quinta-feira, 25 de maio de 2017

UMA TRIBUNA DE CARRANCAS

...Os dias foram-se escoando. Depois de muitas manifestações de estupidez a que assistira, que provocaram o aumento da desilusão no seu intimo, chegou o dia 16 de Junho de 1983, dia em que prestou o Compromisso de Honra. Aquela cerimónia foi em tudo idêntica ao Juramento de Bandeira na tropa. As companhias perfilaram-se, os guardas provisórios comprometeram-se a defender a segurança interna do país e depois desfilaram perante os seus familiares e uma tribuna recheada de gente distinta, tais como coronéis, majores e altos comissários. Quando as companhias, marchando, faziam o «olhar à direita», prestando assim continência às altas individualidades, Serôdio num breve momento pôde apreciar as «carrancas» nobres e distintas dos senhores, que carregados de galões e medalhas brilhando ao peito, estavam maravilhados com aquele belo espectáculo, composto por quinhentos e setenta rapazes marchando, que assim enchiam a população de Torres Novas de muita alegria. Portugal rejubilava de satisfação, porque tinha mais quinhentos e setenta queridos policias ao seu serviço. Era pois perfeitamente compreensível a felicidade que se via estampada, nos rostos fechados pelo embrutecimento, dos oficiais que naquela tribuna se encontravam. Naquele momento, estavam perfeitamente conscientes de que prestavam um grande serviço ao país, e assim justificavam em pleno os bons vencimentos que auferiam... enquanto os rapazes, vestidos com a sua farda de gala, para muitos o único fato que até ali haviam conhecido, à sua frente passavam a «olhar à direita»... «olhar à direita»...

         Na alocução que o comandante da escola proferira, um Comissário Principal, dissera que estar-se na policia não era ter-se um emprego. O serviço da PSP teria sempre que estar sustentado por um alto espirito de missão. Logo naquele momento, aquela ideologia não soou muito bem a Serôdio. E estava certo nessa dúvida, como mais tarde veio a constatar. Mas por enquanto ele era apenas um guardita, de olhos fechados, que ia ser lançado para o meio do circo de feras. Essa era a sua grande preocupação. Com  muito ou pouco gosto era efectivamente um agente da PSP, e teria que se assumir como tal...(em continuação, pág. 87, ex. XXXIV)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003

sábado, 20 de maio de 2017

UMA CARTA PARA ROLF CHRISTOFFERSEN

4 de Maio de 1945. Virginia Christoffersen, a viver em New Jersey, enviou uma carta ao seu saudoso marido Rolf Christoffersen, marinheiro norueguês radicado nos Estados Unidos, embarcado num navio que estava atracado em Porto of Spain- Trinidad e Tobago. No entanto a carta nunca chegou ao destino tendo sido devolvida.
2017. Allen Cook e a filha Melissa, a viverem em New Jersey, resolveram fazer obras na sua casa, recentemente adquirida. A dado momento o genro de Cook apercebeu-se de algo que despontava por debaixo de um taco solto. Levantou o taco e deparou-se com um sobrescrito amarelecido, endereçado a um tal Rolf Christoffersen. Melissa, entusiasmada, imediatamente se pôs a pesquisar aquele nome no google,  tendo encontrado um Rolf Christoffersen a viver em Santa Bárbara- Califórnia.
Conseguiu entrar em contacto com o senhor, tendo sido informada de que Rolf Christoffersen tinha 66 anos de idade e era filho de um outro Rolf Christoffersen, este actualmente com 96 anos de idade. Rolf Christoffersen filho informou-a ainda de que a sua mãe, já falecida, se chamara Virginia Christoffersen.
Desta forma Rolf Christofferssen, antigo marinheiro, com 96 anos de idade, recebeu finalmente a carta da sua esposa Virginia, escrita e enviada 72 anos antes, em que o informava de que iria ser pai brevemente.
Não, não é uma invenção minha. O Diário de Aveiro noticiou esta história encantadora como notícia que terá sido avançada pela CNN.

