quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

EM 2016 ESPERO POR VÓS MEUS AMIGOS

E pronto, cá estamos em mais um final de ano. Ainda não foi desta que me reformei, mas que esperava eu? Com um governo que me foi tirando tudo, mas tudo mesmo (pois que pior roubo pode existir para um pai do que serem roubadas as perspectivas de futuro aos filhos?), queria eu agora que me fosse dado um rebuçado. És mesmo pacóvio Futrica!
         Pouco tempo antes das eleições, disse que tinha a convicção de que o nosso país precisava de um terremoto político, para que isto melhorasse (muito embora não seja essa a perspectiva das coisas de muitos dos meus amigos, que consideram que o anterior governo era o céu na terra). Acho que, de certa forma fui ouvido. Aconteceu um pequeno tremor, grau 5 na escala de richter.
         O maior desejo que tenho para todos nós, para o ano de 2016 que está mesmo à porta, é o de que este governo PS seja competente e honesto, e tenha sempre o apoio das forças políticas que lhe ofereceram a possibilidade de ser governo. Tenho as maiores esperanças na melhoria de vida. Esperanças para o meu mundo simples, obviamente.
         Que 2016 signifique para todos vós (não esquecendo os meus amigos espalhados um pouco por todo o mundo) a realização dos vossos sonhos, sempre com muita saúde, para que assim possais desfrutar condignamente do vosso êxito.

Um grande abraço!

sábado, 19 de dezembro de 2015

NATAL PARA TODOS OS HOMENS

Mais do que nunca é necessário fomentarmos a amizade entre nós, mostrarmos uns aos outros que estamos prontos a ser solidários, perante a imensa ameaça que a nossa civilização ocidental enfrenta. Agora, mais do que nunca, é necessário que a união faça a força. Estamos naquela época fantástica em que, não o esqueçamos, comemoramos em família o nascimento de Jesus Cristo. Pois que neste Natal, o Menino Jesus nos ponha no sapatinho a sabedoria de que os nossos responsáveis irão precisar, para resolver o problema que ensombra e enluta a nossa vida, problema esse que nos chega dos confins do Mediterrâneo.
Que neste Natal seja possível à nossa fé cristã encher o coração de todos os homens, de todos os credos, com valores de paz e muito amor.

Um muito Feliz Natal para todos os homens, e com uma especial incidência para todos aqueles que aqui vêm e partilham as palavras deste vosso Futrica do Mondego/Poeta do Penedo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

ODOR DE OUTONO NA CIDADE

Não tem qualquer influência nas árvores de folha permanente. Não sei se se fará sentir na Escandinávia. Apenas consegue alterar as árvores de folha caduca, cá do sul da Europa, da Península Ibérica, do nosso Portugal.
Nesta altura do ano o Outono está na força máxima. As florestas tornam-se numa explosão de cores, e a natureza, de tão bela, tolda-nos os sentidos.
A fotografia a cima…não, não é uma floresta, é a nossa rua, extraordinariamente arborizada, onde pela manhã o olhar repousa na extraordinária carícia das folhas caídas, aos milhares, e o aroma de floresta me põe um bocadinho melhor com a vida.


sábado, 5 de dezembro de 2015

NOTÍCIA ANGUSTIANTE DO MUNDO DA PAZ

...A porta abriu-se e surgiu um 1º cabo. Era rádio-telegrafista.
-         Meu capitão, chegou ontem esta mensagem da Metrópole.
-         Da Metrópole?- perguntou o capitão Rebelo carregando o sobrolho- foi você que a recebeu?
-         Fui eu sim, meu capitão.
         O comandante da companhia desdobrou a folha de papel que o 1º cabo lhe entregara. Leu a mensagem que nela estava escrita. Depois, virou-se de novo para a janela. Na parada, o grupo de soldados que ia ao banho, tinha engrossado.
-         São tão jovens...- dizia o capitão Rebelo- mas que porra de notícia para dar a quem acaba de chegar do mato. Cabo Guedes, vá chamar o alferes Santa Cruz. Ele que vá ter à espelunca do meu gabinete.
-         Sim meu capitão.
-         Mas ouça bem nosso cabo, quem lhe dá a notícia sou eu. Você não sabe de nada.
-         Está certo meu capitão. Ainda bem que não sou eu que lhe tenho de dar essa notícia.
-         Será bem difícil, pode crer. Mas eu como comandante de todos vocês, tenho de zelar pela vossa integridade física e mental, já que da moral não sei se estarei à altura. Mas vá lá nosso cabo, vá lá.
-         Se me dá licença- disse o 1º cabo que depois de se perfilar e fazer uma bem puxada continência, virou costas e desapareceu em busca do alferes Santa Cruz.
         O capitão Rebelo apertou os botões da camisa do camuflado. Passando com a mão pela cabeça procurava o seu maço de tabaco. Porque havia a vida de ser assim? Onde estavam as palavras adocicadas, leves, que tivessem a capacidade de suavizar notícia tão negra? Que Deus o ajudasse... a ele e ao alferes Santa Cruz.
         Fumando um cigarro, o capitão Rebelo fechou  a porta do seu quarto atrás de si.. Meia dúzia de metros andados chegava ao gabinete empoeirado. Junto à porta encontrava-se Álvaro. Quase que nem o deixara respirar!

-         Você foi rápido alferes Santa Cruz- disse o comandante da companhia, com ar grave e sério...(em continuação, pág. 93, ex. XXXI)
in Visitados
Novembro/1999

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PARA QUE NÃO ESQUEÇAMOS O 1º DE DEZEMBRO, DIA DA RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DE PORTUGAL

No seguimento da fatídica batalha de Álcacer-Quibir, em Marrocos, no dia 4 de Agosto de 1578, onde desapareceu el-rei D. Sebastião e a maioria da nata da juventude portuguesa, Portugal viria a perder a sua independência dois anos depois, em 1580, dando-se início à dinastia filipina de má memória, que durou sessenta anos.


No dia 1 de Dezembro de 1640, cumprem-se hoje 375 anos, fidalgos portugueses, pondo em perigo a sua própria vida, mas porque o patriotismo a isso os obrigou, conseguiram, num movimento revolucionário, restaurar a independência de Portugal, e proclamar como rei de Portugal D. João IV, pelo que, a partir desse dia, o 1 de Dezembro ficou conhecido como o dia da Restauração.

E é uma data de tal forma importante, que a recordávamos e celebrávamos com um feriado.

Mas porque de patriotismo, o anterior governo deu mostra de ser muito débil (entre outros suspeitos talentos), achou por bem abolir o feriado do 1º de Dezembro.

No que estiver ao meu alcance, sempre farei por lembrar que em Portugal 1 de Dezembro é sinónimo de pátria a encher o peito, a mim e a todos os que sentem orgulho em serem portugueses.

