terça-feira, 30 de dezembro de 2008

À JANELA , A GLÓRIA E A RUÍNA

Em Portugal, nos finais do séc. XIX, princípios do séc. XX, um dos maiores símbolos de prosperidade que se podia ostentar, era a plantação de palmeiras em redor da casa em que se habitava. Esse sabor a exotismo estava ao alcance apenas de alguns, aqueles que tinham emigrado para o Brasil e por lá tinham feito fortuna.
Desse modo, as casas que «apetrechadas» de palmeiras despontaram por esse país fora, passaram a designar-se por casas de «brasileiros». Nesta bela fotografia captada pelo meu filho João Miguel, a glória do passado se transmite através da ruína do presente.
A palmeira, outrora árvore mirrada que orgulhosamente bradava ao mundo o poder económico de quem a plantou, hoje é uma soberba árvore que nos lembra o quão efémera é a riqueza. E porque a palmeira é natureza, afirma que hoje, mais do que nunca, é uma criação poderosa, ao passo que a casa, sua aliada no tempo, e porque é criação do homem, outrora dona de uma sumptuosidade material, não resistiu à acumulação dos anos, tendo-se transformado num amontoado de velhas memórias sem sentido.
Será este o sentido da existência?

sábado, 20 de dezembro de 2008

VOTOS DE BOAS FESTAS



Nesta quadra em que os nossos corações mais se aproximam, e em que mais se aproximam do sentimento de solidariedade que deveria tomar conta do mundo, imbuído daquele verdadeiro espírito de natal, no qual está ausente o pai natal, e marca presença o amor puro e simples, quero desejar a todos os que têm visitado este blogue um natal muito feliz.
E porque muitos desses são pessoas que não conheço no mundo real, para esses, que num momento primeiro tiveram a curiosidade de espreitar neste espaço, e depois desse primeiro momento têm tido a simpatia de o frequentar, o meu muito obrigado pelos adoráveis momentos que convosco tenho partilhado, sem vos conhecer. Refiro-me ao jovem e promissor Marcelo Melo do 3vial, ao António, Luciana e Coração de Açúcar do Coimbra B, e à Coração de Açúcar do blogue Coração de Açúcar.
A todos vós, que o espirito de natal se traduza nas vossas vidas como uma história interminável.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

PASSEIO PELAS MINHAS PALAVRAS( o viver de aparências)


HOMO SAPIENS NUCLEAR

Percorro os caminhos da história
Ouvindo baladas ternas
Perdido nas melodias
Encontro o moderno homem das cavernas.

Ao som do rock, jazz ou blue,
Ele salta grita e balança
E na ilusão de um deus poder ser
Do nada faz uma lança
No cocktail a presa vai abater.

Pelas savanas de cimento,
Nas grutas de ar condicionado
Passeia todo o seu charme.
È artista sem talento
Filho de um deus mal amado.
Que importa, tem sílex, tem o fogo
È um grande dominador.
Não interessa que nada saiba
Tem sílex, tem o fogo
È decerto um sabedor.

Homo Sapiens Nuclear
Senhor de toda a verdade,
Social, tão polido e tão foleiro,
A história te trouxe aqui
Te deu a terra como herdade.
Sente o aroma da vida
Sente o vento, sê verdadeiro.

Não pelo que tens mas pelo que és
Aprende a gostar de ti
E então terá razão
A história que te trouxe aqui.

Junho/1999

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

COM O REI, REGRESSO DE MORDOR



Terminei a leitura da triologia do Senhor dos Anéis. Pela primeira vez tive a noção do quão forte é a mensagem escrita. Esta foi a primeira vez, como já disse, em que tomei conhecimento de uma obra literária através do cinema. Somente depois de ver o filme é que fui ler a obra.
E embora o filme seja soberbo, o livro é-o muito mais. E na verdade, agora que li a triologia, é que na realidade lhe conheço a sua verdadeira génese. É um prodígio de criatividade.
E se reflectirmos um pouco sobre a época em que foi escrita, no decorrer da Segunda Grande Guerra, numa Inglaterra bombardeada, ficamos cilindrados não só pela capacidade criativa de Tolkien, como pela sua capacidade de discernimento, rodeado de morte e miséria. Talvez por isso mesmo tenha conseguido transmitir tanta realidade à terra desolada e arruínada de Mordor.
Mesmo depois de ter visto os três filmes por duas ou três vezes, nunca fui capaz de decorar os nomes dos reinos e das cidades. Agora, depois de ter lido os três livros, já o consegui.
O perverso Saruman de Isengard, subitamente derrotado pelos Ents; Rohan e Gondord em aliança contra Mordor. O maléfico Sauron derrotado pelo frágil hobbit do Shire.
Em mim, Gandalf, Sam, Pippin, Merry, Frodo, Gimli, Légolas, Aragorn, Boromir, Faramir, e todos os outros, encontraram uma casa para viverem, neste mundo, setenta anos depois de terem sido criados.
Foi com pena que regressei da Terra Média e reentrei nesta realidade.
Se me fosse dado escolher onde viver, quereria decerto que a minha casa se localizasse no Shire.
Senhor Tolkien, onde quer que esteja, Obrigado.

