quinta-feira, 25 de maio de 2017

UMA TRIBUNA DE CARRANCAS

...Os dias foram-se escoando. Depois de muitas manifestações de estupidez a que assistira, que provocaram o aumento da desilusão no seu intimo, chegou o dia 16 de Junho de 1983, dia em que prestou o Compromisso de Honra. Aquela cerimónia foi em tudo idêntica ao Juramento de Bandeira na tropa. As companhias perfilaram-se, os guardas provisórios comprometeram-se a defender a segurança interna do país e depois desfilaram perante os seus familiares e uma tribuna recheada de gente distinta, tais como coronéis, majores e altos comissários. Quando as companhias, marchando, faziam o «olhar à direita», prestando assim continência às altas individualidades, Serôdio num breve momento pôde apreciar as «carrancas» nobres e distintas dos senhores, que carregados de galões e medalhas brilhando ao peito, estavam maravilhados com aquele belo espectáculo, composto por quinhentos e setenta rapazes marchando, que assim enchiam a população de Torres Novas de muita alegria. Portugal rejubilava de satisfação, porque tinha mais quinhentos e setenta queridos policias ao seu serviço. Era pois perfeitamente compreensível a felicidade que se via estampada, nos rostos fechados pelo embrutecimento, dos oficiais que naquela tribuna se encontravam. Naquele momento, estavam perfeitamente conscientes de que prestavam um grande serviço ao país, e assim justificavam em pleno os bons vencimentos que auferiam... enquanto os rapazes, vestidos com a sua farda de gala, para muitos o único fato que até ali haviam conhecido, à sua frente passavam a «olhar à direita»... «olhar à direita»...

         Na alocução que o comandante da escola proferira, um Comissário Principal, dissera que estar-se na policia não era ter-se um emprego. O serviço da PSP teria sempre que estar sustentado por um alto espirito de missão. Logo naquele momento, aquela ideologia não soou muito bem a Serôdio. E estava certo nessa dúvida, como mais tarde veio a constatar. Mas por enquanto ele era apenas um guardita, de olhos fechados, que ia ser lançado para o meio do circo de feras. Essa era a sua grande preocupação. Com  muito ou pouco gosto era efectivamente um agente da PSP, e teria que se assumir como tal...(em continuação, pág. 87, ex. XXXIV)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003

sábado, 20 de maio de 2017

UMA CARTA PARA ROLF CHRISTOFFERSEN

4 de Maio de 1945. Virginia Christoffersen, a viver em New Jersey, enviou uma carta ao seu saudoso marido Rolf Christoffersen, marinheiro norueguês radicado nos Estados Unidos, embarcado num navio que estava atracado em Porto of Spain- Trinidad e Tobago. No entanto a carta nunca chegou ao destino tendo sido devolvida.
2017. Allen Cook e a filha Melissa, a viverem em New Jersey, resolveram fazer obras na sua casa, recentemente adquirida. A dado momento o genro de Cook apercebeu-se de algo que despontava por debaixo de um taco solto. Levantou o taco e deparou-se com um sobrescrito amarelecido, endereçado a um tal Rolf Christoffersen. Melissa, entusiasmada, imediatamente se pôs a pesquisar aquele nome no google,  tendo encontrado um Rolf Christoffersen a viver em Santa Bárbara- Califórnia.
Conseguiu entrar em contacto com o senhor, tendo sido informada de que Rolf Christoffersen tinha 66 anos de idade e era filho de um outro Rolf Christoffersen, este actualmente com 96 anos de idade. Rolf Christoffersen filho informou-a ainda de que a sua mãe, já falecida, se chamara Virginia Christoffersen.
Desta forma Rolf Christofferssen, antigo marinheiro, com 96 anos de idade, recebeu finalmente a carta da sua esposa Virginia, escrita e enviada 72 anos antes, em que o informava de que iria ser pai brevemente.
Não, não é uma invenção minha. O Diário de Aveiro noticiou esta história encantadora como notícia que terá sido avançada pela CNN.

Afinal, a criatividade dos escritores pode não ser tão irrealista assim.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

FLORES À MEMÓRIA DOS AVEIRENSES QUE SOFRERAM PELA LIBERDADE

Há certos gestos que me sensibilizam enormemente, principalmente quando têm lugar em prol de causas esquecidas, excepto para quem executou esse gesto.
Hoje, ao passar junto ao obelisco «à memória dos aveirenses que sofreram pela liberdade», que foi erigido pelo Clube dos Galitos em Dezembro de 1909, reparei que na sua base se encontrava uma fresca coroa de flores. Foi este o gesto que me emocionou. É que anteontem, 16 de Maio, completou-se mais um ano sobre a primeira revolta liberal que ocorreu em Portugal, contra o regime absolutista de D. Miguel, a 16 de Maio de 1828, que além do povo envolveu também o Batalhão de Caçadores Dez, de que resultou o enforcamento de sete aveirenses ilustres na Praça Nova no Porto. Estava lançada a semente para a guerra civil que se aproximava, e que iria ditar o fim da monarquia absoluta em Portugal.

