sábado, 5 de dezembro de 2015

NOTÍCIA ANGUSTIANTE DO MUNDO DA PAZ

...A porta abriu-se e surgiu um 1º cabo. Era rádio-telegrafista.
-         Meu capitão, chegou ontem esta mensagem da Metrópole.
-         Da Metrópole?- perguntou o capitão Rebelo carregando o sobrolho- foi você que a recebeu?
-         Fui eu sim, meu capitão.
         O comandante da companhia desdobrou a folha de papel que o 1º cabo lhe entregara. Leu a mensagem que nela estava escrita. Depois, virou-se de novo para a janela. Na parada, o grupo de soldados que ia ao banho, tinha engrossado.
-         São tão jovens...- dizia o capitão Rebelo- mas que porra de notícia para dar a quem acaba de chegar do mato. Cabo Guedes, vá chamar o alferes Santa Cruz. Ele que vá ter à espelunca do meu gabinete.
-         Sim meu capitão.
-         Mas ouça bem nosso cabo, quem lhe dá a notícia sou eu. Você não sabe de nada.
-         Está certo meu capitão. Ainda bem que não sou eu que lhe tenho de dar essa notícia.
-         Será bem difícil, pode crer. Mas eu como comandante de todos vocês, tenho de zelar pela vossa integridade física e mental, já que da moral não sei se estarei à altura. Mas vá lá nosso cabo, vá lá.
-         Se me dá licença- disse o 1º cabo que depois de se perfilar e fazer uma bem puxada continência, virou costas e desapareceu em busca do alferes Santa Cruz.
         O capitão Rebelo apertou os botões da camisa do camuflado. Passando com a mão pela cabeça procurava o seu maço de tabaco. Porque havia a vida de ser assim? Onde estavam as palavras adocicadas, leves, que tivessem a capacidade de suavizar notícia tão negra? Que Deus o ajudasse... a ele e ao alferes Santa Cruz.
         Fumando um cigarro, o capitão Rebelo fechou  a porta do seu quarto atrás de si.. Meia dúzia de metros andados chegava ao gabinete empoeirado. Junto à porta encontrava-se Álvaro. Quase que nem o deixara respirar!

-         Você foi rápido alferes Santa Cruz- disse o comandante da companhia, com ar grave e sério...(em continuação, pág. 93, ex. XXXI)
in Visitados
Novembro/1999

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PARA QUE NÃO ESQUEÇAMOS O 1º DE DEZEMBRO, DIA DA RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL

No seguimento da fatídica batalha de Álcacer-Quibir, em Marrocos, no dia 4 de Agosto de 1578, onde desapareceu el-rei D. Sebastião e a maioria da nata da juventude portuguesa, Portugal viria a perder a sua independência dois anos depois, em 1580, dando-se início à dinastia filipina de má memória, que durou sessenta anos.


No dia 1 de Dezembro de 1640, cumprem-se hoje 375 anos, fidalgos portugueses, pondo em perigo a sua própria vida, mas porque o patriotismo a isso os obrigou, conseguiram, num movimento revolucionário, restaurar a independência de Portugal, e proclamar como rei de Portugal D. João IV, pelo que, a partir desse dia, o 1 de Dezembro ficou conhecido como o dia da Restauração.

E é uma data de tal forma importante, que a recordávamos e celebrávamos com um feriado.

Mas porque de patriotismo, o anterior governo deu mostra de ser muito débil (entre outros suspeitos talentos), achou por bem abolir o feriado do 1º de Dezembro.

No que estiver ao meu alcance, sempre farei por lembrar que em Portugal 1 de Dezembro é sinónimo de pátria a encher o peito, a mim e a todos os que sentem orgulho em serem portugueses.

