domingo, 15 de julho de 2018

UM GRANDE EXEMPLO DE SOLIDARIEDADE NUMA GRUTA INÓSPITA DA TAILÂNDIA


Durante cerca de três semanas o mundo quase suspendeu a respiração de ansiedade e expectativa.
Na longínqua Tailândia doze miúdos, praticantes de futebol, na companhia do seu treinador, a 22 de Junho faziam uma incursão à natureza, diria uma brava e inóspita natureza. Com o início da época das monções (de que nos fala Rui Veloso no seu álbum Auto da Pimenta), foi aquele grupo surpreendido por chuva bastante intensa, pelo que se refugiou numa gruta…e desapareceu, muito embora ainda não tenha sido explicado como tal aconteceu.
A partir desse momento assistiu-se à mobilização do mundo no sentido de o grupo de jovens e o seu treinador ser encontrado, numa imensa gruta, grande parte dela submersa em alguns metros de profundidade da água das chuvas. Passados alguns dias, e quando o cepticismo em relação à descoberta dos jovens se começava a instalar, eis que um grupo de mergulhadores britânicos conseguiu encontrar os jovens e o treinador, vivos, numa concavidade localizada bem na profundidade da gruta.
Graças à união dos mergulhadores tailandeses (com a ocorrência da morte de um deles, na preparação das condições sub-aquáticas para que o resgate viesse a ser possível) e de outros de algumas nacionalidades, foi possível o resgate daquelas treze vidas.
Mas que enorme momento para a humanidade! E quando emprego o termo «humanidade» dir-se-ia ter-se tratado do resgate de centenas ou mesmo milhares de pessoas, e não apenas de treze, mas quando a vida humana é criminosamente desvalorizada pela acção de comunidades humanas e não alienígenas, como miseravelmente temos assistido nesta nossa Europa, Médio Oriente e Estados Unidos, é motivo de enorme alegria ver o mundo mobilizar-se para salvar apenas treze pessoas.
O exemplo da Tailândia é de guardar no mais profundo dos nossos corações! 

