sexta-feira, 9 de novembro de 2018

NO GIRO 4

...Sou de Viseu. Por isso durante muitos anos prestei serviço na cidade de Aveiro e foi assim que tive a oportunidade de conhecer a história e a vida do Serôdio.
Naquele seu primeiro Domingo de serviço em Aveiro, patrulhando o giro quatro, que era composto pelas ruas de S. Sebastião, Mário Sacramento e Avenida Araújo e Silva, refugiado em si próprio, escapando assim à solidão das ruas desertas, Serôdio teve a oportunidade de recordar os seus primeiros três anos de vida policial.
Fazia um balanço desastroso; o serviço que tinha de executar até que tinha aliciantes, levando em conta que se tratava do bem estar dos cidadãos. Mas sob as ordens de tais homens, e tendo como logística a miséria que se via, ele perdia todo o incentivo. Corria riscos, perdia noites, era mal remunerado e nem uma palavra simpática recebia em troca. Era este então o tal «espirito de missão»: dar muito e em troca quase nada receber! Como escape para tanta frustração deveria insurgir-se contra os seus colegas «do antigamente»? Era evidente que não. Isso seria um enorme disparate...(em continuação, ex. XXXIX)

in Filhos Pobres da Revolta

Março/2003 

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

POR RESPEITO AO MFA


Regresso ao infeliz tema do assalto aos paióis de Tancos. E faço-o porque me aflige que, de uma forma tão branda, aceitemos o descrédito das Forças Armadas a quem devemos o facto de podermos, neste momento, estarmos a falar de forma tão livre e directa sobre esta questão. Eu vivi intensamente o dia 25 de Abril de 1974 na minha querida cidade de Coimbra. E nesse dia, para mim, as Forças Armadas (que três anos depois integrei), ganharam um valor e um respeito imensos, sentimentos que guardei e guardarei até ao final dos meus dias. Embora não tenha sido nada fácil, orgulho-me de ter servido as Forças Armadas durante dezasseis meses, nessa sumptuosa unidade que é a Escola Prática de Infantaria em Mafra. Por isso me aflige que, muito acima da encenação da recuperação do material roubado em Tancos, não se fale, não se explique, como foi possível esse assalto. Porque aí é que reside a vergonha. Aí é que está o ónus da questão. E não vejo ninguém preocupado em esclarecer como esse facto aconteceu.
Não me adianto mais. Como cidadão e ex-militar apenas exijo essa explicação. A memória do MFA também!

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

PARA OS QUE ESCREVEM UM PORTUGUÊS À CALHOADA


Parece-me que qualquer pessoa minimamente sensata, concordará com a afirmação de que o tesouro maior de um povo é a sua língua. É através dela que, escrevendo ou falando, nos comunicamos naturalmente, e sem qualquer tipo de dificuldade na compreensão, com todos aqueles que têm por mãe pátria o chão que também é o nosso.
            Sendo a língua a característica mais importante que identifica cada povo, e a nossa, especificamente, uma língua bem difícil de ser aprendida, pensava que tal como eu, todos os portugueses a estimavam e até, porque não dizê-lo, a mimavam, empenhando-se por, orgulhosamente, a falar e escrever correctamente.
            Infelizmente não é isso que venho constatando. Os atropelos à nossa língua, a falta de interesse em que a expressão escrita seja correcta, é constante.
            E o mais grave é as entidades comerciais serem as primeiras a dar o exemplo, incentivando assim a que os jovens escrevam português à «calhoada».
Recebi esta mensagem:
 «Outono e sinonimo de prevencao! Troque os pneus e faca a revisao da sua viatura, pague com o cartao…».
Estes senhores decerto que além de pneus também vendem facas!
O (~) til, que é um sinal tão bonito e que origina um som que só nós portugueses sabemos pronunciar, é simplesmente suprimido…porque dá muito trabalho. Quanto aos acentos agudos…vai lá que já te apanho.
            Já não bastava o maldito e anti-patriótico acordo ortográfico vir denegrir a língua de Camões, também nos defrontamos agora com a preguiça no escrever.
Sejamos portugueses em toda a acepção da palavra se fazem favor!

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

QUANDO SE ENCONTRA ARTE FILHA DA MADRUGADA



Hoje dei-me ao trabalho de dar uma vista de olhos sobre papéis velhos. Quantos tesouros se podem guardar em velhos papéis.
Estávamos em pleno Junho de 2004, decorria em Portugal o Campeonato da Europa de Futebol. A cidade de Aveiro recebeu no seu novo estádio dois jogos desse campeonato. Toda a cidade se transfigurou, recebendo os milhares de visitantes, não propriamente turistas mas antes amantes do futebol, a maioria adeptos das quatro selecções que jogaram na nossa cidade.
A segurança foi um dos serviços públicos, a nível nacional e local, que mais esteve em foco durante esse mês de Junho. E tinha de o ser, já que Portugal tinha sobre si os olhos de todo o mundo.
Em Aveiro o coração do serviço de segurança recebeu reforço. Ele foi um dos elementos que foi reforçar as hostes que trabalhavam em prol da segurança de todos.
Uma manhã bem cedo, ao entrar de serviço, ele passou com o olhar pelo interior da guarita de sentinela existente à entrada do coração do serviço de segurança, e apercebeu-se de que existia uma folha branca de papel esquecida no tampo da mesa rudimentar, que tinha qualquer coisa desenhada. Aproximou-se e… por momentos ficou imóvel de espanto. Naquela folha alguém, por certo quem estivera de serviço durante a noite, desenhara aqueles espantosos aviões de guerra e aquele navio de guerra a lapiseira, alguns do tempo da II Guerra Mundial. Ele desconfiara de quem era o autor daqueles desenhos e confirmou-o na escala de serviço. Claro, o Leal, só poderia ter sido ele.
Aqueles desenhos não mereciam ficar ali esquecidos, não mereciam ir para o lixo, não mereciam o desapego do seu criador, que por certo ali os abandonou por ter já criado imensas obras de arte a que nunca deu qualquer valor. Foi apenas por hábito que os abandonou. Criou-os para que lhe fizessem companhia durante a noite. Chegado o dia, cerrou o breve postigo do seu talento e obrigou-o a ficar de novo adormecido.
Ele guardou a folha branca de papel e assim que encontrou o autor dos desenhos disse-lhe que a tinha guardado, e perguntou-lhe porque razão ele não investia na sua arte. O autor sorriu e respondeu que não era pintor.
Hoje, passados todos estes anos, ele reencontrou aquela folha branca, entre papéis velhos, e resolvi dar-lhe alguma vida, homenageando assim o talento desconhecido de um camarada que, andando por aí, pelas madrugadas fora terá criado outras obras de arte para oferecer ao sol.
Tanto artista sem talento que, na sua mediocridade, se põe nos bicos dos pés e enche exposições com telas cheias de tinta de muitas cores. Outros há que…
Que maravilha!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

