sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A EPOPEIA DO SEISCENTOS E SETENTA E UM

...Ali iam os dois naquela pasmaceira, o colega antigo mascarando o aspecto trôpego e alcoolizado com um ar severo e no seu entender respeitável, observando tudo e não dando conta de nada, e Serôdio, limitando-se a seguir o colega. Subitamente deu-se o choque. O antigo policia, olhando para a profundidade da rua que tão profissionalmente patrulhava, subitamente se modificou. Empertigando-se, pôs-se em posição de sentido, e com a mão direita, flácida, encostada à pala do boné cinzento, efectuou uma continência mole, sem dinamismo nem classe, enquanto que ao mesmo tempo gritava em altos berros:
-         Meu comissário principal, dá-me licença?
-         Avance seiscentos e setenta e um.
E o seiscentos e setenta e um, em passo de marcha, pelo passeio, abria caminho em direcção ao tal comissário principal, que como Serôdio mais tarde veio a saber, era um oficial rondante.
O seu colega seiscentos e setenta e um avançou pelo passeio cerca de cinquenta metros, e chegando próximo do oficial de ronda estacou o passo dizendo em altos berros:
-         Serviço sem novidade.

Serôdio, desgraçada e atabalhoadamente, seguiu o seu colega sem perceber o que se estava a passar. Tentando enfiar-se o mais que podia pelo boné dentro, percorreu aqueles cinquenta metros a morrer de vergonha. Em redor da cena, as pessoas passavam exibindo nos rostos sorrisos de troça e abanando as cabeças. Serôdio lá teve de apresentar ao tal comissário rondante a sua caderneta de controle. Depois de mais algumas encenações grotescas, o homem lá seguiu rua acima, enquanto Serôdio, acabrunhado, voltava a desfrutar da cálida e serena companhia do seiscentos e setenta e um. O comissário e o seiscentos e tal, de tão cavernosos e embrutecidos serem, nem sequer repararam que haviam proporcionado um hilariante e gratuito número de circo. Bem pelo contrário, nas suas cabeças bem fornecidas de osso, existia a convicção de que a população ficara agradecida por aquele solene e singelo momento de entrega ao serviço público...(em continuação, ex. XXXVI)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA: 1143- 1159- ACÇÕES DE UM CONQUISTADOR




Depois da Conferência de Zamora, em 1143, em que se realizou o Tratado de paz entre D. Afonso Henriques e D. Afonso VII de Leão, no espaço de dezasseis anos sucederam-se acontecimentos de grande importância para Portugal, tanto a nível do fortalecimento da nossa independência, como na acção da Reconquista Cristã do território da Península Ibérica aos Mouros.
Assim, em 1147 D. Afonso Henriques conquistou Santarém aos Sarracenos, bem como Lisboa, no que foi auxiliado por Cruzados.
Em 1151, houve a tentativa por parte de D. Afonso Henriques, de fazer uma aliança com o governador de Silves, o almóada Ibn Qasi, contra o senhor do Gharb Al-Andaluz, Abd Al-Mumin. Esta aliança saiu frustrada porque o governador de Silves foi entretanto assassinado.
Em 1158 D. Afonso Henriques conquistou Álcacer do Sal, após dois meses de cerco, de novo com ajuda de Cruzados.
Ainda em 1158, pacto secreto entre os reis D. Fernando II de Leão e D. Sancho III de Castela, celebrado depois da morte de D. Afonso VII. O pacto previa, além da divisão do território conquistado aos mouros, também da distribuição do reino de Portugal, caso viessem a conquistá-lo, como estava previsto. No entanto, por morte súbita de Sancho III, esse pacto ficou irremediavelmente comprometido, pelo que leoneses e castelhanos não puderam levar ávante os seus intentos.
No ano seguinte, em 1159, D. Afonso Henriques fez doação do castelo de Ceras à Ordem dos Templários, incluindo Tomar.
Cada vez mais a independência de Portugal ganhava consistência.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

