domingo, 20 de janeiro de 2019

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- 1185- MORRE D. AFONSO HENRIQUES- VIVA D. SANCHO I


Após D. Afonso Henriques se ter visto reconhecido como rei, pelo papa Alexandre III, em 1179, curiosamente, como que enraivecidos por esse facto, os mouros endureceram a sua acção na Península Ibérica, inclusivamente em território já português que havia já sido conquistado pelo fundador da nacionalidade, D. Afonso Henriques, atacando, entre 1179 e 1181 as praças de Abrantes, Coruche, Évora e Lisboa, sendo sempre rechaçados. Por outro lado os Almóadas avançaram até à linha do Tejo, territórios ainda mal consolidados por parte do domínio português. O Emir de Marrocos, Yusuf I, atravessou o estreito de Gibraltar com as suas tropas, em Maio de 1184, vindo apoiar no ataque às linhas fronteiriças do Tejo, chegando a cercar Santarém, que, no entanto, não caiu nas mãos dos invasores. À frente das tropas portuguesas encontrava-se agora o infante D. Sancho, dada a idade avançada do seu pai D. Afonso Henriques.
            O fundador da nacionalidade, D. Afonso Henriques, faleceria no ano seguinte, a 6 de Dezembro de 1185, sucedendo-lhe no trono o seu filho, o infante D. Sancho, como D. Sancho I, tendo sido aclamado rei três dias depois em Coimbra.
            D. Afonso Henriques foi sepultado na Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, na altura capital do reino, onde ainda se encontram os seus restos mortais, lugar de culto para todo o português. Pelo menos para os portugueses que sentem orgulho na sua história!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

TEMPO DAS FORCAS SE RIREM DE SATISFAÇÃO


...O meu pai e eu, perante aquela revelação, abrimos os olhos de espanto.
- Diz vossemecê que quem matou os dois infelizes foi o filho do Conde de Cértima, o senhor Pedro Corga? – perguntei eu.
- That’s right – respondeu o inglês.
- Vossemecê não tem as aduelas bem apertadas, home – dizia o meu pai, quase escandalizado – atão o filho do senhor conde, um militar, ia-se lá pôr agora a matar gente do povo, gente que serve o pai dele?!
- Mas foi ele e nobody else. Depois foi ao ribeiro, lavou a espada e a faca. Mas quando estava a lavar a faca, ela caiu das mãos dele, pois yo oivi um metal a cair nas pedras. Ele fartou-se de a procurar, mas no a encontrou. Deu uns pontapés nas pedras, foi-se embora furioso e voltou a entrar na little church. Yo estava pregado ao chão, quase no respirava. E algum tempo after saiu com a farda toda vestida, foi buscar o cavalo que tinha atrás da little church e foi-se embora. Yo inda esperar um bocado sem me mexer. Quando senti que tudo estava em silence, levantei-me. A luz inda alumiava um pouco. Fui ver os dois corpos, o do Lúcio e da Adélia. Era blood por todo o lado. Fugi dali very quiqkly.
         Eu fixava o inglês, que por seu turno enchia mais um copo de vinho. Eu estava abismado e perplexo. E disse:
- Mas porque razão me veio vossemecê contar isso, a mim, que sou médico? Porque não foi ter com o regedor?
- Com justiça no gosto de falar. Lembro de coisas passadas. Tive medo de me meter em troubles. Alembrei-me então do doctor, que é boa pessoa. Yo ter de contar isto a someone.
- E agora? O que quer vossemecê fazer? – perguntei eu.
- O que há-de ele querer?! Cala-se muito bem calado. O regedor que descubra o matador, que é esse o seu ofício – interveio o meu pai – e vossemecê, Zé Corno, ou lá como se chama, não se meta em trabalhos acusando da matança o filho do conde ou ainda vai parar ao patíbulo. Olhe no que lhe eu digo! E mais a mais os tempos que correm em que as forcas se riem de sastifação. Os pequenos não podem botar da boca p’ra fora coisas desse tamanho, que achincalham a nobreza. Olhe no que lhe eu digo. Eu não oivi nada, nem tu Joaquim.
- Eu sei, meu pai. Isto é muito grave. E ainda por cima sem provas. Somente existe o testemunho deste homem – dizia eu.
- Mas quais provas? Nem com provas, nem sem provas. Tu ficas calado. Oiça cá – dizia o meu pai dirigindo-se ao inglês – p’ra que veio vossemecê desinquietar quem estava sossegado?
- Se yo no fala, rebento – exclamou o Jack Horn...(em continuação, ex. XXIX)