Dedico estas palavras ao meu filho Luís Diogo, um apaixonado por Tolkien, que me ensinou o caminho em direcção ao Shire.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A NECESSIDADE DE AMAR ALGUÉM



Tens de, no mundo, ter alguém a quem direcciones o teu amor. Bela mensagem, pois se no teu intimo houver necessidade de amares alguém, é porque és boa pessoa. Se tal necessidade tivesse na génese de todos, o mundo seria, decerto, muito mais aprazível.
A única musica da discografia do Elton John, que eu conheço, onde se pode apreciar um solo de viola. Uma melodia muitíssimo bem conseguida.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

PASSEIO PELAS MINHAS PALAVRAS (doce e simples Natal)

...Luisa apressou muito o passo. Por isso rapidamente percorreram a distância que os separava da casa dos seus pais. Uma casa térrea, bem simples, como simples era a vida das pessoas que ali moravam. Ao lado da casa existia um pequeno alpendre, que guardava alguma lenha para a lareira do inverno, meia dúzia de utensílios de lavoura, enxadas, forquilhas e ancinhos. Entre o alpendre e a casa existia uma casota minúscula. Era a oficina de oleiro, onde o pai de Luisa elaborava as peças de cerâmica tão apetecidas. Tal como as outras casas por onde tinham passado, também a casa de Luisa irradiava espírito de natal, como se fosse possível que uma casa ganhasse vida e transmitisse sentimentos. Mas era isso mesmo que acontecia. A mística do Natal era tão forte e profunda, que ao transformar por completo o mundo e as pessoas, dando clarividência ao coração humano, tornando pois possível o perdão e colocando amor onde antes existia mal querer, prolongava essa dádiva do céu até ás casas.
As duas janelas, que ladeavam a porta de pau da casa do oleiro, estavam brilhantes com a luz que por elas transbordava. Pela chaminé fluía um fumo calmo. Cheiro de lenha de pinheiro queimada, misturado com os aromas natalícios que andavam no ar, eram um condimento da quietude da aldeia portuguesa.
Luisa e Américo chegaram junto à porta. Com os nós dos dedos Américo Afonso bateu no pau rijo que escondia a intimadade daquele lar.
- Quem é?- perguntou uma voz de rapazinho.
- Sou eu, a mãe- respondeu Luisa.
A porta logo se abriu. À luz das candeias de azeite surgiu um rapazinho loiro.
- Boas noites Carlos. Aqui te trago a tua mãe.
- O senhor Doutor Américo veio acompanhar a minha mãe?- perguntou o pequeno Carlos Avilar.
- É verdade. Estás admirado?
- Há por aí muitos senhores doutores que em calhando não o faziam- disse o pequeno.
À porta surgiram os pais de Luisa e também a pequenina Rosa. Fizeram pressão para que o senhor Doutor entrasse, mas este recusou, pois a família esperava-o na Casa das Leis.
Após os votos mútuos de uma santa noite, Américo abandonou a casa de Luisa, não sem antes lhe ter enviado um suplicante e apaixonado olhar, ao que ela correspondeu. Américo inspirava o Natal que existia no ar frio. Pensava que, tal como o caminho do Calvário, em Jerusalém, ficara célebre, porque ali vivera Jesus Cristo os seus últimos minutos de vida terrena, também o caminho que levava de sua casa à casa de Luisa deveria ficar conhecido, porque fora através dele que Américo chegara à felicidade. Ao passar pela figueira à beira do caminho, tirou-lhe o chapéu. Ela merecia este reverência. Só uma árvore respeitável como aquela poderia ter perfil para ser testemunha de uma declaração de amor, como fora a dele e também a de Luisa Avilar.
Pelo resto do caminho foi andando ligeiro, saltitando de quando em vez, assobiando ao ar, às casas, ao céu estrelado, à capacidade que o homem tem em conseguir ser feliz. Enfim, rejuvenescera.
Ao entrar na Casa das Leis perdera o ar macilento e sem vigor que o acompanhava havia bastantes meses.
- Minha mãe, venha de lá esse bacalhau cozido que tenho fome de lobo.
- Ai menino, que a noite transformou-te. Isto só pode ser milagre- dizia feliz D. Vitoriana.
- Pois foi minha mãe, foi milagre! Mas, demora o bacalhauzito?
- Não filho, num ápice estaremos todos à mesa.
Já noite dentro, quando todas as lareiras se haviam apagado, depois de muita alegria se ter espalhado, após muitos espiritos se terem aquecido e afogueado em altos ideais filosóficos, sob a inspiração do suor vermelho-tinto da terra, qual fragância de Baco, Américo encontrava-se deitado no seu leito, pensando, iluminado pelo luar suave, o mesmo luar que iluminava o belo rosto de Luisa. Quase se adivinhava que entre as duas casas se formara uma corrente telepática. Américo ansiava pelo momento em que pela primeira vez abraçaria Luisa Avilar.
Luisa tentava pôr um pouco de racionalidade em toda aquela situação. E mais do que os medos de enfrentar os preconceitos sociais, era o remorso latente em colocar na sua vida um outro homem, no lugar de António Avilar, que a afligiam. Iria finalmente compreender que António não passava de uma bela recordação, ecos de uma guerra distante, apenas e só uma saudade...