E manterei a crença em que o 1º de Dezembro irá voltar a ser feriado nacional, pela mão deste nosso novo governo, esperança de melhor vida para os milhões de portugueses espoliados não só materialmente, mas também patrioticamente.

domingo, 22 de novembro de 2015

COMISERAÇÃO À JANELA DA GUERRA

...Era tempo de descontracção. No chuveiro improvisado, instalado no seu quarto rudimentar, acabara o capitão Rebelo de tomar um revigorante banho. Da pequena janela do seu quarto, praticamente um postigo, que dava para a parada, enquanto fumava um cigarro ia observando com alegria os seus soldados, que meios fardados organizavam a expedição de algumas centenas de metros até ao rio. Contemplava os guerrilheiros negros. Bem vistas as coisas eram merecedores de pena. Sem qualquer formação militar, deambulavam pela selva angolana, instigados por valores independentistas. E efectivamente aquela terra era deles, não dos europeus. Mas a política é que comandava o mundo, não a comiseração, não o incomodativo sentimento de injustiça. Mas quem sente comiseração é gente. E gente pensa. E muitos pensamentos juntos, se fluírem para o mesmo ponto, acabam por ter força. E da força nascem as revoluções. E se em vez de uma cabeça, forem várias cabeças, mentes de capitães como ele... alguém batia à porta do quarto.

-         Entre- disse o capitão Rebelo, virando costas à janela...(em continuação, pág. 92, ex. XXX)
in Visitados
Novembro/1999

domingo, 15 de novembro de 2015

PARIS, 13 DE NOVEMBRO DE 2015

Perante os acontecimentos da última Sexta-Feira, em Paris, sou forçado a relegar para segundo plano a critica situação política do nosso país. É que quando são postos em causa os nossos valores ocidentais de liberdade e democracia, e principalmente do valor da vida humana, todas as sirenes tocam a reunir e ordenam que corramos num só sentido: a união da qual emane a força.
A França, uma super potência europeia, neste ano de 2015, mesmo com todo o seu desenvolvimento económico e social, foi, no entanto, incapaz de evitar que, já por duas vezes, as ruas da sua capital tivessem sido dilaceradas e ensanguentadas pelo cobarde terrorismo, independentemente, de, segundo notícias, ter conseguido neutralizar neste ano muitas tentativas de outros tantos atentados.
Disse um comentador que a nossa civilização recuou mil anos. Isso fez-me lembrar que foi a França o berço da Ordem dos Templários, cavaleiros monges que tinham por principal função a defesa dos peregrinos na Terra Santa.
A minha sentida homenagem a todos aqueles que, inofensivamente, na noite de 13 de Novembro de 2015, em Paris, ao assistirem a um concerto ou a relaxarem num café, foram fatalmente alvo de um ódio doentiamente religioso e terrivelmente bárbaro e assassino, há muitos séculos adormecido e que neste séc. XXI definitivamente acordou.

Aos mortos de Paris paz às suas almas e muita força às famílias enlutadas.

sábado, 7 de novembro de 2015

PORTUGUÊS, COMEDOR DE PEIXE, ESSE DESEQUILIBRADOR DO PLANETA

Há poucos dias passou uma notícia num dos telejornais, que não sei quantos portugueses terão tomado nota nela. Isto denota que o nosso minúsculo Portugal permanece de alma imensa, e continua a incomodar muita gente.
A notícia referia-se a um estudo feito na Europa sobre nós portugueses. E concluiu que nós somos o país da Terra que mais peixe consome, e que, por tal razão, estamos a colocar em risco o equilíbrio do planeta (não estou a ser exagerado).
É natural que consumamos muito peixe, pois que fomos à beira-mar plantados. É muito natural que consumamos mais peixe do que muitos países que sofrem de interioridade continental, tal como na nossa orla marítima se consome mais peixe do que no nosso interior.
É muito natural ainda que, ao preço a que o peixe está, cada um de nós consuma para aí umas duas ou três toneladas de peixe por ano!!!!!!
Mas nós temos uma das maiores áreas exclusivas de pesca do mundo. Não privamos outras nações do seu próprio peixe, a não ser o bacalhau, ao qual ninguém liga, ou não ligou durante séculos, sendo um dos nossos tesouros gastronómicos. Mas, no Mar de Bering,  pescam-se toneladas e toneladas de bacalhau apenas para isco da pesca do caranguejo real.
O autor desse patético estudo não percebe nada disto, porque se percebesse saberia que os portugueses não podem consumir muito do peixe que a sua zona exclusiva produz, porque estão proibidos fazê-lo pela União Europeia, porque ficaram sem frota pesqueira (por acção de umas inteligências que andam por aí a armar-se em presidentes da república), e porque o peixe está, na verdade, a um preço que não pode ser consumido de forma a perigar o equilíbrio terrestre.
Por amor de Deus, um punhado de gente boa a secar os mares de peixe?!?!
Digam de uma vez por todas, que ficariam muito mais felizes se a Península Ibérica fosse constituída apenas pela Espanha.

Mas, porque acima de sermos ibéricos somos portugueses, da bela sardinha e do belo carapau nunca abdicaremos!!

sábado, 31 de outubro de 2015

FORD T, UMA CARROÇA BARULHENTA

...Era uma bela manhã de Dezembro, soalheira, luminosa. O sol, como que aborrecido por há muito não acariciar o mundo com os seus raios de vida e alegria, surgiu nessa manhã, sorridente e pronto a reavivar as cores de todas as coisas que fazem os corações dos homens transbordarem de emoção. A pardacenta cor do inverno estava ausente. O sol aquecia frescamente o ar. Todas as plantas, desde a ínfima erva à mais robusta árvore, perante a inesperada e fecunda luz solar, numa rápida e preciosa acção química de fotossíntese, exalavam odores campestres, os quais exaltavam os homens a amarem tudo o que era natural. Aquela era uma manhã mágica. E Américo Afonso sentia isso mesmo. Ao volante do seu automóvel Ford, modelo T, ia percorrendo calmamente a distância entre o Bombarral e Alfeizerão, desviando-se das muitas poças de água, autênticos espelhos da natureza, que reflectiam a luz solar e que de quando em vez o cegavam. De vez em quando cruzava-se com camponeses, que atónitos, paravam e num virar completo de corpo e cabeça, seguiam o movimento daquela carroça barulhenta e que por mais que pensassem, não atinavam com a fonte de energia que a fazia mover. Alguns desses simples homens do campo levavam consigo os seus burros, transportando imensos feixes de erva ou molhos de vides. Outros ainda iam aparelhados com albardas, carregados com toros de lenha para a lareira, que as noites iam frias. Os animais perante a presença da máquina roufenha desatavam a zurrar e a ameaçar fugir, assustados com a terrível visão, para desespero dos donos, que não só lutavam por acalmar os burros, como também eles próprios ficavam inertes de perplexidade. E estas cenas, fruto de algo desconhecido, que pela primeira vez chegava ao conhecimento daqueles homens, faziam aflorar um leve sorriso aos lábios de Américo Afonso...(em continuidade, pág. 121, ex. XLVI)

in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

domingo, 18 de outubro de 2015

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- EM 1096 UMA UNIÃO DA QUAL NASCEU UM POVO

No decorrer da reconquista cristã, na Península Ibérica, ainda durante o século XI, o rei Afonso VI de Leão e Castela solicitou auxílio a muitos nobres europeus para o apoiarem na luta contra os invasores sarracenos. De entre eles veio o conde D. Henrique de Borgonha, nascido em Gijon, Borgonha- França.
O rei Afonso VI, em agradecimento pelos serviços prestados pelo cruzado francês Henrique de Borgonha, ofereceu-lhe a mão de sua filha Teresa, entregando-lhe também o governo do Condado Portucalense, que descia do Minho até um pouco abaixo de Coimbra.
O casamento teve lugar no ano de 1096.