Tanto que pode significar uma coroa de flores!

domingo, 14 de maio de 2017

«AMAR PELOS DOIS», UM AMOR QUE DEMOROU 53 ANOS A SER REALIZADO

Estou muito feliz. Já tinha perdido as esperanças de ver Portugal a ganhar o Festival da Eurovisão.
A minha geração começou a acompanhar o Festival da Eurovisão praticamente ao entrar para a escola primária. Eu comecei na escola primária em 1962, e dois anos depois realizou-se o primeiro Festival da Eurovisão. Ainda me lembro muito bem de ver a cantora inglesa Sandie Shaw, surgir em palco descalça, em 1967, e nesse festival arrebatar o primeiro lugar. Desde logo comecei a amealhar desilusões, e algumas bem difíceis de digerir, já que por vezes levámos músicas muito bonitas.
Estou bem consciente do que escrevi antes e por tal razão, e pela primeira vez, muito satisfeito por os júris não terem concordado comigo, e a Europa em geral. Afinal a nossa música teve uma melodia com capacidade para derreter corações. Quebrou-se o enguiço, e de uma forma o mais simples possível: uma música acompanhada apenas com piano, com uma letra extremamente intimista e interpretada de uma forma suave, muito peculiar. Uma música «feita de sentimentos», como afirmou o seu intérprete Salvador Sobral. Não haja dúvida de que o jazz é uma enorme escola.
O Salvador foi mesmo o nosso Salvador e por isso se imortalizou na história da música em Portugal. É verdade!
Foram 53 anos a tentar. E ele foi o primeiro a consegui-lo, com uma música escrita pela sua irmã Luísa Sobral a quem também devemos esta honra. Por isso dar aos irmãos os meus parabéns acho que é muito pouco, mas nada mais tenho para lhes oferecer, a não ser estas palavras de gratidão muito sentidas.
E, claro, a minha promessa de que, no próximo inverno, com imenso prazer, ao som da vossa e nossa «amar pelos dois», ao calor de uma lareira, à vossa saúde e à de Portugal, erguerei bem alto um cálice de aguardente velha bem portuguesa.

Muito obrigado Luísa e Salvador Sobral!

sexta-feira, 12 de maio de 2017

FÁTIMA, CEM ANOS DEPOIS

Não poderia ser indiferente à passagem do primeiro centenário das aparições de Fátima. Se o fizesse seria ingrato e incoerente comigo mesmo.
A 13 de Maio de 1917, pelos montes de Cova de Iria, em Fátima, uma pequena povoação do Distrito de Leiria num Portugal rural e recentemente republicano, três pequenos pastores, Francisco, Jacinta e Lúcia, afirmaram terem visto e conversado com uma senhora vestida de branco que pairava no ar. A partir desse momento nasceu um dos maiores fenómenos religiosos da Cristandade.
Depois de ter recebido a visita do Papa Paulo VI, em 1967, do extraordinário Papa João Paulo II, em 1982, 1991 e 2000 para a beatificação dos pastorinhos Francisco e Jacinta Marto, do Papa Bento XVI, em 2010, chegou agora a vez do também extraordinário Papa Francisco rezar no Santuário de Fátima, que amanhã irá canonizar Francisco e Jacinta Marto.
Fátima é fé, essencialmente lugar que tem servido de bálsamo às dores físicas e da alma de muitos e muitos homens e mulheres de Portugal e do resto do mundo. Eu sou exemplo dessa força e dessa ajuda. Essa a razão que explica o fluxo de milhares e milhares de peregrinos, incessantemente, neste período de cem anos que se completa amanhã.

Santuário de Fátima, que alberga a santificada Cova de Iria, diferente e intenso de fé!
Obrigado a ti, Senhora de Branco em Fátima.

terça-feira, 9 de maio de 2017

FESTIVAIS DA EUROVISÃO, FRUSTRAÇÕES PORTUGUESAS. GENUÍNAS OU FABRICADAS?

Durante muitos anos fui um fervoroso seguidor do Festival da Canção e do Festival da Eurovisão. Noite de festival na televisão, para mim era noite de alegria e entusiasmo. Foi dessa forma que pude acompanhar o despontar de um carreira de tremendo sucesso, do grupo sueco ABBA, que em 1974 venceu o Festival da Eurovisão com a imortal música «Waterloo».
Mas, nesses meus muitíssimo bem acompanhados anos dos festivais, em que em Portugal se apostava em nomes sonantes da nossa canção, como António Calvário, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, José Cid, Carlos Paião, etc…, a seguir ao empolgamento ao ver a nossa canção em palco, vinha a frustração e o sentimento de injustiça imperava, ao ponto de abandonar a sala da televisão «de trombas». É que, durante muitos anos, levámos músicas de muita qualidade. No entanto, a melhor classificação que obtivemos até hoje foi um 7º lugar. Na generalidade ficámos sempre nos últimos lugares, senão mesmo com a lanterna vermelha nas mãos. Durante muitos anos, e na minha concepção de música, uma ou outra vez levámos canções que mereciam o primeiro lugar ou uma classificação acima do sétimo. Mas isso nunca aconteceu. Dizia-se que era a política a mandar. Aceitava-se. Portugal estava sob uma ditadura, o que era desprestigiante para o país. Mas depois veio o 25 de Abril, com a nossa Revolução dos Cravos, cheia de música e poesia, que nos trouxe a democracia, que nos colocou democraticamente em pé de igualdade com o resto da Europa. Mas nada aconteceu. Continuámos no Festival da Eurovisão a coleccionar lanternas vermelhas ou quase, mesmo quando em disputa com países recém criados, após a queda do muro de Berlim e o colapso da União Soviética. Perante esta persistente e, na minha opinião, pré-concebida má classificação, os cantores de nomeada deixaram de apostar no Festival da Canção, e iniciou-se um processo em que o Festival da Canção se transformou numa rampa de lançamento para novos nomes. Na minha opinião o Festival da Canção perdeu qualidade e eu desinteressei-me.
Hoje à noite, como tem acontecido em muitas outras noites, o nosso cantor parece ser a estrela da companhia. Parece que aquela plateia o vai ovacionar com profunda emoção. Das outras vezes essas demonstrações de entusiasmo revelaram-se «autênticas montanhas a parirem ratos».
A nossa canção que logo subirá ao palco é bonita, mas não passa de uma balada para ouvir à lareira numa noite de chuva. Não tem aquele carisma, aquela força necessária.
Mas como o nosso cantor é um Salvador…quem sabe!

