quinta-feira, 18 de maio de 2017

FLORES À MEMÓRIA DOS AVEIRENSES QUE SOFRERAM PELA LIBERDADE

Há certos gestos que me sensibilizam enormemente, principalmente quando têm lugar em prol de causas esquecidas, excepto para quem executou esse gesto.
Hoje, ao passar junto ao obelisco «à memória dos aveirenses que sofreram pela liberdade», que foi erigido pelo Clube dos Galitos em Dezembro de 1909, reparei que na sua base se encontrava uma fresca coroa de flores. Foi este o gesto que me emocionou. É que anteontem, 16 de Maio, completou-se mais um ano sobre a primeira revolta liberal que ocorreu em Portugal, contra o regime absolutista de D. Miguel, a 16 de Maio de 1828, que além do povo envolveu também o Batalhão de Caçadores Dez, de que resultou o enforcamento de sete aveirenses ilustres na Praça Nova no Porto. Estava lançada a semente para a guerra civil que se aproximava, e que iria ditar o fim da monarquia absoluta em Portugal.

Tanto que pode significar uma coroa de flores!

domingo, 14 de maio de 2017

«AMAR PELOS DOIS», UM AMOR QUE DEMOROU 53 ANOS A SER REALIZADO

Estou muito feliz. Já tinha perdido as esperanças de ver Portugal a ganhar o Festival da Eurovisão.
A minha geração começou a acompanhar o Festival da Eurovisão praticamente ao entrar para a escola primária. Eu comecei na escola primária em 1962, e dois anos depois realizou-se o primeiro Festival da Eurovisão. Ainda me lembro muito bem de ver a cantora inglesa Sandie Shaw, surgir em palco descalça, em 1967, e nesse festival arrebatar o primeiro lugar. Desde logo comecei a amealhar desilusões, e algumas bem difíceis de digerir, já que por vezes levámos músicas muito bonitas.
Estou bem consciente do que escrevi antes e por tal razão, e pela primeira vez, muito satisfeito por os júris não terem concordado comigo, e a Europa em geral. Afinal a nossa música teve uma melodia com capacidade para derreter corações. Quebrou-se o enguiço, e de uma forma o mais simples possível: uma música acompanhada apenas com piano, com uma letra extremamente intimista e interpretada de uma forma suave, muito peculiar. Uma música «feita de sentimentos», como afirmou o seu intérprete Salvador Sobral. Não haja dúvida de que o jazz é uma enorme escola.
O Salvador foi mesmo o nosso Salvador e por isso se imortalizou na história da música em Portugal. É verdade!
Foram 53 anos a tentar. E ele foi o primeiro a consegui-lo, com uma música escrita pela sua irmã Luísa Sobral a quem também devemos esta honra. Por isso dar aos irmãos os meus parabéns acho que é muito pouco, mas nada mais tenho para lhes oferecer, a não ser estas palavras de gratidão muito sentidas.
E, claro, a minha promessa de que, no próximo inverno, com imenso prazer, ao som da vossa e nossa «amar pelos dois», ao calor de uma lareira, à vossa saúde e à de Portugal, erguerei bem alto um cálice de aguardente velha bem portuguesa.

Muito obrigado Luísa e Salvador Sobral!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

FÁTIMA, CEM ANOS DEPOIS

Não poderia ser indiferente à passagem do primeiro centenário das aparições de Fátima. Se o fizesse seria ingrato e incoerente comigo mesmo.
A 13 de Maio de 1917, pelos montes de Cova de Iria, em Fátima, uma pequena povoação do Distrito de Leiria num Portugal rural e recentemente republicano, três pequenos pastores, Francisco, Jacinta e Lúcia, afirmaram terem visto e conversado com uma senhora vestida de branco que pairava no ar. A partir desse momento nasceu um dos maiores fenómenos religiosos da Cristandade.
Depois de ter recebido a visita do Papa Paulo VI, em 1967, do extraordinário Papa João Paulo II, em 1982, 1991 e 2000 para a beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, do Papa Bento XVI, em 2010, chegou agora a vez do também extraordinário Papa Francisco rezar no Santuário de Fátima, que amanhã irá canonizar Francisco e Jacinta Marto.
Fátima é fé, essencialmente lugar que tem servido de bálsamo às dores físicas e da alma de muitos e muitos homens e mulheres de Portugal e do resto do mundo. Eu sou exemplo dessa força e dessa ajuda. Essa a razão que explica o fluxo de milhares e milhares de peregrinos, incessantemente, neste período de cem anos que se completa amanhã.

Santuário de Fátima, que alberga a santificada Cova de Iria, diferente e intenso de fé!
Obrigado a ti, Senhora de Branco em Fátima.

terça-feira, 9 de maio de 2017

FESTIVAIS DA EUROVISÃO, FRUSTRAÇÕES PORTUGUESAS. GENUÍNAS OU FABRICADAS?