in Alma de Liberal

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

PARA VÓS, EM 2019


Amigos
Neste dia em que o mundo ocidental vê mais um ano terminar, o décimo oitavo deste século XXI, e dar início ao próximo, quero expressar os meus maiores desejos progressistas para o meu país. Assim:
1º- votos para que o abençoado governo democrático formado pelo PS, com o apoio  das forças de esquerda, PCP, BE e Verdes, se mantenha até às eleições legislativas de 2019, e se prolongue daí para a frente, continuando a ser capaz de fazer o bom trabalho económico que tem levado a efeito, muito embora eu saiba que há muitos cães a ladrar quando está a passar a caravana.
2º- votos para que Portugal consiga, definitivamente, encontrar a fórmula para pôr cobro a essa lastimável praga que têm sido os fogos florestais, e nesse sentido, eliminar de vez a presença, em lugares chave de combate aos incêndios, de sujeitos criminosamente incompetentes.
3º- votos para que todos os lesados dos incêndios de 2017, os verdadeiros lesados, vejam recuperadas as suas vidas, e para isso conta-se com o afinco do nosso meritório governo.
4º votos para que a nossa justiça atinja os níveis democraticamente eficazes e necessários, no sentido de fazer de Portugal um país onde não seja possível aos ladrões e parasitas de fato e gravata, de feições celestiais e profundamente honestas, contaminarem e infectarem o nosso tecido social.
5º- votos para que Portugal  se mantenha em moda e o nosso turismo seja cada vez mais original e criativo, mas de forma a deixar em paz aqueles que, vivendo em zonas turisticamente apelativas, tenham o direito às residências que fazem parte das suas vidas.
E por último, o meu profundo desejo para que a vida, em 2019, vos ofereça, além de saúde, a concretização dos vossos mais ansiados desejos.
Obrigado pela vossa companhia neste ano de 2018.
Um grande abraço deste vosso amigo
Poeta do Penedo


sábado, 22 de dezembro de 2018

A TRAIÇÃO DE PTAHKNOR AO DEUS CROCODILO SOBEK



...O deus supremo afastou-se então do local paradisíaco onde os deuses descansavam. Entrando na semi-obscuridade das águas do Nilo, enviou mentalmente um chamamento ao deus crocodilo Sobek, que momentos depois se apresentava perante Amon-Rá.
-         Chamaste-me, Amon-Rá?- perguntou o colossal crocodilo.
-         Sim Sobek, chamei. Sabes quem esteve aqui a fazer-me uma visita?
-         Não- respondeu Sobek, intrigado com a pergunta.
-         O deus Seth!- disse Amon-Rá, com aspereza na forma como pronunciou a resposta.
-         Seth? Seth esteve aqui?
-         É curioso Sobek! Como é que tu ainda não sabes que Seth esteve aqui? Não és tu o responsável pela vigilância e segurança de MassiftonRá?
-         Sou, Amon-Rá. Por isso mesmo estou desconcertado. Algo de muito fora do normal deve ter ocorrido para que eu não tivesse sido informado dessa presença.
-         Tens toda a razão, Sobek. Algo de muito anormal, algo chamado suborno aconteceu. Chama o teu Bhokurac Ptahknor e pergunta-lhe se ele não gostaria de ocupar o teu lugar.
-         Como? Ptahknor? Que me dizes Amon-Rá? Em MassiftonRá há ambição e traição?
-         Incorrecto Sobek- corrigiu Amon-Rá- às portas de MassiftonRá há ambição e traição, não em MassiftonRá.
-         Perdoa-me a incorrecção Amon-Rá. Eu sei que não tenho estatuto nem divindade para pertencer a MassiftonRá. Mas sinto-me feliz com o que sou. Se me permites, vou procurar Ptahknor e trago-to à tua presença.
-         Faz isso Sobek, que eu aguardo.
E o deus crocodilo partiu em busca do crocodilo Bhokurac Ptahknor. Ia furioso. A sua imensa cauda varria a água violentamente.
Passado um curto espaço de tempo, o deus crocodilo Sobek surgiu de novo, agora acompanhado pelo Bhokurac Ptahknor.
-         Aqui tens o crocodilo guardião em causa- disse Sobek.
-         Muito bem! Vou ser breve, pois a traição e a corrupção perturbam-me- disse Amon-Rá...(em continuação, ex. XXXIII)

