segunda-feira, 24 de setembro de 2018

SOBRE UM ESPÓLIO HISTÓRICO DE VERDEMILHO


Acabei de ler uma notícia no Diário de Aveiro que me deixou chocado. Não que tenha sensibilizado, no mau sentido, os meus sentimentos de compaixão pelo próximo ou de injustiça cometida contra alguém. Nada disso. Antes o espanto, a incredulidade perante o desinteresse do município pela história local, um momento que foi o despoletar de uma crise, terrível mas necessária.
            O actual dono daquela que foi a casa do desembargador Joaquim José de Queiroz, avô paterno do nosso Eça de Queiroz, no sentido de restaurar a dita casa, viu-se na necessidade de oferecer todo o espólio documental, relacionado com a revolta de 16 de Maio de 1828, à biblioteca particular de José Pacheco Pereira, uma vez que a Câmara Municipal de Aveiro não se interessou por receber esse espólio.
            Para os que, eventualmente, possam não saber, afinal de que se tratou essa revolta?
            Em 1828 D. Pedro IV, então D. Pedro I do Brasil, ordenou que o seu irmão, o infante D. Miguel, retornasse do exílio na Áustria, para onde o pai de ambos (o rei D. João VI) o enviara, e tomasse a regência do reino, durante a menoridade da futura rainha, a infanta D. Maria, com a obrigação de jurar cumprir a carta constitucional de 1822. Juramento feito, D. Miguel tomou conta da regência do reino. O seu primeiro acto político foi o de dissolver a Câmara de Deputados, a 13 de Março de 1828, contrariamente ao que jurara havia pouco tempo. Dissolvida a Câmara, todos os deputados regressaram aos seus círculos políticos. Joaquim José de Queiroz foi um deles. Profundamente escandalizado com tamanha afronta cometida contra a carta constitucional e ao liberalismo, rapidamente em Aveiro urdiu uma revolta contra o regime absolutista de D. Miguel, que se supunha definitivamente extinto de Portugal, com o apoio do Batalhão de Caçadores Dez de Aveiro, transformando-se este movimento no primeiro grito de revolta, em Portugal, contra o regime absolutista, que eclodiu em Aveiro a 16 de Maio de 1828. Os preparativos desta revolta tiveram lugar na casa do deputado Joaquim José de Queiroz, no lugar de Verdemilho, a dois passos da então já cidade de Aveiro.
Os revoltosos seguiram para o Porto e a revolta acabou por ser esmagada pelas forças leais a D. Miguel e à sua mãe, a rainha D. Carlota Joaquina. Tudo acabou de forma trágica. Muitos dos cabecilhas fugiram para Espanha, mas sete foram apanhados e enforcados na Praça Nova, no Porto. As suas cabeças foram cortadas e enviadas para Aveiro e espetadas em estacas, por várias ruas, para exemplo. Essas sete cabeças repousam hoje no cemitério Central da cidade. Joaquim José de Queiroz nunca foi apanhado, mas nunca se ausentou do país, vindo a falecer apenas em 1850.
E digam-me lá se a documentação que retrata este momento, não deveria permanecer na cidade onde os factos ocorreram, guardada com carinho e emoção?
Quem somos nós se não percebermos de que forma chegámos aonde estamos?

domingo, 16 de setembro de 2018

NUMA MANHÃ HÚMIDA CIPRESTES QUE PINGAM MORTE


... O céu estava nublado, cinzento. Um olhar triste, macilento, revelador de um estado de espírito devorado pela falta de vontade de viver, ao olhar aquele céu mais certeza tinha de que a vida já ficara para trás. Era o céu de Portugal, país ingrato. Sacrificando a sua juventude, tivera ele como paga daquele seu país o desaparecimento do fulgor que ao seu corpo dava energia, ao seu espírito alento.
         No desembocar de uma rua, abria-se esta num largo. Do lado direito existia um morro de terra avermelhada, encimado por eucaliptos. Do lado esquerdo estendia-se um longo canavial. Ao centro do largo podia-se admirar um extenso e verdejante relvado. Ao fundo, por detrás de uma linha de ciprestes, localizava-se o cemitério da Conchada. O carro contornou o relvado e parou junto aos ciprestes. Álvaro saiu do carro, acompanhado pelo seu pai. A manhã estava fria e húmida. Tudo era feio para Álvaro. O mundo não tinha mais graça. Aquela relva molhada era horrível, como o eram as folhas permanentes dos ciprestes, que pingavam morte.
         O enfermeiro Victor aconchegou o filho contra si. Pôs-lhe um braço por cima dos ombros e assim atravessaram o imenso portão do cemitério, espiados pelas órbitas metálicas e velhas de uma representação de caveira, incrustada no topo do portão. Álvaro caminhou pela rua ladeada de jazigos. Onde estava? Para onde ia? Ao querer encontrar-se com a sua querida loirinha, era ali o seu destino, no meio daquelas casas sombrias, fantasmagóricas, escorrendo desolada humidade esverdeada, impregnadas de podridão? As lágrimas corriam-lhe quentes, envelhecendo-lhe o rosto...(em continuação, ex. XXXVII)
in Visitados
Novembro/1999

