sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

DEVOLUÇÃO


Estou com quarenta e cinco anos de idade. Segundo a letra da canção do Paco Bandeira entrei na idade de uma ternura muito específica, que além de sentimento tem também experiência e sabedoria. E estou tentado a dar-lhe razão.
De facto a idade dos quarenta é um patamar cronológico de vida, que se pode considerar de excelência. Alia conhecimento a uma ainda enorme vitalidade. Que pode o ser humano querer mais?
Pois aí é que está a questão. No mundo que o homem foi moldando, conhecimento e vitalidade não chegam para se ser feliz! Talvez isso acontecesse naqueles tempos distantes, no fim da Era dos Neandertais e o começo do Homo Sapiens, em que a vida não conhecia a expressão «possuir bens».
Nessas épocas tão distantes de nós, há vinte e oito mil anos, a felicidade dos seres humanos de então residia em três coisas: ser um experimentado caçador, ter uma caverna onde se abrigar e ser muito bom a conseguir, com o atrito de duas pedras de sílex, uma boa faísca através da qual ser-lhe-ia possível fazer uma boa fogueira, para se aquecer e assar a carne da caça.
Mas o Homo Sapiens estava destinado, pelo criador disto tudo, a evoluir. Ao fazê-lo, esqueceu a felicidade daquela vida agreste, difícil, mas com a pureza do que é simples, e começou a complicar. E de complicação em complicação, atravessando a profundidade dos séculos, conseguiu complicar o que já de si foi ficando complicado: inventou o dinheiro!
A partir dessa invenção, ser saudável e ter experiência e conhecimento deixou de bastar para se ser feliz.
Os pobres, na tentativa de mitigarem o seu sofrimento, criaram a expressão: «dinheiro não é felicidade». Como eu gostaria que assim fosse!
Eu sei que há muita gente que, sendo rica, não é feliz. Falta-lhe a saúde. Mas perguntem a um miserável, cheio de saúde, se é feliz. Ele até pode tentar convencer-se de que o é, pois tendo uma vida para viver, tem de a concretizar da melhor maneira possível. Mas num mundo consumista e materialista, que vida pode ter aquele que não tem possibilidade de consumir, a quem está vedado o acesso aos bens materiais que o rodeiam?
Como eu gostaria que o Homo Sapiens actual inventasse agora uma forma de se ser feliz sem dinheiro.
Bem, mas se estou para aqui a divagar, é com um propósito. Quero revelar o conteúdo de uma carta fechada que a vida me abriu.
Chamo-me Mário Feliciano. Filho de gente pobre, não posso dizer que a minha vida, na adolescência e juventude, tenha sido um inferno, mas esteve muito longe de ter sido um paraíso.
Os meus pais, com muita dificuldade, me mantiveram a estudar até ao terceiro ano do Secundário, o que a lei obrigava. Com dezasseis anos de idade, vi o meu pai conseguir-me arranjar trabalho num enorme armazém de produtos agrícolas, onde ele próprio trabalhava, tendo-me ali mantido durante vinte e um anos, tempo este apenas interrompido por aquela meia dúzia de meses em que tive de ir cumprir o meu serviço militar obrigatório.
Trabalhava-se muito, e como já é hábito neste pobre país, ganhava-se pouco. Vida de pobre! A massa trabalhadora a dar tudo o que tem e o patronato, em troca, a dar à massa trabalhadora apenas o que a triste legislação obriga, revestindo-se de uma carapaça onde os escrúpulos fazem ricochete.
Já o meu pai dizia que a vida pode se revelar uma carta fechada. Tive então dificuldade em perceber o que ele queria dizer com isso, até ao dia em que a vida mo ensinou, naquele excepcional dia de 2010.