ADEUS AO NINDA

-         Meu capitão, não consigo conceber o alferes Santa Cruz transformado num homem sedento de sangue. Ele é um oficial responsável, um homem dono de um espírito sensível...
-         Ouça alferes Mendes, ele agora é apenas um homem a quem mataram a namorada, que segundo parece, adorava. Tudo isto que eu disse pode não acontecer, mas há a possibilidade de no seu íntimo, a grande dor que sente, degenerar em algo nefasto. E que melhor meio para isso acontecer do que este ambiente? A personalidade humana é muito complexa. Há muito para descobrir sobre nós próprios, estou convencido disso. Não vamos mais longe, olhe o exemplo do inexplicável acontecimento de ontem, na picada. Como foi possível o alferes Santa Cruz ter previsto a localização exacta da emboscada, os pormenores da forma como ela estava montada, até o número exacto de turras que nos aguardavam? Que venha o melhor psicólogo explicar aquele facto, que eu sou todo ouvidos. Estou perfeitamente convicto de que existe uma parte de nós que desconhecemos. E a experiência que tenho da guerra dá-me alguma solidez para sustentar esta minha convicção. Por isso não vou arriscar.

         Dois dias depois Rui Mendes via Álvaro ser transportado numa pequena avioneta, a qual levantava voo da pista improvisada, contígua ao aquartelamento do Ninda, com destino a Luanda. A avioneta cada vez se tornava mais pequena, sendo a sua rota seguida pelo olhar do alferes. Álvaro partira antes do tempo, vivo. Da maldita guerra já se livrara. Mas punha-se a questão: que tipo de paz iria ele encontrar?... (em continuação, ex. XXXV)
in Visitados
Novembro/1999

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

XXI JANELA SOBRE O MEU PAÍS- CAVES ALIANÇA- AS CATACUMBAS DE BACO

Não, não se está a descer às profundezas dos infernos, antes às catacumbas de Baco, que por sinal se localizam bem perto, ali na Bairradina povoação de Sangalhos.
         Descem-se 120 metros abaixo do nível do chão e vamos sentir o aroma forte a vinho, que nas pipas de madeira fermenta. Visita fantástica.
         São as Caves Aliança onde se produz, provavelmente, o melhor espumante de Portugal.

         Boa visita!

domingo, 29 de outubro de 2017

A CAMINHO DA CALDEIRA

...António Avilar estivera a trabalhar nessa manhã no viteleiro, uma dependência da herdade onde eram reunidos os vitelos que iam nascendo. Inesperadamente surgira o mouro, que muito rudemente lhe ordenara que fosse para a zona da caldeira recolher uma manada de vacas que por ali pastava. António Avilar optou em ir pela estrada. Como a caldeira ficava fora de Alfeizerão, a caminho de S. Martinho do Porto, António Avilar tomou a direcção que o faria passar pelo Alto da Estrada.
         Que manhã magnífica ele desperdiçara dentro do viteleiro. O sol de Dezembro brilhava intensamente. Levando um cajado apoiado no ombro direito e o casaco velho pendurado nesse mesmo ombro, como era seu costume, António Avilar absorvia aquela dádiva da natureza, que era o calor macio do sol no fim de uma irradiante manhã de Dezembro.

         Subitamente, ao passar junto à capelinha de Santo Amaro, António Avilar estancou o passo. Muito sério, observava intensamente a capelinha. Junto à mesma estava parado o automóvel que lhe aparecera em sonhos. Era o mesmo. Sentiu um repentino arrepio. Os seus pensamentos voltavam a embrenhar-se no oculto, no mistério. Mas que havia ele de fazer? Aquele pesadelo entendera-o como um aviso. Agora que estava bem acordado, dar de caras com o malfadado automóvel, só poderia dar uma interpretação - toda a ameaça se começava a materializar. Rapidamente, sem voltar a olhar para aquele automóvel de mau agoiro, seguiu em frente, na direcção da caldeira, com o espírito perturbado...(em continuação, ex. LII)