in Quando Um Anjo Peca

Março/1998

sábado, 6 de dezembro de 2008

CAMARATE, 28 ANOS DEPOIS

Naquele final de tarde do dia 04 de Dezembro de 1980, jogava eu uma partida de snooker, num café em Alfeizerão, quando a emissão da televisão, colocada num plano bastante alto, em relação a mim, foi interrompida. Seriam cerca das sete da tarde. Não é que eu e os outros estivéssemos a dar importância ao que estava a passar, pois muito mais importante era a partida que entre mim e eles decorria, mas sentimos que o barulho de fundo repentinamente se alterara. E foi então anunciado que o Primeiro Ministro Sá Carneiro acabara de sofrer um acidente de aviação em Camarate e falecera. O jogo parou, o país parou.
Com o decorrer das horas foram conhecidos mais pormenores. Mas tanto como no dia 7 de Dezembro de 1980, como hoje, 7 de Dezembro de 2008, uma tremenda pergunta ficou sem resposta: acidente ou atentado?
Numa entrevista dada pelo Professor Diogo Freitas do Amaral (à época ministro da AD), há cerca de um mês, na RTP, na rúbrica Grande Entrevista, ele esclareceu que o engenheiro Adelino Amaro da Costa, então, também ele ministro da AD, estava a investigar a venda de armas para o Afeganistão, por parte de alguém em Portugal; e revelou que desapareceu um telegrama, enviado pelos serviços secretos britânicos, a avisar que um experiente bombista britânico se havia deslocado para Portugal dias antes do acidente. Esse telegrama seria a prova de que alguém deveria ter colocado forças em campo para detectarem o tal bombista, e não o fez.
Estes dois dados novos, escondidos do conhecimento público durante estes quase trinta anos, podem levar a depreender que Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa foram vítimas de atentado, como tal, de homicídio.
Desde o primeiro momento se soube que o Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe, foram vítimas de atentado, quando em 1908 ambos foram assassinados;
Desde o primeiro momento se soube que o Presidente Sidónio Pais foi vítima de atentado, quando em 1918 foi assassinado.
No entanto, ainda hoje não sabemos, se no dia 04 de Dezembro de 1980, Portugal assistiu ou não ao seu 3º atentado de cariz político, perpetrado no decorrer do Séc. XX.
Com as declarações recentes do professor Diogo Freitas do Amaral, que considero ser uma pessoa extremamente responsável, tenho forte suspeitas de que nos corredores da nossa política uma mente oculta exista, que não deixou e faça com que se não consiga alcançar a verdade sobre o que realmente aconteceu, no cair da noite daquele dia 4 de Dezembro de 1980.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

PASSEIO PELAS MINHAS PALAVRAS (La Lys, 09 de Abril de 1918)



Tudo era escuro. Tudo era hostil. Naquela vasta planície mergulhada na noite, desenrolavam-se muitos milhares de dramas simultaneamente. Naquele imenso pântano, situado na Flandres, no norte de França, cento e trinta e nove mil homens sofriam as agonias e as atrocidades da guerra. Movimentando-se sobre um terreno gelado e lamacento, os combatentes vegetavam. Eram Portugueses, Ingleses e Alemães. Já se encontravam naquele inferno de fogo, aço, frio, lama, má nutrição e morte, havia cinco meses.
Aquela era a guerra das trincheiras. Por isso, numa extensão de cinquenta e cinco quilómetros, entre Gravelle e Armentiéres, as tropas aliadas Portuguesas e Inglesas distribuíam-se num labirinto de trincheiras. Pouco abaixo dos pés dos soldados fluíam lençóis de água, que tornavam aquele lugar num lamaçal descomunal, onde os homens se atolavam, sofriam, desesperavam.
Nessa extensão de cinquenta e cinco quilómetros estava posicionada uma divisão de tropas portuguesas, distribuída ao longo de doze quilómetros. Era o sector de La Bassé. Esse sector de gente lusitana, era formado por mais de dez mil soldados. Entre eles encontrava-se o António Avilar. A terra tinha sido rasgada, para nela surgirem as hediondas trincheiras, quais valas comuns, onde mortos e vivos «coabitavam» num mórbido e tétrico escoar do tempo. Aqueles corredores infinitos, com metro e meio de largura, por cerca de três metros de altura, eram a habitação que a guerra oferecia áqueles muitos milhares de homens. As encostas das trincheiras, sulcadas de patamares, serviam de postos de vigia e controle do inimigo, bem como depósito de sacos de areia e despojos de batalhas, imensas vezes locais onde a vida findava para milhares de soldados.
Na madrugada de nove de Abril de 1918 as tropas portuguesas encontravam-se incrivelmente felizes. Havia poucas horas tinham recebido a notícia de que finalmente, talvez ainda nesse dia, iriam ser rendidas por tropas frescas. O martírio de cinco meses estava a chegar ao fim.
António Avilar, sentado no sopé de uma das encostas da trincheira, falava com um seu camarada de armas, o Quim Rouxinol. Chamavam-no assim, porque ele quando tinha tempo e disposição, assobiava com tal beleza, que fazia lembrar os passarinhos do saudoso Portugal...

in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

AQUI TAMBÉM É PORTUGAL


Quantos anos tenho? Não sei, já me esqueci. E isso importa? Para quem eu fui feita, já não existe. Depois da sua morte veio o desprezo, o abandono. Sou feia, extremamente medieval. Os homens me contemplam e se admiram, interrogando-se como pode ter sido possível que eu, um dia, tenha servido de abrigo a alguém. Mas servi!
Numa outra era fui construída, num tempo em que para o homem o mundo era muito mais pequeno.
Embora para nada sirva, mantenho-me orgulhosamente intacta, com a forma que o meu criador me deu, desafiando os tempos. Estou fria e vazia. Restam-me as memórias de tudo quanto em mim se viveu, histórias que se escondem nas pedras do meu ser.
Não sou monumento, porque de pobreza fui feita. Mas aos monumentos nada devo quando de história se fala.
Porque o povo é o sal de uma nação, neste ermo que ocupo também é Portugal!

