quarta-feira, 18 de outubro de 2017

PRIMAVERA E OUTONO, ESTAÇÕES DE FOGO NO PORTUGAL DE 2017

Escrevo estas palavras imbuído de uma enormíssima tristeza, pois para além de ver a floresta, muitas dezenas de habitações e unidades indústriais do meu país a serem consumidas pelo fogo, de ver este nobre Portugal vestir-se de negro, é-me muito difícil aceitar que 106 meus concidadãos tenham, naquele miserável dia 17 de Junho e neste muito recente e trágico 15 de Outubro, perdido a vida da forma mais cruel que se possa imaginar.
Estamos de luto por três dias mas não podemos estar em paz. Para quem diz que algo tem de mudar eu digo que tudo terá de ser diferente.
De quem é a culpa?
No meu entender a culpa é de sucessivas décadas de uma política incorrecta, ou melhor, sem política nenhuma, para as nossas florestas. Depois que a nossa sociedade mudou, os matos das florestas cresceram a seu belo prazer, de forma completamente irresponsável, e deixámo-nos de preocupar com a correcta florestação, visivelmente espreitando o lucro.
A culpa foi de políticas completamente erradas que extinguiram o corpo da guarda florestal, e que era um garante de vigilância e alerta.
Nesta segunda investida do fogo, o governo tem uma grande quota parte de responsabilidade, pois não foi sensível às alterações climatéricas. E porque o calendário normal dos fogos diz que em Outubro o tempo é de Outono, como tal de temperaturas mais baixas e primeiras chuvas, o governo afrouxou as medidas de segurança, subestimando a alterações do clima, o que se veio a revelar fatídico no Domingo passado.
Exige-se a queda do governo. Mas quem exige a sua queda é quem é incapaz de ver o trabalho que o governo apresentou, em prol da nossa recuperação económica, ou então exige essa demissão porque encontrou nos incêndios o pretexto que aguardava, para ver pelas costas o governo que a esses chamou de medíocres.
Em prol da nossa economia, em prol da recuperação de alguma dignidade de vida por parte do povo, considero que se o governo do PS cair, isso será um enorme erro.
A Direita anunciou a chegada do diabo. E estava certa. O diabo chegou mesmo, entrou no nosso pobre país e devastou-o. Resta saber se o diabo veio por sua livre e espontânea vontade, ou se foi solicitado.
É sabido que ele, o diabo, tem duas capas: com uma tapa e outra destapa. Cá estaremos para ver se este diabo tem, efectivamente, a capa que destapa.

Os meus mais profundos pêsames a todos os familiares das 106 vítimas mortais deste verão e Outono, neste queimado ano de 2017.

sábado, 14 de outubro de 2017

ONIX E TOPÁZIO, O REGRESSO DO ANTIGO SABOR DE COIMBRA

Como bom conimbricense que me considero, tenho um motivo para me sentir muito contente no que à memória coimbrã diz respeito.
É que nos anos 90 do século passado foram extintas duas marcas de cerveja, exclusivamente conimbricenses: a cerveja preta Onix e a cerveja branca Topázio. Poder-se-á achar estranho que eu dê tanto valor à existência de duas marcas de cerveja. Mas é que a questão é mesmo essa: eram de Coimbra, e num país em que tudo é de Lisboa, ter Coimbra duas marcas de cerveja exclusivas é algo bastante importante, para além de estas cervejas terem ajudado a abrilhantar a tradição, para já não falar no seu sabor, que, para quem gosta de cerveja, eram únicas.
Pois bem, eis que esta semana me chegaram às mãos duas garrafas de cerveja Onix e Topázio. Elas aí estão de novo, agora de fabrico artesanal, mas melhores que nunca.
Os meus parabéns à Praxis que apostou na tradição e na reposição de um símbolo coimbrão.

Vale bem um sonoro saído da alma AFRA!

sábado, 7 de outubro de 2017

EM FRENTE À CAPELA DE SANTO AMARO

...Obrigado senhor Bento. Compreendi-o perfeitamente. Onde posso encontrar então o senhor padre José Soares?
- A esta hora, na capela de Santo Amaro, aquela ali ao fundo que se vê daqui - indicou o taberneiro, apontando para o fundo da estrada que levava aos Casais do Norte.
- Mais uma vez obrigado - disse Américo, dirigindo-se para o automóvel. Foi interrompido pelo chamamento do taberneiro.
- Senhor doutor, Deus o abençoe!
         Américo respondeu com um leve sorriso. Entrou no automóvel e fez inversão de marcha, deslocando-se de seguida na direcção da capelinha de Santo Amaro.
         Seria de prever que os três rapazes e o taberneiro ficassem a admirar aquela coisa estranha em movimento. Mas, contrariamente, a novidade barulhenta fora relegada para segundo plano. A razão pela qual aquele forasteiro ali se apresentava, falava mais alto. Perturbada a memória colectiva, depressa esta resvalava para a recordação, o sofrimento. O povo vivia, preferia não se lembrar, mas não esquecia.
         O padre José Soares encontrava-se ocupado com a elaboração de dois assentos de baptismo que tinham tido lugar, havia poucos dias, na sua capelinha. Estava embrenhado naquela escrita, envolto por um pequeno espaço que existia à direita do altar, de pequenas dimensões. Era uma divisão pequenina, com uma escrivaninha simples, uma cadeira e algumas prateleiras onde estavam em arquivo os nascimentos, os baptismos e os óbitos que iam ocorrendo em Alfeizerão.
         Começava o padre José Soares a prestar mais atenção ás exigências do estômago do que propriamente aos pormenores relevantes, de interesse para o baptizado em que trabalhava, quando ouviu um som estranho que lhe parecia vir da entrada da capela. Pousou o aparo na escrivaninha, tapou o pequeno boião onde se encontrava a tinta permanente, saiu pela porta que dava directamente para o altar e atravessou a capelinha. Ao despontar à porta viu uma coisa, daquelas coisas a que chamavam automóvel, e junto àquela coisa um cavalheiro, um fidalgo, que tentava limpar vestígios de lama nas calças finas.
- Já tinha ouvido falar desta novidade do século, mas não tive oportunidade de ver nenhuma, até a este momento - disse o padre José Soares com as mãos à frente do abdómen, apertadas uma na outra.
- É mesmo apenas uma questão de oportunidade senhor padre - respondeu Américo Afonso.
- Efectivamente é. Para locais de maior urbanidade, o automóvel já não será uma novidade assim tão grande. Agora para meios pequenos como é Alfeizerão, ainda é um “Deus nos acuda” - disse o padre José Soares. Depois perguntou - o senhor vem de longe?