Nesse dia, já possuidor de carta de condução, que paguei com dificuldade em prestações (esse favor devo ao dono da escola de condução), conduzindo uma carrinha de caixa aberta, fui levar meia dúzia de sacos de batatas a um restaurante. Carregando os sacos, um a um, lá os depositei na cozinha, onde se encontrava o proprietário, que também era o cozinheiro. Foi uma daquelas coisas que não têm explicação! O dono do restaurante e eu nunca nos tínhamos visto na vida, e quando nos observámos, sorrimos um para o outro e ali nasceu uma simpatia mútua. No final do carrego o senhor ofereceu-me uma cerveja, que eu aceitei. Estávamos em Julho e o calor já apertava. E ali, na sua cozinha, conversámos cerca de um quarto de hora. Foi o bastante! Um mês depois deixei o armazém de produtos agrícolas, de há vinte e um anos, dizendo adeus ao explorador do patrão, que não demonstrou qualquer tipo de curiosidade em perceber por que razão me ia embora. Para ele, sair eu ou um canico que por ali tivesse andado vinte e um anos, foi o mesmo. Verdade seja dita que me aguentei ali todo aquele tempo apenas e só para não trazer complicações à vida do meu pai. Mas tendo-o já reformado, assim que tive oportunidade, para mais sendo um novo trabalho oferecido com um sorriso, simpatia e maior justiça salarial, mandei o sacana do explorador para o quinto dos infernos.
Com que alegria e entusiasmo abordei o novo trabalho!
O meu novo patrão, solteiro como eu e uns anos mais velho, chamava-se Albertino Pereira Torres, e o seu pequeno restaurante o «Azeite e Alho».
Era um restaurante simples e popular, direccionado para gente simples como nós, com um cozinheiro que, além da sua contagiante simpatia, tinha nas mãos um tempero de excelência.
Comecei a trabalhar servindo às mesas. O serviço não exigia requinte, porque os clientes apenas requeriam simpatia e boa comida. Por isso não foi difícil a minha adaptação.
Tinha apenas um colega, mais ou menos da minha idade, mas já muito tarimbado naquelas andanças de servir à mesa de forma simples mas eficaz. Com os seus conselhos e a simpatia do patrão, ao final do primeiro mês o trabalho revelava-se-me muito mais gratificante do que aqueles vinte e um anos a carregar caixotes de fruta e sacos de batatas.
Naquela casa comecei a ver a vida por uma perspectiva muito mais colorida. A diferença que pode fazer o carácter de uma pessoa na nossa vida, que tem influência directa no nosso trabalho, pode ser mesmo impressionante. A tal carta fechada de que o meu pai falava, revelou-me uma excelente surpresa. O senhor Albertino Torres transformou-me num tipo um pouco mais feliz, porque trouxe à minha vida um pouco mais de justiça social, ao fazer-me sentir que trabalho e dignidade eram duas realidades que, afinal, estavam ao meu alcance.
Mas as cartas fechadas ainda não tinham acabado.
Trabalhava eu no Azeite e Alho havia dois anos e meio, quando, um dia, ao jogar no euromilhões, a deusa da fortuna apiedou-se de mim, e ganhei vinte e sete milhões de euros. Não, não me enganei. Acho que na altura até me babei. Um homem, de um momento para o outro tornar-se dono de uma fortuna assim, até pode provocar alguma coisa má com tanta emoção! Mas lá me aguentei.
E inebriado com a abundância de dinheiro, não reparei em mais nada, por certo naquilo que tinha obrigação moral de dar conta. Fechei-me num estúpido egocentrismo, talvez até tendo sofrido de um momentâneo e deplorável narcisismo. Com a carteira a rebentar pelas costuras com o peso do dinheiro, olhando, mas sem nada ver, despedi-me do Azeite e Alho e dei um abraço de «até um dia destes» ao meu patrão, o senhor Albertino Pereira Torres. Corria o mês de Julho de 2012. Teria sido uma boa altura para pegar um maço de notas de cem euros, e esfregar com ele a cara mimosa da avantesma do meu antigo patrão.
Portugal afogava-se em dívidas, mas eu tinha de nadar energicamente para não me afogar em dinheiro.
Solteiro, livre como os passarinhos, após rechear bem a triste conta bancária dos meus pais, fui conhecer mundo sem data marcada de regresso, no píncaro dos meus fortes trinta e nove anos de idade, impulsionado pelo avião a jacto que eram os meus milhões. Andei por onde me deu na veneta, e como a minha veneta é enorme…desde a Austrália ao Alasca, da Ásia à Tórrida e mágica África, berço da humanidade, passando pela América do Sul e a luxuriante e densa Amazónia, tudo vi e muito aprendi. Depois, regressado à Terra-Mãe, com o espirito explorador muito mais sossegado, fui comprando enciclopédias e aprendi mais alguma coisa, a juntar ao bocadinho que o terceiro ano do Secundário me oferecera. Até que, passados dois anos, acho que um qualquer remorso me bateu forte.
