terça-feira, 14 de agosto de 2018

ALJUBARROTA E MAFRA, UMA PROFUNDA SIMBOLOGIA MILITAR


Hoje foi dia de festa na Escola Prática de Infantaria em Mafra. E a avaliar pelo 14 de Agosto que lá vivi, em 1978, foi um dia de grande orgulho patriótico. Hoje, em Mafra, comemorou-se mais um dia da unidade. E porque razão tem este dia uma carga simbólica assim tão forte? É que o patrono da EPI é o Condestável D. Nuno Álvares Pereira, o símbolo máximo do poder da infantaria, e faz hoje, precisamente, 633 anos que se deu essa grande e importantíssima batalha de Aljubarrota, no glorioso dia 14 de Agosto de 1385, na qual o Condestável foi o grande herói.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

A DOR QUE FERE A ALMA


...Dizia que eu e a Lucinda esperávamos que o Hélder atingisse a idade adulta para o pormos ao corrente dos factos. Ele decidiria o que fazer. Fosse o que quer que fosse, teria o meu apoio.
- Mas, suponho que isso não irá ser preciso?!
- É verdade, a sua intervenção, senhor doutor, e a de mais alguém, estão a antecipar as coisas.
- E esse alguém é...
- O anjo de quem eu há pouco lhe falava. Mas, por favor, não insistamos nesse ponto. Mostre-me a cópia que fez do tal documento.
- Pois então vamos a ele.
         Américo Afonso levou a mão direita ao lado esquerdo do casaco e do bolso interior retirou uma folha branca dobrada em quatro. À visão daquela folha, o padre entrou numa excitação febril. Bem sabia que aquele não era o documento original. Bem sabia que a mão que escrevera as linhas ali representadas não fora a mão do morgado. Mas, acreditando na competência e seriedade daquele advogado, tinha a certeza de que o que ali estivesse escrito representava um atroz sofrimento, porque foram decerto das últimas palavras que atravessaram a mente do seu querido Vitorino. Por isso, o padre José Soares disse:
- O senhor doutor tem a certeza de que o conteúdo deste documento corresponde fidedignamente ao original?
- Em absoluto. Só aí falta a assinatura do morgado Vitorino.
- Pois vamos então tentar desvendar a verdade - e o padre José Soares iniciou a leitura do documento.
            “aos quatro dias do mês de outubro de mil novecentos e dez, eu, vitorino de lourenço fernando, declaro sob minha fé que vendo a minha herdade vila de ló, delimitada a nascente por s. martinho do porto e a poente por alfeizerão, a norte por salir do porto e a sul pelo vale paraíso, ao senhor barreto raposo. ao assinar o documento, olho com esperança  para a base do armário onde guardo os livros. sem fé.”
         As lágrimas romperam a capacidade de disfarce do padre José Soares. Sempre que era obrigado a falar sobre o morgado o seu amor próprio ficava destituído de significado, a dor feria-lhe a alma. Imóvel, deixando as lágrimas correrem livremente pelo rosto, fixava aquelas palavras. A pequena frase final “sem fé” era tão triste, tão vazia, tão sofrida...(em continuação, ex. LIV)