in A Causa de MassiftonRá

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

DEVOLUÇÃO


Estou com quarenta e cinco anos de idade. Segundo a letra da canção do Paco Bandeira entrei na idade de uma ternura muito específica, que além de sentimento tem também experiência e sabedoria. E estou tentado a dar-lhe razão.
De facto a idade dos quarenta é um patamar cronológico de vida, que se pode considerar de excelência. Alia conhecimento a uma ainda enorme vitalidade. Que pode o ser humano querer mais?
Pois aí é que está a questão. No mundo que o homem foi moldando, conhecimento e vitalidade não chegam para se ser feliz! Talvez isso acontecesse naqueles tempos distantes, no fim da Era dos Neandertais e o começo do Homo Sapiens, em que a vida não conhecia a expressão «possuir bens».
Nessas épocas tão distantes de nós, há vinte e oito mil anos, a felicidade dos seres humanos de então residia em três coisas: ser um experimentado caçador, ter uma caverna onde se abrigar e ser muito bom a conseguir, com o atrito de duas pedras de sílex, uma boa faísca através da qual ser-lhe-ia possível fazer uma boa fogueira, para se aquecer e assar a carne da caça.
Mas o Homo Sapiens estava destinado, pelo criador disto tudo, a evoluir. Ao fazê-lo, esqueceu a felicidade daquela vida agreste, difícil, mas com a pureza do que é simples, e começou a complicar. E de complicação em complicação, atravessando a profundidade dos séculos, conseguiu complicar o que já de si foi ficando complicado: inventou o dinheiro!
A partir dessa invenção, ser saudável e ter experiência e conhecimento deixou de bastar para se ser feliz.
Os pobres, na tentativa de mitigarem o seu sofrimento, criaram a expressão: «dinheiro não é felicidade». Como eu gostaria que assim fosse!
Eu sei que há muita gente que, sendo rica, não é feliz. Falta-lhe a saúde. Mas perguntem a um miserável, cheio de saúde, se é feliz. Ele até pode tentar convencer-se de que o é, pois tendo uma vida para viver, tem de a concretizar da melhor maneira possível. Mas num mundo consumista e materialista, que vida pode ter aquele que não tem possibilidade de consumir, a quem está vedado o acesso aos bens materiais que o rodeiam?
Como eu gostaria que o Homo Sapiens actual inventasse agora uma forma de se ser feliz sem dinheiro.
Bem, mas se estou para aqui a divagar, é com um propósito. Quero revelar o conteúdo de uma carta fechada que a vida me abriu.
Chamo-me Mário Feliciano. Filho de gente pobre, não posso dizer que a minha vida, na adolescência e juventude, tenha sido um inferno, mas esteve muito longe de ter sido um paraíso.
Os meus pais, com muita dificuldade, me mantiveram a estudar até ao terceiro ano do Secundário, o que a lei obrigava. Com dezasseis anos de idade, vi o meu pai conseguir-me arranjar trabalho num enorme armazém de produtos agrícolas, onde ele próprio trabalhava, tendo-me ali mantido durante vinte e um anos, tempo este apenas interrompido por aquela meia dúzia de meses em que tive de ir cumprir o meu serviço militar obrigatório.
Trabalhava-se muito, e como já é hábito neste pobre país, ganhava-se pouco. Vida de pobre! A massa trabalhadora a dar tudo o que tem e o patronato, em troca, a dar à massa trabalhadora apenas o que a triste legislação obriga, revestindo-se de uma carapaça onde os escrúpulos fazem ricochete.
Já o meu pai dizia que a vida pode se revelar uma carta fechada. Tive então dificuldade em perceber o que ele queria dizer com isso, até ao dia em que a vida mo ensinou, naquele excepcional dia de 2010.