Nesse ano lançaram-se as sementes do reino de Portugal.

sábado, 3 de outubro de 2015

ECOS DA FLANDRES

...A noite de sono acabou ali. Até clarear o dia António Avilar pensou no seu passado e no seu presente. Todo o resto da noite foi acompanhado pelo som monótono e triste da chuva que não parava de cair, e pelo barulho do vento, que por vezes fazia abanar uma ou outra tábua mais solta das pobres paredes daquele abrigo sombrio. E deitado na velha cama, os braços cruzados atrás da cabeça, o olhar vagueando pelo telhado nú, sem forro, foi em pensamento ao encontro da sua bela Luísa, que nesse preciso momento, na riqueza de um fausto lar, com a sua sensualidade arrebatadora, tornava feliz um leito conjugal. A ele, como companhia, restava-lhe o vento, a chuva e a arrepiante certeza de que para todos aqueles que habitavam o seu passado, ele não passava de um cadáver abandonado numa sepultura que ninguém conhecia. Para alguns, para Luísa, talvez significasse um pouco mais. Mas mais não era do que uma recordação e às recordações não lhes era dada a faculdade de falarem, de terem uma participação activa na vida dos homens...(em continuidade, pág. 120, ex. XLV)
in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

XII JANELA SOBRE O MEU PAÍS- COIMBRA NUMA CAPA NEGRA QUE PASSA, A VOZ DO HILÁRIO QUE CANTA

Estamos na Rua Corpo de Deus, a caminho da Alta, em Coimbra, na minha querida Coimbra. E é em toda a zona da Alta que o coração da tradição pulsa mais forte. É na Alta que o trinado de uma guitarra mais profundamente nos impressiona, nos aperta a garganta de saudade. É na Alta que as capas negras se tornam imponentes, pois foi a Alta que as criou.
Na Alta, na Rua Corpo de Deus, quando a tradição passa, Coimbra rende-se ao seu encanto!

E este futrica do Mondego chora.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

MAUS RUMORES DA CAPELINHA DAS FRAGAS

...Ouviam-se homens falando alto, o que fez com que o conde se levantasse da cadeira em que estava sentado, e se deslocasse à janela do seu quarto, na tentativa de descortinar a origem daquela algazarra. Imediatamente a seguir ouviu-se a voz da governanta, aflita, que aproximando-se do quarto do Conde de Cértima, chamava por ele. O conde não deixou que Maria do Carmo batesse à porta, pois abriu-a mesmo antes da governanta bater. E o conde perguntou:
- Que se passa Maria do Carmo? Que barulheira é esta?
         No rosto da governanta desenhava-se o semblante do medo.
- Gente morta, senhor conde – respondeu ela.
- Gente morta?! – retorquiu o Conde de Cértima, em tom de desagradável surpresa – gente morta onde?
- Junto à capelinha das fragas. Um homem e uma mulher numa poça de sangue.
- O quê? – perguntava o conde, abismado, olhando para mim apreensivamente.
- Onde fica essa capela? – perguntei eu, tão assombrado como o conde.
- A dois passos daqui. É uma capela a que deixei de dar uso depois de ter erigido uma outra no interior desta casa.
- Existe mesmo sangue? – perguntava eu.
- É coisa de matador – dizia o conde – nas minhas terras. Onde chega a indecência. Doutor Joaquim Lopes, por obséquio, vá-me a essa capela e veja o que por lá se passa.
- Ás suas ordens, excelência.
- Maria do Carmo, mande o Tomás e o Zeferino guiarem o senhor doutor – ordenou o Conde de Cértima.
         E assim me vi a caminho da capelinha das fragas, acompanhado por dois rapagões ao serviço de D. Rodrigo Corga. Aliás, já éramos conhecidos, pois haviam sido os mesmos que me tinham acompanhado no regresso a Malhal de Sula, dois dias antes.
         Lá chegado, encontrei alguns assalariados que montavam guarda ao local. A capela era minúscula. Talvez a fé do conde não fosse suficientemente grande, a ponto de o empolgar a construir algo maior. A capela fora construída junto a um pequeno ribeiro, cuja água murmurejava docemente, ao passar por uma zona pedregosa do seu pequeno leito.
- Estão ali os infelizes – apontava um homem.
- Cala-te p’ra aí camafeu. Alguém te preguntou alguma coisa? – disse rudemente um dos meus companheiros, o que se chamava Zeferino.

         Eu olhei para onde o homem indicara. A meia dúzia de metros da capela encontrava-se o corpo de uma mulher bastante jovem; e mesmo à entrada do pequeno templo abandonado, o corpo de um homem, também moço...(em continuação, pág. 43, ex. XX)
in Alma de Liberal
Junho/2009

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

XI JANELA SOBRE O MEU PAÍS- FORUM AVEIRO

 
Uma frágil ponte sobre a ria, que outrora nos levava a um dos locais mais feios da cidade de Aveiro (um cinzento e poeirento parque de estacionamento), atravessando-a hoje vamos entrar, por certo, no sítio mais bonito, arquitectonicamente falando, que Aveiro nos pode oferecer: o Centro Comercial Forum Aveiro, o primeiro centro comercial do país construído ao ar livre. Inaugurado em Setembro de 1998, tem a faculdade de, muito embora não passe de um espaço comercial, me dispor muito bem.

Na verdade um espaço de muito bom gosto!

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

AS MÁS NOVAS QUE OS FRANCESES TROUXERAM

...- Diz-se que na universidade essas coisas do liberalismo se assanham nos homens, como cães raivosos.
- Como decerto é do entendimento de vossa excelência, na universidade as mentes são abertas. Treinam-se para o conhecimento e como tal recebem tudo quanto é novo.
- Sabe doutor, não me agradaria muito receber em minha casa alguém que tivesse aderido à ideologia da distribuição do poder pelo povo.
         Eu parei o que estava a fazer e fixei intensamente o Conde de Cértima. Depois disse:
- Os tempos que correm pelo reino não são bons para ninguém. Vossa Excelência tem um título nobre a defender. Eu, para defender, tenho apenas esta profissão que meus pais me deram. Se vossa excelência tem pretensões politicas, eu não. Apenas peço que me deixem trabalhar. Apenas peço a vossa excelência que me deixe trabalhar… em paz. A minha função na vida é a de colocar ao serviço, de todos, os conhecimentos que me foram ensinados, para a todos aliviar das horas más da doença. Saiba vossa excelência que estou perfeitamente a par das convicções tanto absolutistas como liberais, que conheço bem onde divergem. No entanto, sou leal ao meu rei… e à profissão que Deus permitiu que eu tivesse alcançado.
- Muito bem, doutor Joaquim Lopes. Estou então em presença de um homem que nada quer com a politica!
- Nada!
- Depois de tudo o que me disse, considero-o politicamente esclarecido. Eu não sou falto de tino, doutor. E por isso mesmo reconheço que, dadas as suas origens, possa bem pender para as novidades que em má hora a França nos trouxe. Mas como também o acho boa pessoa, desde que me demonstre ser bom médico, terá em mim um seu doente. Espero não o ver muitas vezes, porque isso seria mau sinal – disse o Conde de Cértima, com um meio sorriso.
- De facto – respondi eu.
         A minha posição naquela casa ficara bem definida. Eu não tinha conseguido esconder a minha costela liberal. A minha presença ali iria ser tolerada em função de uma doença, mas nunca desejada. Maria Clara tornava-se cada vez mais distante.
         Ia eu pronunciar o nome dela quando o destino interveio, evitando que eu o tivesse feito. Decerto teria praticado grossa asneira! É que no momento em que eu ia perguntar ao conde pela sua filha, foi audível no exterior da casa uma agitação, que por certo não era habitual...(em continuação, pág. 41, ex. XIX)