Afinal, a criatividade dos escritores pode não ser tão irrealista assim.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

FLORES À MEMÓRIA DOS AVEIRENSES QUE SOFRERAM PELA LIBERDADE

Há certos gestos que me sensibilizam enormemente, principalmente quando têm lugar em prol de causas esquecidas, excepto para quem executou esse gesto.
Hoje, ao passar junto ao obelisco «à memória dos aveirenses que sofreram pela liberdade», que foi erigido pelo Clube dos Galitos em Dezembro de 1909, reparei que na sua base se encontrava uma fresca coroa de flores. Foi este o gesto que me emocionou. É que anteontem, 16 de Maio, completou-se mais um ano sobre a primeira revolta liberal que ocorreu em Portugal, contra o regime absolutista de D. Miguel, a 16 de Maio de 1828, que além do povo envolveu também o Batalhão de Caçadores Dez, de que resultou o enforcamento de sete aveirenses ilustres na Praça Nova no Porto. Estava lançada a semente para a guerra civil que se aproximava, e que iria ditar o fim da monarquia absoluta em Portugal.

Tanto que pode significar uma coroa de flores!

domingo, 14 de maio de 2017

«AMAR PELOS DOIS», UM AMOR QUE DEMOROU 53 ANOS A SER REALIZADO

Estou muito feliz. Já tinha perdido as esperanças de ver Portugal a ganhar o Festival da Eurovisão.
A minha geração começou a acompanhar o Festival da Eurovisão praticamente ao entrar para a escola primária. Eu comecei na escola primária em 1962, e dois anos depois realizou-se o primeiro Festival da Eurovisão. Ainda me lembro muito bem de ver a cantora inglesa Sandie Shaw, surgir em palco descalça, em 1967, e nesse festival arrebatar o primeiro lugar. Desde logo comecei a amealhar desilusões, e algumas bem difíceis de digerir, já que por vezes levámos músicas muito bonitas.
Estou bem consciente do que escrevi antes e por tal razão, e pela primeira vez, muito satisfeito por os júris não terem concordado comigo, e a Europa em geral. Afinal a nossa música teve uma melodia com capacidade para derreter corações. Quebrou-se o enguiço, e de uma forma o mais simples possível: uma música acompanhada apenas com piano, com uma letra extremamente intimista e interpretada de uma forma suave, muito peculiar. Uma música «feita de sentimentos», como afirmou o seu intérprete Salvador Sobral. Não haja dúvida de que o jazz é uma enorme escola.
O Salvador foi mesmo o nosso Salvador e por isso se imortalizou na história da música em Portugal. É verdade!
Foram 53 anos a tentar. E ele foi o primeiro a consegui-lo, com uma música escrita pela sua irmã Luísa Sobral a quem também devemos esta honra. Por isso dar aos irmãos os meus parabéns acho que é muito pouco, mas nada mais tenho para lhes oferecer, a não ser estas palavras de gratidão muito sentidas.
E, claro, a minha promessa de que, no próximo inverno, com imenso prazer, ao som da vossa e nossa «amar pelos dois», ao calor de uma lareira, à vossa saúde e à de Portugal, erguerei bem alto um cálice de aguardente velha bem portuguesa.

Muito obrigado Luísa e Salvador Sobral!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

FÁTIMA, CEM ANOS DEPOIS

Não poderia ser indiferente à passagem do primeiro centenário das aparições de Fátima. Se o fizesse seria ingrato e incoerente comigo mesmo.
A 13 de Maio de 1917, pelos montes de Cova de Iria, em Fátima, uma pequena povoação do Distrito de Leiria num Portugal rural e recentemente republicano, três pequenos pastores, Francisco, Jacinta e Lúcia, afirmaram terem visto e conversado com uma senhora vestida de branco que pairava no ar. A partir desse momento nasceu um dos maiores fenómenos religiosos da Cristandade.
Depois de ter recebido a visita do Papa Paulo VI, em 1967, do extraordinário Papa João Paulo II, em 1982, 1991 e 2000 para a beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, do Papa Bento XVI, em 2010, chegou agora a vez do também extraordinário Papa Francisco rezar no Santuário de Fátima, que amanhã irá canonizar Francisco e Jacinta Marto.
Fátima é fé, essencialmente lugar que tem servido de bálsamo às dores físicas e da alma de muitos e muitos homens e mulheres de Portugal e do resto do mundo. Eu sou exemplo dessa força e dessa ajuda. Essa a razão que explica o fluxo de milhares e milhares de peregrinos, incessantemente, neste período de cem anos que se completa amanhã.

Santuário de Fátima, que alberga a santificada Cova de Iria, diferente e intenso de fé!
Obrigado a ti, Senhora de Branco em Fátima.

terça-feira, 9 de maio de 2017

FESTIVAIS DA EUROVISÃO, FRUSTRAÇÕES PORTUGUESAS. GENUÍNAS OU FABRICADAS?