Nesse dia, já possuidor de carta de condução, que paguei com dificuldade em prestações (esse favor devo ao dono da escola de condução), conduzindo uma carrinha de caixa aberta, fui levar meia dúzia de sacos de batatas a um restaurante. Carregando os sacos, um a um, lá os depositei na cozinha, onde se encontrava o proprietário, que também era o cozinheiro. Foi uma daquelas coisas que não têm explicação! O dono do restaurante e eu nunca nos tínhamos visto na vida, e quando nos observámos, sorrimos um para o outro e ali nasceu uma simpatia mútua. No final do carrego o senhor ofereceu-me uma cerveja, que eu aceitei. Estávamos em Julho e o calor já apertava. E ali, na sua cozinha, conversámos cerca de um quarto de hora. Foi o bastante! Um mês depois deixei o armazém de produtos agrícolas, de há vinte e um anos, dizendo adeus ao explorador do patrão, que não demonstrou qualquer tipo de curiosidade em perceber por que razão me ia embora. Para ele, sair eu ou um canico que por ali tivesse andado vinte e um anos, foi o mesmo. Verdade seja dita que me aguentei ali todo aquele tempo apenas e só para não trazer complicações à vida do meu pai. Mas tendo-o já reformado, assim que tive oportunidade, para mais sendo um novo trabalho oferecido com um sorriso, simpatia e maior justiça salarial, mandei o sacana do explorador para o quinto dos infernos.
Com que alegria e entusiasmo abordei o novo trabalho!
O meu novo patrão, solteiro como eu e uns anos mais velho, chamava-se Albertino Pereira Torres, e o seu pequeno restaurante o «Azeite e Alho».
Era um restaurante simples e popular, direccionado para gente simples como nós, com um cozinheiro que, além da sua contagiante simpatia, tinha nas mãos um tempero de excelência.
Comecei a trabalhar servindo às mesas. O serviço não exigia requinte, porque os clientes apenas requeriam simpatia e boa comida. Por isso não foi difícil a minha adaptação.
Tinha apenas um colega, mais ou menos da minha idade, mas já muito tarimbado naquelas andanças de servir à mesa de forma simples mas eficaz. Com os seus conselhos e a simpatia do patrão, ao final do primeiro mês o trabalho revelava-se-me muito mais gratificante do que aqueles vinte e um anos a carregar caixotes de fruta e sacos de batatas.
Naquela casa comecei a ver a vida por uma perspectiva muito mais colorida. A diferença que pode fazer o carácter de uma pessoa na nossa vida, que tem influência directa no nosso trabalho, pode ser mesmo impressionante. A tal carta fechada de que o meu pai falava, revelou-me uma excelente surpresa. O senhor Albertino Torres transformou-me num tipo um pouco mais feliz, porque trouxe à minha vida um pouco mais de justiça social, ao fazer-me sentir que trabalho e dignidade eram duas realidades que, afinal, estavam ao meu alcance.
Mas as cartas fechadas ainda não tinham acabado.
Trabalhava eu no Azeite e Alho havia dois anos e meio, quando, um dia, ao jogar no euromilhões, a deusa da fortuna apiedou-se de mim, e ganhei vinte e sete milhões de euros. Não, não me enganei. Acho que na altura até me babei. Um homem, de um momento para o outro tornar-se dono de uma fortuna assim, até pode provocar alguma coisa má com tanta emoção! Mas lá me aguentei.
E inebriado com a abundância de dinheiro, não reparei em mais nada, por certo naquilo que tinha obrigação moral de dar conta. Fechei-me num estúpido egocentrismo, talvez até tendo sofrido de um momentâneo e deplorável narcisismo. Com a carteira a rebentar pelas costuras com o peso do dinheiro, olhando, mas sem nada ver, despedi-me do Azeite e Alho e dei um abraço de «até um dia destes» ao meu patrão, o senhor Albertino Pereira Torres. Corria o mês de Julho de 2012. Teria sido uma boa altura para pegar um maço de notas de cem euros, e esfregar com ele a cara mimosa da avantesma do meu antigo patrão.
Portugal afogava-se em dívidas, mas eu tinha de nadar energicamente para não me afogar em dinheiro.
Solteiro, livre como os passarinhos, após rechear bem a triste conta bancária dos meus pais, fui conhecer mundo sem data marcada de regresso, no píncaro dos meus fortes trinta e nove anos de idade, impulsionado pelo avião a jacto que eram os meus milhões. Andei por onde me deu na veneta, e como a minha veneta é enorme…desde a Austrália ao Alasca, da Ásia à Tórrida e mágica África, berço da humanidade, passando pela América do Sul e a luxuriante e densa Amazónia, tudo vi e muito aprendi. Depois, regressado à Terra-Mãe, com o espirito explorador muito mais sossegado, fui comprando enciclopédias e aprendi mais alguma coisa, a juntar ao bocadinho que o terceiro ano do Secundário me oferecera. Até que, passados dois anos, acho que um qualquer remorso me bateu forte.