         

sábado, 6 de maio de 2017

O ADEUS AO AQUARTELAMENTO DO NINDA

...Dois dias depois Rui Mendes via Álvaro ser transportado numa pequena avioneta, a qual levantava voo da pista improvisada, contígua ao aquartelamento do Ninda, com destino a Luanda. A avioneta cada vez se tornava mais pequena, sendo a sua rota seguida pelo olhar do alferes. Álvaro partira antes do tempo, vivo. Da maldita guerra já se livrara. Mas punha-se a questão: que tipo de paz iria ele encontrar?...


-... E foi assim senhor Victor que o seu filho Álvaro regressou, a tempo de passar o Natal de 1973 em casa.
-         Um natal que estava destinado a ser muito triste, mas que acabou por em certa medida traduzir uma mensagem de amor e esperança. O Álvaro quando chegou aqui foi internado no Hospital Militar. Ali esteve cerca de uma semana. Os sedativos eram fortes. Por isso o tempo em que esteve hospitalizado passou-o quase todo a dormir. Mas como não tinha ferida que se visse, mandaram-no para casa por algum tempo. O médico que o seguia, penso que era major, disse-me que enquanto ele não enfrentasse o problema não se iniciaria o processo de recuperação da perda. Recebemo-lo com a alegria possível. Quando entrou em casa quis ir de imediato ao meu escritório. Disse-me que fora ali o último grande momento de felicidade que vivera com a Catarina. Agarrou-se a mim, abraçou-me com muita força e chorou convulsivamente.
-         Não teve vontade de ver os pais de Catarina?

-         Nesse mesmo dia lá foi... (em continuação- Pág. 101, ex. XXXV)