- Venho do Bombarral para falar sobre um assunto delicado, com a pessoa certa, que segundo me informou o taberneiro, é o senhor padre mesmo. (em continuação, ex. LI)

in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

D. MANUEL MARTINS, BISPO DE SETÚBAL, O BISPO VERMELHO




Geralmente não presto grande atenção às nomeações dos sacerdotes católicos para bispos. Como tal nunca sei qual é o bispo que ocupa a diocese daqui ou dali…inclusivé a de Aveiro, a cidade onde vivo. E isso acontece por uma simples razão: embora eu seja católico (não praticante), considero que o mundo dos bispos é inacessível ao meu pequenito mundo. Como tal essas nomeações nunca me despertaram qualquer interesse. Excepto D. Manuel Martins!
Em qualquer lugar em que o visse, em qualquer situação em que me encontrasse, eu saberia que aquele senhor era o Bispo de Setúbal, porque ao contrário de todos os outros bispos, a D. Manuel Martins eu vi-o muitas vezes na televisão, a ser interventivo na vida da sua diocese, a defender a triste condição dos pobres. Por isso era chamado o Bispo Vermelho.
Faleceu hoje!
Obrigado D. Manuel Martins pela sua entrega, pela sua luta pelos mais desfavorecidos, por ter mostrado como a religião pode ser importante na política que decide a vida de um povo.

sábado, 9 de setembro de 2017

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA: CONFERÊNCIA DE ZAMORA- 1143, QUEM NÃO SABE ESTA DATA NÃO É BOM PORTUGUÊS

O início da nacionalidade caracterizou-se por uma luta em duas frentes: enquanto no território portucalense D. Afonso Henriques fazia frente ao rei de Leão, no sentido de obter a independência, ao sul de Coimbra conquistava território aos mouros, inserido no movimento da reconquista cristã, na Península Ibérica. Foi essa acção que marcou a vitória na Batalha de Ourique, que tivera lugar em 1139, entre todas as outras acções.
         Quatro anos volvidos, em 1143, teve lugar a Conferência de Zamora, através da qual chegava a paz entre as duas partes ibéricas: o Condado Portucalense, com pretensões a reino independente, liderado por D. Afonso Henriques e o Reino de Leão, tendo por rei D. Afonso VII de Leão, que teve por testemunha o legado papal Guido de Vico, tendo sido reconhecido a Afonso Henriques o título de rei, que se colocou a si e ao reino de Portugal sob a protecção de Roma, mediante o pagamento de um censo anual no valor de quatro onças de ouro.
         Estavam escancaradas as portas para a independência.

         Quando eu andava na escola primária aprendia-se que: 1143, quem não sabe esta data não é bom português!

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A VIDA TERRENA ESQUECE TUDO O QUE É ESPITIRUAL

...Finalmente me encontrava no meu refúgio. Estava imensamente agradecido ao meu pai por me ter criado aquele espaço paradisíaco, que era o meu consultório, onde me achava senhor de todo o mundo, pois sabia que ao sair do conforto daquelas quatro paredes a realidade era bem diferente, dado que o mundo não era meu, mas eu é que era do mundo. E pela razão de serem as outras pessoas a condicionarem a nossa vida, pelo menos em certas circunstâncias, é que eu naquele dia me vira confrontado com aqueles dois cadáveres. Eu não estava a perceber muito bem porque razão, sendo eu médico, e tendo tido, obrigatoriamente, múltiplos contactos com defuntos, a visão daqueles dois me havia impressionado daquela forma. Reflectindo nessa questão apercebi-me então de que, embora a morte me não fosse estranha, iria estar intrinsecamente ligada à minha actividade profissional. Essa conclusão não me agradou, pois a cada morto que se cruzasse no meu caminho iria estar ligado um drama, sofrimento, e tais constatações tornariam mais pálida a minha felicidade. Mal eu sabia o número imenso de mortos que o destino resolvera colocar nesse meu caminho. Soubesse eu então o que sei hoje… estou a expressar-me incorrectamente… tivesse eu me lembrado do que hoje sei ser uma certeza, e que naquela altura apenas o havia esquecido, e a morte não se me afiguraria como uma fonte de sofrimento. Mas a vida terrena baseia-se no esquecimento de tudo o que é espiritual; e por vezes esse esquecimento é tão profundo que do espírito nem um leve pressentimento existe...(em continuidade, pág. 48, ex. XXVI)
in Alma de Liberal
Junho/2009

sábado, 19 de agosto de 2017

XX JANELA SOBRE O MEU PAÍS- PRAIA DA COSTA NOVA DO PRADO- REPOUSO DO HERÓI

Na imensidão da ria de Aveiro, no canal de Mira, que transmite beleza à já de si bela Costa Nova do Prado, entre guerreiros que para sempre descansam sobre as águas calmas, um herói repousa, recuperando energias para novas e ansiadas lutas.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

MÉDICO E DEFENSOR DO IDEAL LIBERAL


- O meu pai conhece o Francisco Carvalho?

- Nunca ouvi tal nome.

- E o Ti Chico Aduelas?

- Esse sim. É talvez o melhor tanoeiro aqui da região. Muitas das nossas pipas e tonéis fê-las ele.

- Os dois são a mesma pessoa. Pois saiba que a falecida era filha dele.

         O meu pai fixou-me, em silêncio, benzendo-se. Depois disse:

- Pobre home. Mas pelo que me tem chegado aos oividos o matador que se cuide, pois o tanoeiro, quando lhe calcam os calos não é flor que se cheire. E outra coisa se não está à espera. Perder assim um home  uma filha, é obra.

         E só depois deste diálogo pude entrar em casa. Estava cansado, ansiava por um pouco de sossego, mas ainda tive de responder ao meu pai sobre questões relacionadas com a forma como o Conde de Cértima me havia recebido. Lá lhe contei que o fidalgo percebera perfeitamente que eu era defensor do ideal liberal, mas que tal não iria impedir que eu ali continuasse a ir, na qualidade de médico, ao que o meu pai respondeu que isso não era razão para ter cuidados, pois em que outra qualidade haveria eu de entrar naquela casa, senão na de médico?!

         E deixou-me só...(em continuação, pág. 47, ex. XXV)

in Alma de Liberal
Junho/2009

segunda-feira, 31 de julho de 2017

EM 1572, O SIM DA CENSURA DA INQUISIÇÃO À FÁBULA DOS DEUSES CHAMADA OS LUSÍADAS


«Por mandado da santa geral inquisição estes dez cantos dos Lusíadas de Luís de Camões,  dos valerosos feitos em armas que os portugueses fizeram em Asia e Europa, não achey nelles cousa alg~ua escandalosa, nem contraria à fé e bõs custumes, somente me pareceo que era necessário advertir os lectores que o autor pera encarecer a dificuldade da navegação e entrada dos portugueses na India, (…) de b~ua ficção dos deoses dos gentios. E ainda que Sancto Angustinho nas suas retractações  se retracte de ter chamado nos livros que compôs de ordine aas musas deosas todavia como isto he poesia e fingimento e o autor como poeta, não pretenda mais que ornar o estilo poético não tivemos por inconveniente (…) esta fabula dos deoses na obra, conhecendoa por tal. E ficando sempre salva a verdade de nossa sancta fé, que todos os deoses dos gentios sam demónios. E por isso me pareceo o livro digno de se imprimir, e o autor mostra nelle muito engenho e muita erudição nas sciencias humanas. Em fe do qual assiney aqui.