MAUS E TRISTES TEMPOS AQUELES DAS REPRESÁLIAS


...Foram tempos difíceis. Os velhos guardas, sentindo-se inferiorizados pelo superior nível cultural de alguns colegas mais novos, não perdiam a oportunidade de desdenhar deles, ou mesmo recusar-lhes ajuda, quando os viam em situações delicadas, fruto da sua inexperiência. No que dizia respeito aos subchefes e oficiais, era um perfeito tormento. Contavam-se pelos dedos os subchefes, chefes de esquadra ou comissários, que naturalmente aceitassem o facto de  terem sob o seu comando guardas, que culturalmente  os ultrapassavam com facilidade. Valendo-se do seu estatuto hierárquico de superiores aos guardas, que, no entanto, eram intelectualmente mais evoluídos, ministravam-lhes represálias, tais como cortes de folgas ou imposição de serviços de patrulha suplementares, para assim lhes quebrar o ânimo, quando não era a instauração de processos disciplinares, baseados em pequenas faltas, mas que no momento eram astuciosamente empoladas.
No início da década de oitenta este clima era vivido mais nos dois grandes comandos do país, Lisboa e Porto, e no comando de Aveiro, que servia como comando trampolim, onde muitos guardas passavam anos aguardando a sua transferência, geralmente para os comandos de Bragança, Viseu e Coimbra. Nos restantes comandos, muitos do interior, as transferências faziam-se muito lentamente, pelo que as novas mentalidades apenas alguns anos depois lá chegariam. Serôdio em Lisboa e eu em Aveiro, ambos fôramos protagonistas e vítimas da lenta mudança. A mim alcunharam-me de «O Beirão»...(em continuação, ex. XXXVIII)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003

terça-feira, 2 de outubro de 2018

PORTUGAL E CATALUNHA, UMA LUTA EM COMUM



Já aqui uma vez disse que admiro imenso a escrita da nossa escritora Deana Barroqueiro, não só pela forma extremamente cinematográfica como escreve, mas também pela enorme investigação histórica que faz, no sentido de escrever os seus romances históricos. Sinto que as suas pesquisas são fidedignas apresentações da história.
            E não podia ser em melhor momento que eu podia ler o seu último romance: 1640, (que ainda não acabei) que, obviamente, nos fala sobre a restauração da nossa independência.
            E digo que não podia ser em melhor momento, porque ao ler o romance aprendi que, de certa forma, devemos aos catalães a possibilidade de a nossa revolução ter tido sucesso. É que em finais de Novembro de 1640 a nossa nobreza foi convocada pelo rei Filipe III (IV de Espanha), e pelo governo do Conde Duque Olivares para ir ajudar na revolta da Catalunha, que há 378 anos se levantou em armas contra a opressão espanhola. A nossa fidalguia pensou então que, guerra por guerra, antes lutar pela causa portuguesa. E fizeram a revolução de 1640, quando o governo espanhol tinha muitas das suas forças desviadas para a Catalunha.
            Os catalães ainda continuam a lutar pela sua independência, como se viu ontem na televisão.

sábado, 29 de setembro de 2018

TANCOS, UMA TRISTE VERGONHA


Quando desapareceram as armas em Tancos, a parte da minha alma de militar, que ainda preservo, ficou quase estarrecida. Além de todo o tipo de coisas perfeitamente vergonhosas e escandalosas, que se têm passado neste nosso pobre país, só faltava isto: o exército passar pela triste vergonha de se deixar roubar, de deixar que um paiol fosse assaltado. No meu tempo de serviço militar um paiol era o correspondente ao altar de um templo. Muitas sentinelas de serviço, divididas por turnos, muitas rondas diárias e não eram necessários sistemas de vigilância. Tudo funcionava na perfeição.
            Os tempos mudam e parece que no seio da tropa mudaram muito.
            Agora, para meu espanto, ao fim de alguns meses de investigações, vejo o director da Polícia Judiciária Militar ser detido, o chefe da polícia que efectuava as investigações a esse assalto. A sério??? Mas o que é que se passa?
            E gostaria que me explicassem, que não percebo mesmo: no meio de todo este filme infeliz, o que é que o posto da GNR de Loulé teve a ver com tudo isto? Loulé? Nos cafundeu do Algarve? Relacionado com um assalto à base de Tancos, no Ribatejo? Estou desejoso de perceber esta charada!