domingo, 30 de novembro de 2008

JANELA DA VIDA


Olhando pela janela da vida
contemplo o horizonte das minhas interrogações
perguntando-te, tu, dono dos meus pensamentos,
das minhas emoções
porque razão sou quem sou
pessoa desprezada
mas também querida.
Pelo mundo caminho em forma de visão
vejo-me, sinto-me, mas não passo de uma existência fugaz
que se distribui numa vivência em turbilhão.
No teu mar, o meu horizonte, navega o bote da alma
carrega o meu bem, o meu mal,
a minha alegria, a minha tristeza
e um enorme fardo de saudade,
saudade do que nunca fui,
amor que se espera em tarde calma.
Cansado de tanta vastidão, fecho a janela.
E quando menos esperava, já sem esperança,
apareces tu, maravilha tão bela.
Sou sorrisos e realização de sonhos.
sou coração liberto emuita força no viver.
Do que lá vi fora
depressa me quero esquecer,
porque tu já fazes parte de mim.
Por aquela mesma janela entrás-te tu,
pelo lado que eu pensava estar mais fechado à esperança.
Como me encontrás-te não sei,
mas com este momento sonhava
quando por aquela janela olhava.
Finalmente me encontro, me preencho, me seduzo.
Sou feliz.
Não mais terei saudades do que nunca fui
porque vou fazer o que nunca fiz.
Só porque te conheci, musa.

Novembro/1997

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O AMIGO VENTO DAQUELES TEMPOS



Era, em 1972, Demis Roussous, o grande cantor romântico, pois os anos 70 eram uma época de contestação, mas também de romantismo. E em Coimbra proliferavam imensos gira-discos, que, aos fins-de-semana, incansavelmente, melodiavam a voz do Demis.
No meu muito particular universo dos estudantes do Liceu D. João III (liceu macuslino), as nossas baterias estavam sempre centradas no D. Maria (liceu feminino). E nós porque gostávamos delas e elas de nós, promoviamos os encontros em forma de bailes particulares. Foi uma moda graciosa, amorosa, essa. Decerto que hoje, em Coimbra, homens e mulheres, que rondem a minha idade, guardarão na sua memória momentos inolvidáveis como esses.
A Couraça dos Apóstolos, a Rua dos Esteireiros (à Igreja de S. Bartolomeu), a Rua Luís de Camões, aos Olivais (a minha casa), a Rua de Sub-Ribas (ao quebra-costas), foram alguns dos pontos eleitos pelo meu numeroso grupo, onde se passaram tardes deliciosas, que pecavam por serem demasiado curtas.
My Friend the Wind electrizava os nossos jovens corações apaixonados.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

PASSEIO PELAS MINHAS PALAVRAS (urbanidade e défice cívico)

(ESCREVO, PORQUE ESTA SEMANA FOI LANÇADO POR AÍ UM LIVRO, DA AUTORIA DE UM JORNALISTA, CUJO FUNDAMENTO SÃO RELATOS DE PROFISSIONAIS DE UMA DETERMINADA ÁREA. NÃO TINHAM ESSES PROFISSIONAIS NECESSIDADE DESSE RECURSO, POIS UM LIVRO SOBRE ESSA TEMÁTICA JÁ EXISTE, HÁ ALGUNS ANOS. E MESMO SEM LER O LIVRO QUE AGORA FOI LANÇADO, GARANTO, QUE O QUE FOI ESCRITO HÁ ALGUNS ANOS, É MUITO MAIS GENUÍNO, PORQUE TEM O QUE A ESTE FALTA: EXPERIÊNCIA E ALMA)

Homens e mulheres de azul vestidos, que centímetro a centímetro conquistais a indiferença, o desprezo e o desrespeito da maioria daqueles que convosco partilham as ruas da vossa cidade, o que vos move a serdes o bode expiatório do vosso país, onde os maus fígados da vossa sociedade despejam a imunda bílis, onde os maus carácteres, por força de uma democracia para vós sem direitos, encontram a abençoada oportunidade, para no azedo da sua vil perfídia, por momentos terem no rosto a agrura da vítima? Que vos move a terdes esse humilhante papel? A louca veleidade de tentardes ser abelhas obreiras num jardim sem néctar? O amor ao interesse público, o interesse do público que de vós desdenha? Esta sociedade é uma mãe megera, pois megeras são todas as mães que descriminam alguns dos seus filhos.
É brilhante e bela a palavra democracia.
Também por momentos, bela e brilhante pareceu ser a perspectiva de vida daquele homem necessitado, a quem foi oferecido um emprego numa determinada empresa. As instalações eram óptimas, modernas e acolhedoras. Foi-lhe dito que trabalharia num determinado escritório. O homem necessitado nele entrou. Era uma divisão excepcional: bem iluminada, maravilhosos quadros nas paredes, poltronas de cabedal, uma imensa secretária de fino metal, computador, internet, telefone particular, jornais diários pois a informação era a chave do negócio. O peito do homem necessitado era pequeno para albergar tanta alegria.
Preparava-se ele para, pela primeira vez se sentar na cadeira almofadada, quando aos seus já descontraídos ouvidos chegou um horrível grito de aviso. Que não se sentasse, pois aquele não era o seu local de trabalho!! Tinha havido um pequenino equívoco. Para aquele local viria trabalhar o filho do senhor engenheiro, do senhor doutor, do amigo de ambos. O homem necessitado iria executar as funções de técnico especializado de despoluição orgânica de sanitas, técnico especializado de manutenção específica das condições de utilização dos recipientes de escritório, técnico especializado da descontaminação de micróbios das vias internas de circulação da empresa.
O homem necessitado, de fato macaco vestido, assim passou a viver o seu dia-a-dia, desgastando-se incansavelmente, não tendo braços para tanto micróbio. Na sua humilde e triste condição, sonhando por vezes com um lugar ao sol que um dia lhe fora prometido, lá foi compartilhando o espaço daquela hipócrisia, com a opulência e riqueza dos restantes colaboradores. Afinal, para o homem necessitado, aquela empresa pareceu ser o que para a sua particular realidade nunca foi.
Sociedade de Gestão de Sentimentos e Ideias à Portuguesa Actuando S.A, era o nome da tal empresa.
Tal como o homem necessitado daquela empresa, também os homens e mulheres de azul vestidos, na nossa sociedade são aceites, disso não há dúvidas...mas, a troco de serem uns fiéis seguidores do servilismo, aos quais se tira o direito ao pensamento, ao sentimento, e à inteligência, para assim a nossa mesma sociedade poder ter sempre um escape, para onde possa depositar as frustrações do quotidiano.
Tu, azul destes homens e mulheres, de que estás à espera para reivindicares um pouco da tão falada democracia?
Sim, eu conheci um desses homens vestido de azul. Fui seu colega. Por incrível que a muitos e muitos isso possa parecer, era um homem igual a todos os homens que se vestiam de outras cores que não o azul. Esta é a sua história...