E manterei a crença em que o 1º de Dezembro irá voltar a ser feriado nacional, pela mão deste nosso novo governo, esperança de melhor vida para os milhões de portugueses espoliados não só materialmente, mas também patrioticamente.

domingo, 22 de novembro de 2015

COMISERAÇÃO À JANELA DA GUERRA

...Era tempo de descontracção. No chuveiro improvisado, instalado no seu quarto rudimentar, acabara o capitão Rebelo de tomar um revigorante banho. Da pequena janela do seu quarto, praticamente um postigo, que dava para a parada, enquanto fumava um cigarro ia observando com alegria os seus soldados, que meios fardados organizavam a expedição de algumas centenas de metros até ao rio. Contemplava os guerrilheiros negros. Bem vistas as coisas eram merecedores de pena. Sem qualquer formação militar, deambulavam pela selva angolana, instigados por valores independentistas. E efectivamente aquela terra era deles, não dos europeus. Mas a política é que comandava o mundo, não a comiseração, não o incomodativo sentimento de injustiça. Mas quem sente comiseração é gente. E gente pensa. E muitos pensamentos juntos, se fluírem para o mesmo ponto, acabam por ter força. E da força nascem as revoluções. E se em vez de uma cabeça, forem várias cabeças, mentes de capitães como ele... alguém batia à porta do quarto.

-         Entre- disse o capitão Rebelo, virando costas à janela...(em continuação, pág. 92, ex. XXX)
in Visitados
Novembro/1999

domingo, 15 de novembro de 2015

PARIS, 13 DE NOVEMBRO DE 2015

Perante os acontecimentos da última Sexta-Feira, em Paris, sou forçado a relegar para segundo plano a critica situação política do nosso país. É que quando são postos em causa os nossos valores ocidentais de liberdade e democracia, e principalmente do valor da vida humana, todas as sirenes tocam a reunir e ordenam que corramos num só sentido: a união da qual emane a força.
A França, uma super potência europeia, neste ano de 2015, mesmo com todo o seu desenvolvimento económico e social, foi, no entanto, incapaz de evitar que, já por duas vezes, as ruas da sua capital tivessem sido dilaceradas e ensanguentadas pelo cobarde terrorismo, independentemente, de, segundo notícias, ter conseguido neutralizar neste ano muitas tentativas de outros tantos atentados.
Disse um comentador que a nossa civilização recuou mil anos. Isso fez-me lembrar que foi a França o berço da Ordem dos Templários, cavaleiros monges que tinham por principal função a defesa dos peregrinos na Terra Santa.
A minha sentida homenagem a todos aqueles que, inofensivamente, na noite de 13 de Novembro de 2015, em Paris, ao assistirem a um concerto ou a relaxarem num café, foram fatalmente alvo de um ódio doentiamente religioso e terrivelmente bárbaro e assassino, há muitos séculos adormecido e que neste séc. XXI definitivamente acordou.

Aos mortos de Paris paz às suas almas e muita força às famílias enlutadas.

sábado, 7 de novembro de 2015

PORTUGUÊS, COMEDOR DE PEIXE, ESSE DESEQUILIBRADOR DO PLANETA

Há poucos dias passou uma notícia num dos telejornais, que não sei quantos portugueses terão tomado nota nela. Isto denota que o nosso minúsculo Portugal permanece de alma imensa, e continua a incomodar muita gente.
A notícia referia-se a um estudo feito na Europa sobre nós portugueses. E concluiu que nós somos o país da Terra que mais peixe consome, e que, por tal razão, estamos a colocar em risco o equilíbrio do planeta (não estou a ser exagerado).
É natural que consumamos muito peixe, pois que fomos à beira-mar plantados. É muito natural que consumamos mais peixe do que muitos países que sofrem de interioridade continental, tal como na nossa orla marítima se consome mais peixe do que no nosso interior.
É muito natural ainda que, ao preço a que o peixe está, cada um de nós consuma para aí umas duas ou três toneladas de peixe por ano!!!!!!
Mas nós temos uma das maiores áreas exclusivas de pesca do mundo. Não privamos outras nações do seu próprio peixe, a não ser o bacalhau, ao qual ninguém liga, ou não ligou durante séculos, sendo um dos nossos tesouros gastronómicos. Mas, no Mar de Bering,  pescam-se toneladas e toneladas de bacalhau apenas para isco da pesca do caranguejo real.
O autor desse patético estudo não percebe nada disto, porque se percebesse saberia que os portugueses não podem consumir muito do peixe que a sua zona exclusiva produz, porque estão proibidos fazê-lo pela União Europeia, porque ficaram sem frota pesqueira (por acção de umas inteligências que andam por aí a armar-se em presidentes da república), e porque o peixe está, na verdade, a um preço que não pode ser consumido de forma a perigar o equilíbrio terrestre.
Por amor de Deus, um punhado de gente boa a secar os mares de peixe?!?!
Digam de uma vez por todas, que ficariam muito mais felizes se a Península Ibérica fosse constituída apenas pela Espanha.

