domingo, 29 de julho de 2012
AQUI TAMBÉM É PORTUGAL
No meio da planície salina, em que a civilização se desenrola lá longe, no reboliço de Aveiro, Portugal sorri ao vento e ao mundo, num abraço forte aos 77 olímpicos que em Londres defendem o sentir e a memória da gente lusitana.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
2143 ANO MIL
Porquê?
Uma das razões é sem qualquer dúvida o fraco poder económico dos casais, e as actuais fracas perspectivas de futuro, que faz com que tenham receio de ter filhos, porque têm medo de não possuírem condições que lhes garantam uma vida condigna.
Por outro lado implementou-se em Portugal, depois do 25 de Abril, a crise do casamento. Progressivamente tem-se assistido ao enfraquecimento dos vínculos do matrimónio, em prol de uma vida muito mais liberalizada, sem grandes responsabilidades afectivas, fruto de uma alteração comportamental dos jovens portugueses.
Resultado: uma estatística saída há poucos dias, diz-nos que no primeiro semestre deste ano nasceram em Portugal 45000 bebés.
As nações são feitas de pessoas. Uma nação sem gente é apenas terreno. Pelo andar da carruagem, num tempo não muito distante, os portugueses correm o risco de entrarem em processo de extinção.
Que identidade terá este quadrado fantástico, a um canto da Península Ibérica semeado, no ano de 2143, ano em que se comemorarão 1000 anos sobre a independência que um tal Afonso Henriques conseguiu obter para um reino que idealizou?
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Prof. José Hermano Saraiva: a voz de Portugal que se calou
Faleceu o Prof. José Hermano Saraiva, após uma vida de 92 anos. Professor universitário, advogado, ministro da educação, embaixador de Portugal no Brasil, viria a ser a sua extraordinária capacidade de comunicação, aliada a uma sólida cultura, que verdadeiramente o notabilizou. Também formado em história, soube, como ninguém, divulgar a nossa história, não só em Portugal, como pelos quatro cantos do mundo, através dos seus inesquecíveis programas passados na RTP 2, inseridos em várias séries, como: «A Alma e a Gente», «Histórias que o Tempo Apagou» e «Lendas e Narrativas». Durante anos percorreu o país, de lés a lés, contando não só a história nacional ligada ao local em que se encontrava, mas também a história local, com um contagiante entusiasmo. Fez programas desde o mais recôndito lugar de Trás-os-Montes à longínqua Macau, passando pelos arquipélagos da Madeira e Açores, deliciando todos os que se interessam pelas coisas da história, e pela história do povo. Por exemplo, são verdadeiramente emocionantes os programas dedicados aos enormes Condestável D. Nuno Álvares Pereira e Eça de Queirós, bem como à tradição Coimbrã. Um português que verdadeiramente cantou Portugal, que soube interpretar muito bem o passado, dando hipóteses de soluções para o futuro. Guardo preciosamente algumas dezenas de horas ouvindo-o falar, que me continuarão a dar imenso prazer. Por tudo quanto me ensinou, obrigado Prof. José Hermano Saraiva.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
ECOS DE GUERRA- O QUE OS OLHOS NÃO ALCANÇAM MAS A ALMA SENTE
...- Tu foste combatente?
- Em França, na Flandres.
- Tu António, tu és sobrevivente da batalha de La Lys?
- Assim é senhor padre. A muito custo, como o demonstra o meu rosto, mas aqui estou mais rijo do que nunca.
- Porque razão não te tens dado a conhecer?
- Estive entre a vida e a morte. Durante a batalha fui duramente castigado pelas armas alemãs. Desmaiei. Quando recuperei os sentidos estava-se no fim da tarde. Encontrava-me rodeado de cadáveres, uma visão horrível senhor padre. Os campos alagados da Flandres eram um perder de vista de gente morta. O cheiro a podre enchia-me as narinas. Levantei-me como pude. Tinha um golpe profundo no rosto. Eu era uma pasta de sangue. A baioneta que me feriu o rosto e me cegou uma vista, estava junto a mim, manchada com o meu sangue. O seu dono também, um alemão jovem. Que Deus tenha a sua alma em descanso, que ele foi um desgraçado tal qual eu. Não conseguia falar, não sentia o meu rosto. Comecei a caminhar. Muito dificilmente me distanciei daquele cemitério a campo aberto. Estava vivo, era um milagre. Vivo, mas vivo para quê?