in Alma de Liberal

Junho/2009

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

FERRO VELHO, MEU TESOURO

Um ferro velho, por norma, é um objecto obsoleto, que há muito deixámos de utilizar, e que só por respeito a nós próprios muitas vezes inutilmente guardamos.
Pois eu tenho um ferro velho do qual guardo enorme estima, porque o considero quase um tesouro…um tesouro útil. Comprei-o em 2001, ainda em escudos, na expectativa de que se viesse a revelar algo de bom. Afinal revelou-se algo de muito bom! Mas cerca de um ano depois de o ter adquirido emprestei-o a uma pessoa amiga. E no meu cérebro deu-se uma daquelas brancas que por vezes nos atropela. Um belo dia, de repente, deu-me ganas de pegar no meu valioso ferro velho. Corri tudo…para chegar à triste conclusão de que não o tinha em casa. Só o poderia ter emprestado…mas a quem?
Os anos foram correndo e de vez em quando eu pensava, com nostalgia, no meu ferro velho. Até que decidi ir à procura de um outro ferro velho igual, e comprá-lo, acção que deveria estar para breve.
Não foi preciso. Neste fim-de-semana, eu e a minha mulher fomos jantar a casa de uma pessoa amiga, que no início do jantar me disse que tinha uma coisa para me devolver, porque na sua casa, em França, tinha andado a fazer umas arrumações e de repente deparou-se com uma coisa que eu, há muitos anos, lhe havia emprestado: exactamente! O meu ferro velho. Fiquei exultante de alegria.
Não, este ferro velho não é um utensílio metálico, ou de plástico ou mesmo louça. É um livro, cujo título em português é- «Ferro Velho». Um excelente romance, da autoria do britânico Anthony Burgess,  falecido em 1993. Uma excelente viagem aos bastidores da Segunda Guerra Mundial, tropeçando pelo caminho na questão da independência do País de Gales, ou na que opõe Israel à Palestina, com a cultura russa pelo meio, tudo na óptica dos que amam a lenda do dono da espada Excalibur- a lenda do Rei Artur, tendo por base de tudo isto um sobrevivente do naufrágio do Titanic.

Já tenho leitura para as férias!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

MÁGICOS DA MINHA VIDA



Há dias dei comigo a pensar em quem me tem influenciado positivamente na vida. É claro que não me refiro aos pais, nem aos avós. Refiro-me àqueles cujo universo nunca foi o meu, mas cujas acções tiveram a capacidade de preencher momentos da minha vida. E cheguei a uma conclusão, sem que tenha necessitado de grande esforço mental para os encontrar:

Eça de Queiroz- nascido em 1845, falecido em 1900. Ler a sua extensa obra tem sido não só um enorme divertimento, mas também horas de aprendizagem no que à forma genial de escrever diz respeito. Toda essa envolvência contribuiu para que eu me tivesse tornado numa pessoa culturalmente um pouco mais enriquecida.

José Hermano Saraiva- nascido em 1919, falecido em 2012. Um extraordinário professor de História de Portugal, um comunicador por excelência, um acérrimo defensor da cultura. A gama de episódios seus gravados, que guardo, representam para mim um enorme tesouro cultural. Neles se revela a história e o sentir de todo o nosso povo. Horas e horas de extraordinário prazer.

Jon Lord- nascido em 1941, falecido em 2012. Como teclista fabuloso dessa banda de élite, chamada Deep Purple, Jon Lord conseguiu fazer vibrar todos os meus sensores musicais, mostrar-me como bela é a música. Um verdadeiro deus na terra.

A estes três homens o meu eterno obrigado pela magia que souberam transmitir à minha vida!

terça-feira, 21 de julho de 2015

SETH INSPIRA O AROMA DA NOBREZA DO NILO








 ...Atravessadas montanhas de areia, na sua solitária e invisível jornada, depressa o deus Seth entrou na orla fluvial do Nilo. Encheu o peito e inspirou com sofreguidão o cheiro a terra molhada, empapada de sedimentos, que a nobreza do rio Nilo nela depositara. Estava privado de uma carícia, que até a um deus deixava saudades – o cheiro do vivificante Nilo. Mas, em contra-partida, não tinha regras a respeitar. Ele era o deus supremo do mundo que habitava - o reino das areias. E ali estava, à beira do Nilo, pronto a demonstrar a todos, que mantinha intactas todas as capacidades de um deus. Ir-lhes-ia fazer ver que melhor fora não terem feito dele um renegado.
         Ao tocar com os seus pés na água fez por se tornar visível. Tinha o corpo de um homem bem constituído, de tronco nu, vestido pela cintura de roupagens militares, peças de cabedal, sobrepostas, que lhe envolviam a cintura, pintadas de azul, vermelho e castanho. A sua cabeça, composta por olhos e testa de águia, nariz e boca de chacal, virava-a em todas as direcções, para assim poder ter a real percepção do meio que o rodeava.
         A maciez da água fez-lhe fechar os olhos de satisfação. Que bem precioso perdera! Tinha de dar um jeito na sua condição. Ao sentir de novo aquele ambiente, tomava consciência do quanto grotesco era viver entre escorpiões.
         Já chegava de meditações. Num impulso atirou o corpo para a frente e mergulhou nas cálidas águas do Nilo. Deu umas braçadas na sua forma original, transformando-se seguidamente num peixe tiláquia, fazendo-se envolver pelas moléculas que envolviam os siftos. E tomou o rumo de MassiftonRá...
(em continuação, pág. 60, ex. XXIII)

in A Causa de MassiftonRá
Novembro/2005

quarta-feira, 15 de julho de 2015

OS QUE PELA ESCRITA NADA SENTEM

Sendo eu um dos portugueses que constam do número dos que, obstinadamente, lutam contra a barbaridade do acordo ortográfico, constato que a muitos dos que fazem parte do meio que directamente me envolve «tanto se lhes dá como se lhes deu» que a língua portuguesa seja ou não alterada, distorcida. Aliás, até é com mágoa que reparo a ligeireza, a prontidão com que os vejo aceitarem as novas normas, anti-democráticas, (pois que o povo não foi chamado a pronunciar-se sobre a vontade de alterar o que de mais precioso tem- a sua língua), e as aplicam, numa demonstração cruel de distanciamento ao que à cultura diz respeito.


Mas tal atitude também não é de estranhar, quando muitos outros talvez não precisassem de nenhum acordo ortográfico para alterar a forma de escrever, porque por sua vontade espontânea são os primeiros a abdicarem das cedilhas, dos acentos circunflexos e do til nas respectivas palavras, descaracterizando o português. Cada qual que conclua e mentalmente acrescente o que está em falta, porque escrever o português correctamente dá muito mais trabalho! E o mais grave é que venho notando esta tendência em documentos oficiais, escritos pelo funcionalismo público.

