...Na manhã seguinte a companhia bateu toda a área circundante do aquartelamento. Pelas manchas de sangue que se espalhavam pelo mato rasteiro, era evidente que se tinham feito estragos no seio do inimigo. A companhia apenas tivera alguns feridos ligeiros. Houve mérito na maneira como se souberam proteger, mas também tiveram uma grande dose de sorte. E lá encontraram mais três Kalachnikov a juntar ao imenso arsenal bélico capturado aos terroristas.
O Ninda estava um pouco roto, mas nada que os bons «costureiros» não pudessem facilmente resolver.
Sentado à porta da messe de oficiais, sob a protecção de um comprido alpendre, o alferes Santa Cruz recordava aquele ataque nocturno ao aquartelamento do Ninda, enquanto observava a chuva intensa que se abatia sobre o quartel improvisado. Furiosos pingos de água caiam do céu negro, empapando o chão térreo da parada. A chuva era de tal modo intensa que provocava uma espécie de neblina. A chuva trazia a benção da paz numa terra em guerra. O alferes Santa Cruz estava sentado sob o alpendre com o pé direito apoiado numa pequena cerca feita de troncos, cerca essa que dava consistência ao suporte do alpendre. Pela posição em que tinha o pé direito, obrigava a que a respectiva perna estivesse curvada e mais elevada do que a perna esquerda. No joelho direito apoiava a mão direita e com ela segurava uma carta, um aerograma da sua namorada. O próprio tempo, triste e monótono, era propício a que a nostalgia tomasse conta do seu espírito.
- Que raio estás tu a fazer aí à chuva ?- perguntou o Alferes Mendes que entretanto viera do interior da messe de oficiais.
- Vim reler a carta da minha namorada, que recebi ontem- disse o alferes Santa Cruz- tenho tantas saudades dela.
- Esse è um tormento que eu consegui evitar.
- Qual?- perguntou o alferes Santa Cruz.
- Saudades de uma namorada. Não tenho nenhuma. Apenas me correspondo com uma madrinha de guerra...
- Que se calhar, mais cedo ou mais tarde, vai dar no mesmo.
- È possível. Numa ou noutra carta que lhe escrevo, sempre lhe vou dando a conhecer um pouco mais de mim. E não nego que isso já cria uma certa dependência de correspondência. Mas è só. Tu, és capaz de não sentir só dependência. Já è uma ânsia.
- Sim è verdade Mendes. Na tropa, as cartas da namorada são esperadas tal como o pão o è para uma boca esfomeada. Eu era capaz de ser aqui mais feliz se não tivesse nenhuma namorada na Metrópole.
- Não te enganes meu amigo- disse o alferes Mendes- eu não tenho namorada e no entanto a minha felicidade è tanta como a tua. Aqui não temos tempo para a felicidade. Preservar vivo o coirão è o nosso grande objectivo.
O alferes Mendes sentou-se num banco ao lado do alferes Santa Cruz. Puxou de um cigarro e ofereceu outro ao camarada de armas. Ambos, em silêncio, contemplavam o imenso horizonte molhado que se espraiava à sua frente.
- Em Fevereiro, três dias antes de virmos embora, a minha namorada, a Catarina, perguntou-me se eu achava bem vir combater os pretos, que lutam pela independência da sua terra. Na altura fiquei muito dividido na resposta a dar-lhe, mas ao fim de nove meses de guerra a indecisão não è nenhuma. Acho mal vir combatê-los, porque efectivamente esta terra nada tem a ver comigo. Mas quando entro em combate, esqueço-me do aspecto político e faço a guerra pela guerra. Ver companheiros meus serem mortos por esses estupores, faz-me esquecer o civismo, a decência e o meu ser quase explode de raiva. E tu Mendes, que sentes tu?
- Essa pergunta que a tua namorada te fez è de muito difícil resposta. Felizes dos que vêm para aqui combater em perfeita ignorância. Sabem apenas que ao inimigo se dá o nome de turras, mas não sabem porque è que os turras são o inimigo. Eu sei que esta guerra è injusta. Sei o que os angolanos sentem por nós. Basta olharmos para nós próprios, para a nossa história, para a antipatia que geralmente sentimos pelos espanhóis, para percebermos o que vai no íntimo desta gente em relação aos portugueses. Mas tudo isto è política, e essa è dos políticos. Eu sou português. Se a Pátria me diz que quer a minha ajuda, eu prefiro ficar bem com a minha consciência do que ficar zangado com ela, e bem com a consciência dos angolanos. Eu só tenho vinte e dois anos de idade e a colonização já existe há cerca de quinhentos. Que culpa tenho eu? Que posso eu fazer?
- Comungamos a mesma perspectiva- disse o alferes Santa Cruz- não lutamos por nenhum ideal, ao contrário dos turras. Mesmo sabendo que eles têm direito à sua liberdade, não me iria sentir bem na pele de traidor à Pátria.
- E por vezes bastante patriotas temos de ser, para aguentarmos algumas situações. Gostaste do ataque nocturno de anteontem aqui ao Ninda?
- Pulei de satisfação!! Foi o primeiro ataque nocturno que sofri desde que estou em Angola- respondeu o alferes Santa Cruz.
- E por causa dele, ouvi o capitão Rebelo dizer que iremos bater a mata em missão de reconhecimento.
- Neste maiombe denso, essas incursões são sempre uma porra. Terão os turras sido ajudados pela sanzala dos «Nhembas»?- perguntou o alferes Santa Cruz.
- È possível. Angola tanto está nos partidos políticos como nos vários povos que habitam as sanzalas espalhadas pelas savanas. O capitão Rebelo considera ser urgente o reconhecimento à zona. Com chuva ou sem ela, com o rio Cuango vazio ou cheio, a operação terá início o mais tardar depois de amanhã...(em continuação, pág. 57, ex. X)
in VISITADOS
Novembro/1999
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