- Não digas isso homem. Não sejas mal agradecido. Deus devolveu-te a vida. Deves estar grato e vivê-la o melhor que puderes e souberes.
- Senhor padre, eu sei o modo de viver uma vida melhor do que esta, só que não posso, porque a minha consciência não me deixa.
- A tua consciência? Mas que crime cometeste tu?
- Nenhum. Fui casado. A minha mulher julgou-me morto em França. No estado em que estou, não fui capaz de me chegar a ela. Se nem o Barreto Raposo me reconheceu, já o senhor padre pode fazer ideia de como estou desfigurado. E depois... sabe senhor padre... já não consigo ser homem. Entende-me senhor padre?
- Mas é claro António. E a Luísa não iria entender isso?
- Talvez entendesse, é mulher para isso. Mas eu iria andar desconfiado. Feio como estou, inútil como me sinto, casado com uma mulher bela como é a Luísa, mais tarde ou mais cedo eu próprio iria criar o meu inferno. Ela já se habituou à ideia da minha morte. Casou-se há poucos dias. Soube-o por uma conversa que ouvi a um dos da herdade, que foi ao Bombarral levar gado à feira, ao serviço do Barreto Raposo. Eu sabia que isso se estava a preparar. Mas saber a situação concretizada deu-me volta aos miolos. Eu ainda a amo senhor padre.
- Mas homem, ela não é viúva.
- É sim senhor padre. O António Avilar com quem ela se casou ficou em França. Este que está aqui na sua frente é uma sombra desfigurada. A guerra corrói todos os nervos a um homem. Transforma-o. Eu estou transformado de duas maneiras: no que se vê e naquilo que os olhos não alcançam mas a alma sente. Por isso resta-me acabar uma tarefa, de alguma maneira fazer pagar à origem do meu mal toda a desgraça para onde me empurrou.
- Quais são as tuas intenções?
- Essencialmente restituir a herdade aos pequenos.
- E depois?
- Depois irei por esse mundo fora. Nada tenho para oferecer à minha filha Rosa. Ela está bem. A mãe arranjou-lhe um padrasto rico. Também me sinto rico senhor padre. Todas as terras me servem de casa. Não é uma felicidade? - e dos olhos de António Avilar brotavam mais lágrimas...
(em continuação, pág. 100, ex. XXXIV)
in Quando Um Anjo Peca
Março/1998
quarta-feira, 18 de julho de 2012
O MEU ADEUS A JON LORD
A memória dos anos 70 está de luto. Faleceu Jon Lord, o insubstituível teclista dos Deep Purple. A minha alma rockeira está de luto. O mundo da música perdeu um dos seus grandes executantes. Faleceu um ícone dos anos 70. A ti, Jon Lord, nunca poderei retribuir a magia que trouxeste á minha vida, através da música que criaste. Que o céu te receba!
terça-feira, 17 de julho de 2012
POSSO?
Posso?
É que a boa conduta em sociedade manda que sejamos minimamente educados, quando entramos num local a que somos estranhos, ou no qual corremos o risco de o ser, devido à nossa prolongada ausência. É o caso. Eu sei que fui eu que te criei, meu caro amigo, sei que és um futrica do Mondego porque eu quis que assim o fosses, á minha imagem e condição. Sei também que ninguém mais aqui entrou, mas mesmo assim te peço licença para entrar…obrigado!
É com imensa alegria que o faço, porque, independentemente de tudo, nunca te esqueci (muito embora tentasse forçar esse esquecimento). Agora que já cá estou dentro terei de reaprender muitas coisas, possivelmente conhecer algumas novas. Transmitir aos outros um pouco do que nós pensamos e sentimos, é uma forma de estarmos intelectualmente activos. Eu preciso disso.