in Filhos Pobres da Revolta
Março/2003

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

QUANDO A VIDA ERA AMOR



People
take my advice
if you love someone
don´t think twice

Esta a grande mensagem dos meus queridos anos 70.
Corria o ano de 1975, tinha eu deixado recentemente a minha bela Coimbra,
encontrava-me na descoberta da abençoada Alfeizerão,
quando, no Pão de Ló de Alfeizerão, na velhinha máquina de discos,
pela primeira vez ouvi Sugar Baby Love, dos Rubbets.
Foi uma música para toda a vida, pela carga simbólica que encerra.
Este o espirito dos anos 70, make love not war.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

PASSEIO PELAS MINHAS PALAVRAS (ruralidades no final da monarquia)


...Barreto Raposo era um experimentado e astuto comerciante de gado. No Bombarral, de onde era oriundo, tinha a alcunha de «o fivelas», porque usava dois cintos- um para prender as calças e outro para trazer pendente da cintura um impressionante facalhão, envolto numa protecção de cabedal. Batendo ao de leve com os dedos da mão direita na faca atemorizadora, dizia muitas vezes- «é para o que der e vier». Homem de constituição física a levar em conta, o «fivelas» não era pessoa que se desse a escrúpulos. O oportunismo era o seu grande trunfo. Aproveitando-se muitas vezes da má sorte alheia ou da falta de argúcia do seu oponente no negócio, o Barreto Raposo foi elaborando a sua fortuna. Era agora um homem mais temido do que respeitado. O seu poder económico, aliado à sua reputação, tornaram-no um homem influente na região do Bombarral. Mas a sua avidez por mais riqueza e poder, foi-se tornando numa obsessão. E nessa perspectiva, começou a pensar em alargar o seu raio de acção.
Por duas ou três vezes que se cruzara com um tal Chambão em feiras de gado. Nessas alturas, tivera a oportunidade de verificar que o tal capataz de Alfeizerão apresentava reses de excepcional qualidade. Por isso tivera curiosidade em conhecer melhor o capataz e a herdade de que era responsável. Começou a fazer perguntas aqui e ali, e obteve respostas que o satisfizeram. O tal Chambão, embora fosse «um osso duro de roer», pelo menos assim o haviam caracterizado, já era homem avançadote na idade. Mas o facto de estar à frente de uma herdade, como aquela que lhe descreveram, era deveras promissor, mais a mais tendo por proprietário um fidalgote que mal barba tinha na cara. Por isso Barreto raposo resolveu-se a empreender a cavalo a viagem de cerca de doze léguas, entre o Bombarral e Alfeizerão...

in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

sábado, 8 de novembro de 2008

NOS ACORDES DO MEU PRANTO

Nos acordes do meu pranto
sentida emoção transmito
aos que no mundo me superam
vendo em mim, o que neles
eu não vejo.
Ás ruas da minha vida
onde me sento e me exponho
empresto um pouco de cor.
Não é branca, nem vermelha
amarela, ou outra qualquer.
É apenas a cor de mim
a vida que ninguém quer.
Nos acordes do meu pranto
neste viver solitário,
na escuridão do meu canto
estendo-te a mão, sê solidário.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

YES, WE CAN!

Emocionei-me com o discurso de aclamação de vitória de Barak Obama, novo presidente dos Estados Unidos. Ainda sou dos que acreditam nas pessoas, apenas escutando-lhes as palavras emocionadas, descobrindo-lhes a verdade que encerram, que eu suponho encerrarem verdade.

É que nos tempos que correm, por vezes sinto-me um pacóvio, ultrapassado pela desonestidade, quantas vezes camuflada de genuína honestidade. Acho que nunca existiram tantos lobos vestidos de cordeiros, como actualmente.

E depois de ter visto um documentário que por aí corre, sobre esquemas demoníacos, sobre o 11 de Setembro, nascidos no seio dos americanos, feito por americanos...fico com muitas reservas.