Frey Bertholameu Ferreira»

E assim, depois desta autorização oficial da inquisição, Os Lusíadas veio a ser livro, em 1572, para deleite e orgulho do Povo Lusitano, nós!


sábado, 22 de julho de 2017

IRONIA PREOCUPANTE DE ÍSIS

...-         Que pretendes de mim, pequeno sifto?- perguntou Amon-Rá ao ver chegar o sifto.
-         Divino Amon, venho falar-te sobre o sumo sacerdote que o faraó escolheu para o culto a Aton.
-         Sobre o quê?- perguntou Amon-Rá, intrigado- e desde quando faz parte das funções de um sifto preocupar-se com questões desse teor? Por acaso ordenei-te que o fizesses?
-         Não, divino Amon, mas pensei que talvez tivesses curiosidade em saber algo sobre ele.
-         Sabes o nome dele?- perguntou o deus ancião Aton.
-         Efreiménus- respondeu o falso sifto. 
Desde a chegada do sifto que a deusa Ísis se começou a sentir desconfortável. Não sabia explicar, mas algo na água se fazia conduzir que lhe transmitia um mau estar. Tendo consciência de que era a deusa da magia, Ísis fez irradiar magia por todo o espaço de MassiftonRá, no propósito de obter uma resposta que lhe desse a justificação para aquele seu mau estar; e rapidamente a magia se começou a canalizar para o sifto que se encontrava ali. A deusa Ísis concentrou então toda a sua atenção e energia naquele peixe, e lentamente, mas conclusivamente, começou a sentir que, camuflada por debaixo de todas as vibrações que emanavam do sifto, existia uma energia incomodativa, a fonte do seu desconforto. Sem que isso fosse pressentido pelo sifto, a magia de Ísis começou a inspeccionar a energia camuflada, lendo-a como a um livro que, ganhando vontade própria, se recusava a ser lido. E subitamente a deusa Ísis estremeceu. Reconhecera a energia camuflada! E num ímpeto, disse:
-         Sifto, explica-nos como descobriste o nome do sumo sacerdote.
-         Foi fácil. Introduzi-me no palácio do faraó...
-         Mas porque razão o fizeste, sifto?- perguntava Amon-Rá- eu posso compreender que me queiras agradar, mas isso é uma insubordinação. Os siftos têm de se limitar às ordens que eu lhes dou.
-         Não sejas injusto para com os teus siftos, Amon- disse a deusa Ísis.
-         E deixo passar esta indisciplina, sem nada dizer?- perguntava Amon-Rá com semblante de zangado.

-         Ao que tu te referes seria uma indisciplina, se esse peixe fosse um sifto, o que não é o caso- disse a deusa Ísis com ironia...(em continuação, pág. 68, ex. XXIX)

in A Causa de MassiftonRá

Novembro/2005

domingo, 9 de julho de 2017

XIX JANELA SOBRE O MEU PAÍS- AVEIRO, JERÓNIMO PEREIRA CAMPOS- FÁBRICA E TURISMO

Aveiro, Fábrica de Cerâmica Jerónimo Pereira Campos, em finais do séc. XIX, um pólo industrial, onde apenas havia lugar ao esforço do braço forte do povo.
Cem anos depois, Fábrica de Cerâmica Jerónimo Pereira Campos, pólo da indústria mental, onde a intelectualidade debate as suas idéias, um dos mais atractivos pólos turísticos de Aveiro, ali, no Cais da Fonte Nova.

Bem Vindos a Aveiro!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CAPAS NEGRAS ROÇANDO A IDADE ANTIGA DAS PEDRAS DA SÉ VELHA, NA TRADIÇÃO COIMBRÃ

As pedras centenárias e gastas da calçada da Sé Velha mais uma vez serão pisadas pela tradição coimbrã. Capas negras, novas e velhas, roçando a idade antiga das pedras, envolverão de emoção os corações que cobrem, corações de estudantes, que ao som do trinado das guitarras tornarão eterno o fado Hilário.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

PTAHKNOR, A EXECUÇÃO DE UMA GRAVÍSSIMA FALTA

...Então Seth retomou a forma de peixe, pressionou o estômago conforme a indicação de Ptahknor, e imediatamente viu o seu corpo de tiláquia ser contornado por uma luz azulada.
-         Agora és um perfeito sifto- disse o crocodilo Bhokurac.
-         Muito bem. Sendo assim estou pronto para avançar- afirmou Seth.
-         Não te esqueças do nosso acordo.
-         Fica descansado, Ptahknor. Amon-Rá terá razões para destituir o deus Sobek e dar-te esse cargo.
E o deus Seth, disfarçado em sifto, avançou na direcção do mundo submerso dos deuses, o paradisíaco MassiftonRá.
Ptahknor, por momentos, ficou a ver aquele falso sifto a avançar para um mundo que lhe estava interdito. Sabendo-se conivente com aquela grave transgressão à vontade de Amon-Rá, o crocodilo Bhokurac preferiu não continuar a ver a execução da sua gravíssima falta, pelo que decidiu voltar costas ao avanço de Seth, saindo dali rapidamente, desaparecendo na escuridão das águas do Nilo.
Entretanto Seth avançava. Eram já visíveis as paredes aquáticas, iluminadas e translúcidas de MassiftonRá. Naquele ponto, apenas era permitida a presença ao deus crocodilo Sobek e aos siftos. Aos restantes crocodilos guardiães, Taaril e aos dois Bhokurac, era já zona interdita.
Seth nadava pelo meio de inúmeros siftos, que se deslocavam de um lado para o outro. Sabia que se um sifto quisesse entrar em MassiftonRá, teria de pedir permissão a Amon-Rá, através de mensagem telepática; e foi o que Seth fez. Aguardou algum tempo pela resposta, que por fim acabou por chegar, autorizando a sua entrada. Seth avançou e deliciou-se com as vibrações subtis que atravessavam o seu corpo.

Bem no interior do mundo dos deuses lá foi encontrar a sua mãe, o seu pai e os seus irmãos, entre todos os outros deuses. Sentiu uma momentânea tristeza por não poder pertencer àquele mundo. Por isso mesmo aquela tristeza deveria ser compensada com uma doce vingança...(em continuação, pág. 67, ex. XXVIII)
in A Causa de MassiftonRá
Novembro/2005