in Visitados
Novembro/1999                              

segunda-feira, 24 de abril de 2017

CRAVOS VERMELHOS NO CAMINHO

MEMÓRIAS

…Naquela manhã tudo mudou.
Tal como em todas as manhãs saí de casa por volta das oito menos um quarto em direcção ao Liceu D. João III. Todas as manhãs passava nas imediações do quartel da GNR na Avª Dias da Silva. Naquela manhã achei que as coisas não estavam, na verdade, iguais. Existiam mais homens por ali, e sentia-se que estavam mais agitados. Ao chegar ao liceu existia no ar também agitação. Viam-se muitos professores pelos corredores. Perguntei a um colega se se passava alguma coisa. Respondeu-me que havia um problema qualquer em Lisboa. Dirigi-me para a sala de aulas onde já se encontravam alguns dos meus colegas, que mais nenhumas informações puderam acrescentar. Tocou para a entrada. Do professor…nada. Passaram-se os minutos e deu o segundo toque. O professor continuava a não aparecer. Passados mais uns minutos, quando já nos preparávamos para sair da sala, lá apareceu o professor que nos ia dar a aula, num grande nervosismo.
Entrou e mandou-nos sentar. Depois disse-nos que ia ser breve. Não iam haver aulas porque estava a decorrer em Lisboa uma revolução. Disse-nos que muito provavelmente o regime fascista iria cair. Perguntámos-lhe o que era o regime fascista. Ficou admirado de não sabermos. Dissemos-lhe que nunca ninguém nos tinha falado nisso. Sentíamos que o país não estava bem; sentíamos que não havia liberdade, pois que tudo o que se escrevia tinha de ir à censura, isso sabíamos, mas de regime fascista nunca nos tinham falado. E o professor explicou-nos. E naquela minha primeira sessão de esclarecimento, que durou cerca de meia-hora, percebemos bem em que tipo de regime vivíamos, e o motivo pelo qual se estava a dar aquela revolução. Ficámos a saber que existiam em Portugal muitas prisões de presos políticos, e que a do Tarrafal, no arquipélago de Cabo Verde, era a principal. E entendemos então que a guerra do ultramar mais não era do que a luta de povos pela sua liberdade, e que nós éramos os opressores, e que Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Macau e Timor, não eram nada Portugal. E que a pide era uma polícia política, que torturava pessoas para preservar a continuidade do regime fascista. E que o que se ouvia na rádio, altas horas da noite, (de que nós já tínhamos ouvido falar), transmitido pela BBC, uma rádio democrática, era a denúncia do que se ia passando em Portugal. E que a censura era uma coisa anormal, inimiga da criatividade e da verdade, característica apenas de regimes ditatoriais. E que um dos objectivos principais da revolução era o de terminar imediatamente com a guerra do ultramar, além de erradicar o totalitarismo e implementar uma democracia.
Foi uma meia hora intensa, talvez a mais intensa de toda a minha vida. Saímos da sala de aula com uma visão completamente diferente de tudo. Percebíamos agora que em Lisboa se lutava por deixarmos de ser quem tínhamos sido até ali. Percebíamos agora a preciosidade daquela manhã, em que a vida nos dava o privilégio de estarmos a viver uma revolução, tal como as tinham vivido os portugueses de 1910, 1640 e 1383.
A manhã foi decorrendo sob uma forte ansiedade. Depois chegou a notícia de que tropas, vindas de Lisboa, marchavam sobre Coimbra, porque o Governador Civil de Coimbra não se queria submeter aos revoltosos. E quando houve a certeza de que Marcelo Caetano e Américo Tomás haviam sido derrubados, alguém gritou que fossemos cercar as instalações da PIDE/DGS. E aí, com o sangue a ferver de ardor revolucionário, um magote enorme de estudantes do Liceu D. João III, onde eu me incluía, se lançou numa corrida desenfreada em direcção à pide, cuja sede em Coimbra se localizava a cerca de 500 metros do liceu.
A sede da pide localizava-se numa espécie de casa senhorial enorme, de arquitectura colonialista, com um jardim, rodeada a toda a volta por um forte e alto gradeamento, junto à qual existia um largo. Não muito longe encontrava-se o quartel general da Região Militar Centro. No largo já existiam algumas pessoas, mas após a nossa chegada, rapidamente o largo ficou super-lotado, com algumas centenas de pessoas ali existentes a gritarem todo o tipo de ofensas, dirigidas aos agentes da pide que se sabia estarem dentro da casa. Logo a seguir surgiram soldados do quartel vizinho, amontoados em unimogues, sorridentes, a corresponderem aos vivas que lhes enviávamos, e que, de certa forma, foram servir de segurança aos «pidescos».
E foi ali, naquele largo, mesmo junto ao edifício da pide, que em Coimbra se deu o primeiro grito de liberdade. Não sei se almocei nesse dia. Não me recordo a que horas é que fui para casa. Apenas me lembro de ali ter estado muito tempo, de ter visto muitos soldados a chegarem em berliets, com largos sorrisos nos rostos, levantando bem alto as G3, ao mesmo tempo que o povo os recebia com palavras de ordem, comuns a todo o país, por certo criadas e ordenadas por alguém, que diziam: «O POVO ESTÁ COM O MFA, SOLDADO AMIGO O POVO ESTÁ CONTIGO, O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO».
Depois, pelos dias fora, foi uma permanente necessidade de acompanhar o curso dos acontecimentos pela televisão, ao mesmo tempo que eu participava em enormes manifestações pela Baixa de Coimbra, onde dava a sensação que o povo, porque era tanto, escorria pela Visconde da Luz, em direcção à Rua da Sofia. E então tudo o que estivera camuflado saltou para a ribalta: os Fortes de Caxias e o de Peniche, que nós nem sequer sabíamos que existiam, abriram as suas portas e começámos a ver essa espécie humana que de nós fora escondida- os prisioneiros políticos, a serem libertados, com muitas lágrimas e abraços apertados. Ouvimos a expressão: «Conselho da Revolução» a ser pronunciado, e claro, o eternamente belo MFA- Movimento das Forças Armadas. Surgiu o termo «bufo», espécie de homo sapiens português altamente nocivo à sociedade, que em tempos, por troca de um ou outro favor, denunciava semelhantes seus à pide, como sendo perigosos opositores ao regime.
E depois surgiram as canções de intervenção, a primeira das quais havia ganho o Festival da Canção desse ano- E Depois do Adeus, cantada pelo Paulo de Carvalho, que serviu de senha (viémos a saber depois) para o arranque do movimento. Logo a seguir veio a Grândola Vila Morena, do Zeca Afonso. O próprio Zeca Afonso tornou-se um herói nacional, com a panóplia de músicas que compusera, que cantavam e denunciavam a escuridão do regime fascista, canções que nós, até então, desconhecíamos. E sucederam-se outros autores e intérpretes. E depois chegou o momento do país ficar a conhecer os grandes Álvaro Cunhal e Mário Soares, exilados políticos, outra expressão que ficámos a conhecer a partir daí. E um nome que a todos aconchegou o coração- Salgueiro Maia, o grande Capitão de Abril, que comandou a coluna militar que saindo de Santarém marchou sobre Lisboa, e que deu o peito às possíveis balas em prol da possibilidade de uma revolução. E o Major Otelo Saraiva de Carvalho que esteve ao comando das operações, num gabinete, em Lisboa, e que mais tarde, como general, viria a comandar uma força militar que, durante algum tempo, controlou todo o país- o Copcon. E o então capitão Vasco Lourenço, outro muito famoso capitão de Abril, pela sua entrega ao Conselho da Revolução, e que, ainda hoje, passados quarenta e três anos, me transmite esse ardor revolucionário e me consegue mostrar ainda o rosto do 25 de Abril. E o General Spínola, que viria a ser o primeiro presidente da república, em democracia, depois do «corta-fitas» Américo Tomás.
E vimos todo o país ficar manchado de encarnado, a mancha formada por milhares e milhares de cravos vermelhos, que formaram um incomensurável tapete no caminho da liberdade.
Cinco dias depois festejei o meu 18º aniversário. Em casa, nesse dia 30 de Abril de 1974, ofereceram-me uma máquina fotográfica, uma Kodak, que eu ainda hoje possuo e guardo como um objecto de enorme simbolismo, pois foi uma oferta simultânea a uma outra: a oferta da liberdade e a certeza de não ir combater para o ultramar. Nesse dia, reuniram-se lá em casa, na Rua Luís de Camões, alguns dos meus melhores amigos de Coimbra, a minha prima Maria João e dois amigos que vieram de Barrô. Guardo uma fotografia desse dia onde os meus amigos fazem, com os dedos, o V de vitória, muito comum por esses dias.
Já passaram quarenta e três anos, mas por mais anos que viva guardarei no peito esse momento único da minha vida, e na vida do meu povo, o sentir uma revolução a correr-nos nas veias.
25 de Abril de 1974, o dia em que floriram cravos vermelhos no caminho!...

in PROSAS PELAS JANELAS DA VIDA livro I


domingo, 23 de abril de 2017

ESCRITORES, OS MÁGICOS DA HUMANIDADE

Neste dia mundial do livro, quero expressar o meu agradecimento a todos os escritores que, ao longo da minha vida, me proporcionaram horas fantásticas de magia, de aventura e de conhecimento, com um especial realce para Eça de Queiroz, Deana Barroqueiro, Jesús Sanchez Adalid, Stephen Lawhead, Anthony Burgess, Robyn Young, George R.R. Martin e Ken Follett. Sem eles o mundo seria muito mais pequeno e cinzento.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