Terminada aquela euforia inicial eu tinha de dar algum sentido ao dinheiro que tão subitamente ganhara. Sem um significado a dar àquela fortuna, parecia que eu não era merecedor de a possuir. Numa hora muito feliz o senti.
Com o coração a bater forte de emoção, dirigi-me ao Azeite e Alho para rever aquele homem que me ensinara que, afinal, a felicidade não era impossível de ser alcançada.
Cheguei ao restaurante e parei o meu excelente carro bem à sua frente. Havia ali qualquer coisa de anormal. Pus a minha mão direita no manípulo da porta de entrada e rodei…mas a porta não se abriu. O nome do restaurante ainda lá estava, por cima da porta, em letras pintadas de vermelho e amarelo-torrado, mas cheio de teias de aranha carregadas de insectos mortos, e muita sujidade a tirar cor à vida do Azeite e Alho. Não foi difícil perceber aquele drama, um drama de um homem que o não merecia. Essa percepção foi-me ditada pela consciência a martirizar-me. Reparei então num papel colado no vidro triste e empoeirado da porta. Indicava um número de telefone de um administrador judicial. Meu Deus, dois anos depois de me ter ido embora vim dar com o senhor Albertino Torres falido. Por certo que os problemas começaram ainda eu lá trabalhava. Lembrei-me de que a afluência da clientela diminuía. A crise instalava-se em Portugal de forma abrupta e impiedosa. Mas ele nunca me fizera sentir que o restaurante estava em dificuldades. Nunca me faltou com o vencimento…tudo se deve ter precipitado após a minha saída.
Liguei para aquele número de telefone e imediatamente me reuni com aquele administrador. Pedi, com urgência, uma reunião de credores, e montado nos meus milhões, paguei a dívida de uns míseros milhares de euros. No mundo do materialismo ter a força do dinheiro abre qualquer porta, qualquer uma! Já por outros mundos, de que o materialismo desdenha e apelida de ignorante, a potência dominante é apenas e só a essência de cada um de nós. Infelizmente essa essência, embora ande por cá, não pertence a este mundo.
Deram-me a última residência conhecida do falido, o meu antigo patrão. Mas não fui talhado para fazer averiguações, e como podia, entreguei o assunto aos entendidos. Com o meu poderoso smartphone xpto, que uma pequeníssima côdea dos meus milhões me oferecera, logo encontrei uma agência de detectives privados, tendo contratado os seus serviços. Duas semanas depois um detective contactou-me e deu-me a informação de que eu precisava: a localização do senhor Albertino Pereira Torres. Emudeci! Uma hora depois estava lá.
A força dos meus milhões levou-me até um parque de estacionamento que servia um hospital. Estávamos em Dezembro, às portas do Natal. O dia estava soalheiro, mas frio. Eram três da tarde.
Percorri o parque mais em busca de um arrumador que me indicasse um lugar para estacionar, do que propriamente o espaço para estacionar.
Quis ser visível. E fui! Ao fundo daquela rua sem história, que se abria entre duas longas fiadas de carros estacionados, uma à direita outra à esquerda, lá estava o arrumador a fazer-me sinal com as mãos de que havia ali um lugar. Aproximei-me dele e observei-o muito…muito bem, com as lágrimas a abrirem caminho pelos meus poros agora milionários. Tal como um dia me indicara um local para ser feliz, agora aquele arrumador indicava-me um local para estacionar.
Estou muito feliz. E essa felicidade devo-a aos milhões que tenho, que me possibilitaram devolver dignidade material a um homem que, um dia, teve o condão de me ensinar o quanto a nossa essência espiritual pode influenciar a nossa existência material. Aprendida a lição, apenas mostrei ao meu mestre a forma como o fiz.
É Natal, faz muito frio na rua. Mas com o calor do forno, junto ao qual o senhor Albertino Torres de novo é feliz, e eu também, servindo às mesas (não rejeito uma gorjeta), o calor humano aquece a alma.
Neste Natal o restaurante Azeite e Alho, além de poder dar um sabor melhor e diferente ao bacalhau, tem montado um encantador presépio para oferecer magia aos seus clientes.
Passem por cá. Não se irão arrepender!