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A MORTE CAIU ABRASADORA NA ESTRADA 236 EM PEDRÓGÃO GRANDE

Os últimos dias foram sombrios, negros, tão negros como negro e mortal foi o fumo denso que se libertou da floresta a arder em Pedrógão Grande, no Centro do nosso país. E muito mais grave do que a floresta e os bens que levou, foram as 64 vidas que ceifou. 64 mortos! Ali, na estrada. Tocou-me fundo tomar conhecimento da história de alguns desses infelizes, de entre eles, aquela família de quatro pessoas, pai, mãe e dois filhos pequenos, que após terem passado o dia 17 de Junho, um Sábado em família, no complexo balnear de Castanheira de Pêra, avançaram para a horrível morte que os aguardava, naquele eternamente trágico troço de 400 metros da Estrada Nacional 236. Por certo, o casal, tendo por norma de vida a utilização da internet como eu faço neste momento.
E isto porquê? É que além de continuarmos a subestimar permanentemente a natureza, e talvez por isso mesmo, deixámo-nos de preocupar com as nossas florestas. Antigamente, há 50 anos, quando Portugal era um país pobre e rural, a floresta estava cuidada, pois que toda a caruma dos pinheiros e as folhas mortas (que são o combustível por excelência que alimenta os incêndios), era aproveitada para fazer a cama aos animais nos currais. Hoje em dia, porque somos um país rico, e temo-lo sentido bem na pele o peso da nossa riqueza, desprezamos toda essa camada orgânica das florestas. Quando digo nós, falo dos proprietários e do Estado. O maior culpado é o Estado que não limpa nem se tem preocupado em fazer limpar. Nestes últimos quarenta anos, ano após ano, o cenário de verão é sempre o mesmo e as promessas de medidas a tomar também. A natureza este ano deu uma grande lição ao Estado, à custa de 64 vidas que a única coisa que queriam era viver o seu Sábado descontraidamente.
         Tal como a nossa política económica nos enviou para as garras da troyka, também a nossa política florestal nos tem feito a cama. Não sei se tem sido incompetência ou cedência a interesses da indústria madeireira.

         Uma palavra de reconhecimento e de agradecimento aos  verdadeiros heróis deste país, os nossos bombeiros voluntários. Eles fazem o que podem e muitas vezes o que não podem. A muitos o fogo já os levou. Este ano, um dos 64 mortos, foi um desses valentes bombeiros. Mas são meros homens, que muito pouco podem contra a ganância e eu sei lá que mais atrocidades que viverão pelos corredores da política em Portugal. 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA: 1139- BATALHA DE OURIQUE, A PRIMEIRA VITÓRIA PORTUGUESA

No trabalho contínuo de fortalecer a aspiração de independência, D. Afonso Henriques, inserido nas lutas da reconquista cristã da Península Ibérica, fazia esporádicas incursões ao sul da Península, em pleno território mouro. Numa dessas sortidas, a 25 de Julho de 1139, saiu-lhe ao caminho um enormíssimo exército almorávida, formado por tropas de cinco réis mouros. Independentemente do número, as tropas portuguesas cristãs levaram os mouros de vencida. Esta vitória foi de tal forma corajosa, que as tropas portuguesas deram a D. Afonso Henriques o título de Rei de Portugal.
Um dos soldados que fez parte desse lendário exército foi Gualdim Paes, mais tarde Grão-Mestre da Ordem dos Templários em Portugal.
O facto de D. Afonso Henriques ter lutado contra cinco réis mouros, e a fé em que a batalha decorreu sobre a protecção das cinco chagas de Cristo, serviram para criar o Brasão de Armas de Portugal.

Batalha de Ourique, um facto decisivo para a fundação do Reino de Portugal.

domingo, 11 de junho de 2017

MISERÁVEIS CONDIÇÕES OFERECIDAS COM SORRISOS CÍNICOS


...De Torres Novas ficaram-lhe as saudades do intenso sabor a Ribatejo que existia no ar, e dos petiscos que comeu no típico restaurante «Solar do Melro».
         A vila ribatejana era já e só uma recordação. Descobrindo a rudeza do serviço da patrulha, Serôdio percorria agora as ruas de Lisboa. E numa sumptuosa manhã de sol lisboeta, o então jovem guarda de segunda classe da Policia de Segurança Pública sofreu o seu primeiro grande choque profissional. Prestava serviço em Lisboa havia dois meses. A adaptação à nova vida fazia-se muito lentamente. Andava cansado, pois dormir em camaratas de apoio a esquadras operacionais, era bem diferente do que dormir nas camaratas de Torres Novas. Em Lisboa era um corrupio constante de homens. Ora iam para gratificados, ora vinham de gratificados. Uns iam fazer o turno de serviço, outros chegavam tendo-o acabado. Até se habituar aos inúmeros despertadores que tocavam, aos muitos roncos dos que dormiam, ao barulho, muitas das vezes propositado, feito por alguns que sem qualquer tipo de formação moral ou cívica, desrespeitavam o descanso de outros, aos cheiros exalados por corpos menos habituados à higiene, era difícil a Serôdio conciliar o sono. Mas era nas miseráveis condições que a PSP e os sorrisos hipócritas dos seus oficiais tão delicadamente ofereciam aos guardas, que Serôdio teria de aprender a viver. Casas degradadas, onde funcionavam sombrias e asquerosas camaratas, faziam parte do seu quotidiano, enquanto profissional de policia. Com o espirito nutrido pelo degradante ambiente da sua camarata, quando entrasse de serviço havia de ser linda a missão!!
         Independentemente da desmotivação criada pelas condições terceiro-mundistas em que descansava, naquela manhã Serôdio estava bem disposto, pois o sol matinal irradiava felicidade que o tornava prenhe de alegria.
         Efectuava o serviço em patrulha dobrada, tendo por companhia um colega bem mais velho. Eram onze horas da manhã e o seu colega já visitara três tasquinhas. Nas duas primeiras bebera um cálice de «Favaios» em cada uma e na terceira despejara um copo de «ginja com elas». Obviamente que Serôdio detestava a companhia. O homem praticamente que ainda não abrira a boca. A principio Serôdio tinha a intenção de pedir ao seu colega mais velho explicações sobre formas de comportamento, perante variadas situações, mas depressa desistiu da ideia. Aquele policia veterano apenas conhecia o caminho para as tascas e bares de prostitutas...(em continuação, pág. 88, ex. XXXV)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003

terça-feira, 6 de junho de 2017

PEDRO HISPANO, PAPA JOÃO XXI, O ÚNICO PORTUGUÊS À FRENTE DO VATICANO

Hoje em dia temos imensas preocupações que, se não tivermos cautela, consomem-nos toda a vitalidade. E são preocupações bastante substanciais: não é brincadeira nenhuma o presidente da maior potência do mundo demarcar-se do acordo de Paris, onde o mundo se comprometeu a iniciar o processo de respeito pelo ambiente, para que os nossos netos tenham a possibilidade de virem a ter um planeta saudável onde a vida, tal como a conhecemos, seja uma certeza.
Não é brincadeira nenhuma sabermos que a multiplicidade de atentados terroristas, ocorridos este ano na Europa, tiveram origem em indivíduos de origem muçulmana, que se encontravam completamente inseridos, e há muitos anos, nas comunidades que atacaram. Mas vamos ter esperança de que, tanto para um caso como para outro, os cientistas e os políticos consigam arranjar soluções que ultrapassem a estupidez humana.
Mas para fugir a todas estas preocupações vou falar de algo, uma informação que se cruzou no meu caminho há pouco, e que eu achei deveras interessante. No passado dia 20 de Maio completaram-se 740 anos sobre a morte de um português chamado Pedro Julião ou Pedro Hispano. Em vida assumiu os dois nomes. Tanto um como outro são nomes dados a alguns hospitais portugueses. Quem foi este homem?
Nasceu em Lisboa em 1215. Formou-se em medicina pela Universidade de Paris, tendo tido uma riquíssima actividade académica e abraçou a vida eclesiástica. A 20 de Setembro de 1276 foi eleito Papa, tendo assumido o nome Pontifício de João XXI. O seu Pontificado foi dos mais curtos da história do Vaticano. Oito meses depois, a 20 de Maio de 1277, quando se encontrava na sua casa de campo papal, na cidade de Viterbo, o palácio papal estava em obras, pelo que o tecto da divisão em que se encontrava desabou, tendo-o matado instantaneamente. Tinha então 62 anos de idade.
Pedro Hispano, o único papa português até ao presente, já lá vão sete séculos!