Durante muitos anos fui um fervoroso seguidor do Festival da Canção e do Festival da Eurovisão. Noite de festival na televisão, para mim era noite de alegria e entusiasmo. Foi dessa forma que pude acompanhar o despontar de um carreira de tremendo sucesso, do grupo sueco ABBA, que em 1974 venceu o Festival da Eurovisão com a imortal música «Waterloo».
Mas, nesses meus muitíssimo bem acompanhados anos dos festivais, em que em Portugal se apostava em nomes sonantes da nossa canção, como António Calvário, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, José Cid, Carlos Paião, etc…, a seguir ao empolgamento ao ver a nossa canção em palco, vinha a frustração e o sentimento de injustiça imperava, ao ponto de abandonar a sala da televisão «de trombas». É que, durante muitos anos, levámos músicas de muita qualidade. No entanto, a melhor classificação que obtivemos até hoje foi um 7º lugar. Na generalidade ficámos sempre nos últimos lugares, senão mesmo com a lanterna vermelha nas mãos. Durante muitos anos, e na minha concepção de música, uma ou outra vez levámos canções que mereciam o primeiro lugar ou uma classificação acima do sétimo. Mas isso nunca aconteceu. Dizia-se que era a política a mandar. Aceitava-se. Portugal estava sob uma ditadura, o que era desprestigiante para o país. Mas depois veio o 25 de Abril, com a nossa Revolução dos Cravos, cheia de música e poesia, que nos trouxe a democracia, que nos colocou democraticamente em pé de igualdade com o resto da Europa. Mas nada aconteceu. Continuámos no Festival da Eurovisão a coleccionar lanternas vermelhas ou quase, mesmo quando em disputa com países recém criados, após a queda do muro de Berlim e o colapso da União Soviética. Perante esta persistente e, na minha opinião, pré-concebida má classificação, os cantores de nomeada deixaram de apostar no Festival da Canção, e iniciou-se um processo em que o Festival da Canção se transformou numa rampa de lançamento para novos nomes. Na minha opinião o Festival da Canção perdeu qualidade e eu desinteressei-me.
Hoje à noite, como tem acontecido em muitas outras noites, o nosso cantor parece ser a estrela da companhia. Parece que aquela plateia o vai ovacionar com profunda emoção. Das outras vezes essas demonstrações de entusiasmo revelaram-se «autênticas montanhas a parirem ratos».
A nossa canção que logo subirá ao palco é bonita, mas não passa de uma balada para ouvir à lareira numa noite de chuva. Não tem aquele carisma, aquela força necessária.
Mas como o nosso cantor é um Salvador…quem sabe!

         

sábado, 6 de maio de 2017

O ADEUS AO AQUARTELAMENTO DO NINDA

...Dois dias depois Rui Mendes via Álvaro ser transportado numa pequena avioneta, a qual levantava voo da pista improvisada, contígua ao aquartelamento do Ninda, com destino a Luanda. A avioneta cada vez se tornava mais pequena, sendo a sua rota seguida pelo olhar do alferes. Álvaro partira antes do tempo, vivo. Da maldita guerra já se livrara. Mas punha-se a questão: que tipo de paz iria ele encontrar?...


-... E foi assim senhor Victor que o seu filho Álvaro regressou, a tempo de passar o Natal de 1973 em casa.
-         Um natal que estava destinado a ser muito triste, mas que acabou por em certa medida traduzir uma mensagem de amor e esperança. O Álvaro quando chegou aqui foi internado no Hospital Militar. Ali esteve cerca de uma semana. Os sedativos eram fortes. Por isso o tempo em que esteve hospitalizado passou-o quase todo a dormir. Mas como não tinha ferida que se visse, mandaram-no para casa por algum tempo. O médico que o seguia, penso que era major, disse-me que enquanto ele não enfrentasse o problema não se iniciaria o processo de recuperação da perda. Recebemo-lo com a alegria possível. Quando entrou em casa quis ir de imediato ao meu escritório. Disse-me que fora ali o último grande momento de felicidade que vivera com a Catarina. Agarrou-se a mim, abraçou-me com muita força e chorou convulsivamente.
-         Não teve vontade de ver os pais de Catarina?