in Quando Um Anjo Peca

Março/1998

domingo, 29 de julho de 2018

UMA HISTÓRIA DE GUERRA CHAMADA SÃO


Mais uma reunião de um grupo de amigos, todos a chegarem ao topo da escadaria dos sessenta, numa primeira Sexta-Feira do mês (igual a todas as outras primeiras Sextas-Feiras em que ali se reuniam), conversando animadamente sobre as aventuras e desventuras da vida (tantas para contar), e uma senhora, no mesmo topo da escadaria dos sessenta, sempre muito bem disposta, que por ali passa todas aquelas mesmas Sextas-Feiras, a quem todos chamam «São», a caminho da sua banca da fruta no mercado ali perto, que, no entanto, naquela Sexta-Feira, contrariamente às outras Sextas-Feiras, apresenta no seu rosto uma profunda expressão de tristeza.
- Que foi São, que aconteceu?- pergunta o grupo de amigos, pronto para, de alguma forma, minimizar a tristeza naquele rosto tão comunicativo e contagiante de alegria.
            E a São, a vendedoura de fruta, contou a sua pequena história.
            Há muitos anos namorou um rapaz, o Manuel, um namoro mesmo de paixão, um namoro que se via mesmo ir dar num casamento longo e sempre muito feliz. Num final de tarde o Manuel abordou-a e disse-lhe, de supetão, que ao outro dia iria embarcar no navio Vera-Cruz para África, para a guerra do ultramar. Nessa noite, ela e o Manuel aventuraram-se muito para além dos simples beijos- a noite mais feliz da sua vida.
            O Manuel partiu…e pouco tempo depois morreu despedaçado por uma mina, numa desventurada picada de África.
            A São ficou solteira. Casou com a memória do Manuel. E naquela Sexta-Feira, em que trazia o rosto mergulhado em sofrimento, fazia anos, muitos anos, que o pai do Manuel lhe dera a notícia da morte do seu filho na guerra do ultramar.
            Não, não conheço nenhum destes amigos que constituíam aquele grupo, nem tão pouco conheci aquela «São», nem sei se esta história é verdadeira, porque não fui eu que a criei. Apenas posso dizer que foi com imenso prazer que li a crónica intitulada «A importância de se chamar São», no Diário de Aveiro, da autoria do senhor Carlos Campos, de quem tenho lido outras saborosas crónicas, mas que esta, por tratar de um tema que me é tão sensível, a guerra do ultramar, achei merecedora deste destaque.
            Muitas «Sãos» como aquela existirão ainda por este Portugal, de Norte a Sul, dramas reais, de uma juventude sofredora, histórias que o tempo vai apagando, passados sem grande futuro na memória de um povo.
            Aquela crónica preencheu alguns minutos de uma leitura emocionada. Um verdadeiro quadro da vida de um povo.

domingo, 22 de julho de 2018

EM ALFEIZERÃO UMA CAIXA DE SURPRESAS


A Teresa, uma simpática senhora de meia-idade, que na medida do possível ajudava o padre José Soares, cozinhara para aquele almoço um suculento arroz pardo. Regado com bom vinho tinto, o almoço estava divinal, ajudando assim a que a frigidez, que a princípio existira entre os dois homens, acabasse por desaparecer.
- Aqui nesta sala, muitas vezes almoçou comigo o morgado Vitorino- começou por dizer o padre José Soares.
- O morgado Vitorino, dono da herdade que o senhor Barreto Raposo comprou - acrescentou Américo Afonso.
- Dono da herdade que o Barreto Raposo ocupa- corrigiu o padre- parecem dizer os factos que a comprou, mas eu recuso-me a acreditar nisso.
- E porquê?
- Porque fui eu que eduquei o Vitorino. Eu era o seu conselheiro. Ele não tinha intenção de vender a herdade porque ela era a sua vida. Mas mesmo que tivesse intenção de o fazer, tinha-me transmitido essa vontade. Essa venda, essa transmissão de propriedade, foi forjada.
- Eu concordo consigo senhor padre - disse o advogado - só numa situação de efectiva instabilidade, como foi a república substituir a monarquia, é que esta venda pôde ter lugar, através de um simples documento. Eu trago-o aqui copiado.
- Não me diga! Conseguiu isso?
- Fui na qualidade de advogado, tutor do pequeno Carlos.
- Esse é um outro assunto delicado - disse o padre José Soares.
- Qual? - perguntou Américo Afonso.
- O nome do pequeno. Ele não se chama Carlos Avilar. O seu nome é Leandro Vital de Lourena Fernandes.
- Como? Leandro? Esta história é uma caixa de surpresas.
- E ainda não acabaram senhor doutor. Se realmente defende os interesses do Leandro, não pode ficar só por aí. Tem também de defender os interesses do irmão.
- Como assim? - perguntou Américo Afonso, com semblante de grande confusão.
- O morgado Vitorino tinha dois filhos, o Leandro e o Helder. São gémeos. Como pode calcular, aqui em Alfeizerão, vive um rapazinho com treze anos de idade, que deve ser uma réplica perfeita do Leandro. E digo deve, porque eu não vejo o Leandro há doze anos. O senhor doutor, se quiser, poderá conhecer o Helder.
- Olhe senhor padre, eu já não sei que lhe diga. A minha Luísa quando souber disto tudo, não sei como reagirá. Será melhor nem lhe dizer nada agora. Está para breve o nascimento do nosso filho. Mas diga-me senhor padre, o senhor Barreto Raposo sabe alguma coisa sobre a existência das duas crianças?
- Não, este é um segredo que Alfeizerão guardou muito bem guardado. Eu e a Lucinda...
- Quem é a Lucinda?
- A Lucinda está para o Helder como a D. Luísa está para o Leandro.
- Percebo. E a mãe dos pequenos quem é?
- A mãe dos gémeos foi a saudosa Marta. Morreu ao dá-los à luz.
- Meu Deus, os miúdos estavam predestinados ao infortúnio- disse Américo numa reflexão sentida - o senhor padre falava na Lucinda... (em continuação, ex. LIII)