quarta-feira, 31 de maio de 2017

XVIII JANELA SOBRE O MEU PAÍS- EM S. GEMIL, UMA RUA DE SERENIDADE

Uma rua diferente de todas as ruas por onde tenho andado. Passa-se na estrada principal, num plano superior, e nem se dá por ela, de tão escondida que está. Toda ela transmite a agressividade sã da dureza da região em que se insere. A robustez das casas impressiona. A beleza simples e natural faz bem à mente. Estamos numa paradisíaca rua da povoação de S. Gemil, portas meias com Viseu.

         Mas que extraordinárias férias se hão-de passar naquela rua!

quinta-feira, 25 de maio de 2017

UMA TRIBUNA DE CARRANCAS

...Os dias foram-se escoando. Depois de muitas manifestações de estupidez a que assistira, que provocaram o aumento da desilusão no seu intimo, chegou o dia 16 de Junho de 1983, dia em que prestou o Compromisso de Honra. Aquela cerimónia foi em tudo idêntica ao Juramento de Bandeira na tropa. As companhias perfilaram-se, os guardas provisórios comprometeram-se a defender a segurança interna do país e depois desfilaram perante os seus familiares e uma tribuna recheada de gente distinta, tais como coronéis, majores e altos comissários. Quando as companhias, marchando, faziam o «olhar à direita», prestando assim continência às altas individualidades, Serôdio num breve momento pôde apreciar as «carrancas» nobres e distintas dos senhores, que carregados de galões e medalhas brilhando ao peito, estavam maravilhados com aquele belo espectáculo, composto por quinhentos e setenta rapazes marchando, que assim enchiam a população de Torres Novas de muita alegria. Portugal rejubilava de satisfação, porque tinha mais quinhentos e setenta queridos policias ao seu serviço. Era pois perfeitamente compreensível a felicidade que se via estampada, nos rostos fechados pelo embrutecimento, dos oficiais que naquela tribuna se encontravam. Naquele momento, estavam perfeitamente conscientes de que prestavam um grande serviço ao país, e assim justificavam em pleno os bons vencimentos que auferiam... enquanto os rapazes, vestidos com a sua farda de gala, para muitos o único fato que até ali haviam conhecido, à sua frente passavam a «olhar à direita»... «olhar à direita»...

         Na alocução que o comandante da escola proferira, um Comissário Principal, dissera que estar-se na policia não era ter-se um emprego. O serviço da PSP teria sempre que estar sustentado por um alto espirito de missão. Logo naquele momento, aquela ideologia não soou muito bem a Serôdio. E estava certo nessa dúvida, como mais tarde veio a constatar. Mas por enquanto ele era apenas um guardita, de olhos fechados, que ia ser lançado para o meio do circo de feras. Essa era a sua grande preocupação. Com  muito ou pouco gosto era efectivamente um agente da PSP, e teria que se assumir como tal...(em continuação, pág. 87, ex. XXXIV)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003

sábado, 20 de maio de 2017

UMA CARTA PARA ROLF CHRISTOFFERSEN

4 de Maio de 1945. Virginia Christoffersen, a viver em New Jersey, enviou uma carta ao seu saudoso marido Rolf Christoffersen, marinheiro norueguês radicado nos Estados Unidos, embarcado num navio que estava atracado em Porto of Spain- Trinidad e Tobago. No entanto a carta nunca chegou ao destino tendo sido devolvida.
2017. Allen Cook e a filha Melissa, a viverem em New Jersey, resolveram fazer obras na sua casa, recentemente adquirida. A dado momento o genro de Cook apercebeu-se de algo que despontava por debaixo de um taco solto. Levantou o taco e deparou-se com um sobrescrito amarelecido, endereçado a um tal Rolf Christoffersen. Melissa, entusiasmada, imediatamente se pôs a pesquisar aquele nome no google,  tendo encontrado um Rolf Christoffersen a viver em Santa Bárbara- Califórnia.
Conseguiu entrar em contacto com o senhor, tendo sido informada de que Rolf Christoffersen tinha 66 anos de idade e era filho de um outro Rolf Christoffersen, este actualmente com 96 anos de idade. Rolf Christoffersen filho informou-a ainda de que a sua mãe, já falecida, se chamara Virginia Christoffersen.
Desta forma Rolf Christofferssen, antigo marinheiro, com 96 anos de idade, recebeu finalmente a carta da sua esposa Virginia, escrita e enviada 72 anos antes, em que o informava de que iria ser pai brevemente.
Não, não é uma invenção minha. O Diário de Aveiro noticiou esta história encantadora como notícia que terá sido avançada pela CNN.

Afinal, a criatividade dos escritores pode não ser tão irrealista assim.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

FLORES À MEMÓRIA DOS AVEIRENSES QUE SOFRERAM PELA LIBERDADE

Há certos gestos que me sensibilizam enormemente, principalmente quando têm lugar em prol de causas esquecidas, excepto para quem executou esse gesto.
Hoje, ao passar junto ao obelisco «à memória dos aveirenses que sofreram pela liberdade», que foi erigido pelo Clube dos Galitos em Dezembro de 1909, reparei que na sua base se encontrava uma fresca coroa de flores. Foi este o gesto que me emocionou. É que anteontem, 16 de Maio, completou-se mais um ano sobre a primeira revolta liberal que ocorreu em Portugal, contra o regime absolutista de D. Miguel, a 16 de Maio de 1828, que além do povo envolveu também o Batalhão de Caçadores Dez, de que resultou o enforcamento de sete aveirenses ilustres na Praça Nova no Porto. Estava lançada a semente para a guerra civil que se aproximava, e que iria ditar o fim da monarquia absoluta em Portugal.

