sexta-feira, 15 de março de 2019

EM REDOR DO LUGRE SENHORA DO PRANTO


Estava ali havia três horas e já trouxera um trol cheio de bacalhau. O fundo do dóri já estava repleto de peixe. Sentira de novo movimento na linha. O bacalhau parecia estar a atacar bem o segundo trol. Felizmente que havia dias assim. Outros havia que parecia que o bacalhau fugia dos anzóis como o diabo da cruz. E por vezes com o tempo bem pior que o de hoje. Ainda se estava quase no princípio da campanha. Chegasse lá o mês de Setembro que era ver as mãos a engadanharem-se com tanto frio. Era a vida triste de um pescador do bacalhau.
         Chamava-se Manuel da Benta. Nascera na Gafanha da Encarnação, do concelho de Ílhavo, em 1913. Estava agora com vinte e três anos de idade. Pois que outra vida esperava à maioria dos homens dali senão a pesca do bacalhau? Ílhavo e as Gafanhas pareciam um grande coração que servia como motor à grande faina. Tanto em barcos como em homens. Já o seu pai, que Deus tivesse, por ali andara. Levara-o um golpe de mar. A mãe já nem lágrimas botara quando o vira a ele, pela primeira vez, a embarcar num lugre. Chorara tantas pela vida fora…
         Enquanto trabalhava no peixe já pescado, de vez em quando deitando o olho à linha, olhou em seu redor. A uma largueza de um quilómetro, a partir do lugre que se via lá ao longe, o «Senhora do Pranto», o mar estava cheio de pequenos pontos, que apareciam e desapareciam consoante a ondulação. Eram os outros dóris da equipagem do lugre. Em cada dóri um pescador. Estavam ali trinta e sete. Gente boa, sem dúvida a sua família nos bons e maus momentos no mar.
         A dado momento reparou que algo de pouco bom se passaria com o dóri que estava a uns cem metros de si. Afirmou a vista para ver se conseguia distinguir o pescador. Era…era o Mário Carvalho, o seu bom amigo Mário Carvalho.
- Ó Mário, passa-se alguma coisa?- gritou.
- Dói-me a barriga como a merda- respondeu o outro a gritar.
- Espera, que eu já ai vou- e dando mais linha ao trol que estava na água, pegou nos remos e energicamente remou em direcção do dóri do seu amigo Mário Carvalho.
         Lá chegado, afirmando-se no seu colega e amigo, logo viu que ele não estava bem. O outro pescador tinha um esgar de dor na cara, e estava curvado, agarrando-se à barriga.
- Comi alguma coisa estragada.
- Aqui coisas estragadas comemos nós todos os dias- dizia o Manuel da Benta- é a tripa que te dói?
- Eu sei lá ó Manel. É a barriga toda.
- Se precisares de ir à retrete põe o cú aí do lado de fora do dóri, que o bacalhau não se importa.
- Em calhando lá terá de ser- dizia o outro com um meio sorriso.
         Manuel da Benta olhou para o fundo do pequeno bote. Em três horas nem um peixe...(em continuação, ex. I)

in Nas Arestas da Terra e do Mar

quarta-feira, 6 de março de 2019

SNOOKER NA SAVANA


O fotógrafo estava lá e revela-nos que o engenho humano é extraordinário. No coração de África, bem nas savanas do Maiombe, disputou-se um entusiástico jogo de snooker. Não há tecnologia para criar a mesa, as respectivas bolas e tacos, mas capacidade criativa não falta, não fosse África o berço da humanidade.
            Que ganhe o melhor!