Se o desinteresse demonstrado por muitos de nós relativamente à nossa identidade cultural, for generalizado, melhor se explica a facilidade que o governo tem demonstrado ao cometer certos tipos de atropelos.

terça-feira, 7 de julho de 2015

NAPOLEÃO E A TROIKA

É verdade que estamos a viver um período muito difícil, não só a nível económico, mas também no que ao sentimento patriótico diz respeito.


A nível económico porque os sucessivos cortes de uma austeridade imposta, nos têm galopantemente empobrecido, para que seja possível o pagamento da maldita dívida, pela qual nem eu nem o meu vizinho tivemos a mínima responsabilidade, o que não impede que tenhamos sido chamados a pagá-la. Estas são as cruéis e omnipresentes injustiças a que o povo está permanentemente votado.

No que ao sentimento patriótico diz respeito, porque se por um lado nós, o povo, nos revoltamos contra a perda da nossa soberania económica, e quando se perde esta soberania, o que é que nos resta?!- por outro lado mais nos revoltamos ainda por assistirmos á atitude subserviente dos nossos governantes perante os poderosos da Europa, assemelhando-se aos pobres lacaios que, de baixo para cima, observando com expressão de enorme fraqueza intelectual o seu senhor, se preparam para avidamente guardar as migalhas que ele, com um sorriso de escárnio, propositadamente deixou.

Portugal tem muito melhor para oferecer!

Mas o povo português, porque é nobre, paciente mas nobre, irá conseguir ultrapassar mais esta tremenda dificuldade, como já ultrapassou outras, porventura piores. E estamos á beira de podermos relembrar um desses factos, pois amanhã se completarão 183 anos sobre a sua ocorrência.

Foi a 8 de Julho de 1832 que o chamado Exército Libertador, formado por 60 navios e 8500 soldados, comandado por D. Pedro IV, desembarcou na Praia do Mindelo, a 20 kms a norte do Porto, para enfrentar o terror absolutista de D. Miguel e dar início a uma guerra civil que duraria dois anos. O povo português depois de ter ultrapassado as tropas napoleónicas, e depois de ter escorraçado a intromissão britânica, nas duas primeiras décadas do Séc. XIX, teve ainda de viver uma guerra fratricida- mas sobreviveu.

Comparado com isto as nossas dificuldades actuais são uma brincadeira. Se depois de três décadas terríveis, como por certo terão sido as três primeiras décadas do século XIX, houve futuro para a nossa juventude, cento e oitenta anos depois, esse engenho e arte que continua a fazer parte de nós, vai promover todos os mecanismos para acelerar a nossa economia.

Caramba, rapaziada, somos Portugueses!!

domingo, 28 de junho de 2015

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA: ANO DE 959- MUMADONA DIAS E ALAVARIUM

Na segunda metade do último século do primeiro milénio, uma mulher houve que se destacou no Noroeste da Península Ibérica (região que integrava o futuro território berço de Portugal) pela acumulação de riqueza que lhe deu muito poder: a Condessa Mumadona Dias.
         Numa época em que os árabes eram uma absoluta ameaça, ocupando ainda toda a parte sul da Península Ibérica, O Conde Hermenegildo Gonçalves, senhor de Portucale e Coimbra, em 930 casou com Mumadona Dias. Já viúva, em 959, a Condessa fez doação de vastos domínios ao Mosteiro de Guimarães, localidade na qual iria construir um castelo (berço de Portugal). Desses vastos domínios doados aos frades de Guimarães, faziam parte terras de Alavarium, a actual Aveiro. Por essa razão, o documento de doação das terras de Aveiro ao Mosteiro de Guimarães, é o documento mais antigo conhecido em que é mencionado o nome de Alavarium (Aveiro), e Mumadona Dias uma mulher para sempre historicamente ligada, para além de Guimarães, também a Aveiro.

Por essa razão em 1959 Aveiro celebrou o seu milénio como povoação. 

sábado, 13 de junho de 2015

SIFTO- NOTÍCIAS DO DEUS SUPREMO


...Na noite a seguir a se ter evadido do templo, Masahemba encontrava-se deitado sobre a fofa cama de erva, que rompia numa das margens do ribeiro, cujo caudal era formado pela água que vinha directamente do tanque sagrado do templo de Amon-Rá. Entretinha-se a observar as estrelas, que na sua solidão, lhe sorriam e lhe contavam segredos, que só os ouvidos experimentados de um Sumo Sacerdote seriam capazes de entender. De repente foi puxado à realidade, terminando assim aquele tão elevado diálogo.
         Masahemba sentira uma presença. E não se enganara, pois junto a si encontrava-se o sifto que o trouxera do templo. E mais uma vez, embora a escuridão fosse total, o sifto era perfeitamente visível, através da aúrea que, no escuro, recortava a sua silhueta.
- Aqui estás tu de novo, meu querido rapazinho- disse Masahemba erguendo-se da sua posição de deitado.
- É reconfortante voltar a ver-te, Masahemba. O deus supremo ficou radiante ao saber que tu estavas em segurança.
- Sim, estou bem, mas esfomeado.
- Eu sei! Por isso te trago aqui pão e aves.
De imediato o Sumo Sacerdote pegou na sacola que lhe era estendida. Abriu-a e comeu com voracidade o pão e a carne de faisão e perdiz.
- Aqui, o tempo tem-te sido bom conselheiro?- perguntou o sifto.
- Porque perguntas?- questionava Masahemba com a boca cheia.
- Amon-Rá tem curiosidade em saber se já arquitectaste algum plano para a tua sobrevivência.
- Vou-me manter por aqui até o meu cabelo crescer. Quando deixar de ter a aparência de um Sumo Sacerdote, misturo-me com a multidão e conto com a protecção do disfarce de felas. Vai ser um disfarce cansativo, mas pelo menos preservo a minha liberdade… e a vida. Nada mais me resta fazer.
- Amon-Rá não pretende para ti uma sorte tão humilde como essa. Amon-Rá desconfia do silêncio que vai pelo palácio real. A qualquer momento, alguma acção o faraó irá pôr em movimento para te encontrar. O faraó berrou que nem um louco quando lhe foi transmitido que tu não estavas no templo.
- Que fez o faraó das outras duas sacerdotisas?
- Fê-las aias da já rainha Nefertiti.
- Nefertiti já é rainha do Egipto? Lembrar-se-á ela de mim?
- Isso pouco importa Masahemba- respondeu o sifto- Nefertiti é rainha, rainha de um faraó que te odeia. Por isso não acalentes esperanças de ela interceder por ti. A rainha de cabelos da cor do fogo apenas quererá ser agradável e submissa ao seu faraó. Amon-Rá já encontrou uma família que te vai acolher. Será assim mais fácil para ti iniciares a tua inserção na sociedade dos homens. Trouxe-te um saiote de felas. Mantém-te bem camuflado na densidade de toda esta abençoada vegetação, que amanhã, ao pôr do sol, eu virei buscar-te  e conduzir-te-ei a casa da tal família que te irá receber. A bênção de Amon-Rá fica contigo.
         E o sifto desapareceu numa veloz corrida, chapinhando pelo ribeiro, em direcção ao Nilo.