Tanto que pode significar uma coroa de flores!

domingo, 14 de maio de 2017

«AMAR PELOS DOIS», UM AMOR QUE DEMOROU 53 ANOS A SER REALIZADO

Estou muito feliz. Já tinha perdido as esperanças de ver Portugal a ganhar o Festival da Eurovisão.
A minha geração começou a acompanhar o Festival da Eurovisão praticamente ao entrar para a escola primária. Eu comecei na escola primária em 1962, e dois anos depois realizou-se o primeiro Festival da Eurovisão. Ainda me lembro muito bem de ver a cantora inglesa Sandie Shaw, surgir em palco descalça, em 1967, e nesse festival arrebatar o primeiro lugar. Desde logo comecei a amealhar desilusões, e algumas bem difíceis de digerir, já que por vezes levámos músicas muito bonitas.
Estou bem consciente do que escrevi antes e por tal razão, e pela primeira vez, muito satisfeito por os júris não terem concordado comigo, e a Europa em geral. Afinal a nossa música teve uma melodia com capacidade para derreter corações. Quebrou-se o enguiço, e de uma forma o mais simples possível: uma música acompanhada apenas com piano, com uma letra extremamente intimista e interpretada de uma forma suave, muito peculiar. Uma música «feita de sentimentos», como afirmou o seu intérprete Salvador Sobral. Não haja dúvida de que o jazz é uma enorme escola.
O Salvador foi mesmo o nosso Salvador e por isso se imortalizou na história da música em Portugal. É verdade!
Foram 53 anos a tentar. E ele foi o primeiro a consegui-lo, com uma música escrita pela sua irmã Luísa Sobral a quem também devemos esta honra. Por isso dar aos irmãos os meus parabéns acho que é muito pouco, mas nada mais tenho para lhes oferecer, a não ser estas palavras de gratidão muito sentidas.
E, claro, a minha promessa de que, no próximo inverno, com imenso prazer, ao som da vossa e nossa «amar pelos dois», ao calor de uma lareira, à vossa saúde e à de Portugal, erguerei bem alto um cálice de aguardente velha bem portuguesa.

Muito obrigado Luísa e Salvador Sobral!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

FÁTIMA, CEM ANOS DEPOIS

Não poderia ser indiferente à passagem do primeiro centenário das aparições de Fátima. Se o fizesse seria ingrato e incoerente comigo mesmo.
A 13 de Maio de 1917, pelos montes de Cova de Iria, em Fátima, uma pequena povoação do Distrito de Leiria num Portugal rural e recentemente republicano, três pequenos pastores, Francisco, Jacinta e Lúcia, afirmaram terem visto e conversado com uma senhora vestida de branco que pairava no ar. A partir desse momento nasceu um dos maiores fenómenos religiosos da Cristandade.
Depois de ter recebido a visita do Papa Paulo VI, em 1967, do extraordinário Papa João Paulo II, em 1982, 1991 e 2000 para a beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, do Papa Bento XVI, em 2010, chegou agora a vez do também extraordinário Papa Francisco rezar no Santuário de Fátima, que amanhã irá canonizar Francisco e Jacinta Marto.
Fátima é fé, essencialmente lugar que tem servido de bálsamo às dores físicas e da alma de muitos e muitos homens e mulheres de Portugal e do resto do mundo. Eu sou exemplo dessa força e dessa ajuda. Essa a razão que explica o fluxo de milhares e milhares de peregrinos, incessantemente, neste período de cem anos que se completa amanhã.

Santuário de Fátima, que alberga a santificada Cova de Iria, diferente e intenso de fé!
Obrigado a ti, Senhora de Branco em Fátima.

terça-feira, 9 de maio de 2017

FESTIVAIS DA EUROVISÃO, FRUSTRAÇÕES PORTUGUESAS. GENUÍNAS OU FABRICADAS?

Durante muitos anos fui um fervoroso seguidor do Festival da Canção e do Festival da Eurovisão. Noite de festival na televisão, para mim era noite de alegria e entusiasmo. Foi dessa forma que pude acompanhar o despontar de um carreira de tremendo sucesso, do grupo sueco ABBA, que em 1974 venceu o Festival da Eurovisão com a imortal música «Waterloo».
Mas, nesses meus muitíssimo bem acompanhados anos dos festivais, em que em Portugal se apostava em nomes sonantes da nossa canção, como António Calvário, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, José Cid, Carlos Paião, etc…, a seguir ao empolgamento ao ver a nossa canção em palco, vinha a frustração e o sentimento de injustiça imperava, ao ponto de abandonar a sala da televisão «de trombas». É que, durante muitos anos, levámos músicas de muita qualidade. No entanto, a melhor classificação que obtivemos até hoje foi um 7º lugar. Na generalidade ficámos sempre nos últimos lugares, senão mesmo com a lanterna vermelha nas mãos. Durante muitos anos, e na minha concepção de música, uma ou outra vez levámos canções que mereciam o primeiro lugar ou uma classificação acima do sétimo. Mas isso nunca aconteceu. Dizia-se que era a política a mandar. Aceitava-se. Portugal estava sob uma ditadura, o que era desprestigiante para o país. Mas depois veio o 25 de Abril, com a nossa Revolução dos Cravos, cheia de música e poesia, que nos trouxe a democracia, que nos colocou democraticamente em pé de igualdade com o resto da Europa. Mas nada aconteceu. Continuámos no Festival da Eurovisão a coleccionar lanternas vermelhas ou quase, mesmo quando em disputa com países recém criados, após a queda do muro de Berlim e o colapso da União Soviética. Perante esta persistente e, na minha opinião, pré-concebida má classificação, os cantores de nomeada deixaram de apostar no Festival da Canção, e iniciou-se um processo em que o Festival da Canção se transformou numa rampa de lançamento para novos nomes. Na minha opinião o Festival da Canção perdeu qualidade e eu desinteressei-me.
Hoje à noite, como tem acontecido em muitas outras noites, o nosso cantor parece ser a estrela da companhia. Parece que aquela plateia o vai ovacionar com profunda emoção. Das outras vezes essas demonstrações de entusiasmo revelaram-se «autênticas montanhas a parirem ratos».
A nossa canção que logo subirá ao palco é bonita, mas não passa de uma balada para ouvir à lareira numa noite de chuva. Não tem aquele carisma, aquela força necessária.
Mas como o nosso cantor é um Salvador…quem sabe!

         

sábado, 6 de maio de 2017

O ADEUS AO AQUARTELAMENTO DO NINDA

...Dois dias depois Rui Mendes via Álvaro ser transportado numa pequena avioneta, a qual levantava voo da pista improvisada, contígua ao aquartelamento do Ninda, com destino a Luanda. A avioneta cada vez se tornava mais pequena, sendo a sua rota seguida pelo olhar do alferes. Álvaro partira antes do tempo, vivo. Da maldita guerra já se livrara. Mas punha-se a questão: que tipo de paz iria ele encontrar?...


-... E foi assim senhor Victor que o seu filho Álvaro regressou, a tempo de passar o Natal de 1973 em casa.
-         Um natal que estava destinado a ser muito triste, mas que acabou por em certa medida traduzir uma mensagem de amor e esperança. O Álvaro quando chegou aqui foi internado no Hospital Militar. Ali esteve cerca de uma semana. Os sedativos eram fortes. Por isso o tempo em que esteve hospitalizado passou-o quase todo a dormir. Mas como não tinha ferida que se visse, mandaram-no para casa por algum tempo. O médico que o seguia, penso que era major, disse-me que enquanto ele não enfrentasse o problema não se iniciaria o processo de recuperação da perda. Recebemo-lo com a alegria possível. Quando entrou em casa quis ir de imediato ao meu escritório. Disse-me que fora ali o último grande momento de felicidade que vivera com a Catarina. Agarrou-se a mim, abraçou-me com muita força e chorou convulsivamente.
-         Não teve vontade de ver os pais de Catarina?

