sábado, 30 de julho de 2016

QUANDO A SAUDADE É MAIS FORTE QUE O HARRY POTTER

Um pai, bastante entusiasmado com o facto de hoje, na livraria Lello, no Porto, ir ter lugar a apresentação mundial de mais um livro de Harry Potter, deu essa notícia a um dos seus filhos, aquele que se encontra a desbravar a vida em Inglaterra (pois, um dos muitos milhares de jovens portugueses que, em terras de Sua Majestade, tentam encontrar a esperança no futuro, que o seu pobre país, infelizmente, não tem para lhes oferecer), e que desde sempre adorou o Harry Potter. Esperava o pai que o filho, emigrado no Reino Unido, ficasse bastante satisfeito e até quisesse saber mais pormenores.
- Pai, quero lá saber do Harry Potter…o que eu tenho é saudades de casa- respondeu ele ao pai.
O pai engoliu em seco. Nestas coisas, concluiu o pai, pode-se medir o nível de saudade de casa que existe naquele peito.

Se àquele pai fosse possível, ainda hoje teria arranjado um veloz meio de transporte e num salto teria ido dar um grande abraço ao seu jovem filho, que em Inglaterra faz pela vida, para lhe aliviar a saudade. Mesmo que fosse na vassoura do Harry Potter.

domingo, 17 de julho de 2016

FORD T, VIDA COM ASAS

...O automóvel era deslumbrante. De manhã, ao sair do Bombarral, resplandecia aos primeiros raios do sol. Agora, que estava prestes a chegar a Alfeizerão, doze léguas transpostas, o automóvel evidenciava as manchas da lama dos caminhos. Mas mesmo assim, o preto da pintura mantinha-se magnífico. O automóvel fazia lembrar os solenes coches de outrora. A área reservada aos passageiros tinha forma rectangular, munida com quatro portas e compridas janelas. De ambos os lados possuía longos estribos a todo o comprimento, que serviam para as pessoas descerem ou subirem. Os mesmos estribos iam acabar por cima das rodas, para guardarem as lamas que se desprendiam das rodas em movimento. Estas eram magníficas. Eram constituídas por pneus pretos com orlas interiores pintadas de branco e doze fortes raios. O vidro da frente era móvel, podendo-se levantar ou baixar consoante a vontade do condutor. Por cima do vidro, agarrado a frisos laterais, possuía uma pala exterior, a toda a largura do automóvel, para proporcionar uma visão melhor ao seu condutor. O longo motor, com a cilindrada de dois mil oitocentos e sessenta e três centímetros cúbicos e de duas velocidades, estava tapado com duas abas de ferro. O bonito e fino aspecto do automóvel era concluído com dois grandes faróis, suspensos por aros de ferro, ligados a um excelente radiador que servia como uma bela tampa à estrutura composta por motor e respectivas abas. O automóvel era de facto uma preciosa e bonita invenção... (em continuação, pág. 122, ex. XLVIII)
in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

terça-feira, 12 de julho de 2016

PARA VOCÊS DESTE NOJENTO, CAMPEÃO EUROPEU

As redes sociais estão a abarrotar com, eu diria, milhões de publicações, sobre o facto de nos termos sagrado campeões europeus de futebol. E têm razão para o fazer. Eu, no alto dos meus sessenta anos, há quase seis décadas que persigo esse sonho, em todos os jogos que vejo da selecção.
Confesso, já fui um seguidor do futebol muito mais assíduo do que sou hoje, pois que me é difícil conceber que num país, com tantas dificuldades como o nosso tem passado, no mundo do futebol se pratiquem ordenados daquela monta. São ordenados que pertencem a um mundo que eu não sei qual é, mas de certeza que não é o meu. Mas, quando o futebol é uma questão de selecção, esqueço-me desse pequeno pormenor, e abraço o percurso da selecção com alma…alma de português.
E foi por isso que segui a estadia da nossa Selecção em Marcoussis. E foi por isso que ouvi, com ouvidos de ouvir, tantas e tantas pequenas entrevistas feitas aos nossos emigrantes em França. E sensibilizei-me…por vezes quase às lágrimas. E apercebi-me da revolta contida que existe no peito de muitos portugueses a trabalharem em França, pela forma como se sentem tratados, e da alegria, o sabor a pequena vingança, com que ontem deverão ter chegado aos seus empregos franceses, e dizer aos seus colegas franceses: «ei cambada, aqui está a chegar o nojento, que é campeão da Europa».
E principalmente constatar o quanto de maravilhoso sentimento patriota existe em corações de jovens, jovens franceses, que por serem filhos de portugueses amam Portugal de uma forma absolutamente arrebatadora. Meninos de doze ou treze anos, vestidos da cabeça aos pés com as cores nacionais portuguesas, a apoiarem a Selecção Portuguesa, relegando para segundo plano a selecção gaulesa, porque, mais forte do que a sua ainda pequena vivência no meio que os viu nascer- a França, é o sentimento pela terra lusa que os seus pais lhes souberam incutir na alma, fruto do seu eterno amor ao povo enorme a que, orgulhosamente, pertencem- o povo português.
Aos nossos enormes jogadores, que souberam ser muitíssimo melhores do que a maioria da nossa medíocre classe política, ficamos a dever o facto de termos conseguido trepar um degrau no conceito internacional. Se é pelo futebol e não pela política que podemos recuperar algum do prestígio internacional perdido, que assim seja. Urgente é fazê-lo, porque nunca tinha visto uma selecção, um povo, ser apelidado de nojento, apenas e só porque tem capacidade para ir mais além. É demonstrativo de quanto azedume e má vontade contra nós existe por essa Europa fora.