Terminada aquela euforia inicial eu tinha de dar algum sentido ao dinheiro que tão subitamente ganhara. Sem um significado a dar àquela fortuna, parecia que eu não era merecedor de a possuir. Numa hora muito feliz o senti.
Com o coração a bater forte de emoção, dirigi-me ao Azeite e Alho para rever aquele homem que me ensinara que, afinal, a felicidade não era impossível de ser alcançada.
Cheguei ao restaurante e parei o meu excelente carro bem à sua frente. Havia ali qualquer coisa de anormal. Pus a minha mão direita no manípulo da porta de entrada e rodei…mas a porta não se abriu. O nome do restaurante ainda lá estava, por cima da porta, em letras pintadas de vermelho e amarelo-torrado, mas cheio de teias de aranha carregadas de insectos mortos, e muita sujidade a tirar cor à vida do Azeite e Alho. Não foi difícil perceber aquele drama, um drama de um homem que o não merecia. Essa percepção foi-me ditada pela consciência a martirizar-me. Reparei então num papel colado no vidro triste e empoeirado da porta. Indicava um número de telefone de um administrador judicial. Meu Deus, dois anos depois de me ter ido embora vim dar com o senhor Albertino Torres falido. Por certo que os problemas começaram ainda eu lá trabalhava. Lembrei-me de que a afluência da clientela diminuía. A crise instalava-se em Portugal de forma abrupta e impiedosa. Mas ele nunca me fizera sentir que o restaurante estava em dificuldades. Nunca me faltou com o vencimento…tudo se deve ter precipitado após a minha saída.
Liguei para aquele número de telefone e imediatamente me reuni com aquele administrador. Pedi, com urgência, uma reunião de credores, e montado nos meus milhões, paguei a dívida de uns míseros milhares de euros. No mundo do materialismo ter a força do dinheiro abre qualquer porta, qualquer uma! Já por outros mundos, de que o materialismo desdenha e apelida de ignorante, a potência dominante é apenas e só a essência de cada um de nós. Infelizmente essa essência, embora ande por cá, não pertence a este mundo.
Deram-me a última residência conhecida do falido, o meu antigo patrão. Mas não fui talhado para fazer averiguações, e como podia, entreguei o assunto aos entendidos. Com o meu poderoso smartphone xpto, que uma pequeníssima côdea dos meus milhões me oferecera, logo encontrei uma agência de detectives privados, tendo contratado os seus serviços. Duas semanas depois um detective contactou-me e deu-me a informação de que eu precisava: a localização do senhor Albertino Pereira Torres. Emudeci! Uma hora depois estava lá.
A força dos meus milhões levou-me até um parque de estacionamento que servia um hospital. Estávamos em Dezembro, às portas do Natal. O dia estava soalheiro, mas frio. Eram três da tarde.
Percorri o parque mais em busca de um arrumador que me indicasse um lugar para estacionar, do que propriamente o espaço para estacionar.
Quis ser visível. E fui! Ao fundo daquela rua sem história, que se abria entre duas longas fiadas de carros estacionados, uma à direita outra à esquerda, lá estava o arrumador a fazer-me sinal com as mãos de que havia ali um lugar. Aproximei-me dele e observei-o muito…muito bem, com as lágrimas a abrirem caminho pelos meus poros agora milionários. Tal como um dia me indicara um local para ser feliz, agora aquele arrumador indicava-me um local para estacionar.
Estou muito feliz. E essa felicidade devo-a aos milhões que tenho, que me possibilitaram devolver dignidade material a um homem que, um dia, teve o condão de me ensinar o quanto a nossa essência espiritual pode influenciar a nossa existência material. Aprendida a lição, apenas mostrei ao meu mestre a forma como o fiz.
É Natal, faz muito frio na rua. Mas com o calor do forno, junto ao qual o senhor Albertino Torres de novo é feliz, e eu também, servindo às mesas (não rejeito uma gorjeta), o calor humano aquece a alma.
Neste Natal o restaurante Azeite e Alho, além de poder dar um sabor melhor e diferente ao bacalhau, tem montado um encantador presépio para oferecer magia aos seus clientes.
Passem por cá. Não se irão arrepender!