TITANIC

Conheci em 1970 a trágica história do naufrágio do transatlântico Titanic, numa velha revista das Selecções do Reader’s Digest, que encontrei num baú esquecido, num sótão onde já ninguém ia. Tinha então 14 anos de idade. Mas a notícia impressionou-me tanto que a tenho perseguido pelos anos fora. Lendo umas linhas aqui, outras ali, pude montar um puzzle na minha mente, que me proporcionou a possibilidade de conhecer um pouco melhor aquele acontecimento, o mais trágico de toda a história da marinha mercante.
         Não sei se o homem considerará que alguma das máquinas que actualmente constrói será indestrutível. Mas naquele tempo, em que se davam os primeiros passos na engenharia, o homem, que tão pouco sabia, julgava ser poderoso o suficiente para não existir no universo força que o suplantasse.
         Mas essa força existia, silenciosa, imóvel e gelada, no que mais simples a natureza tinha!
         Daqui a algumas horas completar-se-ão 105 anos sobre o momento em que o Titanic, na sua viagem inaugural, naufragou, nas águas gélidas e calmas do Atlântico Norte, às 2:05h da madrugada do dia 15 de Abril de 1912, após ter embatido num descomunal icebergue.
         Entre tripulantes e passageiros seguiam no navio 2200 pessoas. Dessas, às 2:30,  1497 iriam estar mortas. As restantes sobreviveram graças a terem conseguido chegar aos poucos barcos salva-vidas existentes a bordo. A engenharia de então, e a empresa proprietária- White Star Line, não acharam necessário equipar o navio com mais barcos salva-vidas, pois consideravam que nada neste mundo era suficientemente poderoso para afundar aquele navio.
         Os sobreviventes viriam a ser recolhidos, horas depois, pelo navio Carpathia. Quanto aos mortos, apenas 306 corpos foram recuperados, e foram-no pelo navio lança-cabos submarinos Mackay-Bennett.
         O local onde repousa o Titanic está devidamente identificado, encontrando-se a uma profundidade de 3800 metros.
         Acho que seria uma manifestação de verdadeira inteligência, se começássemos a ter mais respeito pelas forças geradas pelo planeta que nos serve de casa.

         Perguntem ao inafundável Titanic!

segunda-feira, 3 de abril de 2017

ARÍSTIDES DE SOUSA MENDES, O CORAJOSO E HERÓICO CÔNSUL PORTUGUÊS EM BORDÉUS, NA II GUERRA MUNDIAL

16 de Junho de 1940, estava a Europa a sofrer a II Grande Guerra havia dez meses. França está terrivelmente trucidada pela invasão nazi. Os judeus ali residentes tentam escapar à morte certa. Espanha nega-lhes refúgio. Salazar também. Mas então, para 30.000 judeus franceses aconteceu um milagre: Bordéus transformou-se local quase sagrado, onde era possível obter a salvação. E obtiveram-na, mediante vistos que, durante sete dias, nesse mês de Junho, o Cônsul Português em Bordéus, Arístides de Sousa Mendes, passou indiscriminadamente na tentativa de salvar as vidas que lhe fosse possível salvar, mesmo contra as ordens do seu governo.
         Conseguiu os seus intentos, mas tendo sacrificado o seu bem estar e o da sua família, pois que caiu em pleno esquecimento por parte do Estado Novo, do qual era presidente do conselho António Oliveira Salazar. A sua carreira como diplomata terminou naquele ano de 1940. Aos seus catorze filhos foi-lhes negado a frequência do ensino superior em Portugal.
         Mais tarde viria a Associação Judaica de Lisboa prestar auxílio a esta família, fornecendo-lhes alimentos e assistência médica.
         Completam-se hoje 63 anos sobre a morte do Cônsul Arístides de Sousa Mendes, que ocorreu no dia 3 de Abril de 1954, na miséria.
         Hoje, a sua casa do Passal, em Cabanas de Viriato- Viseu, foi visitada pelo Presidente da República, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, que o homenageou postumamente com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.
Arístides de Sousa Mendes, um herói que Portugal esqueceu, mas que um grande Presidente recordou.

Um verdadeiro símbolo da liberdade!

quinta-feira, 30 de março de 2017

UM GUERRILHEIRO DESTROÇADO

...O alferes Mendes encontrava-se na messe de oficiais. Tinha por companhia o sabor fresco de algumas ansiadas cervejas. Eram na verdade boas amigas. Em qualquer altura faziam companhia, tinham o condão de  adormecer as mágoas e os maus pensamentos, e... não faziam perguntas nem exigiam respostas. Repentinamente o alferes Mendes ouviu um grito horrível, carregado de amargura, que viera da parada. Abandonando as garrafas de cerveja já vazias, correu para a porta da messe. A alguns metros, enquanto os cinquenta turras e os soldados que os guardavam observavam atónitos, um dos da companhia rebolava-se no chão, impregnando-se de poeira. O alferes Mendes deu uma corrida.
-         Quem é?- perguntou a um dos soldados que montava guarda aos guerrilheiros angolanos.
-         É o alferes Santa Cruz, meu alferes- respondeu o jovem soldado.
-         O Santa Cruz?- e o alferes Mendes correu em direcção a Álvaro- Álvaro, que se passa?- perguntava o alferes Mendes enquanto tentava segurar o amigo, que como louco se contorcia no chão.
         O alferes Santa Cruz tinha um pronunciado golpe no rosto. O sangue que jorrava, misturando-se com o pó, o suor e as lágrimas, formava uma pasta entristecedora, uma máscara de tenebroso sofrimento. Vieram em seu auxílio um dos enfermeiros da companhia e o próprio comandante.
-         Alferes Mendes, ajude o enfermeiro a dar uma injecção ao alferes Santa Cruz- dizia o capitão Rebelo.
-         Sim meu capitão- respondeu o alferes Mendes que se encontrava acocorado junto a Álvaro, na companhia do enfermeiro- mas o que foi que se passou? O que é que o pôs assim?
-         Tive de lhe dar a notícia da morte da namorada. Parece que foi assassinada.
-         Assassinada?... porra, que coice. Pobre diabo, não admira que esteja neste estado. Vivia na alegria de escrever cartas à rapariga e na ânsia de receber cartas dela. Deve estar destroçado.
-         Completamente alferes Mendes, completamente. Para ele acabou a guerra. Depois de ver esta reacção, não corro o risco de o colocar em combate. Poderá ter perdido capacidades de comando e porventura tornar-se num sanguinário.
-         Como meu capitão?

