...Naquele dia de Novembro frio, de 1973, Catarina saíra de sua casa, no Alto da Conchada, após o almoço, e encaminhava-se para o café Nicola. Teria de caminhar pela rua íngreme que descia da Conchada, atravessaria o Beco de Montarroio, passaria junto ao Pátio da Inquisição, mais uma vez admiraria a imponência antiga de um Portugal velho, traduzida na magnífica fachada da Igreja de Santa Cruz, subiria a Rua Visconde da Luz, e já na Ferreira Borges o Nicola a esperava como acontecia quase todos os dias.
O Nicola era por excelência o café que muitos estudantes, tal como Catarina, elegiam para seu refúgio de estudo e lazer. Ali se edificavam grandes exames, ali nasciam grandes amores platónicos, ali se choravam lágrimas vertidas por corações rasgados, penando uma desilusão amorosa.
Catarina ia bela. Vestia calças vermelhas, justas às pernas, e muito largas junto aos pés. No «sino» das calças, a letras cinzentas, estava inscrita a frase «make flowers not war». Vestia ainda uma grossa camisola de lã preta, de gola alta, bem cingida ao corpo, e um pesado casaco preto, bordado à frente com caracteres vermelhos e cinzentos, que começavam junto aos ombros e desciam até ao peito, salientando o volume dos seios. O preto do casaco e o vermelho das calças contrastavam com o brilhante cabelo loiro, que lhe descia até meio das costas. Decerto não passava despercebida . Mas ela não dava atenção aos olhares provocadores que lhe eram dirigidos. Assim estava bem com a vida, e o sol frio mas radioso que beijava Coimbra naquele dia de Novembro, despertara nela o orgulho em ser bonita.
De manhã recebera mais uma carta de Álvaro. Ela vivia das cartas e para as cartas. Desde que Álvaro partira para Angola, já havia nove meses, escrevera aerogramas sem conta e os recebera, os « bate estradas » como Álvaro chamava àquelas deliciosas cartas. Ele cumpria com o que prometera. Conseguira transmitir-lhe toda a envoltura de Angola.
« Minha loirinha, após te ter escrito a última carta, percorri quatrocentos quilómetros. A minha companhia foi transferida para um aquartelamento no Distrito do Moxico. È uma zona densamente arborizada. Para meu espanto, vim encontrar este quartel bem no coração da floresta. Ao quartel chamam-lhe Ninda. A cerca de quinhentos metros passa o rio Cuango. Quando nos vamos abastecer de água, temos de montar uma forte vigilância, pois caso contrário podemo-nos tornar vulneráveis. Nunca sabemos quando o turra nos espreita.
Perto do aquartelamento existe uma pista para aterragem de avionetas, que nos trazem o fornecimento de alimentos, tabaco e medicamentos, bem como os nossos adoráveis bate estradas, pelos quais as nossas ninfas da Metrópole nos aquecem os corações.
Na selva existem árvores colossais, tanto em altura como em diâmetro. De manhã, sob o sol abrasador de África, somos envolvidos pelo som indescritível de milhares de aves a cantarem, e gritos de outros tantos macacos. Não fosse a guerra, diria que o local onde me encontro è decerto o paraíso. A cerca de um quilómetro do Ninda existe uma sanzala. Lá vivem nativos, pertencentes ao povo Nhemba. Não têm sido hostis. Um ou outro nativo fala um português rudimentar, que dá perfeitamente para nos entendermos. Há dias fomos à caça e apanhámos cinco facuqueros, javalis africanos. Levámo-lhes um. Eles ficaram muito agradecidos. È conveniente termos boas relações com esta gente. Entre tantos inimigos, se tivermos alguns amigos, teremos arranjado uma fonte de apoio que nos pode vir a ser de grande utilidade...» (pág. 60- ex. XII- em continuação)
in Visitados
Novembro/1999
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