-         Nesse mesmo dia lá foi... (em continuação- Pág. 101, ex. XXXV)

in Visitados
Novembro/1999                              

segunda-feira, 24 de abril de 2017

CRAVOS VERMELHOS NO CAMINHO

MEMÓRIAS

…Naquela manhã tudo mudou.
Tal como em todas as manhãs saí de casa por volta das oito menos um quarto em direcção ao Liceu D. João III. Todas as manhãs passava nas imediações do quartel da GNR na Avª Dias da Silva. Naquela manhã achei que as coisas não estavam, na verdade, iguais. Existiam mais homens por ali, e sentia-se que estavam mais agitados. Ao chegar ao liceu existia no ar também agitação. Viam-se muitos professores pelos corredores. Perguntei a um colega se se passava alguma coisa. Respondeu-me que havia um problema qualquer em Lisboa. Dirigi-me para a sala de aulas onde já se encontravam alguns dos meus colegas, que mais nenhumas informações puderam acrescentar. Tocou para a entrada. Do professor…nada. Passaram-se os minutos e deu o segundo toque. O professor continuava a não aparecer. Passados mais uns minutos, quando já nos preparávamos para sair da sala, lá apareceu o professor que nos ia dar a aula, num grande nervosismo.
Entrou e mandou-nos sentar. Depois disse-nos que ia ser breve. Não iam haver aulas porque estava a decorrer em Lisboa uma revolução. Disse-nos que muito provavelmente o regime fascista iria cair. Perguntámos-lhe o que era o regime fascista. Ficou admirado de não sabermos. Dissemos-lhe que nunca ninguém nos tinha falado nisso. Sentíamos que o país não estava bem; sentíamos que não havia liberdade, pois que tudo o que se escrevia tinha de ir à censura, isso sabíamos, mas de regime fascista nunca nos tinham falado. E o professor explicou-nos. E naquela minha primeira sessão de esclarecimento, que durou cerca de meia-hora, percebemos bem em que tipo de regime vivíamos, e o motivo pelo qual se estava a dar aquela revolução. Ficámos a saber que existiam em Portugal muitas prisões de presos políticos, e que a do Tarrafal, no arquipélago de Cabo Verde, era a principal. E entendemos então que a guerra do ultramar mais não era do que a luta de povos pela sua liberdade, e que nós éramos os opressores, e que Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Macau e Timor, não eram nada Portugal. E que a pide era uma polícia política, que torturava pessoas para preservar a continuidade do regime fascista. E que o que se ouvia na rádio, altas horas da noite, (de que nós já tínhamos ouvido falar), transmitido pela BBC, uma rádio democrática, era a denúncia do que se ia passando em Portugal. E que a censura era uma coisa anormal, inimiga da criatividade e da verdade, característica apenas de regimes ditatoriais. E que um dos objectivos principais da revolução era o de terminar imediatamente com a guerra do ultramar, além de erradicar o totalitarismo e implementar uma democracia.
Foi uma meia hora intensa, talvez a mais intensa de toda a minha vida. Saímos da sala de aula com uma visão completamente diferente de tudo. Percebíamos agora que em Lisboa se lutava por deixarmos de ser quem tínhamos sido até ali. Percebíamos agora a preciosidade daquela manhã, em que a vida nos dava o privilégio de estarmos a viver uma revolução, tal como as tinham vivido os portugueses de 1910, 1640 e 1383.
A manhã foi decorrendo sob uma forte ansiedade. Depois chegou a notícia de que tropas, vindas de Lisboa, marchavam sobre Coimbra, porque o Governador Civil de Coimbra não se queria submeter aos revoltosos. E quando houve a certeza de que Marcelo Caetano e Américo Tomás haviam sido derrubados, alguém gritou que fossemos cercar as instalações da PIDE/DGS. E aí, com o sangue a ferver de ardor revolucionário, um magote enorme de estudantes do Liceu D. João III, onde eu me incluía, se lançou numa corrida desenfreada em direcção à pide, cuja sede em Coimbra se localizava a cerca de 500 metros do liceu.
A sede da pide localizava-se numa espécie de casa senhorial enorme, de arquitectura colonialista, com um jardim, rodeada a toda a volta por um forte e alto gradeamento, junto à qual existia um largo. Não muito longe encontrava-se o quartel general da Região Militar Centro. No largo já existiam algumas pessoas, mas após a nossa chegada, rapidamente o largo ficou super-lotado, com algumas centenas de pessoas ali existentes a gritarem todo o tipo de ofensas, dirigidas aos agentes da pide que se sabia estarem dentro da casa. Logo a seguir surgiram soldados do quartel vizinho, amontoados em unimogues, sorridentes, a corresponderem aos vivas que lhes enviávamos, e que, de certa forma, foram servir de segurança aos «pidescos».
