sexta-feira, 12 de março de 2010

UM CIGARRO POR ACENDER

...Américo Afonso dirigiu-se à casa de Luísa. Pelo caminho, cego pela felicidade que levava, tirou o chapéu à velha figueira, sem se aperceber de que ali perto se encontrava um ancião. Este, ficou de olho arregalado. Um advogado da Casa das Leis a tirar-lhe o chapéu, a ele, um velho agricultor?!
Américo Afonso ao aproximar-se da casa de Luísa cruzou-se com um pobre mendigo. Este parou e disse-lhe:
- Vossa senhoria tem a fineza de me dar lume para acender este cigarro?
- Não fumo meu amigo.
- Paciência. O cigarro terá de ficar para outra ocasião. Deus lhe dê sempre a felicidade que o envolve.
- Como sabe? - perguntou Américo.
- O seu rosto é como um livro aberto. Passe muito bem.
- Espere bom homem - pediu Américo - deixe-me ajudá-lo. - E Américo foi com a mão direita à bolsa para retirar algumas moedas.
- Não se mace vossa senhoria - respondeu o caminhante, pois era dele que se tratava - Deus não quis que eu fosse feliz. Não é de moedas que eu sinto falta. Tenho saudades de mim próprio.
- E não se pode recuperar?
- Com esta cara e este corpo, não. Tenho a alma suja. Enquanto não a lavar, nada por mim posso fazer. E quando isso acontecer, já será tarde demais.
- Porquê bom homem?
- Porque para infelicidade chegou uma vez. Seja feliz senhor doutor.
- Qual é o seu nome? - perguntou Américo, perplexo por ver que o outro sabia qual a sua profissão.
- Em Alfeizerão, onde trabalho, chamam-me " Ti Zé da Estrada" - disse o caminhante enquanto se punha a caminho, o bordão a tiracolo, o saco pendurado no bordão e o casaco pendurado no ombro direito, onde apoiava o bordão.
Que encontro tão enigmático. Aquele pobre homem falava sem se revelar. Américo ficou a observá-lo até ele desaparecer numa curva do caminho. Sentia-se que ali existia um segredo. Américo caminhava perturbado, sem se aperceber que chegara à casa de Luísa.
- Bom dia senhor doutor - saudou-o Carlos Avilar.
- Bom dia Carlos. Viste passar por aqui um homem com trajes muito velhos?
- Vi sim senhor. Parou, olhou para mim muito fixamente e disse: - “Deus te abençoe".
- É tudo muito estranho - comentou Américo.
Ele e o pequeno Carlos entraram na casa humilde do oleiro. Naquele dia, Carlos Avilar completava o seu 13º aniversário, mas ninguém ali o sabia...(em continuação, pág. 85- ex. XXVIII)

in QUANDO UM ANJO PECA

Março/1998

4 comentários:

poeta do inverno. disse...

mas uma vez o americo nos apresenta algo enigmatico e realista, a dura realidade de pessoas que perdidas não procuram mais por consolo finaceiro mas para o consolo da alma...quantos não se sentem assim hoje?

abraços
com saudações.

Poeta do Penedo disse...

Caro poeta do inverno
infelizmente são muitos os caminhantes, que calcorreiam os difíceis caminhos da vida.
Muita amizade para si.

Teresa Fidalgo disse...

Poeta do Penedo,

... E muita vezes não damos a devida atenção, nem percebemos que por detrás de um "caminhante" se encontra alguém bem valoroso...

Que esconderá este caminhante?

Saudações

Poeta do Penedo disse...

Cara Teresa Fidalgo
ter a capacidade de surpreender é pão para uma boca faminta.
Briosas saudações