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

SEMENTES DE DÚVIDA EM MASSIFTONRÁ

S

...Propositadamente não mencionara o Sumo-Sacerdote estrangeiro, protegido de Amon-Rá, que andava fugido ao ódio do faraó. Esse era o ponto fraco do deus supremo. Que delicia iria ser, quando tivesse em seu poder esse estrangeiro.
No seio dos deuses reinava a estupefacção.
-         Mas o que é que se passa, que forças deixei eu de controlar?- perguntava Amon-Rá.
-         É natural que Seth pense sentir em ti fraqueza- disse o deus ancião Áton- com a liberdade de movimentos que ele vê no faraó...
-         Mas o faraó não é um humano qualquer. Nas mãos dele está o destino material do Egipto. É sensato desacreditá-lo aos olhos dos homens?
-         E será sensato os homens sentirem fraqueza em ti?- perguntou o deus chacal Anúbis.
-         O poder de Amon-Rá é de tal forma grande, que nunca corre o risco de cair em descrédito- disse o deus supremo- se não ataco o faraó directamente, posso fazê-lo rodeando-o, minando a sua influência, sem que disso o comum dos homens se aperceba, mas, ficando essa fraqueza bem perceptível ao faraó, de imediato compreenderá a minha mensagem. Mas não me preocupo com isso porque não sou louco. Tenho a perfeita noção de que uma sacerdotisa não vale a preocupação de um deus. Tenho de ser superior a isso tudo. Muito mais me preocupa a integridade física de Masahemba; e julgo que o faraó tem vontade de o sequestrar. Essa sim, essa é uma questão pessoal, à qual não permitirei ataques.
-         Seth não mencionou o nome de Masahemba, mas estou convencida de que sabe da sua existência e dos seus problemas- disse a deusa Ísis.
-         Ainda bem que me alertas para esse pormenor. O sifto encarregado de contactar Masahemba que parta imediatamente, e leve o meu Sumo-Sacerdote para a casa do abençoado artesão.
-         E em relação ao resto?- perguntou o deus ancião.
-         Ao resto? Que resto? A que te referes?- perguntou Amon-Rá.
-         Ao meio pelo qual foi possível a Seth introduzir-se em MassiftonRá- respondeu Áton.
-         É verdade, já me passava. O que seria de mim sem os vossos conselhos e observações?!- retorquiu Amon-Rá sorrindo...(em continuação, ex. XXXII)

in A Causa de MassiftonRá

terça-feira, 20 de novembro de 2018

XXV JANELA SOBRE O MEU PAÍS- MISTICISMO PORTUGUÊS


Iberos, Celtiberos, Romanos, Visigodos e Reconquista Cristã, um caldeirão de culturas e lendas que é a Península Ibérica e Portugal. Na profundidade de Trás-os-Montes, escondida por penhascos, se revela a existência de um Portugal místico.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

NO GIRO 4

...Sou de Viseu. Por isso durante muitos anos prestei serviço na cidade de Aveiro e foi assim que tive a oportunidade de conhecer a história e a vida do Serôdio.
Naquele seu primeiro Domingo de serviço em Aveiro, patrulhando o giro quatro, que era composto pelas ruas de S. Sebastião, Mário Sacramento e Avenida Araújo e Silva, refugiado em si próprio, escapando assim à solidão das ruas desertas, Serôdio teve a oportunidade de recordar os seus primeiros três anos de vida policial.
Fazia um balanço desastroso; o serviço que tinha de executar até que tinha aliciantes, levando em conta que se tratava do bem estar dos cidadãos. Mas sob as ordens de tais homens, e tendo como logística a miséria que se via, ele perdia todo o incentivo. Corria riscos, perdia noites, era mal remunerado e nem uma palavra simpática recebia em troca. Era este então o tal «espirito de missão»: dar muito e em troca quase nada receber! Como escape para tanta frustração deveria insurgir-se contra os seus colegas «do antigamente»? Era evidente que não. Isso seria um enorme disparate...(em continuação, ex. XXXIX)

in Filhos Pobres da Revolta

Março/2003 

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

POR RESPEITO AO MFA


Regresso ao infeliz tema do assalto aos paióis de Tancos. E faço-o porque me aflige que, de uma forma tão branda, aceitemos o descrédito das Forças Armadas a quem devemos o facto de podermos, neste momento, estarmos a falar de forma tão livre e directa sobre esta questão. Eu vivi intensamente o dia 25 de Abril de 1974 na minha querida cidade de Coimbra. E nesse dia, para mim, as Forças Armadas (que três anos depois integrei), ganharam um valor e um respeito imensos, sentimentos que guardei e guardarei até ao final dos meus dias. Embora não tenha sido nada fácil, orgulho-me de ter servido as Forças Armadas durante dezasseis meses, nessa sumptuosa unidade que é a Escola Prática de Infantaria em Mafra. Por isso me aflige que, muito acima da encenação da recuperação do material roubado em Tancos, não se fale, não se explique, como foi possível esse assalto. Porque aí é que reside a vergonha. Aí é que está o ónus da questão. E não vejo ninguém preocupado em esclarecer como esse facto aconteceu.
Não me adianto mais. Como cidadão e ex-militar apenas exijo essa explicação. A memória do MFA também!