sábado, 1 de setembro de 2018

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- 1179- BULA MANIFESTIS PROBATUM- VIVA EL-REI DE PORTUGAL


Em 1179 ocorreu um facto que D. Afonso Henriques desde sempre procurou, tendo-o atingido muito à custa do seu trabalho e perseverança, como interveniente na reconquista cristã da Península Ibérica, desenhando assim o mapa de Portugal.
            Se em 1143 tinha obtido de D. Afonso VII, rei de Leão, o reconhecimento do título de rei, esse mesmo reconhecimento manteve-se omisso, durante três décadas, no que à Santa Sé dizia respeito. O que, naquela época, era impensável acontecer.
            Até que, em 1179, o papa Alexandre III através da bula Manifestis Probatum, reconheceu o título de rei a D. Afonso Henriques. Com este documento o rei português ficou sob a protecção da Santa Sé, e era declarado que Portugal era um reino pertencente a S. Pedro. Era prometido ainda auxílio papal à defesa da dignidade régia.
            Finalmente, D. Afonso Henriques era rei de Portugal em toda a sua plenitude!

domingo, 26 de agosto de 2018

1973- O REGRESSO A CASA


-... E foi assim senhor Victor que o seu filho Álvaro regressou, a tempo de passar o Natal de 1973 em casa.
-         Um natal que estava destinado a ser muito triste, mas que acabou por em certa medida traduzir uma mensagem de amor e esperança. O Álvaro quando chegou aqui foi internado no Hospital Militar. Ali esteve cerca de uma semana. Os sedativos eram fortes. Por isso o tempo em que esteve hospitalizado passou-o quase todo a dormir. Mas como não tinha ferida que se visse, mandaram-no para casa por algum tempo. O médico que o seguia, penso que era major, disse-me que enquanto ele não enfrentasse o problema não se iniciaria o processo de recuperação da perda. Recebemo-lo com a alegria possível. Quando entrou em casa quis ir de imediato ao meu escritório. Disse-me que fora ali o último grande momento de felicidade que vivera com a Catarina. Agarrou-se a mim, abraçou-me com muita força e chorou convulsivamente.
-         Não teve vontade de ver os pais de Catarina?
-         Nesse mesmo dia lá foi... (em continuação, ex. XXXVI)
in Visitados
Novembro/1999
                           

terça-feira, 14 de agosto de 2018

ALJUBARROTA E MAFRA, UMA PROFUNDA SIMBOLOGIA MILITAR


Hoje foi dia de festa na Escola Prática de Infantaria em Mafra. E a avaliar pelo 14 de Agosto que lá vivi, em 1978, foi um dia de grande orgulho patriótico. Hoje, em Mafra, comemorou-se mais um dia da unidade. E porque razão tem este dia uma carga simbólica assim tão forte? É que o patrono da EPI é o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, o símbolo máximo do poder da infantaria, e faz hoje, precisamente, 633 anos que se deu essa grande e importantíssima batalha de Aljubarrota, no glorioso dia 14 de Agosto de 1385, na qual o Condestável foi o grande herói.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A DOR QUE FERE A ALMA