sábado, 23 de junho de 2018

MUITO SANGUE NAS PALAVRAS DE JACK HORN, UM VELHO SOLDADO INGLÊS DA BATALHA DO BUSSACO CONTRA OS FRANCESES


...Lá me desloquei ao alpendre, onde o tal inglês me aguardava, levando o meu pai atrás de mim, a estalar de curiosidade.
         O inglês era um homem alto, bastante louro, de olhos profundamente azuis, entroncado, envergando umas calças muito coçadas e ainda o casaco vermelho, já cheio de remendos, que um dia fora a farda do exército de Sua Majestade Britânica. O homem usava um barrete bem português. Logo se descobriu assim que me viu. A noite já descia, pelo que o meu pai trazia uma candeia com algumas velas acesas.
- Muito boas noites – disse eu.
- Boas noites. É o sêor doctor jôquim? – perguntou o homem num português muito imperfeito.
- Eu próprio. Qual é a sua graça?
- My name é Jack Horn.
- Senhor Jack, aflige-o alguma maleita?
- Não sêor, não tenho maleitas, graças ao bom Dios.
- Se não é a saúde que o apoquenta, qual é então o assunto que o faz vir falar comigo?
- Coisa séria, multo séria doctor. Mas aqui podem ouvir…
         Eu reconsiderei um momento. O homem pedia alguma privacidade. Levei-o então para uma pequena cozinha existente nas traseiras da casa. O meu pai, entusiasmado com o mistério que se adivinhava, foi buscar uma picheira de vinho e três copos, para alegrar um pouco a conversa. Instalados naquele pequeno espaço, onde a velha Celeste fazia a lavagem para os porcos, sentámo-nos em três desconfortáveis mochos, em redor de uma tosca mesa de pinho.
- Diga-me então, senhor Jack, o que tem para me contar?
         O homem, antes de começar, bebeu de um trago o copo que o meu pai lhe enchera de vinho.
- Good – disse o inglês, dando um estalido com a língua, começando então – num sei se  doctor já oiviu falar about me. Sou um velho soldier inglês, e combati aqui perto, no Bossaco, em Mil Oitocentos Dez. Fiquei multo ferido, a morte quase me levou, mas axudado por pessoas ganhei à maldita; é good ter amigós por aí. Um desses amigós, um friend do myo peito, era um bom rapaz, o Lúcio. Os paes dele morreram, por isso vivia muito alone. Yo sou mais velho que ele, tenho mais saber da vida que ele. Por isso o Lúcio me contava a sua vida toda. Era um boy a quem trabalho não mete medo. Um dia ficou a gostar de uma rapariga, a filha do Xicao Aduelas…
- Espere aí – interrompi-o eu – vossemecê está-me a falar dos mortos que apareceram nas terras do senhor Conde de Cértima, não está?
- Exacly. Desses mesmos. O Lúcio andava multo contente por namorar aquela rapariga, e até era do agrado do sêor Xicao. Mas há algum time ago começou a ver nela diferenças. A night, em que se zangarom, ele ficou a modos que amuado e deixou-se ficar perto da casa dela. Entom, de repente, viu ela sair de casa, às escondidas do pai. O Lúcio achou aquilo very strange; e seguiu ela. E para syo espanto viu ela ir para lados das terras do Caunde, onde há a little church, ao pé das pedras. Parou de repente de a seguir porque oiviu cascos de cavalos. Mas viu que ali havia qualquer mentira. Dias depois viu ela com uma saia nova e preguntou a ela de onde vinha o dinheiro para aquilo. Ela disse que ele no tinha nada com isso. O Lúcio ficou zangado. E foi than que ao contar estas cousas todas, me pediu para yo ir com ele quando a voltasse a seguir, porque ele tinha a certeza que ela, at night, fugia. E foi assim que ontem à noite yo fui com o Lúcio a seguir a Adélia. Nós vimos ela entrar na little church, que tinha uma pequena luz lá dentro. O Lúcio ficou maluco da cabeça. Queria avançar. Eu agarrei ele e disse que no, para esperar e ver o que ia passar a seguir. Mas o Lúcio mandou-me uma porrada na minha perna que tem bocados de bala de canhom, e com a dor eu deixei ele ir. Ele runed away como um doido e chegou à entrada da little church. Eu oivi ele gritar: « à minha puta » e logo a seguir aparecyo a man. O Lúcio atirou-se a ele e o homem dar-lhe um coice na cara. O Lúcio recuou mas foi outra vez contra o home. Entom vi o home com uma espada na hand e mesmo com a luz fraca vi a ponta da espada a aparecer nas costas do Lúcio, que ficou quieto. Depois o homem puxou a espada, e yo vi, com lágrimas nos myos olhos, a ponta da espada a sair. O Lúcio caiu ali mesmo. Eu atirei-me para o chão e meti-me no meio dos fetos da forest, não fosse o homem to see me. Então oivi a rapariga gritar e vi ela sair da little church a correr. Ela vinha quase sem roupa. O homem correu atrás dela e com uma faca cortou-lhe a garganta. Than, o home ficou furioso e dizia: « mas para que havia o cabron de vir aqui cheirar ». E nesse momento eu conheci o matador – era o filho do sêor caunde...(ex. XXVIII)

in Alma de Liberal
Junho/2009


quarta-feira, 13 de junho de 2018

NUM TABULEIRO DE FRUTA PORTUGUÊS




Ontem comprei um saco de maçãs starking, e ao colocá-las no tabuleiro da fruta reparei que tinham vindo do Brasil. Hoje comprei um saco de maçãs fuji, e ao fazer a mesma acção vi que, estas, vinham de França. Bom, foi um regalo observar no tabuleiro as maçãs a abraçarem-se umas às outras, cordialmente, trocando experiências culturais num tabuleiro português.
E então coloquei-me a questão: onde está a lógica de um produtor de fruta, nesta caso maçãs, como o é Portugal, importar o mesmo produto?
Pelo menos valeu a pena ver a festa que ia para ali no tabuleiro!