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

PARA OS QUE ESCREVEM UM PORTUGUÊS À CALHOADA


Parece-me que qualquer pessoa minimamente sensata, concordará com a afirmação de que o tesouro maior de um povo é a sua língua. É através dela que, escrevendo ou falando, nos comunicamos naturalmente, e sem qualquer tipo de dificuldade na compreensão, com todos aqueles que têm por mãe pátria o chão que também é o nosso.
            Sendo a língua a característica mais importante que identifica cada povo, e a nossa, especificamente, uma língua bem difícil de ser aprendida, pensava que tal como eu, todos os portugueses a estimavam e até, porque não dizê-lo, a mimavam, empenhando-se por, orgulhosamente, a falar e escrever correctamente.
            Infelizmente não é isso que venho constatando. Os atropelos à nossa língua, a falta de interesse em que a expressão escrita seja correcta, é constante.
            E o mais grave é as entidades comerciais serem as primeiras a dar o exemplo, incentivando assim a que os jovens escrevam português à «calhoada».
Recebi esta mensagem:
 «Outono e sinonimo de prevencao! Troque os pneus e faca a revisao da sua viatura, pague com o cartao…».
Estes senhores decerto que além de pneus também vendem facas!
O (~) til, que é um sinal tão bonito e que origina um som que só nós portugueses sabemos pronunciar, é simplesmente suprimido…porque dá muito trabalho. Quanto aos acentos agudos…vai lá que já te apanho.
            Já não bastava o maldito e anti-patriótico acordo ortográfico vir denegrir a língua de Camões, também nos defrontamos agora com a preguiça no escrever.
Sejamos portugueses em toda a acepção da palavra se fazem favor!

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

QUANDO SE ENCONTRA ARTE FILHA DA MADRUGADA



Hoje dei-me ao trabalho de dar uma vista de olhos sobre papéis velhos. Quantos tesouros se podem guardar em velhos papéis.
Estávamos em pleno Junho de 2004, decorria em Portugal o Campeonato da Europa de Futebol. A cidade de Aveiro recebeu no seu novo estádio dois jogos desse campeonato. Toda a cidade se transfigurou, recebendo os milhares de visitantes, não propriamente turistas mas antes amantes do futebol, a maioria adeptos das quatro selecções que jogaram na nossa cidade.
A segurança foi um dos serviços públicos, a nível nacional e local, que mais esteve em foco durante esse mês de Junho. E tinha de o ser, já que Portugal tinha sobre si os olhos de todo o mundo.
Em Aveiro o coração do serviço de segurança recebeu reforço. Ele foi um dos elementos que foi reforçar as hostes que trabalhavam em prol da segurança de todos.
Uma manhã bem cedo, ao entrar de serviço, ele passou com o olhar pelo interior da guarita de sentinela existente à entrada do coração do serviço de segurança, e apercebeu-se de que existia uma folha branca de papel esquecida no tampo da mesa rudimentar, que tinha qualquer coisa desenhada. Aproximou-se e… por momentos ficou imóvel de espanto. Naquela folha alguém, por certo quem estivera de serviço durante a noite, desenhara aqueles espantosos aviões de guerra e aquele navio de guerra a lapiseira, alguns do tempo da II Guerra Mundial. Ele desconfiara de quem era o autor daqueles desenhos e confirmou-o na escala de serviço. Claro, o Leal, só poderia ter sido ele.
Aqueles desenhos não mereciam ficar ali esquecidos, não mereciam ir para o lixo, não mereciam o desapego do seu criador, que por certo ali os abandonou por ter já criado imensas obras de arte a que nunca deu qualquer valor. Foi apenas por hábito que os abandonou. Criou-os para que lhe fizessem companhia durante a noite. Chegado o dia, cerrou o breve postigo do seu talento e obrigou-o a ficar de novo adormecido.
Ele guardou a folha branca de papel e assim que encontrou o autor dos desenhos disse-lhe que a tinha guardado, e perguntou-lhe porque razão ele não investia na sua arte. O autor sorriu e respondeu que não era pintor.
Hoje, passados todos estes anos, ele reencontrou aquela folha branca, entre papéis velhos, e resolvi dar-lhe alguma vida, homenageando assim o talento desconhecido de um camarada que, andando por aí, pelas madrugadas fora terá criado outras obras de arte para oferecer ao sol.
Tanto artista sem talento que, na sua mediocridade, se põe nos bicos dos pés e enche exposições com telas cheias de tinta de muitas cores. Outros há que…
Que maravilha!