No entanto, meu caro amigo, desde já te aviso que se embarcaste nessa nova onda do acordo ortográfico, vais detectar muitos erros nesta minha escrita. Eu assumo isso, com galhardia, e tu também o deves assumir. Nós somos portugueses, como tal devemo-nos preocupar em escrever o português da língua mãe. Não percebo muito bem essa justificação de que o acordo é necessário, porque assim o exige a evolução. Não vejo em que é que haja evolução na subtracção (subtração no novo português) das consoantes «c» e «p». A língua fica descaracterizada. E eu prezo muito o meu velho professor da escola primária, o professor Carlos, nessa Escola bem coimbrã como foi, e continua a ser, a Escola Primária do Arco de Almedina, onde aprendi muito bem as minhas primeiras letras.
De futrica para futrica, o meu grande abraço!
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
MONDEGO, RIO CRIATIVO
...A minha vida, em Coimbra, era regulada pelo padrão eclesiástico do convento de Santa Cruz. Embora não tivesse intenções de me dedicar à vida do sacerdócio, tinha de viver consoante as regras pelas quais era regulamentada a vida dos frades. Enquanto o reino lambia as feridas deixadas pelos franceses e o povo tentava sobreviver numa terra devastada, a minha existência como que decorria dentro de um casulo, preocupando-me apenas em absorver conhecimento, completamente abstraído das convulsões que, no exterior do convento, tinham lugar.
Durante esses oito anos fui visitar os meus pais apenas em quatro ocasiões. Em cada uma delas, os meus pais encontravam-me sempre diferenças: mais alto e mais homenzinho. Eu gostava de apreciar o reboliço que ia por Malhal de Sula, e já com quinze anos, numa das vezes que visitei os meus pais, quis participar nos trabalhos da lavoura, quis ter a noção do que seria ser lavrador como o meu pai, pretendi, enfim, dar-me a conhecer àquele chão que um dia iria ser meu. Mas o meu pai disse-me, com um sorriso, que os doutores não tinham sido feitos para amanhar terras. Não queria que eu, ao pegar num cabo de enxada, rebentasse mãos tão mimosas, sem calosidades, mãos que haviam sido feitas para apalpar barrigas de gente e mexer em instrumentos complicados.
E eu nunca soube o que custou fazer de Malhal de Sula uma terra fértil.
Entrei finalmente na universidade. Ao despedir-me de frei Lourenço, com os olhos rasos de lágrimas, não tinha a verdadeira noção do quanto a minha vida iria mudar.
No lugar em que me encontro já algumas vezes me cruzei com frei Lourenço. Faz parte do meu grupo espiritual. Como frade, viveu ele a sua última experiência terrena. Nessa época, frei Lourenço foi uma pessoa muito influente na minha vida, a quem devi a base sólida da minha formação. Pena foi que a causa que abracei então, o liberalismo, tivesse considerado frei Lourenço uma inutilidade. Mas, mais uma vez, liberalismo era coisa de política, e como a política foi criada pelos homens, logo o liberalismo não podia ser perfeito.
Ao entrar na universidade, tomei contacto com uma cidade que desconhecia, embora lá vivesse havia oito anos.