-         Não se admire alferes Mendes. Com muita facilidade poderá culpar a guerra de o ter retido aqui em Angola, e assim, não lhe ter dado oportunidade de proteger a pobre rapariga. E a guerra existe porque existe o povo angolano, que luta contra a ocupação portuguesa. Logo, ele poderá sentir que o povo angolano lhe manietou os movimentos. Logo, mais do que nunca, o povo angolano poder-se-á ter tornado aos olhos dele como seu inimigo, a título muito pessoal. E um guerrilheiro destroçado pela dor pode-se transformar numa arma mortífera e nada esclarecida. Ele poderá ver nas populações de Angola o assassino da namorada, e corre-se o risco de ele fazer a sua própria guerra, com a agravante de ter um pelotão sob o seu comando. Não vou facilitar...(pág. 100, ex. XXXIV)

in Visitados
Novembro/1999

segunda-feira, 20 de março de 2017

PLANETA TERRA, O AÇAMBARCAMENTO DA VIDA NO COSMOS

Há dias, na televisão, ouvi um anúncio a um programa sobre vida extra-terrestre. Parece que a Nasa descobriu, por esse Cosmos fora, sete planetas muito semelhantes à nossa Terra, com as mesmas condições para o surgimento de vida. E então nesse programa, essa idéia «muito esquisita» de existir a probabilidade de vida em outros planetas, ia ser debatida.

Essa ideia, no meu ponto de vista, nada tem de esquisito. Ou será que a espécie humana é de tal forma mesquinha e egocêntrica, que considera ser a única inteligência nesse oceano louco de galáxias. Um oceano louco de galáxias representa biliões de estrelas. Como sabemos, na generalidade, a cada estrela corresponde um sistema solar. E como cada sistema solar tem múltiplos planetas (o nosso, que é pequenino, tem nove), logo, a biliões de estrelas estão associados triliões de planetas. E então, nesse número que eu sou tão pequenino para o descrever que nem consigo, o planeta Terra é o único que está à distância exacta do sol, para que seja possível o surgimento de vida. No meu ponto de vista essa é que é uma ideia esquisita!

sábado, 11 de março de 2017

TI CHICO BENTO, NA VIDA, ENTRE OS QUERIDOS E OS AMALDIÇOADOS


...Pelo ramo de louro que se encontrava pendurado na parte superior daquela porta, Américo Afonso percebeu que ali funcionava uma taberna. Olhando ainda para os três rapazes, sentindo-se satisfeito por ter levado ao conhecimento daqueles moços o produto do desenvolvimento científico, encaminhava-se para a porta da taberna, quando esbarrou com alguém. De imediato lhe veio às narinas o cheiro intenso a vinho tinto. Na verdade esbarrara com um homem, vermelho de cara, barriga proeminente, apresentando nódoas de vinho na camisa de flanela com quadrados castanhos e vermelhos. Era o Ti Chico Bento.

- Vossa senhoria me perdoe - disse aflito o taberneiro, alternando o olhar entre o jovem advogado e a coisa barulhenta e fumegante que se encontrava parada à porta da sua taberna.

- Eu é que peço desculpa - retorquiu Américo, tendo notado espanto também no rosto do taberneiro - é um automóvel. De agora em diante é assim que os homens se vão deslocar.

- Assim? E as alimárias?

- Não lhes há-de faltar trabalho - respondeu Américo, com um sorriso franco - diga-me, é vocemecê o taberneiro?

- Um seu criado para o servir. Chamo-me Chico Bento.

- Muito bem senhor Bento. Realmente preciso que me ajude.

- É como se vossa senhoria já estivesse servido. Em que lhe posso valer?

- Diga-me antes demais, aqui é Alfeizerão?

- Pois não é em outro lugar, é aqui mesmo - respondeu o taberneiro, empenhando-se em ser solícito.

- Pode-me dizer quem é a pessoa que mais sabe de coisas aqui da aldeia?

- De coisas... coisas... - atrapalhava-se o taberneiro, vasculhando aflitivamente o ar com os olhos, na ânsia de atinar com uma resposta ajustada a pergunta tão complicada. Mas o ar não tinha as tais coisas para lhe mostrar. Pressentindo o desatino em que se encontrava o Ti Chico Bento, Américo Afonso foi em sua ajuda e acrescentou:

- Pode vocemecê indicar-me qual a pessoa com quem eu posso falar sobre a herdade de Alfeizerão?

-  Sobre a herdade Vila de Ló? Será com o dono, penso eu - respondeu o taberneiro.

- E sobre o que aconteceu lá?

         Ti Chico Bento fixou de semblante carregado o rosto de Américo e perguntou:

- Que sabe vossa senhoria sobre a herdade?

- Muito pouco, mas como advogado que sou, interessei-me por esse assunto. O seu a seu dono, não acha senhor Bento?