         Que sorte lhe estaria reservada? Haviam já passado quinze dinastias de faraós e o Egipto prosperara na abençoada sabedoria desses reis, bem como a harmonia que sempre existira entre esses mesmos faraós e os deuses. Pois tinha de acontecer no tempo em que ele chegara ao Egipto, surgir um faraó herético, para lhe dar cabo da vida. O que o Egipto representara para ele sabia-o bem. Mas, dali para a frente, o que ele iria representar para o Egipto, isso era uma incógnita… uma amargurada incógnita...(em continuação, pág. 59, ex. XXII)
in A Causa de MassiftonRá
Novembro/2005

sexta-feira, 5 de junho de 2015

X JANELA SOBRE O MEU PAÍS: UM ENCANTO DE CAIS EM S. MARTINHO DO PORTO

Numa manhã de verão o Cais chamou por mim. Já lá não ía há muito tempo. Antigamente, a esta hora, a azáfama das traineiras a descarregarem o peixe era enorme, mas depois a Nazaré absorveu esse trabalho, pelo que agora apenas o Alaska descansa.
Este maravilhoso cais, que alguns dirão que é igual a tantos outros, tem para mim um significado muito especial, pois travei amizade com ele na força da juventude, o que me deixou sempre um toque de magia. As pessoas continuam a passear por ele, absorvendo toda a quietude e beleza. Do lado contrário da baía, a cerca de três quilómetros, encontram-se as dunas de Salir do Porto e a foz da pequena ribeira de Alfeizerão. No meio, todo o areal da Praia de S. Martinho do Porto.
Beijadas pelo mar, que logo á entrada da baía acalma a sua impetuosidade, são visíveis as ruínas da velha Âlfandega, a despontarem do negrume da rocha.

Com condições únicas em Portugal, S. Martinho do Porto é um paraíso na terra. E o seu cais merecedor de ser cenário de um conto de fadas!

domingo, 24 de maio de 2015

ENTRANDO NUM DESERTO MENTAL I

...Instalaram-no numa camarata atribuída à 5ª companhia. Serôdio observou atentamente os seus colegas, que como ele se propunham a ser futuros policias. Ficou decepcionado com a observação. Por estimativa, dos quinhentos e setenta guardas provisórios que com ele formavam a primeira escola de alistados de 1983, previa que talvez apenas cinquenta tivessem concluído o liceu. Dos restantes, a esmagadora maioria não teria estudado além da quarta classe. De que falavam eles? Conversavam das suas realidades, que em nada coincidiam com a sua realidade. Ali, ele não ouvia falar do título de um livro, de um estilo musical, do nome de um L.P. Não que fosse desprestigio falar-se de técnicas utilizadas na construção civil, da melhor forma de se conduzir um tractor ou de qual a melhor maneira de se limpar o carburador de um motor. Mas ali, Serôdio desvinculava-se de tudo o que era cultural e isso entristecia-o. No entanto, em muitos desses seus colegas, ele ia descobrindo personalidades simpáticas, de coração aberto a uma boa amizade, o que atenuava a sua tristeza. Com o passar dos meses, independentemente dos desníveis culturais, todos aqueles rapazes iriam formar um grupo coeso. Algumas vezes, à mente de Serôdio, aflorou o pensamento de que um dia viria a comandar os seus actuais colegas. Pura ilusão, como mais tarde constatou, porque veio a compreender que na policia, em oitenta por cento dos casos, não è promovido quem está melhor habilitado nos aspectos intelectual e psicológico, mas antes quem melhor sabe servir, hipocritamente, a falta de moral e de escrúpulos...(em continuação, pág. 82- ex. XXIX)
in Filhos Pobres da Revolta

Março/2003

sexta-feira, 8 de maio de 2015

LUCIUS CORNELIUS SULLA- ROMA, ANO 80 A.C

Nestes tempos, social e economicamente conturbados em que vivemos, momentos que não são estranhos a este nosso adorado Portugal, pois que outros já aconteceram e também foram ultrapassados, cada um de nós (os que pertencemos aos comuns mortais, e porque do Olimpo muito distante é feita a nossa vida, o que determina que estejamos expostos a todas as vicissitudes de que se reveste esta já prolongada crise, que nos provoca uma multiplicidade de problemas humanos, tanto de índole económica como sentimental), faz por tentar ultrapassar esses mesmos problemas, das formas que melhor considera serem as ajustadas para auxiliar na luta.  No que me diz respeito, uma das formas que utilizo é a leitura, muito embora  ler seja um feliz hábito que me acompanha desde a adolescência.
E no manancial de livros já lidos, surgem por vezes verdadeiras preciosidades, tanto pela forma como pelo conteúdo, como «O Ferro Velho» de Anthony Burgess ou «O Espião de D. João II», de Deana Barroqueiro, com a consciência de que mais alguns livros existem nesse lote.
 Neste momento leio 1034 páginas de uma escrita soberba e um conteúdo extraordinário: «O Primeiro Homem de Roma», de Colleen McCullough. Uma viagem fascinante ao senado romano, onde tomamos conhecimento da forma como o senado de Roma funcionava, as intrigas, as traições, as amizades, as alianças que se faziam no seio dos senadores, onde ficamos a conhecer a real magnitude do Império Romano e a forma como se fazia a gestão do poder nas várias regiões ocupadas, onde se incluía a velha Hispânia, principalmente a Hispânia Ulterior  onde nos encontramos neste momento. O enredo passa-se no decorrer do último século antes do nascimento de Jesus Cristo, por volta do ano 80 A.C., numa república cuja figura máxima era o Cônsul, tendo numa fase posterior sido substituída pela figura do imperador. E este livro aborda uma questão, na qual eu já havia pensado: Roma e Itália eram a mesma coisa? Até este período de que trata o romance, não, não eram a mesma coisa, tendo essa questão originado uma guerra no interior da república, pois que os italianos pretendiam a cidadania romana, que lhes foi negada pela maioria dos senadores.
O romance, que tem um conjunto formidável de personagens, baseia-se muito na personalidade e feitos de duas delas: Caio Mário e Lúcio Cornélio Sila.
Surpreendentemente um tema magistralmente abordado e escrito (com um enorme trabalho de pesquisa por certo) por alguém, que, na minha opinião, absolutamente nada tinha em comum com a cultura romana, como era o caso da autora, de nacionalidade australiana, falecida no dia 29 de Janeiro deste ano.

Este livro, uma preciosidade de facto!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

TORRES NOVAS, UM PERMANENTE SENTIMENTO PROVISÓRIO

...Já se haviam passado três anos e meio, desde que ingressara na P.S.P. Tivera receio de que, com a dificuldade de memorizar o que lia, não conseguisse ingressar na PSP, tal como lhe acontecera no C.O.M. em Mafra. Mas graças a Deus tudo correra bem. A policia não fora tão exigente como a tropa e ele melhorara imenso no seu problema intelectual.
         Chegara a Torres Novas no dia 24 de Janeiro de 1983. Naquela vila ribatejana estava instalada a E.F.G. (Escola de Formação de Guardas). A escola era um velho edifício restaurado, onde outrora estivera aquartelado um regimento de cavalaria. Estava pintada de cor amarela. A fachada, enorme, pintalgada por inúmeras janelas e portas, sobressaia na massa de casario da vila. Dois canhões do tempo das invasões francesas, pintados de preto, ladeavam a entrada principal do edifício. Era ali que Serôdio iria passar os próximos cinco meses. Lembrava-se da forma tímida como entrara. Afinal estava a entrar num departamento policial, coisa de que o povo português fugia como o diabo foge da cruz. No entanto, depressa se adaptou  ao ambiente, pois estar ali ou na tropa apenas diferia na cor da farda. Ao passo que em Mafra os recrutas vestiam a farda de trabalho número três, de cor verde, em Torres Novas envergavam uma farda de trabalho número três, de cor azul.
         Ainda nesse ano ele pôde constatar que a vida militar afinal diferia em muito da vida policial. Mas, e enquanto fosse guarda provisório, viveria na enganadora sensação de que voltara à tropa.
         Tal como no exército, por ali circulavam homens com patentes idênticas: segundos e primeiros sargentos; alferes, tenentes e capitães. Apenas os nomes mudavam. Respectivamente aos anteriores, passavam a chamar-se então segundos e primeiros subchefes, subchefes ajudantes, chefes de esquadra e segundos comissários. Havia no entanto diferenças enormes. Enquanto que na tropa um galão de alferes ou dois galões de tenente eram utilizados por rapazes novos, na policia o galão de subchefe ajudante ou os dois galões de chefe de esquadra eram atribuídos, na maioria dos casos, a homens velhos e quase em fim de carreira.