Mas, a serem sinceras as palavras de Barak Obama,tal será um forte indicador de quão histórica virá a ser a sua administração, tanto quanto foi a sua eleição. Esta é a leitura de um simples zé do povo, português, que muito longe está de entender os meandros complicados da política, e mais complicados o são, quando à política se colam vínculos da mentira e do engodo.
Mas, quando Obama pega numa mulher, muito provavelmente negra, de 106 anos de idade, eleitora numa assembleia de voto, bem longe da Casa Branca, a coloca como trave mestra do seu discurso, e faz uma pequena resenha da história norte-americana, desde os tempos da escravatura até aos nossos dias, para demonstrar o quanto é grande a sua nação, é, no mínimo, um sinal positivo do carisma da sua futura política.
Independentemente de muitos interesses económicos em jogo, continuo convicto de que a Europa muito deve aos americanos, pois foi graças a eles que Hitler foi derrotado. Independentemente de muitos interesses económicos em jogo, que os há, o mundo ocidental muito deve aos filhos dos Estados Unidos, que deram a sua vida em prol dos interesses de outros países, independentemente dos interesses que o seu governo defendia com as actuações em vários palcos de guerra (Coreia, Vietname, Sumália, Iraque, Afeganistão).
Na minha opinião, muita da má vontade que a Europa demonstra pelos Estados Unidos, reside no facto de o velho continente, que durante séculos dominou o mundo, ter perdido essa controle para os Estados Unidos, antiga colónia britânica, que apenas precisou de duzentos anos de independência para se tornar a maior potência do mundo.
Talvez na força das palavras de Barac Obama resida parte da resposta a essa questão. «Yes, we can», afirmou ele inúmeras vezes, fazendo com que as suas palavras transbordassem de confiança, contagiassem os milhares que o ouviam. Talvez nessa confiança colectiva resida o segredo do progresso.
E ao passo que uns, ao chegarem, afirmam- sim, nós podemos,
outros há, que quando chegam dizem que o país está de tanga, e que o que de mais certo temos é a miséria e a pequenez.
Maus governantes são os que se afirmam como arautos da desgraça.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

BOLINHOS E BOLINHÓS EM COIMBRA


Foi no distante dia 31 de Outubro de 1970, a última vez que eu fiz parte de um grupo de miúdos, onde andei, de porta em porta, a pedir os bolinhos e bolinhós. Vivia então no Bairro da Cumeada, aos Olivais, em Coimbra. Mas por toda a cidade, da Pedrulha à Portela, os miúdos se agruparam, para assim cumprirem mais uma vez a tradição coimbrã dos Finados.
Em grupos de meia dúzia, os miúdos, em cada 31 de Outubro, percorriam as ruas dos seus bairros, levando uma abóbora oca, na qual se desenhara o que se pretendia representar como uma caveira, com uma vela acesa no interior. Iam de prédio em prédio, de porta em porta, cantando:

bolinhos e bolinhós

para mim e para vós

para dar aos finados

que estão mortos e enterrados

à vera à vera cruz

para sempre à mãe Jesus

truz truz

a senhora que está lá dentro

assentada num banquinho

faz favor de cá vir fora

p'ra nos dar um tostãozinho

No final de três a quatro horas a calcorrear as ruas de cada bairro, olhando de lado para os grupos rivais, lá conseguíamos o nosso pequeno pecúlio, constituído por alguns escudos e um saco cheio de castanhas, nozes e figos secos. Claro está que o mais precioso era o dinheiro. No meu último «bolinhos e bolinhós», o meu grupo, formado por sete miúdos, ainda conseguiu a quantia de 14$00, uma verdadeira fortuna. Correu bem aquela noite de 31 de Outubro de 1970.
Se a tradição esquecida pudesse avançar no tempo, ultrapassar o esquecimento e o desprezo pelo que é profundamente português, e hoje, à hora em que escrevo estas palavras, Coimbra estaria enxemeada de pequenos grupos de crianças, dezenas e dezenas de grupos, transmitindo à noite da cidade luzes misteriosas e cantares lúgubres, saídas de gargantas cheias de alegria e juventude.

Nesta noite de finados, Coimbra cheirava a broa
Lá morava e mora gente boa.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

QUANDO UM OLHAR SE TORNA ARTE

Há mais de mil anos já me chamei Alavarium. Era eu então um pedaço de terra à esquina do oceano, sem qualquer valor. Era minha dona a Condessa Mumadona Dias, que por achar em mim pouco préstimo, doou-me aos frades de Guimarães. Passei a ser um couto, onde em mim esgravatavam umas ervas. Mas eu escondia uma riqueza, que embora se encontrasse a céu aberto, ninguém via.
Veio então o ano de 1143 e eu tornei-me portuguesa...mas mantive-me um couto.
Um homem, de nome Dinis, rei deste Portugal, teve a visão suficiente para descobrir em mim a riqueza quieta, que a céu aberto se encontrava e que ninguém via, excepto ele- o sal.
Deixei de ser couto e passei a pertencer à coroa de Portugal.
Nasceram os marnotos e a paisagem de mim alterou-se. Eu e os marnotos casá-mos e nasceram as salinas, e todo o horizonte em mim se vestiu de branco.
Fui-me tornando cada vez mais importante.
Passaram alguns séculos. E eu, quando julgava que ia cair de novo no esquecimento, porque o rei agora acabara de matar o meu mais distinto representante- o meu duque, eis senão que esse rei, de nome José, me elevou à categoria de cidade, em 1759.
Desde então tenho crescido e tornado bela. Igual a mim não existe outra em Portugal.
Há poucos dias, neste ano de 2008, vi um homem a tirar-me fotografias. Claro, já me tiraram fotografias milhares de homens, que a minha beleza, sei-o bem, é deveras cativante. Mas porque era de noite, despertou-me a curiosidade ver aquele homem, envolvido pelas sombras, de olhar brilhante, a veia a pulsar de sentimento artistico, com a câmara apontada para a velha Rua dos Arcos, lançando um olhar lânguido ás águas paradas da minha ria.
Segui-lhe os passos. Entrei-lhe em casa. Roubei-lhe o sentimento que a sua retina captou no momento em que, no meio da noite, por mim e em mim fazia arte.
Chamo-me agora Aveiro
a cidade portuguesa dos canais, onde os artistas, à noite, confessando os seus amores aos meus velhos e adorados moliceiros, me amam e assim ainda mais bela me fazem.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