- Saiba vossa senhoria, que se não fosse a minha taberna ter de estar aberta, eu sabia muito bem o que lhe haveria de responder. Mas como os meus pipos enchem o copo do que é querido e do amaldiçoado, só tenho de lhes vender vinho. Tudo o resto fica-me com os botões e o travesseiro. Agora já sei o que vossa senhoria deseja. Fale com o senhor padre José Soares. Se não for ele, ninguém mais será...(em continuação, pág. 126, ex. L)
in Quando Um Anjo Peca

Março/1998

quinta-feira, 2 de março de 2017

5 DE JUNHO, UMA HOMENAGEM MERECIDA AOS LUGRES BACALHOEIROS E RESPECTIVAS TRIPULAÇÕES

Li, com muito agrado, no Diário de Aveiro, que a Associação dos Industriais do Bacalhau enviou uma proposta à Assembléia da República, para que seja instituído o Dia do Bacalhau. À parte os intuitos comerciais da questão, pois que todos sabemos que o dia disto e daquilo tem por detrás interesses económicos por parte do comércio e restauração, congratulo-me com a idéia, já que o bacalhau merece a distinção, por se ter transformado num símbolo nacional e representar toda uma actividade que movimentou muitos milhares de pescadores portugueses, que durante séculos e de forma única e extremamente difícil, quase artesanal, pescaram o bacalhau nos longínquos e gélidos mares da Terra Nova e Gronelândia.
E a dita Associação indica o dia que pretende seja eleito como o dia nacional do bacalhau: 5 de Junho. Porquê este dia e não outro? É que a 5 de Junho de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, teve lugar o maior drama da pesca portuguesa do bacalhau, quando o lugre de pavilhão português «Maria da Glória», que pescava na costa oeste da Gronelândia, foi torpedeado e afundado por um submarino alemão, tendo perecido 36 elementos da tripulação.
Para quem não saiba, um lugre era um veleiro de quatro mastros, utilizado na pesca do bacalhau à linha. A célebre «frota branca», era constituída por estes navios todos pintados de branco. No porto bacalhoeiro da Gafanha da Nazaré ainda lá se encontra um acostado, de nome «Polynésia», para quem tenha curiosidade em conhecer mais de perto estes navios da coragem, as caravelas e naus do século XX.
É pois muito interessante que em cada 5 de Junho, o pai, a mulher ou os namorados, se possam sentar a uma mesa e comer uma boa refeição de bacalhau, em homenagem à coragem desses intrépidos e imortais marinheiros e pescadores portugueses.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

RECORDAR ZECA AFONSO

Há trinta anos desaparecia do materialismo da vida o maior trovador da tradição coimbrã, o maior cantor dos ideais da nossa democracia. Do Choupal Até à Lapa, passando por Grândola Vila Morena, ganhou Zeca Afonso a imortalidade na nossa memória colectiva.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

NO ALTO DA ESTRADA, EM ALFEIZERÃO

...Finalmente chegara a Alfeizerão. Deparou-se com um pequeno aglomerado de casas junto à estrada. Para norte e para sul, a uma certa distância, adivinhavam-se mais alguns telhados e mais para norte ainda, divisava-se a opulência de quatro torres a ladearem o que dali parecia ser um solar. Era meio-dia. Américo Afonso procurava em vão alguém a quem se pudesse dirigir, para se informar sobre o paradeiro da pessoa mais responsável naquela pequena aldeia. Percorrendo a estrada, deu finalmente com uma porta aberta e três boquiabertos rapazes, que de olho brilhante e desconfiado, miravam incrédulos a “carroça sem cavalos”. Era a taberna do Ti Chico Bento. Américo Afonso parou o automóvel. Deixando-o a “ronronar” pachorrentamente, dirigiu-se aos rapazes, que imóveis admiravam aquele homem impressionante, que era capaz de dominar tal “avantesma”.
- Muito bom dia - disse Américo.
- Bom dia - responderam em uníssono os três rapazes, que fixavam o olhar incrédulo no advogado.
- Que nome se dá àquilo? - perguntou um dos rapazes, apontando para o automóvel.
- Aquilo chama-se automóvel - respondeu Américo.
- E o “tumóble” anda como? - perguntou outro.
- Em vez de ter cavalos a puxá-lo, tem um motor.

- Aaahh... respondeu o rapaz que fizera a pergunta, mostrando-se satisfeito com uma resposta que não compreendera...(em continuação, pág. 124, ex. XLIX)
in Quando Um Anjo Peca

Março/1998

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

NOTAS AMADORAS DE UMA HISTÓRIA QUE TAMBÉM É MINHA- 1131 MOSTEIRO DE SANTA CRUZ DE COIMBRA




Com os cavaleiros Templários a ocuparem o recentemente doado Castelo de Soure, a sua primeira fortaleza em Portugal e na Cristandade, D. Afonso Henriques resolveu abandonar a antiga residência dos condes de Portucale, em Guimarães, e fixar-se em Coimbra, fazendo da minha cidade a capital da monarquia prestes a formar-se.
         E porque ao centro político do seu Portugal em expansão faltava um centro cultural original e importante, mandou que em 1131 se iniciasse a construção do Mosteiro de Santa Cruz, templo que para sempre ficou ligado aos alicerces da nacionalidade.
         Tem hoje a bonita idade de 886 anos!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