-         Nesse mesmo dia lá foi... (em continuação- Pág. 101, ex. XXXV)

in Visitados
Novembro/1999                              

segunda-feira, 24 de abril de 2017

CRAVOS VERMELHOS NO CAMINHO

MEMÓRIAS

…Naquela manhã tudo mudou.
Tal como em todas as manhãs saí de casa por volta das oito menos um quarto em direcção ao Liceu D. João III. Todas as manhãs passava nas imediações do quartel da GNR na Avª Dias da Silva. Naquela manhã achei que as coisas não estavam, na verdade, iguais. Existiam mais homens por ali, e sentia-se que estavam mais agitados. Ao chegar ao liceu existia no ar também agitação. Viam-se muitos professores pelos corredores. Perguntei a um colega se se passava alguma coisa. Respondeu-me que havia um problema qualquer em Lisboa. Dirigi-me para a sala de aulas onde já se encontravam alguns dos meus colegas, que mais nenhumas informações puderam acrescentar. Tocou para a entrada. Do professor…nada. Passaram-se os minutos e deu o segundo toque. O professor continuava a não aparecer. Passados mais uns minutos, quando já nos preparávamos para sair da sala, lá apareceu o professor que nos ia dar a aula, num grande nervosismo.
Entrou e mandou-nos sentar. Depois disse-nos que ia ser breve. Não iam haver aulas porque estava a decorrer em Lisboa uma revolução. Disse-nos que muito provavelmente o regime fascista iria cair. Perguntámos-lhe o que era o regime fascista. Ficou admirado de não sabermos. Dissemos-lhe que nunca ninguém nos tinha falado nisso. Sentíamos que o país não estava bem; sentíamos que não havia liberdade, pois que tudo o que se escrevia tinha de ir à censura, isso sabíamos, mas de regime fascista nunca nos tinham falado. E o professor explicou-nos. E naquela minha primeira sessão de esclarecimento, que durou cerca de meia-hora, percebemos bem em que tipo de regime vivíamos, e o motivo pelo qual se estava a dar aquela revolução. Ficámos a saber que existiam em Portugal muitas prisões de presos políticos, e que a do Tarrafal, no arquipélago de Cabo Verde, era a principal. E entendemos então que a guerra do ultramar mais não era do que a luta de povos pela sua liberdade, e que nós éramos os opressores, e que Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Macau e Timor, não eram nada Portugal. E que a pide era uma polícia política, que torturava pessoas para preservar a continuidade do regime fascista. E que o que se ouvia na rádio, altas horas da noite, (de que nós já tínhamos ouvido falar), transmitido pela BBC, uma rádio democrática, era a denúncia do que se ia passando em Portugal. E que a censura era uma coisa anormal, inimiga da criatividade e da verdade, característica apenas de regimes ditatoriais. E que um dos objectivos principais da revolução era o de terminar imediatamente com a guerra do ultramar, além de erradicar o totalitarismo e implementar uma democracia.
Foi uma meia hora intensa, talvez a mais intensa de toda a minha vida. Saímos da sala de aula com uma visão completamente diferente de tudo. Percebíamos agora que em Lisboa se lutava por deixarmos de ser quem tínhamos sido até ali. Percebíamos agora a preciosidade daquela manhã, em que a vida nos dava o privilégio de estarmos a viver uma revolução, tal como as tinham vivido os portugueses de 1910, 1640 e 1383.
A manhã foi decorrendo sob uma forte ansiedade. Depois chegou a notícia de que tropas, vindas de Lisboa, marchavam sobre Coimbra, porque o Governador Civil de Coimbra não se queria submeter aos revoltosos. E quando houve a certeza de que Marcelo Caetano e Américo Tomás haviam sido derrubados, alguém gritou que fossemos cercar as instalações da PIDE/DGS. E aí, com o sangue a ferver de ardor revolucionário, um magote enorme de estudantes do Liceu D. João III, onde eu me incluía, se lançou numa corrida desenfreada em direcção à pide, cuja sede em Coimbra se localizava a cerca de 500 metros do liceu.
A sede da pide localizava-se numa espécie de casa senhorial enorme, de arquitectura colonialista, com um jardim, rodeada a toda a volta por um forte e alto gradeamento, junto à qual existia um largo. Não muito longe encontrava-se o quartel general da Região Militar Centro. No largo já existiam algumas pessoas, mas após a nossa chegada, rapidamente o largo ficou super-lotado, com algumas centenas de pessoas ali existentes a gritarem todo o tipo de ofensas, dirigidas aos agentes da pide que se sabia estarem dentro da casa. Logo a seguir surgiram soldados do quartel vizinho, amontoados em unimogues, sorridentes, a corresponderem aos vivas que lhes enviávamos, e que, de certa forma, foram servir de segurança aos «pidescos».
E foi ali, naquele largo, mesmo junto ao edifício da pide, que em Coimbra se deu o primeiro grito de liberdade. Não sei se almocei nesse dia. Não me recordo a que horas é que fui para casa. Apenas me lembro de ali ter estado muito tempo, de ter visto muitos soldados a chegarem em berliets, com largos sorrisos nos rostos, levantando bem alto as G3, ao mesmo tempo que o povo os recebia com palavras de ordem, comuns a todo o país, por certo criadas e ordenadas por alguém, que diziam: «O POVO ESTÁ COM O MFA, SOLDADO AMIGO O POVO ESTÁ CONTIGO, O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO».
Depois, pelos dias fora, foi uma permanente necessidade de acompanhar o curso dos acontecimentos pela televisão, ao mesmo tempo que eu participava em enormes manifestações pela Baixa de Coimbra, onde dava a sensação que o povo, porque era tanto, escorria pela Visconde da Luz, em direcção à Rua da Sofia. E então tudo o que estivera camuflado saltou para a ribalta: os Fortes de Caxias e o de Peniche, que nós nem sequer sabíamos que existiam, abriram as suas portas e começámos a ver essa espécie humana que de nós fora escondida- os prisioneiros políticos, a serem libertados, com muitas lágrimas e abraços apertados. Ouvimos a expressão: «Conselho da Revolução» a ser pronunciado, e claro, o eternamente belo MFA- Movimento das Forças Armadas. Surgiu o termo «bufo», espécie de homo sapiens português altamente nocivo à sociedade, que em tempos, por troca de um ou outro favor, denunciava semelhantes seus à pide, como sendo perigosos opositores ao regime.
E depois surgiram as canções de intervenção, a primeira das quais havia ganho o Festival da Canção desse ano- E Depois do Adeus, cantada pelo Paulo de Carvalho, que serviu de senha (viémos a saber depois) para o arranque do movimento. Logo a seguir veio a Grândola Vila Morena, do Zeca Afonso. O próprio Zeca Afonso tornou-se um herói nacional, com a panóplia de músicas que compusera, que cantavam e denunciavam a escuridão do regime fascista, canções que nós, até então, desconhecíamos. E sucederam-se outros autores e intérpretes. E depois chegou o momento do país ficar a conhecer os grandes Álvaro Cunhal e Mário Soares, exilados políticos, outra expressão que ficámos a conhecer a partir daí. E um nome que a todos aconchegou o coração- Salgueiro Maia, o grande Capitão de Abril, que comandou a coluna militar que saindo de Santarém marchou sobre Lisboa, e que deu o peito às possíveis balas em prol da possibilidade de uma revolução. E o Major Otelo Saraiva de Carvalho que esteve ao comando das operações, num gabinete, em Lisboa, e que mais tarde, como general, viria a comandar uma força militar que, durante algum tempo, controlou todo o país- o Copcon. E o então capitão Vasco Lourenço, outro muito famoso capitão de Abril, pela sua entrega ao Conselho da Revolução, e que, ainda hoje, passados quarenta e três anos, me transmite esse ardor revolucionário e me consegue mostrar ainda o rosto do 25 de Abril. E o General Spínola, que viria a ser o primeiro presidente da república, em democracia, depois do «corta-fitas» Américo Tomás.
E vimos todo o país ficar manchado de encarnado, a mancha formada por milhares e milhares de cravos vermelhos, que formaram um incomensurável tapete no caminho da liberdade.
Cinco dias depois festejei o meu 18º aniversário. Em casa, nesse dia 30 de Abril de 1974, ofereceram-me uma máquina fotográfica, uma Kodak, que eu ainda hoje possuo e guardo como um objecto de enorme simbolismo, pois foi uma oferta simultânea a uma outra: a oferta da liberdade e a certeza de não ir combater para o ultramar. Nesse dia, reuniram-se lá em casa, na Rua Luís de Camões, alguns dos meus melhores amigos de Coimbra, a minha prima Maria João e dois amigos que vieram de Barrô. Guardo uma fotografia desse dia onde os meus amigos fazem, com os dedos, o V de vitória, muito comum por esses dias.
Já passaram quarenta e três anos, mas por mais anos que viva guardarei no peito esse momento único da minha vida, e na vida do meu povo, o sentir uma revolução a correr-nos nas veias.
25 de Abril de 1974, o dia em que floriram cravos vermelhos no caminho!...

