus burros, transportando imensos feixes de erva ou molhos de vides. Outros ainda iam aparelhados com albardas, carregados com toros de lenha para a lareira, que as noites iam frias. Os animais perante a presença da máquina roufenha desatavam a zurrar e a ameaçar fugir, assustados com a terrível visão, para desespero dos donos, que não só lutavam por acalmar os burros, como também eles próprios ficavam inertes de perplexidade. E estas cenas, fruto de algo desconhecido, que pela primeira vez chegava ao conhecimento daqueles homens, faziam aflorar um leve sorriso aos lábios de Américo Afonso...(em continuidade, pág. 121, ex. XLVI)

in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

domingo, 18 de outubro de 2015

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- EM 1096 UMA UNIÃO DA QUAL NASCEU UM POVO

No decorrer da reconquista cristã, na Península Ibérica, ainda durante o século XI, o rei Afonso VI de Leão e Castela solicitou auxílio a muitos nobres europeus para o apoiarem na luta contra os invasores sarracenos. De entre eles veio o conde D. Henrique de Borgonha, nascido em Gijon, Borgonha- França.
O rei Afonso VI, em agradecimento pelos serviços prestados pelo cruzado francês Henrique de Borgonha, ofereceu-lhe a mão de sua filha Teresa, entregando-lhe também o governo do Condado Portucalense, que descia do Minho até um pouco abaixo de Coimbra.
O casamento teve lugar no ano de 1096.

Nesse ano lançaram-se as sementes do reino de Portugal.

sábado, 3 de outubro de 2015

ECOS DA FLANDRES

...A noite de sono acabou ali. Até clarear o dia António Avilar pensou no seu passado e no seu presente. Todo o resto da noite foi acompanhado pelo som monótono e triste da chuva que não parava de cair, e pelo barulho do vento, que por vezes fazia abanar uma ou outra tábua mais solta das pobres paredes daquele abrigo sombrio. E deitado na velha cama, os braços cruzados atrás da cabeça, o olhar vagueando pelo telhado nú, sem forro, foi em pensamento ao encontro da sua bela Luísa, que nesse preciso momento, na riqueza de um fausto lar, com a sua sensualidade arrebatadora, tornava feliz um leito conjugal. A ele, como companhia, restava-lhe o vento, a chuva e a arrepiante certeza de que para todos aqueles que habitavam o seu passado, ele não passava de um cadáver abandonado numa sepultura que ninguém conhecia. Para alguns, para Luísa, talvez significasse um pouco mais. Mas mais não era do que uma recordação e às recordações não lhes era dada a faculdade de falarem, de terem uma participação activa na vida dos homens...(em continuidade, pág. 120, ex. XLV)
in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

XII JANELA SOBRE O MEU PAÍS- COIMBRA NUMA CAPA NEGRA QUE PASSA, A VOZ DO HILÁRIO QUE CANTA

Estamos na Rua Corpo de Deus, a caminho da Alta, em Coimbra, na minha querida Coimbra. E é em toda a zona da Alta que o coração da tradição pulsa mais forte. É na Alta que o trinado de uma guitarra mais profundamente nos impressiona, nos aperta a garganta de saudade. É na Alta que as capas negras se tornam imponentes, pois foi a Alta que as criou.
Na Alta, na Rua Corpo de Deus, quando a tradição passa, Coimbra rende-se ao seu encanto!

E este futrica do Mondego chora.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

MAUS RUMORES DA CAPELINHA DAS FRAGAS

...Ouviam-se homens falando alto, o que fez com que o conde se levantasse da cadeira em que estava sentado, e se deslocasse à janela do seu quarto, na tentativa de descortinar a origem daquela algazarra. Imediatamente a seguir ouviu-se a voz da governanta, aflita, que aproximando-se do quarto do Conde de Cértima, chamava por ele. O conde não deixou que Maria do Carmo batesse à porta, pois abriu-a mesmo antes da governanta bater. E o conde perguntou:
- Que se passa Maria do Carmo? Que barulheira é esta?
         No rosto da governanta desenhava-se o semblante do medo.
- Gente morta, senhor conde – respondeu ela.
- Gente morta?! – retorquiu o Conde de Cértima, em tom de desagradável surpresa – gente morta onde?
- Junto à capelinha das fragas. Um homem e uma mulher numa poça de sangue.
- O quê? – perguntava o conde, abismado, olhando para mim apreensivamente.
- Onde fica essa capela? – perguntei eu, tão assombrado como o conde.
- A dois passos daqui. É uma capela a que deixei de dar uso depois de ter erigido uma outra no interior desta casa.
- Existe mesmo sangue? – perguntava eu.
- É coisa de matador – dizia o conde – nas minhas terras. Onde chega a indecência. Doutor Joaquim Lopes, por obséquio, vá-me a essa capela e veja o que por lá se passa.
- Ás suas ordens, excelência.
- Maria do Carmo, mande o Tomás e o Zeferino guiarem o senhor doutor – ordenou o Conde de Cértima.
         E assim me vi a caminho da capelinha das fragas, acompanhado por dois rapagões ao serviço de D. Rodrigo Corga. Aliás, já éramos conhecidos, pois haviam sido os mesmos que me tinham acompanhado no regresso a Malhal de Sula, dois dias antes.
         Lá chegado, encontrei alguns assalariados que montavam guarda ao local. A capela era minúscula. Talvez a fé do conde não fosse suficientemente grande, a ponto de o empolgar a construir algo maior. A capela fora construída junto a um pequeno ribeiro, cuja água murmurejava docemente, ao passar por uma zona pedregosa do seu pequeno leito.
- Estão ali os infelizes – apontava um homem.
- Cala-te p’ra aí camafeu. Alguém te preguntou alguma coisa? – disse rudemente um dos meus companheiros, o que se chamava Zeferino.

         Eu olhei para onde o homem indicara. A meia dúzia de metros da capela encontrava-se o corpo de uma mulher bastante jovem; e mesmo à entrada do pequeno templo abandonado, o corpo de um homem, também moço...(em continuação, pág. 43, ex. XX)
in Alma de Liberal
Junho/2009

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

XI JANELA SOBRE O MEU PAÍS- FORUM AVEIRO

 
Uma frágil ponte sobre a ria, que outrora nos levava a um dos locais mais feios da cidade de Aveiro (um cinzento e poeirento parque de estacionamento), atravessando-a hoje vamos entrar, por certo, no sítio mais bonito, arquitectonicamente falando, que Aveiro nos pode oferecer: o Centro Comercial Forum Aveiro, o primeiro centro comercial do país construído ao ar livre. Inaugurado em Setembro de 1998, tem a faculdade de, muito embora não passe de um espaço comercial, me dispor muito bem.

Na verdade um espaço de muito bom gosto!