Através da velha universidade de Coimbra tive acesso a toda uma cidade que fervilhava de paixão, romantismo, tradição. As tricanas do Mondego inundaram de beleza a minha vida. Por duas ou três dessas tricanas bateu fortemente o meu coração apaixonado, em noites de lua cheia, tão próximo que estava do astro brilhante, num céu de escura magia, sentado numa lapa do Penedo da Saudade; senti o encanto das ruas empedradas e estreitas da Alta, como a Rua da Matemática ou a Rua da Ilha, paredes meias com a imponente Sé Velha; o Mondego, cujas águas feitas de saudade, me transmitia uma melancolia saborosa, quase me transformando em poeta. Rio que dá liberdade à mente, a solta, a faz vibrar, a aproxima do que mais belo há no ser. Não há no mundo outro assim; e a sempre eterna rivalidade entre nós, estudantes de Coimbra, e os futricas, potenciais maridos das tricanas. Quantas disputas foram resolvidas a varapau! Cabeças rachadas, sangue que corria, a capa negra rasgada, a tradição que se impunha…e os ecos do liberalismo, que varreram a velha academia com um ímpeto avassalador. Ali não existia um único coração que não fosse anti-britânico. Sentia-se que as invasões francesas eram coisas do passado, como se tivessem ocorrido há muitos anos. Impunha-se… exigia-se o regresso de El-Rei D. João VI ao reino. E o rei acabou por vir… e com ele, veio a guerra…uma vez mais...(em continuação, pág. 18, ex. VIII)
in ALMA DE LIBERAL
Junho/2009
Durante esses oito anos fui visitar os meus pais apenas em quatro ocasiões. Em cada uma delas, os meus pais encontravam-me sempre diferenças: mais alto e mais homenzinho. Eu gostava de apreciar o reboliço que ia por Malhal de Sula, e já com quinze anos, numa das vezes que visitei os meus pais, quis participar nos trabalhos da lavoura, quis ter a noção do que seria ser lavrador como o meu pai, pretendi, enfim, dar-me a conhecer àquele chão que um dia iria ser meu. Mas o meu pai disse-me, com um sorriso, que os doutores não tinham sido feitos para amanhar terras. Não queria que eu, ao pegar num cabo de enxada, rebentasse mãos tão mimosas, sem calosidades, mãos que haviam sido feitas para apalpar barrigas de gente e mexer em instrumentos complicados.
E eu nunca soube o que custou fazer de Malhal de Sula uma terra fértil.
Entrei finalmente na universidade. Ao despedir-me de frei Lourenço, com os olhos rasos de lágrimas, não tinha a verdadeira noção do quanto a minha vida iria mudar.
No lugar em que me encontro já algumas vezes me cruzei com frei Lourenço. Faz parte do meu grupo espiritual. Como frade, viveu ele a sua última experiência terrena. Nessa época, frei Lourenço foi uma pessoa muito influente na minha vida, a quem devi a base sólida da minha formação. Pena foi que a causa que abracei então, o liberalismo, tivesse considerado frei Lourenço uma inutilidade. Mas, mais uma vez, liberalismo era coisa de política, e como a política foi criada pelos homens, logo o liberalismo não podia ser perfeito.
Ao entrar na universidade, tomei contacto com uma cidade que desconhecia, embora lá vivesse havia oito anos.
Através da velha universidade de Coimbra tive acesso a toda uma cidade que fervilhava de paixão, romantismo, tradição. As tricanas do Mondego inundaram de beleza a minha vida. Por duas ou três dessas tricanas bateu fortemente o meu coração apaixonado, em noites de lua cheia, tão próximo que estava do astro brilhante, num céu de escura magia, sentado numa lapa do Penedo da Saudade; senti o encanto das ruas empedradas e estreitas da Alta, como a Rua da Matemática ou a Rua da Ilha, paredes meias com a imponente Sé Velha; o Mondego, cujas águas feitas de saudade, me transmitia uma melancolia saborosa, quase me transformando em poeta. Rio que dá liberdade à mente, a solta, a faz vibrar, a aproxima do que mais belo há no ser. Não há no mundo outro assim; e a sempre eterna rivalidade entre nós, estudantes de Coimbra, e os futricas, potenciais maridos das tricanas. Quantas disputas foram resolvidas a varapau! Cabeças rachadas, sangue que corria, a capa negra rasgada, a tradição que se impunha…e os ecos do liberalismo, que varreram a velha academia com um ímpeto avassalador. Ali não existia um único coração que não fosse anti-britânico. Sentia-se que as invasões francesas eram coisas do passado, como se tivessem ocorrido há muitos anos. Impunha-se… exigia-se o regresso de El-Rei D. João VI ao reino. E o rei acabou por vir… e com ele, veio a guerra…uma vez mais...(em continuação, pág. 18, ex. VIII)
in ALMA DE LIBERAL
Junho/2009
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