Mas, porque acima de sermos ibéricos somos portugueses, da bela sardinha e do belo carapau nunca abdicaremos!!

sábado, 31 de outubro de 2015

FORD T, UMA CARROÇA BARULHENTA

...Era uma bela manhã de Dezembro, soalheira, luminosa. O sol, como que aborrecido por há muito não acariciar o mundo com os seus raios de vida e alegria, surgiu nessa manhã, sorridente e pronto a reavivar as cores de todas as coisas que fazem os corações dos homens transbordarem de emoção. A pardacenta cor do inverno estava ausente. O sol aquecia frescamente o ar. Todas as plantas, desde a ínfima erva à mais robusta árvore, perante a inesperada e fecunda luz solar, numa rápida e preciosa acção química de fotossíntese, exalavam odores campestres, os quais exaltavam os homens a amarem tudo o que era natural. Aquela era uma manhã mágica. E Américo Afonso sentia isso mesmo. Ao volante do seu automóvel Ford, modelo T, ia percorrendo calmamente a distância entre o Bombarral e Alfeizerão, desviando-se das muitas poças de água, autênticos espelhos da natureza, que reflectiam a luz solar e que de quando em vez o cegavam. De vez em quando cruzava-se com camponeses, que atónitos, paravam e num virar completo de corpo e cabeça, seguiam o movimento daquela carroça barulhenta e que por mais que pensassem, não atinavam com a fonte de energia que a fazia mover. Alguns desses simples homens do campo levavam consigo os seus burros, transportando imensos feixes de erva ou molhos de vides. Outros ainda iam aparelhados com albardas, carregados com toros de lenha para a lareira, que as noites iam frias. Os animais perante a presença da máquina roufenha desatavam a zurrar e a ameaçar fugir, assustados com a terrível visão, para desespero dos donos, que não só lutavam por acalmar os burros, como também eles próprios ficavam inertes de perplexidade. E estas cenas, fruto de algo desconhecido, que pela primeira vez chegava ao conhecimento daqueles homens, faziam aflorar um leve sorriso aos lábios de Américo Afonso...(em continuidade, pág. 121, ex. XLVI)

in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

domingo, 18 de outubro de 2015

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- EM 1096 UMA UNIÃO DA QUAL NASCEU UM POVO

No decorrer da reconquista cristã, na Península Ibérica, ainda durante o século XI, o rei Afonso VI de Leão e Castela solicitou auxílio a muitos nobres europeus para o apoiarem na luta contra os invasores sarracenos. De entre eles veio o conde D. Henrique de Borgonha, nascido em Gijon, Borgonha- França.
O rei Afonso VI, em agradecimento pelos serviços prestados pelo cruzado francês Henrique de Borgonha, ofereceu-lhe a mão de sua filha Teresa, entregando-lhe também o governo do Condado Portucalense, que descia do Minho até um pouco abaixo de Coimbra.
O casamento teve lugar no ano de 1096.

Nesse ano lançaram-se as sementes do reino de Portugal.