         Assim como no exército, os quinhentos e setenta novos guardas provisórios foram divididos por companhias e subdivididos em pelotões. As primeiras formalidades, em consonância com o que se praticava na tropa, foram preencher papelada e tirar a primeira fotografia fardado. Ao contrário do que lhe acontecera com a farda do exército, dentro da farda de policia Serôdio sentiu-se pateta. E depois que viu a fotografia do seu rosto, encimado por aquele abominável boné, sentiu tristeza por ir abraçar aquela profissão. Mas a vida tinha de ser ganha de alguma forma...(em continuação, pág. 81, ex. XXVIII)
in Filhos Pobres da Revolta

Março/2003

sábado, 18 de abril de 2015

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- ANO DE 866: PORTUCALE E A RECONQUISTA CRISTÃ

866- a Península Ibérica encontrava-se invadida pelos árabes há 155 anos. No entanto, desde o primeiro momento, uma região ibérica não foi ocupada, porque os invasores mouros parece não terem sido moldados para regiões montanhosas. Era essa região o Reino das Astúrias, bem no norte da península. E foi precisamente nas Astúrias que nasceu o gérmen da reconquista cristã.
Assim, cento e cinquenta e cinco anos depois, já os reconquistadores cristãos tinham recuperado na Península Ibérica o território que chegava a Viseu, onde se incluía a cidade de Portucale, nome que, duzentos e setenta e sete anos depois, daria origem ao nome de Portugal, esta nação maravilhosa idealizada, planeada e fundada em plena reconquista cristã.


sábado, 4 de abril de 2015

REGRESSO AO NINDA

...As sentinelas que vigiavam através dos abrigos, pertencentes ao pelotão que ficara no aquartelamento do Ninda, viram ao longe a aproximação da coluna. De imediato deram a saber o regresso da companhia. Todos demonstravam imensa satisfação. A missão de reconhecimento fora um êxito. Não houvera baixas nem feridos, e tinham capturado um número considerável de guerrilheiros inimigos. A coluna ao entrar pela pequena ponte improvisada, localizada sobre a vala, era recebida com imenso regozijo. Davam-se abraços e lançavam-se imensas larachas, próprias de quem, vivendo sob a expectativa de permanente perigo, num momento de descontracção soltava a alegria, a natural boa disposição, e fazia um brinde à vida.
         Os cinquenta turras foram bem amarrados, aglomerados no centro da parada, mas de modo a que não fossem vistos do exterior. Dez homens os guardavam, com as g3 apontadas a eles e a patilha de segurança seleccionada para o R  de rajada. Via rádio já fora comunicado que no Ninda se encontravam cinquenta prisioneiros de guerra. O Quartel General haveria de lhes dar destino e encarregar-se-ia de os is buscar.
         Os soldados que tinham integrado a coluna, contavam aos que ficaram o modo pelo qual a missão tivera êxito. Os soldados riam-se e ao mesmo tempo perguntavam-se como tudo aquilo fora possível. Sim, porque numa guerra a sério nunca se vira minas explodirem sozinhas, sem uma força externa que lhes accionasse o detonador, nem turras saltarem que nem doidos, denunciando-se a si próprios, deitando a perder uma emboscada da qual esperariam infligir muitas baixas ao inimigo « portuga». Por isso os soldados portugueses riam, mas não riam de satisfação, antes o faziam por nervosismo, pois estavam cientes de que se não tivesse acontecido algo que o seu entendimento ainda não assimilara, muitos deles não estariam ali vivos, naquele momento. Por isso alcunharam aquela missão de «operação do alferes bruxo», referindo-se eles à previsão certeira que o alferes Santa Cruz fizera da existência da emboscada.

         Todos se preparavam para irem tomar um banho no rio Cuango, pois a chuva já se fora. Agora que tinham cinquenta turras prisioneiros, tão cedo não seriam incomodados pelo inimigo...(em continuação, pág. 91, ex. XXIX)
in Visitados

Novembro/1999

sexta-feira, 13 de março de 2015

ATÉ LOGO MEU FILHO

Esta semana  passei a fazer parte dos pais da geração licenciada, que emigra em busca do futuro que o nosso país, (por vontade dos que tendo o futuro garantido para os seus filhos, por força de corrupções e compadrios, pagos pelo dinheiro que animalescamente ganham e acumulam criminosamente), não tem possibilidade de lhe dar.
Se alguns partem tendo alguém ou alguma entidade á espera, outros fazem-no sem nada levarem na bagagem.
Para os pais que ficam, é uma dor de coração.
No meu caso, o meu filho foi em busca do sonho em arqueologia, já que em Portugal a história parou, o nosso passado não interessa, tudo o que havia para ser descoberto e escavado já o foi, não havendo mais nada. Somos um país sem memória.
Que os nossos rapazes e raparigas, disseminados por essa Europa, tenham a maior felicidade do mundo: a concretização do seu sonho, e que perdoem a este triste Portugal esse abandono, porque ele não tem culpa. E com esse perdão regressem um dia, porque este pedaço lusitano tem que ter um futuro.
E nessa massa de juventude portuguesa andas tu, meu rapaz. Garra nessa luta.