Durante muitos anos fui um fervoroso seguidor do Festival da Canção e do Festival da Eurovisão. Noite de festival na televisão, para mim era noite de alegria e entusiasmo. Foi dessa forma que pude acompanhar o despontar de um carreira de tremendo sucesso, do grupo sueco ABBA, que em 1974 venceu o Festival da Eurovisão com a imortal música «Waterloo».
Mas, nesses meus muitíssimo bem acompanhados anos dos festivais, em que em Portugal se apostava em nomes sonantes da nossa canção, como António Calvário, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, José Cid, Carlos Paião, etc…, a seguir ao empolgamento ao ver a nossa canção em palco, vinha a frustração e o sentimento de injustiça imperava, ao ponto de abandonar a sala da televisão «de trombas». É que, durante muitos anos, levámos músicas de muita qualidade. No entanto, a melhor classificação que obtivemos até hoje foi um 7º lugar. Na generalidade ficámos sempre nos últimos lugares, senão mesmo com a lanterna vermelha nas mãos. Durante muitos anos, e na minha concepção de música, uma ou outra vez levámos canções que mereciam o primeiro lugar ou uma classificação acima do sétimo. Mas isso nunca aconteceu. Dizia-se que era a política a mandar. Aceitava-se. Portugal estava sob uma ditadura, o que era desprestigiante para o país. Mas depois veio o 25 de Abril, com a nossa Revolução dos Cravos, cheia de música e poesia, que nos trouxe a democracia, que nos colocou democraticamente em pé de igualdade com o resto da Europa. Mas nada aconteceu. Continuámos no Festival da Eurovisão a coleccionar lanternas vermelhas ou quase, mesmo quando em disputa com países recém criados, após a queda do muro de Berlim e o colapso da União Soviética. Perante esta persistente e, na minha opinião, pré-concebida má classificação, os cantores de nomeada deixaram de apostar no Festival da Canção, e iniciou-se um processo em que o Festival da Canção se transformou numa rampa de lançamento para novos nomes. Na minha opinião o Festival da Canção perdeu qualidade e eu desinteressei-me.
Hoje à noite, como tem acontecido em muitas outras noites, o nosso cantor parece ser a estrela da companhia. Parece que aquela plateia o vai ovacionar com profunda emoção. Das outras vezes essas demonstrações de entusiasmo revelaram-se «autênticas montanhas a parirem ratos».
A nossa canção que logo subirá ao palco é bonita, mas não passa de uma balada para ouvir à lareira numa noite de chuva. Não tem aquele carisma, aquela força necessária.
Mas como o nosso cantor é um Salvador…quem sabe!

         

sábado, 6 de maio de 2017

O ADEUS AO AQUARTELAMENTO DO NINDA

...Dois dias depois Rui Mendes via Álvaro ser transportado numa pequena avioneta, a qual levantava voo da pista improvisada, contígua ao aquartelamento do Ninda, com destino a Luanda. A avioneta cada vez se tornava mais pequena, sendo a sua rota seguida pelo olhar do alferes. Álvaro partira antes do tempo, vivo. Da maldita guerra já se livrara. Mas punha-se a questão: que tipo de paz iria ele encontrar?...


-... E foi assim senhor Victor que o seu filho Álvaro regressou, a tempo de passar o Natal de 1973 em casa.
-         Um natal que estava destinado a ser muito triste, mas que acabou por em certa medida traduzir uma mensagem de amor e esperança. O Álvaro quando chegou aqui foi internado no Hospital Militar. Ali esteve cerca de uma semana. Os sedativos eram fortes. Por isso o tempo em que esteve hospitalizado passou-o quase todo a dormir. Mas como não tinha ferida que se visse, mandaram-no para casa por algum tempo. O médico que o seguia, penso que era major, disse-me que enquanto ele não enfrentasse o problema não se iniciaria o processo de recuperação da perda. Recebemo-lo com a alegria possível. Quando entrou em casa quis ir de imediato ao meu escritório. Disse-me que fora ali o último grande momento de felicidade que vivera com a Catarina. Agarrou-se a mim, abraçou-me com muita força e chorou convulsivamente.
-         Não teve vontade de ver os pais de Catarina?

-         Nesse mesmo dia lá foi... (em continuação- Pág. 101, ex. XXXV)

in Visitados
Novembro/1999