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

XXVI JANELA SOBRE O MEU PAÍS- D. PEDRO IV, COMANDANTE DO EXÉRCITO LIBERTADOR


Cada estátua conta uma história, caminhos de eternidade feitos por intermédio do pensamento ou do heroísmo. Injusto será para a memória de quem é representado na estátua, que aquela, ao ser observada e admirada por nós, nada nos diga além da arte do artista que a esculpiu. Mas muitos de nós, portugueses, não são dados a estas coisas da história…infelizmente.
  Na cidade do Porto, entre muitas estátuas, pois que a Invicta foi predestinada ao pensamento e ao heroísmo, podemos observar a enorme e excelente estátua erigida à memória de D. Pedro IV, um agradecimento da cidade do Porto e de todo o Portugal liberal da década de 30 do século XIX. Em face da usurpação do trono por parte do seu irmão absolutista D. Miguel, D. Pedro IV (I do Brasil), veio à frente de um exército formado por 8000 homens, defender os direitos da sua filha, a infanta D. Maria, ao trono português e repôr o liberalismo ditado pela Carta Constitucional, que D. Miguel havia ignorado. Proveniente dos Açores, D. Pedro IV desembarcou a Norte do Porto, na Praia do Mindelo, no dia 8 de Julho de 1832, à frente daquele que ficou conhecido como O Exército Libertador. Este foi o primeiro momento da guerra civil entre liberais e absolutistas, que devastou o reino de Portugal durante dois anos. Dias depois de o exército libertador se ter instalado na cidade do Porto, ir-se-ia dar início ao Cerco do Porto, por parte de 80000 homens formando o exército realista de D. Miguel, dando aso a um ano de muitas história de sofrimento, heroísmo, sangue e morte.
De tudo isto nos pode falar aquela bela estátua de D. Pedro IV a cavalo, na heróica cidade do Porto.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

UM PUNHAL COMPROMETEDOR


...Pois tivesse falado p’rós montes, p’rós pinheiros. Talvez alguma alma danada o oivisse e espalhasse a notícia pelo povaréu. Agora vir aqui com este paleio. Ele há cada uma – dizia o meu pai, furioso.
- Deixe estar o homem, meu pai. Coitado, já bem basta o que viu.
- E tu acaso sabes se o que ele diz é verdade?
- Yo no minto, sêor. Yo no ir dizer uma coisa destas se no ser verdade! – e nesse momento o inglês levou a mão direita ao interior do casaco, de onde tirou um punhal e colocou-o em cima da mesa. Era uma bela arma, com um punho em madrepérola. O punho era ainda feito de uma madeira muito polida, que se ligava à lâmina. E nessa base de madeira havia sido gravada a fogo a palavra «corga».
- O doctor há-de dizer se yo ter money p’ra ter uma faca destas; e o my name não é esse que aí está. Thank you doctor por ter oivido o que yo tinha p’ra dizer. Cá me vou e mais leve com minha conscença.
         E o inglês foi-se embora, internando-se no negrume da noite, deixando aquele punhal assassino em cima da mesa...(em continuação, ex. XXX)

in Alma de Liberal

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

VOCES CARMELI OU VOZES DO CARMO, UMA RECORDAÇÃO PARA A VIDA


Já alguma vos aconteceu sentirem um vazio, um espaço no mundo ocupado por vós que deixou de existir, saberem que algo pelo qual nutriam simpatia terminou? Pois foi isso que me aconteceu ontem ao tomar conhecimento que o grupo Vozes do Carmo, ontem, terminou.
            Não fui um assíduo interveniente na sua história. Mas as poucas vezes em que tive a oportunidade de dar o meu contributo em actuações, fi-lo com toda a entrega, e senti-me muito feliz, porque o ambiente nos ensaios tinha algo de especial, a Igreja do Carmo em Aveiro.
            Muito embora o grupo tenha sido fundado em 1990 pelo Frei Rui, uma excelente pessoa, com o nome de Vocces Carmeli, só em 1998 os comecei a acompanhar. Em 2000 vencemos o festival diocesano da canção, em Recardães, perante uma plateia de 1500 pessoas, o que continua a ser para mim um grande momento.
            Ainda como Vocces Carmeli participei no espectáculo do 15º aniversário, em 2005.
            Regressaria em 2013 até 2015, indo então encontrar o mesmo grupo, mas com outro nome: Vozes do Carmo. Foram três anos de actuações intensas e muito bem conseguidas, recordando com especial sabor a inesperada ovação em pé, que recebemos da plateia do Teatro Aveirense, na actuação da noite de 25 de Outubro de 2014, culminando a minha prestação no grupo, curiosamente, talvez por artes do destino, com a minha participação no espectáculo da comemoração do seu 25º aniversário, também no Teatro Aveirense.
            Mais um grupo de Aveiro de que fiz parte e que terminou.
            Por quanto de vós trouxe no peito, obrigado Vocces Carmeli/Vozes do Carmo!

domingo, 20 de janeiro de 2019

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- 1185- MORRE D. AFONSO HENRIQUES- VIVA D. SANCHO I