Obrigado selecção. Viva Portugal!

sábado, 2 de julho de 2016

XVI JANELA SOBRE O MEU PAÍS- EM ÁGUEDA UM WHITE WALKER TRESMALHADO

Águeda- numa manhã em que não era previsível qualquer nuvem no céu, muito menos a chegada do inverno, eis que a surpresa se apoderou de quem estava, com a terrível aparição de um cavaleiro «white walker».

         Na luminosa Águeda um sopro de Westeros.

domingo, 12 de junho de 2016

REMOÇÃO DE UM GRANDE MONTE DE ESCOMBROS TEMPORAIS

...Finalmente ia visitar Alfeizerão, a terra onde tivera lugar o grande caso que ultimamente o trazia deveras interessado. Ele, na qualidade de advogado, se auto-nomeara defensor dos interesses do pequeno Carlos Avilar. Uma tremenda atrocidade fora cometida. Duplo crime, seguido de posse fraudulenta de uma herdade. Todo este embuste só fora possível graças à tremenda confusão em que o país mergulhara após a implantação da república. E em todo aquele processo incluía-se a conivência do funcionário da conservatória, que forjara um documento falso. Não deveria ter sido pequeno o suborno. O tal funcionário, responsável na altura pela entrada do documento, demitira-se havia alguns anos e desaparecera de Alcobaça. Graças à sua actividade de homem de leis, conseguira Américo Afonso ter acesso ao documento e até copiá-lo, quando explicou que estava em jogo o futuro de uma criança. Mas tudo isto precisava de ser provado. E também carecia de prova a relação de parentesco entre o Carlos e o antigo morgado. Por isso ali ia o jovem advogado, no propósito de conversar com alguém em Alfeizerão, que lhe pudesse fazer luz em relação à penumbra que tornava obscuro todo o conhecimento sobre a maneira pela qual o senhor Barreto Raposo se tornara dono da tal herdade.

Américo Afonso ia extremamente confiante. Conduzindo a sua recente aquisição, só possível dada a razoável fortuna de seu pai, doutor Sebastião Afonso, sentia-se um triunfador. E quando pensava na alegria expressa pela sua deslumbrante Luísa, quando soube que ele ia abraçar a causa do pequeno Carlos Avilar, então sentia-se com a força de Hércules para remover todos os escombros do tempo, um grande monte, com doze anos de mentiras...(em continuação, pág. 122. ex. XLVII)
in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

quarta-feira, 25 de maio de 2016

UM PAI, HERÓI DO LINÓTIPO NO DIÁRIO DE COIMBRA

O rapazito muito orgulhoso se sentia quando ia visitar o pai ao trabalho. O pai trabalhava então nos fundões do Diário de Coimbra, à Rua da Sofia. Era tipógrafo linotipista, ou seja, trabalhava com um linótipo. Essa coisa estranha era uma imensa máquina de escrever, que na parte detrás derretia enormes barras de chumbo, chumbo esse que se ia transformando, gradualmente, na notícia que o seu pai ia escrevendo no teclado, e que se depositava no seu lado esquerdo numa pequena banca, em palavras de chumbo. E como era uma máquina mesmo muito grande, parecia-lhe que o seu pai era um pequeno bonequito, muito valente, que conseguia dominar aquele monstro. Corriam os anos de 1964, 1965.
Ontem, o rapazito ao ler o Diário de Aveiro, leu a notícia de o Diário de Coimbra completava ontem mesmo 86 anos de actividade jornalística. E claro que aquelas antigas imagens lhe inundaram a mente com muito carinho. É que o seu pai, que há trinta e quatro anos anda pelos caminhos do céu, contribuiu com o seu valioso trabalho para que o Diário de Coimbra seja hoje um jornal antigo e cheio de prestígio.

O antigo funcionário Agostinho de Jesus Gomes, pela boca do seu filho, o rapazito, dá os parabéns ao Diário de Coimbra e votos de futuras grandes edições jornalísticas.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

ROVISCO PAIS- NUM RÓTULO A HERANÇA DE UMA OBRA

Já alguma vez tinham ouvido falar em Rovisco Pais? Eu não. É caso para dizer que qualquer momento, na nossa vida, é sempre um bom momento para aprender alguma coisa. Tomei conhecimento deste nome numa garrafa de vinho tinto. E bom! E como é costume de qualquer um de nós, fui ler a parte detrás do rótulo, para conhecer um pouco melhor o vinho que acabara de beber. E o que li foi um pouco de história. Factos recentes, é certo, mas que moldam ainda os dias deste nosso país.
José Rovisco Pais nasceu em Sousel em 1860 e morreu em Lisboa em 1932. Foi um homem bastante rico, mesmo. Deixou uma enorme obra benemérita. A obra crescia, mas o seu autor toda a vida se manteve no anónimato. Grande parte dos seus bens doou-os a favor de melhoramentos dos hospitais civis de Lisboa, da maternidade Alfredo da Costa e da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal. Construiu ainda uma leprosaria na Tocha, hoje Centro de Medicina de Reabilitação.
Era lavrador. Dos seus vinhedos, que deixou, em Santo Isidro de Pegões, nasceu o vinho que eu hoje bebi.
E neste país, onde qualquer bicho careta, porque é presidente de um clube ou de uma outra qualquer futilidade, surge com ares de Presidente da República e já ganhou a imortalidade, é necessária uma garrafa de vinho para que um comum e mortal cidadão, tome conhecimento da existência de um benemérito desta monta.

Pudera, com tanto que há para fazer nos festejos de se ganhar um campeonato, não há tempo para nos debruçarmos sobre coisas banais!