E foi ali, naquele largo, mesmo junto ao edifício da pide, que em Coimbra se deu o primeiro grito de liberdade. Não sei se almocei nesse dia. Não me recordo a que horas é que fui para casa. Apenas me lembro de ali ter estado muito tempo, de ter visto muitos soldados a chegarem em berliets, com largos sorrisos nos rostos, levantando bem alto as G3, ao mesmo tempo que o povo os recebia com palavras de ordem, comuns a todo o país, por certo criadas e ordenadas por alguém, que diziam: «O POVO ESTÁ COM O MFA, SOLDADO AMIGO O POVO ESTÁ CONTIGO, O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO».
Depois, pelos dias fora, foi uma permanente necessidade de acompanhar o curso dos acontecimentos pela televisão, ao mesmo tempo que eu participava em enormes manifestações pela Baixa de Coimbra, onde dava a sensação que o povo, porque era tanto, escorria pela Visconde da Luz, em direcção à Rua da Sofia. E então tudo o que estivera camuflado saltou para a ribalta: os Fortes de Caxias e o de Peniche, que nós nem sequer sabíamos que existiam, abriram as suas portas e começámos a ver essa espécie humana que de nós fora escondida- os prisioneiros políticos, a serem libertados, com muitas lágrimas e abraços apertados. Ouvimos a expressão: «Conselho da Revolução» a ser pronunciado, e claro, o eternamente belo MFA- Movimento das Forças Armadas. Surgiu o termo «bufo», espécie de homo sapiens português altamente nocivo à sociedade, que em tempos, por troca de um ou outro favor, denunciava semelhantes seus à pide, como sendo perigosos opositores ao regime.
E depois surgiram as canções de intervenção, a primeira das quais havia ganho o Festival da Canção desse ano- E Depois do Adeus, cantada pelo Paulo de Carvalho, que serviu de senha (viémos a saber depois) para o arranque do movimento. Logo a seguir veio a Grândola Vila Morena, do Zeca Afonso. O próprio Zeca Afonso tornou-se um herói nacional, com a panóplia de músicas que compusera, que cantavam e denunciavam a escuridão do regime fascista, canções que nós, até então, desconhecíamos. E sucederam-se outros autores e intérpretes. E depois chegou o momento do país ficar a conhecer os grandes Álvaro Cunhal e Mário Soares, exilados políticos, outra expressão que ficámos a conhecer a partir daí. E um nome que a todos aconchegou o coração- Salgueiro Maia, o grande Capitão de Abril, que comandou a coluna militar que saindo de Santarém marchou sobre Lisboa, e que deu o peito às possíveis balas em prol da possibilidade de uma revolução. E o Major Otelo Saraiva de Carvalho que esteve ao comando das operações, num gabinete, em Lisboa, e que mais tarde, como general, viria a comandar uma força militar que, durante algum tempo, controlou todo o país- o Copcon. E o então capitão Vasco Lourenço, outro muito famoso capitão de Abril, pela sua entrega ao Conselho da Revolução, e que, ainda hoje, passados quarenta e três anos, me transmite esse ardor revolucionário e me consegue mostrar ainda o rosto do 25 de Abril. E o General Spínola, que viria a ser o primeiro presidente da república, em democracia, depois do «corta-fitas» Américo Tomás.
E vimos todo o país ficar manchado de encarnado, a mancha formada por milhares e milhares de cravos vermelhos, que formaram um incomensurável tapete no caminho da liberdade.
Cinco dias depois festejei o meu 18º aniversário. Em casa, nesse dia 30 de Abril de 1974, ofereceram-me uma máquina fotográfica, uma Kodak, que eu ainda hoje possuo e guardo como um objecto de enorme simbolismo, pois foi uma oferta simultânea a uma outra: a oferta da liberdade e a certeza de não ir combater para o ultramar. Nesse dia, reuniram-se lá em casa, na Rua Luís de Camões, alguns dos meus melhores amigos de Coimbra, a minha prima Maria João e dois amigos que vieram de Barrô. Guardo uma fotografia desse dia onde os meus amigos fazem, com os dedos, o V de vitória, muito comum por esses dias.
Já passaram quarenta e três anos, mas por mais anos que viva guardarei no peito esse momento único da minha vida, e na vida do meu povo, o sentir uma revolução a correr-nos nas veias.
25 de Abril de 1974, o dia em que floriram cravos vermelhos no caminho!...

in PROSAS PELAS JANELAS DA VIDA livro I


domingo, 23 de abril de 2017

ESCRITORES, OS MÁGICOS DA HUMANIDADE

Neste dia mundial do livro, quero expressar o meu agradecimento a todos os escritores que, ao longo da minha vida, me proporcionaram horas fantásticas de magia, de aventura e de conhecimento, com um especial realce para Eça de Queiroz, Deana Barroqueiro, Jesús Sanchez Adalid, Stephen Lawhead, Anthony Burgess, Robyn Young, George R.R. Martin e Ken Follett. Sem eles o mundo seria muito mais pequeno e cinzento.