in Quando Um Anjo Peca

Março/1998

domingo, 15 de julho de 2018

UM GRANDE EXEMPLO DE SOLIDARIEDADE NUMA GRUTA INÓSPITA DA TAILÂNDIA


Durante cerca de três semanas o mundo quase suspendeu a respiração de ansiedade e expectativa.
Na longínqua Tailândia doze miúdos, praticantes de futebol, na companhia do seu treinador, a 22 de Junho faziam uma incursão à natureza, diria uma brava e inóspita natureza. Com o início da época das monções (de que nos fala Rui Veloso no seu álbum Auto da Pimenta), foi aquele grupo surpreendido por chuva bastante intensa, pelo que se refugiou numa gruta…e desapareceu, muito embora ainda não tenha sido explicado como tal aconteceu.
A partir desse momento assistiu-se à mobilização do mundo no sentido de o grupo de jovens e o seu treinador ser encontrado, numa imensa gruta, grande parte dela submersa em alguns metros de profundidade da água das chuvas. Passados alguns dias, e quando o cepticismo em relação à descoberta dos jovens se começava a instalar, eis que um grupo de mergulhadores britânicos conseguiu encontrar os jovens e o treinador, vivos, numa concavidade localizada bem na profundidade da gruta.
Graças à união dos mergulhadores tailandeses (com a ocorrência da morte de um deles, na preparação das condições sub-aquáticas para que o resgate viesse a ser possível) e de outros de algumas nacionalidades, foi possível o resgate daquelas treze vidas.
Mas que enorme momento para a humanidade! E quando emprego o termo «humanidade» dir-se-ia ter-se tratado do resgate de centenas ou mesmo milhares de pessoas, e não apenas de treze, mas quando a vida humana é criminosamente desvalorizada pela acção de comunidades humanas e não alienígenas, como miseravelmente temos assistido nesta nossa Europa, Médio Oriente e Estados Unidos, é motivo de enorme alegria ver o mundo mobilizar-se para salvar apenas treze pessoas.
O exemplo da Tailândia é de guardar no mais profundo dos nossos corações! 