MORTE POR DESDOURO, VATICÍNIO EM MALHAL DE SULA

...Ao chegar a Malhal de Sula logo me saiu ao caminho o meu pai. Ele fazia toda a questão em saber como decorrera mais esta visita ao Conde de Cértima. Depois da primeira visita que eu fizera a D. Rodrigo Corga, o meu pai enchera-me de perguntas, querendo saber pormenores, para poder avaliar o meu desempenho, não como médico, evidentemente, mas como um plebeu que pretende impressionar positivamente um nobre senhor.
- Então Joaquim, como correu? – perguntava o meu pai, corroído de expectativa – como te tratou esse fidalgote do Pedro Corga?
- O filho do conde não estava, meu pai. Já abalou para o Porto para os seus afazeres das armas. Mas aconteceu uma coisa horrível.
- Que foi? Raios partam as obras do demo. Alguma te arranjou.
- Não, fique descansado. Nada teve a ver comigo. Nas terras do senhor conde apareceram mortos um homem e uma mulher.
- Santo Deus… - dizia o meu pai fixando-me com espanto.
- Segundo disseram as gentes do conde, os infelizes estavam para se casar.
- Ainda eram novos?
- Sim, bastante novos, à volta dos seus vinte a vinte cinco anos. E estavam mortos junto a uma velha capela, perfurados por lâmina.
- Há aí vacas encoiradas!
- Porque é que o meu pai diz isso?
- Então não se está mesmo a ver?! Iam p’ra se casar nessa capela e apareceu alguém que sentiu desdouro por esse casamento se ir fazer, e os matou para limpar a sua honra.
- O meu pai acha?
- Isso está de trombas, clarinho como a água.
- E o padre? – perguntei eu.
- O padre? Que padre?
- O padre que os ia casar?
- O padre fugiu espavorido ao ver a sangria.
- Como fala até parece que o meu pai esteve lá para ver.
- Mas olha, o regedor que vá falar com o padre do Luso e logo terá o nome do matador, tão certo como estarmos aqui.
- Bem me parece que meu pai dava um bom meirinho.

- Dava nada, rapaz. Isto sou eu a falar – dizia o meu pai, com uma certa vaidade escondida por tão depressa ter atinado na razão que estava por detrás daquelas mortes...(em continuação, pág. 47, ex. XXIV)
in Alma de Liberal
Junho/2009

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A BORDO DA NAU FROL DE LA MAR, PELO OCEANO ÍNDICO, NO SÉC. XVI

Aqui há uns tempos, como na altura tive oportunidade  de dizer, li um excepcional romance histórico da escritora Deana Barroqueiro, no caso «O Espião de D. João II», que de forma magistral me levou a viajar por África, em busca do reino cristão do  «Prestes João». Uma autêntica avalanche de deliciosas aventuras.
Agora tive a oportunidade de ler um outro livro, que não sendo um romance, é um excelente livro de investigação histórica, e que me conseguiu de novo transportar para aquela época, sem dúvida a nossa luminosa época dos Descobrimentos.
Nas caravelas e naus de D. João II e D. Manuel I pude viajar por esses mares desconhecidos, dobrando o Cabo da Boa Esperança, à descoberta do caminho marítimo para a Índia, e descobrindo, por engano, o Brasil. Viajei com alguns milhares de marinheiros portugueses, capitaneados por Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Francisco Almeida e Afonso de Albuquerque, durante cerca de quinze anos.
Tive o imenso prazer de conhecer bem por dentro a nau comandante da frota portuguesa, a Frol de La Mar, de quatrocentas toneladas, com a qual o grande Afonso de Albuquerque comandou as conquistas de Cochim, Calecute, Cananor, Goa e Ormuz, na costa do Malabar, na Índia.
Enfim, um livro entusiasmante, que nos relata a criação (por parte desse minúsculo país que foi e é Portugal), do «Primeiro Império Global», escrito pelo historiador inglês Roger Crowley.
Na Antiga Confeitaria de Belém, não muito distante da Torre de Belém, comem-se os nossos famosos pastéis de nata, que ali tomam a designação de pastéis de Belém, acompanhados por um saboroso café. Perto daqueles ares que viram partir as nossas caravelas e naus, para essa  emocionante e imortal aventura, a dos Descobrimentos, é possível experimentarmos os sabores que esses navios nos trouxeram de terras longínquas: a canela, o açúcar e o café. Esta a mensagem com que Roger Crowley termina o seu livro: Conquistadores, Como Portugal Criou o Primeiro Império Global.

Para quem tem orgulho em ser português!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

QUANDO DE PALAVRAS SE PREENCHE UMA PÁGINA EM BRANCO

Momentos introspectivos excepcionais, em que se fecha a porta deste mundo e se abre a porta de um outro, onde se buscam os que nos devem o nome, a alma, a personalidade, os defeitos e as virtudes, em suma a vida, os quais amamos profundamente e que passarão, com muito orgulho, a fazer parte das nossas próprias vidas, mesmo no mundo do qual fechámos a porta.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

CAPELA DE MORTE, FLORESTA SINISTRA

...Coisa estranha aquela, de um homem e uma mulher que preparavam o casamento serem assassinados. Na minha preparação para médico vira e mexera em muitos cadáveres, mas esses eram mortos sem nome, sem história, apenas matéria podre na qual aprofundei os meus conhecimentos de anatomia. Mas os mortos que naquele dia vira, haviam sido pessoas com uma existência, com uma história de amor ceifada brutalmente. Foram os primeiros defuntos com que me confrontei após me ter formado; e questionei o mundo e os homens… e Deus. Que desígnios teria Deus para que permitisse que tais barbaridades acontecessem?

         A visão daqueles defuntos, na minha mente se sobrepunha à recordação da imagem de uma Maria Clara infeliz, suplicante. Nesse dia não pensei nela. Aquelas mortes preenchiam todos os meus pensamentos. Dois noivos a quem alguém tirara a vida junto a uma capela!! Tinha sido uma visão sórdida demais!... (em continuação, pág. 46, ex. XXIII)
in Alma de Liberal
Junho/2009

sábado, 7 de janeiro de 2017

ATÉ SEMPRE MÁRIO SOARES

Morreu Mário Soares.
Vivi a alegria, o entusiasmo e a esperança com que Portugal recebeu Mário Soares, aquando do seu regresso do exílio, três dias depois do 25 de Abril.
         O político das grandes decisões portuguesas: a descolonização e a adesão à CEE.
         Por isso mesmo, provavelmente, o político mais controverso de Portugal.
          Mas um exemplo de competência.

         Obrigado Dr. Mário Soares!