sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

MORTE POR DESDOURO, VATICÍNIO EM MALHAL DE SULA

...Ao chegar a Malhal de Sula logo me saiu ao caminho o meu pai. Ele fazia toda a questão em saber como decorrera mais esta visita ao Conde de Cértima. Depois da primeira visita que eu fizera a D. Rodrigo Corga, o meu pai enchera-me de perguntas, querendo saber pormenores, para poder avaliar o meu desempenho, não como médico, evidentemente, mas como um plebeu que pretende impressionar positivamente um nobre senhor.
- Então Joaquim, como correu? – perguntava o meu pai, corroído de expectativa – como te tratou esse fidalgote do Pedro Corga?
- O filho do conde não estava, meu pai. Já abalou para o Porto para os seus afazeres das armas. Mas aconteceu uma coisa horrível.
- Que foi? Raios partam as obras do demo. Alguma te arranjou.
- Não, fique descansado. Nada teve a ver comigo. Nas terras do senhor conde apareceram mortos um homem e uma mulher.
- Santo Deus… - dizia o meu pai fixando-me com espanto.
- Segundo disseram as gentes do conde, os infelizes estavam para se casar.
- Ainda eram novos?
- Sim, bastante novos, à volta dos seus vinte a vinte cinco anos. E estavam mortos junto a uma velha capela, perfurados por lâmina.
- Há aí vacas encoiradas!
- Porque é que o meu pai diz isso?
- Então não se está mesmo a ver?! Iam p’ra se casar nessa capela e apareceu alguém que sentiu desdouro por esse casamento se ir fazer, e os matou para limpar a sua honra.
- O meu pai acha?
- Isso está de trombas, clarinho como a água.
- E o padre? – perguntei eu.
- O padre? Que padre?
- O padre que os ia casar?
- O padre fugiu espavorido ao ver a sangria.
- Como fala até parece que o meu pai esteve lá para ver.
- Mas olha, o regedor que vá falar com o padre do Luso e logo terá o nome do matador, tão certo como estarmos aqui.
- Bem me parece que meu pai dava um bom meirinho.

- Dava nada, rapaz. Isto sou eu a falar – dizia o meu pai, com uma certa vaidade escondida por tão depressa ter atinado na razão que estava por detrás daquelas mortes...(em continuação, pág. 47, ex. XXIV)
in Alma de Liberal
Junho/2009

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A BORDO DA NAU FROL DE LA MAR, PELO OCEANO ÍNDICO, NO SÉC. XVI

Aqui há uns tempos, como na altura tive oportunidade  de dizer, li um excepcional romance histórico da escritora Deana Barroqueiro, no caso «O Espião de D. João II», que de forma magistral me levou a viajar por África, em busca do reino cristão do  «Prestes João». Uma autêntica avalanche de deliciosas aventuras.
Agora tive a oportunidade de ler um outro livro, que não sendo um romance, é um excelente livro de investigação histórica, e que me conseguiu de novo transportar para aquela época, sem dúvida a nossa luminosa época dos Descobrimentos.
Nas caravelas e naus de D. João II e D. Manuel I pude viajar por esses mares desconhecidos, dobrando o Cabo da Boa Esperança, à descoberta do caminho marítimo para a Índia, e descobrindo, por engano, o Brasil. Viajei com alguns milhares de marinheiros portugueses, capitaneados por Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Francisco Almeida e Afonso de Albuquerque, durante cerca de quinze anos.
Tive o imenso prazer de conhecer bem por dentro a nau comandante da frota portuguesa, a Frol de La Mar, de quatrocentas toneladas, com a qual o grande Afonso de Albuquerque comandou as conquistas de Cochim, Calecute, Cananor, Goa e Ormuz, na costa do Malabar, na Índia.
Enfim, um livro entusiasmante, que nos relata a criação (por parte desse minúsculo país que foi e é Portugal), do «Primeiro Império Global», escrito pelo historiador inglês Roger Crowley.
Na Antiga Confeitaria de Belém, não muito distante da Torre de Belém, comem-se os nossos famosos pastéis de nata, que ali tomam a designação de pastéis de Belém, acompanhados por um saboroso café. Perto daqueles ares que viram partir as nossas caravelas e naus, para essa  emocionante e imortal aventura, a dos Descobrimentos, é possível experimentarmos os sabores que esses navios nos trouxeram de terras longínquas: a canela, o açúcar e o café. Esta a mensagem com que Roger Crowley termina o seu livro: Conquistadores, Como Portugal Criou o Primeiro Império Global.

Para quem tem orgulho em ser português!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

QUANDO DE PALAVRAS SE PREENCHE UMA PÁGINA EM BRANCO

Momentos introspectivos excepcionais, em que se fecha a porta deste mundo e se abre a porta de um outro, onde se buscam os que nos devem o nome, a alma, a personalidade, os defeitos e as virtudes, em suma a vida, os quais amamos profundamente e que passarão, com muito orgulho, a fazer parte das nossas próprias vidas, mesmo no mundo do qual fechámos a porta.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

CAPELA DE MORTE, FLORESTA SINISTRA

...Coisa estranha aquela, de um homem e uma mulher que preparavam o casamento serem assassinados. Na minha preparação para médico vira e mexera em muitos cadáveres, mas esses eram mortos sem nome, sem história, apenas matéria podre na qual aprofundei os meus conhecimentos de anatomia. Mas os mortos que naquele dia vira, haviam sido pessoas com uma existência, com uma história de amor ceifada brutalmente. Foram os primeiros defuntos com que me confrontei após me ter formado; e questionei o mundo e os homens… e Deus. Que desígnios teria Deus para que permitisse que tais barbaridades acontecessem?