sábado, 23 de junho de 2018

MUITO SANGUE NAS PALAVRAS DE JACK HORN, UM VELHO SOLDADO INGLÊS DA BATALHA DO BUSSACO CONTRA OS FRANCESES


...Lá me desloquei ao alpendre, onde o tal inglês me aguardava, levando o meu pai atrás de mim, a estalar de curiosidade.
         O inglês era um homem alto, bastante louro, de olhos profundamente azuis, entroncado, envergando umas calças muito coçadas e ainda o casaco vermelho, já cheio de remendos, que um dia fora a farda do exército de Sua Majestade Britânica. O homem usava um barrete bem português. Logo se descobriu assim que me viu. A noite já descia, pelo que o meu pai trazia uma candeia com algumas velas acesas.
- Muito boas noites – disse eu.
- Boas noites. É o sêor doctor jôquim? – perguntou o homem num português muito imperfeito.
- Eu próprio. Qual é a sua graça?
- My name é Jack Horn.
- Senhor Jack, aflige-o alguma maleita?
- Não sêor, não tenho maleitas, graças ao bom Dios.
- Se não é a saúde que o apoquenta, qual é então o assunto que o faz vir falar comigo?
- Coisa séria, multo séria doctor. Mas aqui podem ouvir…
         Eu reconsiderei um momento. O homem pedia alguma privacidade. Levei-o então para uma pequena cozinha existente nas traseiras da casa. O meu pai, entusiasmado com o mistério que se adivinhava, foi buscar uma picheira de vinho e três copos, para alegrar um pouco a conversa. Instalados naquele pequeno espaço, onde a velha Celeste fazia a lavagem para os porcos, sentámo-nos em três desconfortáveis mochos, em redor de uma tosca mesa de pinho.
- Diga-me então, senhor Jack, o que tem para me contar?
         O homem, antes de começar, bebeu de um trago o copo que o meu pai lhe enchera de vinho.
- Good – disse o inglês, dando um estalido com a língua, começando então – num sei se  doctor já oiviu falar about me. Sou um velho soldier inglês, e combati aqui perto, no Bossaco, em Mil Oitocentos Dez. Fiquei multo ferido, a morte quase me levou, mas axudado por pessoas ganhei à maldita; é good ter amigós por aí. Um desses amigós, um friend do myo peito, era um bom rapaz, o Lúcio. Os paes dele morreram, por isso vivia muito alone. Yo sou mais velho que ele, tenho mais saber da vida que ele. Por isso o Lúcio me contava a sua vida toda. Era um boy a quem trabalho não mete medo. Um dia ficou a gostar de uma rapariga, a filha do Xicao Aduelas…
- Espere aí – interrompi-o eu – vossemecê está-me a falar dos mortos que apareceram nas terras do senhor Conde de Cértima, não está?
- Exacly. Desses mesmos. O Lúcio andava multo contente por namorar aquela rapariga, e até era do agrado do sêor Xicao. Mas há algum time ago começou a ver nela diferenças. A night, em que se zangarom, ele ficou a modos que amuado e deixou-se ficar perto da casa dela. Entom, de repente, viu ela sair de casa, às escondidas do pai. O Lúcio achou aquilo very strange; e seguiu ela. E para syo espanto viu ela ir para lados das terras do Caunde, onde há a little church, ao pé das pedras. Parou de repente de a seguir porque oiviu cascos de cavalos. Mas viu que ali havia qualquer mentira. Dias depois viu ela com uma saia nova e preguntou a ela de onde vinha o dinheiro para aquilo. Ela disse que ele no tinha nada com isso. O Lúcio ficou zangado. E foi than que ao contar estas cousas todas, me pediu para yo ir com ele quando a voltasse a seguir, porque ele tinha a certeza que ela, at night, fugia. E foi assim que ontem à noite yo fui com o Lúcio a seguir a Adélia. Nós vimos ela entrar na little church, que tinha uma pequena luz lá dentro. O Lúcio ficou maluco da cabeça. Queria avançar. Eu agarrei ele e disse que no, para esperar e ver o que ia passar a seguir. Mas o Lúcio mandou-me uma porrada na minha perna que tem bocados de bala de canhom, e com a dor eu deixei ele ir. Ele runed away como um doido e chegou à entrada da little church. Eu oivi ele gritar: « à minha puta » e logo a seguir aparecyo a man. O Lúcio atirou-se a ele e o homem dar-lhe um coice na cara. O Lúcio recuou mas foi outra vez contra o home. Entom vi o home com uma espada na hand e mesmo com a luz fraca vi a ponta da espada a aparecer nas costas do Lúcio, que ficou quieto. Depois o homem puxou a espada, e yo vi, com lágrimas nos myos olhos, a ponta da espada a sair. O Lúcio caiu ali mesmo. Eu atirei-me para o chão e meti-me no meio dos fetos da forest, não fosse o homem to see me. Então oivi a rapariga gritar e vi ela sair da little church a correr. Ela vinha quase sem roupa. O homem correu atrás dela e com uma faca cortou-lhe a garganta. Than, o home ficou furioso e dizia: « mas para que havia o cabron de vir aqui cheirar ». E nesse momento eu conheci o matador – era o filho do sêor caunde...(ex. XXVIII)

in Alma de Liberal
Junho/2009


quarta-feira, 13 de junho de 2018

NUM TABULEIRO DE FRUTA PORTUGUÊS




Ontem comprei um saco de maçãs starking, e ao colocá-las no tabuleiro da fruta reparei que tinham vindo do Brasil. Hoje comprei um saco de maçãs fuji, e ao fazer a mesma acção vi que, estas, vinham de França. Bom, foi um regalo observar no tabuleiro as maçãs a abraçarem-se umas às outras, cordialmente, trocando experiências culturais num tabuleiro português.
E então coloquei-me a questão: onde está a lógica de um produtor de fruta, nesta caso maçãs, como o é Portugal, importar o mesmo produto?
Pelo menos valeu a pena ver a festa que ia para ali no tabuleiro!