in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

PRIMAVERA E OUTONO, ESTAÇÕES DE FOGO NO PORTUGAL DE 2017

Escrevo estas palavras imbuído de uma enormíssima tristeza, pois para além de ver a floresta, muitas dezenas de habitações e unidades indústriais do meu país a serem consumidas pelo fogo, de ver este nobre Portugal vestir-se de negro, é-me muito difícil aceitar que 106 meus concidadãos tenham, naquele miserável dia 17 de Junho e neste muito recente e trágico 15 de Outubro, perdido a vida da forma mais cruel que se possa imaginar.
Estamos de luto por três dias mas não podemos estar em paz. Para quem diz que algo tem de mudar eu digo que tudo terá de ser diferente.
De quem é a culpa?
No meu entender a culpa é de sucessivas décadas de uma política incorrecta, ou melhor, sem política nenhuma, para as nossas florestas. Depois que a nossa sociedade mudou, os matos das florestas cresceram a seu belo prazer, de forma completamente irresponsável, e deixámo-nos de preocupar com a correcta florestação, visivelmente espreitando o lucro.
A culpa foi de políticas completamente erradas que extinguiram o corpo da guarda florestal, e que era um garante de vigilância e alerta.
Nesta segunda investida do fogo, o governo tem uma grande quota parte de responsabilidade, pois não foi sensível às alterações climatéricas. E porque o calendário normal dos fogos diz que em Outubro o tempo é de Outono, como tal de temperaturas mais baixas e primeiras chuvas, o governo afrouxou as medidas de segurança, subestimando a alterações do clima, o que se veio a revelar fatídico no Domingo passado.
Exige-se a queda do governo. Mas quem exige a sua queda é quem é incapaz de ver o trabalho que o governo apresentou, em prol da nossa recuperação económica, ou então exige essa demissão porque encontrou nos incêndios o pretexto que aguardava, para ver pelas costas o governo que a esses chamou de medíocres.
Em prol da nossa economia, em prol da recuperação de alguma dignidade de vida por parte do povo, considero que se o governo do PS cair, isso será um enorme erro.
A Direita anunciou a chegada do diabo. E estava certa. O diabo chegou mesmo, entrou no nosso pobre país e devastou-o. Resta saber se o diabo veio por sua livre e espontânea vontade, ou se foi solicitado.
É sabido que ele, o diabo, tem duas capas: com uma tapa e outra destapa. Cá estaremos para ver se este diabo tem, efectivamente, a capa que destapa.

Os meus mais profundos pêsames a todos os familiares das 106 vítimas mortais deste verão e Outono, neste queimado ano de 2017.

sábado, 14 de outubro de 2017

ONIX E TOPÁZIO, O REGRESSO DO ANTIGO SABOR DE COIMBRA

Como bom conimbricense que me considero, tenho um motivo para me sentir muito contente no que à memória coimbrã diz respeito.
É que nos anos 90 do século passado foram extintas duas marcas de cerveja, exclusivamente conimbricenses: a cerveja preta Onix e a cerveja branca Topázio. Poder-se-á achar estranho que eu dê tanto valor à existência de duas marcas de cerveja. Mas é que a questão é mesmo essa: eram de Coimbra, e num país em que tudo é de Lisboa, ter Coimbra duas marcas de cerveja exclusivas é algo bastante importante, para além de estas cervejas terem ajudado a abrilhantar a tradição, para já não falar no seu sabor, que, para quem gosta de cerveja, eram únicas.
Pois bem, eis que esta semana me chegaram às mãos duas garrafas de cerveja Onix e Topázio. Elas aí estão de novo, agora de fabrico artesanal, mas melhores que nunca.
Os meus parabéns à Praxis que apostou na tradição e na reposição de um símbolo coimbrão.

Vale bem um sonoro saído da alma AFRA!