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

SEMENTES DE DÚVIDA EM MASSIFTONRÁ

S

...Propositadamente não mencionara o Sumo-Sacerdote estrangeiro, protegido de Amon-Rá, que andava fugido ao ódio do faraó. Esse era o ponto fraco do deus supremo. Que delicia iria ser, quando tivesse em seu poder esse estrangeiro.
No seio dos deuses reinava a estupefacção.
-         Mas o que é que se passa, que forças deixei eu de controlar?- perguntava Amon-Rá.
-         É natural que Seth pense sentir em ti fraqueza- disse o deus ancião Áton- com a liberdade de movimentos que ele vê no faraó...
-         Mas o faraó não é um humano qualquer. Nas mãos dele está o destino material do Egipto. É sensato desacreditá-lo aos olhos dos homens?
-         E será sensato os homens sentirem fraqueza em ti?- perguntou o deus chacal Anúbis.
-         O poder de Amon-Rá é de tal forma grande, que nunca corre o risco de cair em descrédito- disse o deus supremo- se não ataco o faraó directamente, posso fazê-lo rodeando-o, minando a sua influência, sem que disso o comum dos homens se aperceba, mas, ficando essa fraqueza bem perceptível ao faraó, de imediato compreenderá a minha mensagem. Mas não me preocupo com isso porque não sou louco. Tenho a perfeita noção de que uma sacerdotisa não vale a preocupação de um deus. Tenho de ser superior a isso tudo. Muito mais me preocupa a integridade física de Masahemba; e julgo que o faraó tem vontade de o sequestrar. Essa sim, essa é uma questão pessoal, à qual não permitirei ataques.
-         Seth não mencionou o nome de Masahemba, mas estou convencida de que sabe da sua existência e dos seus problemas- disse a deusa Ísis.
-         Ainda bem que me alertas para esse pormenor. O sifto encarregado de contactar Masahemba que parta imediatamente, e leve o meu Sumo-Sacerdote para a casa do abençoado artesão.
-         E em relação ao resto?- perguntou o deus ancião.
-         Ao resto? Que resto? A que te referes?- perguntou Amon-Rá.
-         Ao meio pelo qual foi possível a Seth introduzir-se em MassiftonRá- respondeu Áton.
-         É verdade, já me passava. O que seria de mim sem os vossos conselhos e observações?!- retorquiu Amon-Rá sorrindo...(em continuação, ex. XXXII)

in A Causa de MassiftonRá

terça-feira, 20 de novembro de 2018

XXV JANELA SOBRE O MEU PAÍS- MISTICISMO PORTUGUÊS


Iberos, Celtiberos, Romanos, Visigodos e Reconquista Cristã, um caldeirão de culturas e lendas que é a Península Ibérica e Portugal. Na profundidade de Trás-os-Montes, escondida por penhascos, se revela a existência de um Portugal místico.