Até logo! 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

UM TESOURO DO 61, QUE EM ANGOLA SE SUPÕE VIVO

...Depois de ter fumado mais um cigarro, escondido no escuro, fazendo tempo para que a rapariga entrasse bem no sono, verificou se levava consigo os apetrechos de que iria precisar. Decidiu-se então por avançar. Calçava sapatilhas para poder ter maior liberdade de movimentos. Por uma última vez olhou atentamente em seu redor. Não havia vivalma. Tudo estava em silêncio. Agachou-se, e durante quinze minutos trabalhou freneticamente, em absoluto silêncio.
         Conseguira ultrapassar a barreira que a fechadura representava. Era apenas mais uma. Com a chave improvisada puxou lentamente o engate da fechadura, deu um leve empurrão à porta, e eis que a ténue luz do candeeiro distante penetrava a escuridão do corredor. Já no interior da casa encostou a porta da rua. Num dos bolsos do casaco preto que vestia, procurou o frasco de clorofórmio, e indagou se o lenço que preparara, também lá estava. Tudo confirmado tirou do outro bolso uma lanterna e muito lentamente abriu a porta do quarto, onde julgava estar a rapariga. Acertara em cheio! Ouvia uma respiração suave e compassada. Ela dormia profundamente. Não iria ser preciso sequer usar o clorofórmio. Acendeu a pequena lanterna, com o facho de luz a iluminar o chão, e começou a andar muito lentamente. Contornava a cama onde a rapariga dormia. A circunferência de luz que se desenhava no chão, começou lentamente a subir e passou para o guarda-vestidos. Subitamente a luz foi reflectida no espelho do guarda-fatos. O homem, que se tinha esquecido desse pormenor, teve um movimento brusco com o corpo, surpreendido com a inesperada reflexão da luz, e deixou cair a lanterna. Tudo isso contribuiu para que a rapariga acordasse. De imediato Catarina pressentiu que alguém, além dela, estava no quarto. Em pânico, de um salto se sentou na cama e gritou:
-         Quem está aí?
         O homem, desesperado, deu-lhe uma violenta bofetada. Seguidamente atirou-se para cima dela e procurou a almofada. Catarina debatia-se o mais que podia e gritava. O homem, encontrando a almofada, arremessou-a violentamente sobre o rosto de Catarina e pressionou, pressionou imenso. Abafara o som dos gritos. Pouco tempo depois, aquele jovem e terno corpo não oferecia mais resistência. O homem, extenuado pela aspereza da sua atitude, pegou na lanterna que ainda se mantinha acesa no chão, e de uma forma atarantada apontava a luz para todas as direcções. Finalmente detectou o estupor do livro, poisado em cima da mesinha de cabeceira. Avidamente pegou nele e fugiu daquele maldito quarto. Aquele serviço tão inocente, afinal acabara por correr muito mal. Nunca matara ninguém. Era um grande ladrão, mas assassino não gostava de ser, e agora já o era. Raios partissem o maldito livro! Mas aquela inesperada ocorrência haveria de encarecer o trabalho. O maluco do arquitecto ia ver como. E logo havia de manchar as mãos numa rapariga tão bonita!
         O homem saiu de casa a correr. A porta ficou escancarada. Entrou aflitivamente no carro, deu à ignição  e rapidamente desapareceu.
         O número 61 mantinha-se em silêncio, enquanto nele, um coração em Angola, supunha lá guardar o seu tesouro...(em continuação, pág. 90, ex. XXVIII)
in Visitados
Novembro/1999


sábado, 14 de fevereiro de 2015

IX JANELA SOBRE O MEU PAÍS: ALFEIZERÃO, UMA HISTÓRIA ÁRABE COM TREZE SÉCULOS

Alfeizerão, essa doce vila, localizada no Concelho de Alcobaça, terra do internacional pão de ló de Alfeizerão, foi fundada pelos árabes em 717, seis anos após a sua ocupação da Península Ibérica.
Era esta terra de mouros aquando da fundação da nacionalidade. Dizem os entendidos que o seu castelo, em ruínas, com as ameias redondas, é demonstrativo das suas origens.
Não é por acaso que o seu Brasão apresenta uma meia lua árabe.

Nós, portugueses, somos mesmo um caldeirão de culturas!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A NOITE DESASSOSSEGADA PERGUNTA SE A VIDA TEM ALMAS

...Sentado na velha cama de ferro, fumando o cigarro sofregamente, António Avilar tentava perceber se o pesadelo que lhe inquietara o espírito tinha algum significado e se o tivesse, qual seria? Porquê aparecer-lhe um automóvel, coisa que ele apenas vira duas ou três vezes aquando das suas deambulações por Lisboa e Bombarral?! Porque razão criara a sua mente a figura de um homem que ele nunca vira? Porque motivo esse homem se misturara com a desagradável figura do mouro? Finalmente, que teriam vindo fazer os soldados alemães à quietude do seu solitário sono? Esses ele sabia bem o que significavam. Reclamavam a sua vida, a vida pela qual tanto fizeram para que fosse roubada. Isso significava a morte, aquela mesma que estivera junto a si, nos campos da Flandres. Sim, aquele pesadelo fora um aviso. Os soldados alemães só poderiam significar algo funesto para si. Enviar avisos através de sonhos só está ao alcance de Deus ou como acredita o povo, através de almas boas que se encontram ao seu serviço. Ele não tinha a certeza se acreditava nessas coisas. Bem sabia do que acontecera em Fátima havia cinco anos. A aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos acontecera em Maio de 1917. Por essa altura já ele andava na guerra, em terras de França. Lá nunca soube de nada. Foi depois de ter regressado, que tomou conhecimento de toda a paixão que o povo sentia pelo 13 de Maio em Fátima. Esse mistério que é do conhecimento de todo o Portugal e os outros, aqueles que vão acontecendo pelas aldeias do país, almas boas que entram no corpo de pessoas que as recebem e através delas tentam ajudar homens e mulheres em aflição, traziam consolo e esperança à vida de António Avilar. Seria aquele homem vestido de preto um emissário de Deus? Qual quê! Se Deus o abandonara! Estava a ser injusto. Contrariamente a muitos milhares de camaradas seus, Deus poupara-lhe a vida em França. Para quê? Para ver a sua doce e bela Luísa casada com outro? Para ver uma filha a quem nem um beijo podia dar? Não, Deus salvara-lhe a vida para lhe dar a oportunidade de ele redimir o seu acto de banditismo, cometido ali mesmo, na noite de 8 de Outubro de 1910. E se lhe dava essa oportunidade era porque saberia que ele era merecedor dela. Afinal, ele talvez fosse uma boa pessoa. Mas como essa remissão ainda não fora cumprida e ele, de alguma forma talvez corresse perigo de vida, eis que viera o aviso. Mas quem seria aquele homem vestido de pr...? Esta pergunta  ao atravessar o espírito de António Avilar, deixou-o subitamente suspenso no rosto daquele homem. Muito direito, o olhar fixo no vácuo, fazia-se-lhe luz na memória. Mas é claro, aquele homem era o morgado Vitorino. Uma única vez o vira na vida. Aquele rosto jovem, profundamente carregado de aflição, o impressionara para sempre. E no sonho ele levara-o por um braço para junto da morte, ou antes, para que ele a soubesse reconhecer. Porque motivo quereria a alma do morgado ajudá-lo, agora que deveria saber que ele participou no assalto ao seu solar? Talvez porque, como alma que era, possuísse a faculdade de conhecer a essência de cada pessoa e assim tivesse tomado conhecimento dos grandes remorsos que o possuíam a si, um pobre caminhante desta vida. Talvez ainda, porque não esquecia que fora pai dos dois rapazes que viviam separados e os quisesse ver de novo unidos, vivendo em pleno direito nas terras que lhes pertenciam. Afinal, as almas se existissem, com certeza que iam seguindo as vidas dos que por cá iam ficando, e decerto se preocupariam com as condições de vida terrena dos que lhes estiveram ligados por laços familiares. Ou a vida das almas não seria nada disto? Era tudo tão confuso. Mas fosse como fosse, por Deus ou por uma alma amiga, ficara-lhe a forte intuição de que o sonho fora um sério alerta. Mas que era isto? Não podia dar largas à sua imaginação. Não ia ser um tolo pesadelo que o ia tornar obcecado na ideia de uma perseguição à sua pessoa. Naquele momento, embora não parecesse, o perseguidor era ele...(em continuação, pág. 119, ex. XLIV)
in Quando Um Anjo Peca
Março/1998