...Dizia que eu e a Lucinda esperávamos que o Hélder atingisse a idade adulta para o pormos ao corrente dos factos. Ele decidiria o que fazer. Fosse o que quer que fosse, teria o meu apoio.
- Mas, suponho que isso não irá ser preciso?!
- É verdade, a sua intervenção, senhor doutor, e a de mais alguém, estão a antecipar as coisas.
- E esse alguém é...
- O anjo de quem eu há pouco lhe falava. Mas, por favor, não insistamos nesse ponto. Mostre-me a cópia que fez do tal documento.
- Pois então vamos a ele.
         Américo Afonso levou a mão direita ao lado esquerdo do casaco e do bolso interior retirou uma folha branca dobrada em quatro. À visão daquela folha, o padre entrou numa excitação febril. Bem sabia que aquele não era o documento original. Bem sabia que a mão que escrevera as linhas ali representadas não fora a mão do morgado. Mas, acreditando na competência e seriedade daquele advogado, tinha a certeza de que o que ali estivesse escrito representava um atroz sofrimento, porque foram decerto das últimas palavras que atravessaram a mente do seu querido Vitorino. Por isso, o padre José Soares disse:
- O senhor doutor tem a certeza de que o conteúdo deste documento corresponde fidedignamente ao original?
- Em absoluto. Só aí falta a assinatura do morgado Vitorino.
- Pois vamos então tentar desvendar a verdade - e o padre José Soares iniciou a leitura do documento.
            “aos quatro dias do mês de outubro de mil novecentos e dez, eu, vitorino de lourenço fernando, declaro sob minha fé que vendo a minha herdade vila de ló, delimitada a nascente por s. martinho do porto e a poente por alfeizerão, a norte por salir do porto e a sul pelo vale paraíso, ao senhor barreto raposo. ao assinar o documento, olho com esperança  para a base do armário onde guardo os livros. sem fé.”
         As lágrimas romperam a capacidade de disfarce do padre José Soares. Sempre que era obrigado a falar sobre o morgado o seu amor próprio ficava destituído de significado, a dor feria-lhe a alma. Imóvel, deixando as lágrimas correrem livremente pelo rosto, fixava aquelas palavras. A pequena frase final “sem fé” era tão triste, tão vazia, tão sofrida...(em continuação, ex. LIV)

in Quando Um Anjo Peca

Março/1998

domingo, 29 de julho de 2018

UMA HISTÓRIA DE GUERRA CHAMADA SÃO


Mais uma reunião de um grupo de amigos, todos a chegarem ao topo da escadaria dos sessenta, numa primeira Sexta-Feira do mês (igual a todas as outras primeiras Sextas-Feiras em que ali se reuniam), conversando animadamente sobre as aventuras e desventuras da vida (tantas para contar), e uma senhora, no mesmo topo da escadaria dos sessenta, sempre muito bem disposta, que por ali passa todas aquelas mesmas Sextas-Feiras, a quem todos chamam «São», a caminho da sua banca da fruta no mercado ali perto, que, no entanto, naquela Sexta-Feira, contrariamente às outras Sextas-Feiras, apresenta no seu rosto uma profunda expressão de tristeza.
- Que foi São, que aconteceu?- pergunta o grupo de amigos, pronto para, de alguma forma, minimizar a tristeza naquele rosto tão comunicativo e contagiante de alegria.
            E a São, a vendedoura de fruta, contou a sua pequena história.
            Há muitos anos namorou um rapaz, o Manuel, um namoro mesmo de paixão, um namoro que se via mesmo ir dar num casamento longo e sempre muito feliz. Num final de tarde o Manuel abordou-a e disse-lhe, de supetão, que ao outro dia iria embarcar no navio Vera-Cruz para África, para a guerra do ultramar. Nessa noite, ela e o Manuel aventuraram-se muito para além dos simples beijos- a noite mais feliz da sua vida.
            O Manuel partiu…e pouco tempo depois morreu despedaçado por uma mina, numa desventurada picada de África.
            A São ficou solteira. Casou com a memória do Manuel. E naquela Sexta-Feira, em que trazia o rosto mergulhado em sofrimento, fazia anos, muitos anos, que o pai do Manuel lhe dera a notícia da morte do seu filho na guerra do ultramar.
            Não, não conheço nenhum destes amigos que constituíam aquele grupo, nem tão pouco conheci aquela «São», nem sei se esta história é verdadeira, porque não fui eu que a criei. Apenas posso dizer que foi com imenso prazer que li a crónica intitulada «A importância de se chamar São», no Diário de Aveiro, da autoria do senhor Carlos Campos, de quem tenho lido outras saborosas crónicas, mas que esta, por tratar de um tema que me é tão sensível, a guerra do ultramar, achei merecedora deste destaque.
            Muitas «Sãos» como aquela existirão ainda por este Portugal, de Norte a Sul, dramas reais, de uma juventude sofredora, histórias que o tempo vai apagando, passados sem grande futuro na memória de um povo.
            Aquela crónica preencheu alguns minutos de uma leitura emocionada. Um verdadeiro quadro da vida de um povo.