...Ao longe avistava-se o verde denso da floresta equatorial. Naquela imensa clareira, onde o maciço arvoredo fora rasgado, estava situado o aquartelamento do Ninda. Camaratas feitas de madeira perfilavam-se longitudinalmente sobre quatro linhas imaginárias, formando um rectângulo com as dimensões de um campo de futebol. No lado interior das camaratas estendia-se a parada, onde os militares faziam as suas formaturas diárias. No lado exterior era a vastidão de Angola, a área onde o perigo espreitava a qualquer momento, onde uma mira traiçoeira podia apontar a qualquer um. A cerca de cinquenta metros das camaratas existia uma vala que circundava todo o aquartelamento, com um metro e meio de profundidade por dois metros de largura. Tinha aquela vala por objectivo dificultar o acesso ao aquartelamento. Acompanhando toda a linha interior da vala, era visível a arrepiante vedação defensiva em arame farpado. Para reforçar a defesa, em toda a volta do aquartelamento rectangular, foram construídos seis abrigos, feitos de tábuas e argamassa, envoltos com pilhas de sacos de areia. No interior de cada abrigo posicionava-se uma sentinela, que permanentemente vigiava a exuberante floresta. De um desses abrigos, numa noite, partira um alerta. Uma rajada de metralhadora avisara toda a companhia ali aquartelada que do lado de fora existia perigo.
Fora uma bela noite de luar. Um soldado, que acabara de sonhar com um beijo macio e ardente da sua distante namorada, percepção essa trazida por aquela lua brilhante, desassossegadora do coração dos homens, viu subitamente alguns vultos mancharem a luz azulada do luar. Firmou bem a visão e a audição. Sentindo que havia movimento a aproximar-se da vala, não hesitou. A sua G3 cuspiu fogo e anunciou a chegada dos «turras» , o inimigo, o «in». De imediato a noite no exterior do arame farpado se encheu de inúmeros pontos vermelhos de fogo. As Kalachnikov terroristas disparavam .
Por entre vozes de comando e berros de surpresa e aflição, a companhia corria pela parada térrea, aparentemente atarantada. Mas a defesa estava montada e pré concebida. Apenas no Ninda haviam explodido duas granadas, lançadas pelas bazucas inimigas, e já a companhia dava a sua resposta. Muitos « very-lights » foram lançados. Iluminando na sua queda lenta de pára-quedas toda a área envolvente do aquartelamento, as luzes da noite afugentaram os inimigos para mais longe, para a protecção da floresta. Mas o ataque continuou, pois as armas soviéticas do «in» tinham um longo alcance. Balas e granadas fustigaram o Ninda por um período que aos soldados portugueses pareceu eterno. Rastejando, colados ao chão, oprimidos pela humidade e o calor, tentavam ser imunes ao fogo terrorista, ao mesmo tempo que tentavam o mais possível serem dissuasivos. Depois, a calma regressara. As balas deixaram de zumbir e assobiar. As granadas pararam de espalhar o seu enxame mortífero. Lentamente a companhia recompunha-se do ataque. O soldado que sonhara com a namorada, mantinha-se deitado, espreitando pela pequenina abertura do abrigo, protegido pelos sacos de areia. No meio da sua história de amor, fora acordado, quem sabe, se por alguma farpa do deus Marte, e tivera tempo e discernimento para dar o alerta. Sabia agora que tudo na vida tinha o seu espaço e o seu tempo. Ali, no seio daquela floresta bela, luxuriante, fervilhante de vida, mas também inóspita, traiçoeira, perigosa e letal, não havia lugar para o amor, porque o amor è doçura, carinho, suavidade, vida. E ali era a guerra. E na guerra só existe brutalidade, bestialidade, e o perigo sempre eminente de perder a vida e ganhar a morte. Como escaldava o cano da G3 daquele jovem soldado...(em continuação- pág. 54, ex. IX)
in VISITADOS
Novembro/1999
O tempo nos marca com saudades...
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