SOBRE O QUE O ROSTO NÃO ESPELHA E A ALMA ESCONDE

Em consonância com o comentário que foi feito à minha anterior peça, que só agora li, hoje, o meu amigo monteiro, encontrando-me, disse que tinha ido ao meu blogue e que ficara admirado por eu ser fã dos Deep Purple.
- «Quem olha para ti, nunca irá supor que és admirador dos Deep Purple»- disse ele.
Os elementos do grupo ainda mexem, e muitíssimo bem o fazem. E são todos eles homens que andam na casa dos sessenta, mais velhos do que eu cerca de dez anos. Portanto, somos da mesma geração. E a nossa geração, artisticamente, enriqueceu muito o mundo. Dos maravilhosos anos 70 do século XX ficarão saudades para todo o sempre.
Em relação ao facto de o meu rosto não traduzir os meus gostos musicais, pergunto se , pelo menos, ele traduzirá algum vislumbre por arte?!
Na realidade, muitas vezes me olho no espelho, e eu próprio, no rosto que olha para mim, me não reconheço. Tenho umas feições duras, antipáticas...mas sou melaço!
Os jovens de hoje terão de se habituar à ideia de que, nos homens e mulheres que encontrem na casa dos 50/60, poderão estar na presença de um ou uma potencial rockeiro ou rockeira.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

QUANDO A MAGIA SE TRANSFORMA EM MUSICA



teclados- John Lord
viola solo- Ritchie Blackmore
viola baixo- Roger Glover
bateria- Ian Paice
voz- Ian Gillan

1968, o ano em que as musas amaram profundamente o planeta Terra, e lhe ofereceram todo o seu poder de criação- DEEP PURPLE

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

DO TEU CORAÇÃO DE ANGOLA


Há dias tive uma inesperada conversa com um amigo acerca da descolonização. Trinta e quatro anos depois do 25 de Abril ainda em Portugal se fala sobre os países africanos, que outrora foram colónias de Portugal. E fala-se, porque muitos dos portugueses de hoje, já foram cabo-verdianos, são-tomenses, guineenses, moçambicanos e angolanos, em tempos anteriores a 1974. Mas porque eram brancos, filhos de portugueses, viram as suas vidas sofrerem rudes golpes, ao serem obrigados a abandonarem o chão que os viu nascer, sem perceberem porquê.
Lembro-me muito bem do enorme fluxo de retornados, que a partir de 1975, começou a chegar a Portugal. Foram tempos muitos difíceis para eles, e para nós, os portugueses que nunca haviam saído da metrópole. Nós, de África tínhamos medo, porque era lá que iam morrer os nossos filhos, pais ou irmãos, enquanto soldados do exército português. Para os «eles», África era uma terra de beleza, porque era a sua terra.
Com o passar do tempo, nós, dos retornados, começámos a desconfiar, porque criou-se a ideia de que a eles estavam destinados os empregos que a nós faziam falta.
Nem uns nem outros tinham culpa. Culpada foi a estrutura mental, o pensamento que coordenava o país, que criou a figura do retornado.
O amigo com quem há dias tive a conversa sobre a descolonização foi retornado. Nasceu em Angola. 1974 foi encontrá-lo com cinco anos de idade.
Nos anos subsequentes ao 25 de Abril falei com muitas pessoas que tinham vindo das ex-colónias; há muitos anos que este tema não era assunto das minhas conversas...até hás alguns dias. E nunca senti a dimensão daqueles dramas, como me foi dado sentir com a conversa que entabuei com o meu querido amigo.
Falaste comigo como nunca antes havias falado. A tua expressão transmitia sofrimento, a dor de se deixar a terra que se ama, o partir para um mundo que para nós não tem qualquer sentido, o reconhecer agora o quanto os teus pais terão sofrido, por terem sido obrigados a deixarem tudo quanto haviam construído, o peso das recordações dolorosas, retratos de uma vida de amargura, sem nada de errado teres feito para a mereceres.
E impressionou-me o teu despertar para o maiombe angolano, apenas porque ouviste um simples som, que despertou em ti a canção da selva, essa canção que guardas no teu coração, esse coração de Angola.
Sensibilizou-me a memória que, carinhosamente guardas, do pequeno «Cabinda», o miúdo angolano que tiveste vontade de trazer para Portugal há meia dúzia de anos, quando foste feliz a trabalhar algum tempo na terra do teu coração.
Honraste-me com as lágrimas que vi aflorarem aos teus olhos, ao constares-me tudo isto, porque sei perfeitamente que só perante um teu verdadeiro amigo a tua alma se solta, e deixa escapar livremente a nobreza que guardas ciosamente.
Meu muito grande e querido amigo...de Angola.

sábado, 11 de outubro de 2008

SE O CÉU DESCESSE AO MAR...