in PROSAS PELAS JANELAS DA VIDA livro I


domingo, 23 de abril de 2017

ESCRITORES, OS MÁGICOS DA HUMANIDADE

Neste dia mundial do livro, quero expressar o meu agradecimento a todos os escritores que, ao longo da minha vida, me proporcionaram horas fantásticas de magia, de aventura e de conhecimento, com um especial realce para Eça de Queiroz, Deana Barroqueiro, Jesús Sanchez Adalid, Stephen Lawhead, Anthony Burgess, Robyn Young, George R.R. Martin e Ken Follett. Sem eles o mundo seria muito mais pequeno e cinzento.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

TITANIC

Conheci em 1970 a trágica história do naufrágio do transatlântico Titanic, numa velha revista das Selecções do Reader’s Digest, que encontrei num baú esquecido, num sótão onde já ninguém ia. Tinha então 14 anos de idade. Mas a notícia impressionou-me tanto que a tenho perseguido pelos anos fora. Lendo umas linhas aqui, outras ali, pude montar um puzzle na minha mente, que me proporcionou a possibilidade de conhecer um pouco melhor aquele acontecimento, o mais trágico de toda a história da marinha mercante.
         Não sei se o homem considerará que alguma das máquinas que actualmente constrói será indestrutível. Mas naquele tempo, em que se davam os primeiros passos na engenharia, o homem, que tão pouco sabia, julgava ser poderoso o suficiente para não existir no universo força que o suplantasse.
         Mas essa força existia, silenciosa, imóvel e gelada, no que mais simples a natureza tinha!
         Daqui a algumas horas completar-se-ão 105 anos sobre o momento em que o Titanic, na sua viagem inaugural, naufragou, nas águas gélidas e calmas do Atlântico Norte, às 2:05h da madrugada do dia 15 de Abril de 1912, após ter embatido num descomunal icebergue.
         Entre tripulantes e passageiros seguiam no navio 2200 pessoas. Dessas, às 2:30,  1497 iriam estar mortas. As restantes sobreviveram graças a terem conseguido chegar aos poucos barcos salva-vidas existentes a bordo. A engenharia de então, e a empresa proprietária- White Star Line, não acharam necessário equipar o navio com mais barcos salva-vidas, pois consideravam que nada neste mundo era suficientemente poderoso para afundar aquele navio.
         Os sobreviventes viriam a ser recolhidos, horas depois, pelo navio Carpathia. Quanto aos mortos, apenas 306 corpos foram recuperados, e foram-no pelo navio lança-cabos submarinos Mackay-Bennett.
         O local onde repousa o Titanic está devidamente identificado, encontrando-se a uma profundidade de 3800 metros.
         Acho que seria uma manifestação de verdadeira inteligência, se começássemos a ter mais respeito pelas forças geradas pelo planeta que nos serve de casa.

         Perguntem ao inafundável Titanic!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

ARÍSTIDES DE SOUSA MENDES, O CORAJOSO E HERÓICO CÔNSUL PORTUGUÊS EM BORDÉUS, NA II GUERRA MUNDIAL

16 de Junho de 1940, estava a Europa a sofrer a II Grande Guerra havia dez meses. França está terrivelmente trucidada pela invasão nazi. Os judeus ali residentes tentam escapar à morte certa. Espanha nega-lhes refúgio. Salazar também. Mas então, para 30.000 judeus franceses aconteceu um milagre: Bordéus transformou-se local quase sagrado, onde era possível obter a salvação. E obtiveram-na, mediante vistos que, durante sete dias, nesse mês de Junho, o Cônsul Português em Bordéus, Arístides de Sousa Mendes, passou indiscriminadamente na tentativa de salvar as vidas que lhe fosse possível salvar, mesmo contra as ordens do seu governo.
         Conseguiu os seus intentos, mas tendo sacrificado o seu bem estar e o da sua família, pois que caiu em pleno esquecimento por parte do Estado Novo, do qual era presidente do conselho António Oliveira Salazar. A sua carreira como diplomata terminou naquele ano de 1940. Aos seus catorze filhos foi-lhes negado a frequência do ensino superior em Portugal.
         Mais tarde viria a Associação Judaica de Lisboa prestar auxílio a esta família, fornecendo-lhes alimentos e assistência médica.
         Completam-se hoje 63 anos sobre a morte do Cônsul Arístides de Sousa Mendes, que ocorreu no dia 3 de Abril de 1954, na miséria.
         Hoje, a sua casa do Passal, em Cabanas de Viriato- Viseu, foi visitada pelo Presidente da República, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, que o homenageou postumamente com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.
Arístides de Sousa Mendes, um herói que Portugal esqueceu, mas que um grande Presidente recordou.

Um verdadeiro símbolo da liberdade!