domingo, 27 de maio de 2018

XXIV JANELA SOBRE O MEU PAÍS: NA PRAIA DA VAGUEIRA


Não há melhor forma de comemorar a Revolução dos Cravos, do que vê-la recordada pela forte e honesta genuinidade do povo.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

A LUZINHA DA SORTE


Em 2016 ganhámos o campeonato da Europa em futebol. Em Maio de 2017, depois de 53 anos a tentarmos, conseguimos vencer o Festival da Eurovisão. Portugal estava em alta, numa fase prodigiosa como eu nunca nos tínhamos visto. O turismo aumentou pelo país de forma absolutamente fantástica, o desemprego decaiu notoriamente, o poder de compra dos portugueses melhorou ligeiramente, sentia-se que a confiança se ia depositando. Como que uma caixa mágica de oportunidades se abriu em Portugal.
            Chegou 2018. Em Lisboa, pela primeira vez em 54 anos, teve lugar o Festival da Eurovisão. Para nossa tristeza, como um balde de água gelada, no nosso próprio país classificámo-nos em último lugar. Neste ano em que, daqui a menos de um mês, estaremos presentes no Campeonato do Mundo de futebol, a decorrer na Rússia, assistimos, incrédulos, aos vergonhosos acontecimentos na academia de Alcochete do Sporting, com expectativas de coisas mirabolantes virem ainda a ser descobertas, como indicam os indícios. Isto não é futebol, mas pertence ao mundo do futebol, em casa do campeão europeu em título.
            Façamos força para que os negros incêndios de 2017 não tenham queimado a estrelinha da sorte, que tanta falta faz, mesmo às sociedades mais dinâmicas e progressistas.

domingo, 29 de abril de 2018

ZÉ CORNO, UMA SURPRESA DESAGRADÁVEL


...Estava eu nestas conjecturas, quando fui surpreendido pelo meu pai a bater-me à porta do consultório.
- Entre meu pai – disse eu.
- Joaquim, é que está lá fora o Zé Corno que te quer dar uma palavra. Eu já o quis enxotar. Pois que raio terá aquela figura para falar contigo? Mas ele teima. E como ele, em dez palavras, eu lhe apanho apenas metade...se apanhar, vai lá falar com ele.
- Mas, meu pai, isso é nome de homem, Zé Corno? Quem é?
- É o inglês.
         Eu não sabia que inglês era aquele; e o meu pai, levando a palma da mão à testa, disse que, claro… eu não podia saber pois tinha ido para Coimbra. E então explicou-me que o tal Zé Corno fora um soldado do exército inglês, que combatera ao lado dos portugueses na batalha do Bussaco. Fora gravemente ferido, tendo sido auxiliado pelas gentes do Luso a superar os ferimentos. Ninguém sabia porquê, mas o certo era que o homem não mais quisera regressar à sua terra, tendo ficado na região. Deambulava entre o Luso e a Mealhada. Ninguém sabia onde morava, pois ninguém lhe conhecia casa.
         E era então este personagem que me procurava. Decerto que o fazia por sofrer de algum mal, pois que outra coisa haveria de ser?! Mas no atropelo dos dias que constituem a vida de cada um de nós, as surpresas são constantes. Algumas agradáveis, a maior parte das vezes nem por isso. E este foi um dos momentos em que a surpresa me bateu à porta… e nada agradável, por sinal...(em continuação, ex. XXVII)

in Alma de Liberal
Junho/2009

segunda-feira, 23 de abril de 2018

UM DIA EXTREMAMENTE RICO, ESTE...O DIA DO LIVRO


Um livro é como um muro. De um lado está o escritor que o escreve, do lado contrário encontra-se o leitor que o lê. No muro, que é o livro, os dois chegam, por momentos descansam as suas vidas no muro e conversam. O escritor fala dos mundos que lhe vão pela cabeça e o leitor faz desses mundos o que muito bem lhe apetece. E nessa conversa, um e outro, aprendem sempre alguma coisa.
Hoje, dia do livro, é dia do escritor e do leitor darem um sincero abraço.
Vivam os livros!