
A vila ribatejana era já e só uma
recordação. Descobrindo a rudeza do serviço da patrulha, Serôdio percorria
agora as ruas de Lisboa. E numa sumptuosa manhã de sol lisboeta, o então jovem
guarda de segunda classe da Policia de Segurança Pública sofreu o seu primeiro
grande choque profissional. Prestava serviço em Lisboa havia dois meses. A
adaptação à nova vida fazia-se muito lentamente. Andava cansado, pois dormir em
camaratas de apoio a esquadras operacionais, era bem diferente do que dormir
nas camaratas de Torres Novas. Em Lisboa era um corrupio constante de homens.
Ora iam para gratificados, ora vinham de gratificados. Uns iam fazer o turno de
serviço, outros chegavam tendo-o acabado. Até se habituar aos inúmeros despertadores
que tocavam, aos muitos roncos dos que dormiam, ao barulho, muitas das vezes
propositado, feito por alguns que sem qualquer tipo de formação moral ou
cívica, desrespeitavam o descanso de outros, aos cheiros exalados por corpos
menos habituados à higiene, era difícil a Serôdio conciliar o sono. Mas era nas
miseráveis condições que a PSP e os sorrisos hipócritas dos seus oficiais tão
delicadamente ofereciam aos guardas, que Serôdio teria de aprender a viver.
Casas degradadas, onde funcionavam sombrias e asquerosas camaratas, faziam
parte do seu quotidiano, enquanto profissional de policia. Com o espirito
nutrido pelo degradante ambiente da sua camarata, quando entrasse de serviço
havia de ser linda a missão!!
Independentemente da desmotivação
criada pelas condições terceiro-mundistas em que descansava, naquela manhã
Serôdio estava bem disposto, pois o sol matinal irradiava felicidade que o
tornava prenhe de alegria.
Efectuava o serviço em patrulha
dobrada, tendo por companhia um colega bem mais velho. Eram onze horas da manhã
e o seu colega já visitara três tasquinhas. Nas duas primeiras bebera um cálice
de «Favaios» em cada uma e na terceira despejara um copo de «ginja com elas».
Obviamente que Serôdio detestava a companhia. O homem praticamente que ainda
não abrira a boca. A principio Serôdio tinha a intenção de pedir ao seu colega
mais velho explicações sobre formas de comportamento, perante variadas
situações, mas depressa desistiu da ideia. Aquele policia veterano apenas
conhecia o caminho para as tascas e bares de prostitutas...(em continuação, pág. 88, ex. XXXV)
in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003
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