         A visão daqueles defuntos, na minha mente se sobrepunha à recordação da imagem de uma Maria Clara infeliz, suplicante. Nesse dia não pensei nela. Aquelas mortes preenchiam todos os meus pensamentos. Dois noivos a quem alguém tirara a vida junto a uma capela!! Tinha sido uma visão sórdida demais!... (em continuação, pág. 46, ex. XXIII)
in Alma de Liberal
Junho/2009

sábado, 7 de janeiro de 2017

ATÉ SEMPRE MÁRIO SOARES

Morreu Mário Soares.
Vivi a alegria, o entusiasmo e a esperança com que Portugal recebeu Mário Soares, aquando do seu regresso do exílio, três dias depois do 25 de Abril.
         O político das grandes decisões portuguesas: a descolonização e a adesão à CEE.
         Por isso mesmo, provavelmente, o político mais controverso de Portugal.
          Mas um exemplo de competência.

         Obrigado Dr. Mário Soares!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

ANO NOVO, UMA ESPERANÇA CHAMADA GERINGONÇA

Pela primeira vez me aproximo duma passagem de ano na condição de pleno dono do meu tempo. A não ser que haja por aí alguma proposta de trabalho, que me seja deveras aliciante, o mundo apresenta-se-me de forma a dispor dele a meu belo prazer. Mas, muito embora seja mais dono de mim mesmo, isso não faz de mim um homem mais feliz do que era, porque os problemas com que me debatia antes de me reformar, continuam presentes. E nesses incluo, porque sou um cidadão deste mundo, os problemas que o mundo enfrenta e que acabam por serem meus também. Se assim não o sentisse, era um tipo completamente inconsciente. Mas parece-me que os há por aí.
E claro, um dos maiores problemas que o mundo enfrenta neste momento, é sem qualquer dúvida a questão dos atentados terroristas. Qual a fórmula para lhes pôr cobro? Não a conheço, não a imagino sequer, dado a sua génese se basear numa conduta criminosamente cobarde. Parece-me que nós, europeus do século XXI, estamos a pagar a factura das atrocidades cometidas pelos  nossos cruzados dos séculos XI, XII e XIII, na Terra Santa, que de santa nunca nada teve e continua a não ter.  Muito têm de reflectir os responsáveis pela segurança.
Por falar na Terra Santa, é de lá que, na sua grande maioria, fogem daquela santidade demoníaca os muitos e muitos milhares de refugiados que têm invadido a Europa, sem que os nossos governantes tenham dado uma resposta verdadeiramente convincente, ou tenham terminado a sua vida aterrorizada nas águas fechadas do Mediterrâneo, para vergonha da nossa quase solúvel solidariedade.
Como se isto não bastasse aí temos um grande ponto de interrogação vindo dos Estados Unidos. O que virá dali? Se o conteúdo for feito da mesma massa da montra «Trumpesca», acho que muita instabilidade aguarda o mundo.
E o que dizer das alterações climáticas, das atrocidades que as sociedades altamente industrializadas continuam a perpetrar contra o ambiente? Não se iludam. Estamos a produzir agora condições que irão provocar um colapso do planeta para o final deste século. Isso não vos preocupa?
E por cá? Por cá as coisas estão um pouco melhores. Existem aqui e ali nuvens de esperança. Sabem o que é uma geringonça? É uma coisa atamancada! No dizer do PSD/CDS, é uma geringonça que governa o nosso país. Mas o governo deles foi tão fraco, tão fraco, que a geringonça, mesmo sendo uma coisa improvisada, conseguiu fazer um trabalho muitos furos acima do governo Passos-Portas-Cavaco. Devolveu-nos a esperança, devolveu-nos a nossa identidade histórica, soube opor-se com êxito às regras do FMI mostrando que continuamos a ser um povo soberano, e começou a colocar travões ao patronato, que sob as regras do anterior governo já considerava Portugal o paraíso dos paraísos. Assim possa este nosso governo de esquerda continuar nesse trabalho, a fim de devolver a dignidade a milhões de portugueses, que com os seus empregos precários pouco acima do desemprego se encontram.
E começou a tratar de contratar carpinteiros, que venham a conseguir abrir as portas que o anterior governo fechou aos nossos muitos milhares de jovens, que por essa Europa fora buscam a vida que o governozinho de direita lhes negou.
Finalmente dizer que temos um Presidente da República que me surpreendeu com a forma próxima e afectuosa como pratica a sua presidência. Se em tempos houve presidências abertas, Marcelo Rebelo de Sousa tem a presidência escancarada. Politicamente foi-me mostrando quem é e o que sabe, nas suas crónicas domingueiras durantes alguns anos, pelo que, muito embora seja oriundo do Partido Social Democrata, não me suscita apreensões. E eu ainda confio no meu instinto.
Por fim, digo que, deliciosamente, percorro, neste momento, as «arestas da terra e do mar», pelas ruas perigosas de um Portugal de 1960, e navego num lugre feito de aventura, muito trabalho perigoso nos bancos da Terra Nova, solidariedade entre camaradas de beliche de «rancho», e também de esperança, já que essa é sempre a última a morrer, mesmo quando o simples «dizer» era perigoso.

Votos de uma passagem de ano excelente e que 2017 seja para  vós sinónimo de uma vida muito feliz.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

PARA TODOS VOTOS DE UM FELIZ NATAL

A todos os que, durante o ano, vão passando por este humilde blogue, neste sentir natalício bem português, onde tem lugar um simples presépio, feito de ingenuidade e amor, que evolui em placas frias de xisto, que contrasta com o calor ameno de uma lareira, quero expressar os meu votos de um Santo Natal.

BOAS FESTAS!