...Um subchefe
meio trôpego, com aparência de carroceiro, olhos esbugalhados pelo muito álcool
bebido em excesso, o cabelo cheio de caspa, o colarinho da camisa cinzenta da
farda denunciando o uso abusivo sem ter sido lavada, transmitindo uma imagem
que pouco ou nada se coadunava com as suas funções de chefia, numa instituição
pública, acabara de fazer a formatura do primeiro turno de serviço daquele
Domingo de Outubro de Mil Novecentos e Oitenta e Seis. A formatura era composta
por oito homens, sendo eu um deles. Perfilávamo-nos em duas filas de quatro,
num dos claustros do antigo convento setecentista das carmelitas, ocupado desde
o principio do século pela Policia de Segurança Pública. Aquela formatura
realizava-se, pois, nas instalações do Comando Distrital da PSP de Aveiro.
O subchefe, numa conversação tosca,
atrofiada e confusa, tentando exprimir-se no seu paupérrimo português,
interrompido aqui e ali pelo horrível hábito de sugar as excreções das fossas
nasais e cuspi-las logo a seguir, transmitia a relação de matrículas
correspondentes a carros roubados. Os guardas, que tomavam nota daquelas
matrículas, faziam-no de várias maneiras. Os menos aplicados escreviam num
papel amarrotado que lhes dançava num dos bolsos das calças; outros, um pouco
mais conscenciosos, anotavam as matrículas em papéis que para o efeito
guardavam num dos bolsos do dólman; por último, os mais zelosos faziam as suas
anotações em pequenas agendas de bolso.
Transmitida a relação dos carros
roubados, o subchefe com funções de comandante da guarda, fez ainda algumas
determinações, tais como- «o giro não pode ser abandonado», como se entrado o
guarda no seu giro de serviço e por qualquer razão se ausentasse, o tal giro
ficaria desnorteado, andaria sem rumo, aflito pela ausência do seu protector.
Com certeza que as pessoas que viviam na área do tal giro, se iriam sentir
muito infelizes quando dessem conta de que o guarda, que as havia beneficiado
com a sua magnânima presença, resolvera ausentar-se. Entrariam em pânico!
Serôdio sorriu com esta imagem que
imaginara. O guarda não podia abandonar o giro, porque com a sua ausência o
giro entraria em colapso.
Serôdio era um dos oito guardas que
constituíam a formatura matinal daquele Domingo. Nós os oito, maquinalmente,
subimos em grande algazarra as escadas de pedra que levavam ao primeiro andar,
polidas pelo tempo, e fomos à sala de transmissões, onde operava o número
nacional de emergência «115», buscar os obsoletos e pesados rádios «Motorola»
para transmitirmos o que fosse necessário ser transmitido. Qualquer turno de
serviço era assim que começava.
Já na rua, Serôdio dirigiu-se para o
giro que tão ansiosamente o aguardava. Voltou-se a rir, a rir sozinho, quando
imaginou os moradores da sua área de serviço, que debruçados nos beirais das
janelas o aguardavam ansiosamente. Ao verem-no finalmente chegar, todos
respiravam de alívio.
Que desilusão!! Ao chegar ao seu giro,
Serôdio olhou vagamente para os prédios. Todas as janelas estavam fechadas e as
persianas corridas. Se se ausentasse, o tal giro nem iria saber que ele ali
estivera.
Mas estava! E por ali iria permanecer
nas próximas seis horas. Naquela manhã tinha a seu cuidado patrulhar as ruas
Dr. Mário Sacramento e S. Sebastião. A meio do percurso ficava a sua casa e a
casa dos seus pais, ainda na Viela da Fonte dos Amores. Talvez pudesse fazer um
pequeno desvio... Deus o livrasse de tal ideia! Estava em Aveiro havia poucos
dias, não queria por isso arranjar sarilhos. O subchefe que estava de ronda não
tinha boa cara. Ele ainda era muito novo naquelas andanças, para facilitar!...(em continuação, pág. 79, ex. XXVI)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003
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