Após D. Afonso Henriques se ter visto reconhecido como rei, pelo papa Alexandre III, em 1179, curiosamente, como que enraivecidos por esse facto, os mouros endureceram a sua acção na Península Ibérica, inclusivamente em território já português que havia já sido conquistado pelo fundador da nacionalidade, D. Afonso Henriques, atacando, entre 1179 e 1181 as praças de Abrantes, Coruche, Évora e Lisboa, sendo sempre rechaçados. Por outro lado os Almóadas avançaram até à linha do Tejo, territórios ainda mal consolidados por parte do domínio português. O Emir de Marrocos, Yusuf I, atravessou o estreito de Gibraltar com as suas tropas, em Maio de 1184, vindo apoiar no ataque às linhas fronteiriças do Tejo, chegando a cercar Santarém, que, no entanto, não caiu nas mãos dos invasores. À frente das tropas portuguesas encontrava-se agora o infante D. Sancho, dada a idade avançada do seu pai D. Afonso Henriques.
            O fundador da nacionalidade, D. Afonso Henriques, faleceria no ano seguinte, a 6 de Dezembro de 1185, sucedendo-lhe no trono o seu filho, o infante D. Sancho, como D. Sancho I, tendo sido aclamado rei três dias depois em Coimbra.
            D. Afonso Henriques foi sepultado na Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, na altura capital do reino, onde ainda se encontram os seus restos mortais, lugar de culto para todo o português. Pelo menos para os portugueses que sentem orgulho na sua história!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

TEMPO DAS FORCAS SE RIREM DE SATISFAÇÃO


...O meu pai e eu, perante aquela revelação, abrimos os olhos de espanto.
- Diz vossemecê que quem matou os dois infelizes foi o filho do Conde de Cértima, o senhor Pedro Corga? – perguntei eu.
- That’s right – respondeu o inglês.
- Vossemecê não tem as aduelas bem apertadas, home – dizia o meu pai, quase escandalizado – atão o filho do senhor conde, um militar, ia-se lá pôr agora a matar gente do povo, gente que serve o pai dele?!
- Mas foi ele e nobody else. Depois foi ao ribeiro, lavou a espada e a faca. Mas quando estava a lavar a faca, ela caiu das mãos dele, pois yo oivi um metal a cair nas pedras. Ele fartou-se de a procurar, mas no a encontrou. Deu uns pontapés nas pedras, foi-se embora furioso e voltou a entrar na little church. Yo estava pregado ao chão, quase no respirava. E algum tempo after saiu com a farda toda vestida, foi buscar o cavalo que tinha atrás da little church e foi-se embora. Yo inda esperar um bocado sem me mexer. Quando senti que tudo estava em silence, levantei-me. A luz inda alumiava um pouco. Fui ver os dois corpos, o do Lúcio e da Adélia. Era blood por todo o lado. Fugi dali very quiqkly.
         Eu fixava o inglês, que por seu turno enchia mais um copo de vinho. Eu estava abismado e perplexo. E disse:
- Mas porque razão me veio vossemecê contar isso, a mim, que sou médico? Porque não foi ter com o regedor?
- Com justiça no gosto de falar. Lembro de coisas passadas. Tive medo de me meter em troubles. Alembrei-me então do doctor, que é boa pessoa. Yo ter de contar isto a someone.
- E agora? O que quer vossemecê fazer? – perguntei eu.
- O que há-de ele querer?! Cala-se muito bem calado. O regedor que descubra o matador, que é esse o seu ofício – interveio o meu pai – e vossemecê, Zé Corno, ou lá como se chama, não se meta em trabalhos acusando da matança o filho do conde ou ainda vai parar ao patíbulo. Olhe no que lhe eu digo! E mais a mais os tempos que correm em que as forcas se riem de sastifação. Os pequenos não podem botar da boca p’ra fora coisas desse tamanho, que achincalham a nobreza. Olhe no que lhe eu digo. Eu não oivi nada, nem tu Joaquim.
- Eu sei, meu pai. Isto é muito grave. E ainda por cima sem provas. Somente existe o testemunho deste homem – dizia eu.
- Mas quais provas? Nem com provas, nem sem provas. Tu ficas calado. Oiça cá – dizia o meu pai dirigindo-se ao inglês – p’ra que veio vossemecê desinquietar quem estava sossegado?
- Se yo no fala, rebento – exclamou o Jack Horn...(em continuação, ex. XXIX)

in Alma de Liberal