Perdi-me! A falta de orientação tem vindo a aumentar em mim. É como se eu fosse uma bússola, cujo permanente uso a tenha desgastado, até que chegou aquele dia...a bússola perdeu o norte. E eu saí da minha história.
Eu deveria contar que isso, mais cedo ou mais tarde, viesse a acontecer. Mas é muito difícil aceitar-se o acumular dos anos...principalmente eu!
Nasci em 1902. Já levo 106 anos de criação. Já tenho idade para ter juízo e deixar-me estar sossegado no meu éden. Mas a minha natureza é esta.
Perdido, deveria sentir-me, no mínimo, deslocado. Mas não! Estou perfeitamente familiarizado com o meio que me rodeia.
É que no meu caminhar sem rumo, vim parar a um porto. Um porto de mar. Fui conduzido para ele por uma brisa suave. O cheiro a mar inundou-me as narinas. Embora fosse de noite, ao longe eu vi luz espelhada na água mansa de um mar que eu não conheço. Aproximei-me rapidamente e fiquei extasiado. Á minha frente, três veleiros resplandecentes de luz, como que saídos do pincel de artista de profunda alma, seduziam-me, encantavam-me...dominaram-me.
Estava feliz, porque afinal, ao fim de tanto tempo, tinha encontrado a minha história.
- Encontrei-a, não encontrei?- perguntei eu, ansiosamente, à brisa que me fazia companhia.
- Não, não encontraste- respondeu-me a brisa, tristemente.
- Não? Mas então, aquela maravilha que vejo daqui, aqueles três veleiros, maravilhosamente iluminados, sobressaindo na neblina ligeira de uma noite escura, como uma visão celestial, não é um quadro da minha história?
- Não, meu amigo. Aquela maravilhosa visão não pertence à Terra do Nunca. Ali é um porto de Portugal.
Já não tenho forças para continuar a busca da minha história. Mas não faz mal, pois sendo verdade o que diz a minha amiga brisa, que aqui se chama Portugal, é este país suficientemente belo para nele eu me sentir como se na minha história estivesse.
Se virem por aí a Wendy ou a Sininho, digam-me.
Foi pena não haver nenhum artista, que ali estivesse e para sempre captasse a imagem que me tornou feliz: Os três veleiros, que do interior da noite, envoltos numa luminosidade cuja proveniência desconheço, me chamaram e me acolheram.
Eu vivo agora nessa imagem, como se ainda vivesse na Terra do Nunca.

Peter Pan

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Aveiro, 16 DE MAIO DE 1828 (CONCLUSÃO)












Aveiro, 08 de Outubro de 2008.
Ainda hoje o canal central da ria de Aveiro viu alguns moliceiros dormitando sobre a sua água, descansando da faina do transporte de turistas, que alegremente, durante o verão, sulcaram as águas da ria, com câmaras de filmar em punho, apontando para tudo o que a vista alcança.
E antes deles, há muitos anos, foram os moliceiros instrumentos de duro trabalho, tendo, no entanto, por via, o mesmo canal e a mesma água.
E um dia houve, um só dia, período de vinte e quatro horas, em que o canal se engalanou, não de flores nem risos despreocupados, não do trabalho da apanha do moliço, mas de gritos de revolta, de coragem, a coragem dos que acreditaram que a força de um rei vinha de baixo para cima e não de cima para baixo.
E alguns desses nas mãos do carrasco entregaram a sua maior fortuna. E foram chorados...e foram lembrados, mas porque de muitos homens a história não fala, e se os omite alguma razão haverá, esses, a quem o carrasco a vida levou, foram esquecidos.
Cento e oitenta anos depois do 16 de Maio de 1828 Aveiro floresceu. Dizem que esta cidade dos canais é um dos berços da liberdade. Dizem-no, referindo-se aos congressos de oposição democrática que aqui tiveram lugar, em 1973, em plena ditadura fascista, e que criou algumas convulsões sociais. Eu concordo que Aveiro é um berço da liberdade, mas é-o há muito mais do que apenas 35 anos. É-o há 180 anos, quando o Desembargador Joaquim José de Queiroz chefiou o movimento revolucionário, apoiado pelo povo e pelo Batalhão de Caçadores Dez, lutando pela Carta Constitucional que democratizava o poder régio, opondo-se energicamente à monarquia absoluta, da qual foi último representante D. Miguel.
A revolução de Aveiro incendiou o coração de muitos liberais de então. Nos compêndios de história apenas se alude a movimentos liberais por todo o país em 1828, mas em nenhum, se diz, especificamente, que foi em Aveiro que esses movimentos começaram.
Aveiro pode orgulhar-se de ter tido, em determinado período da nossa história, a força da iniciativa. Mas não se orgulha, porque esqueceu. Não todos os aveirenses, decerto, e a testemunhá-lo estão aqueles cravos brancos, fresquissímos, que fomos encontrar no monumento funerário.
O António Henriques e eu abraçámos esta pequena causa, que foi a de trazer à memória colectiva esse dia de glória e os nomes dos que por esse dia morreram.
Na cidade existem pelo menos três estátuas que lembram figuras que enalteceram Aveiro e a sua história. Uma delas, a José Estevão, representa um homem de letras, mas também um homem de armas, que arriscou a vida aquando do cerco do Porto, quando as tropas absolutistas sitiaram na Invicta o exército liberal. Foi pois José Estevão contemporâneo dos homens que história, em Aveiro, esqueceu.
Nas fotos em cima, captadas pela máquina do António Henriques, é apresentado o único monumento existente na cidade, que faz uma singela alusão ao 16 de Maio de 1828, em Aveiro. Nele estão inscritas as seguintes palavras:
«Aos aveirenses que sofreram pela liberdade».
Este obelisco foi eregido pelo Clube dos Galitos, no ano de 1909, e encontra-se em frente à sua sede, junto aos Arcos.
Na minha modesta opinião, seria bonito, por parte da Câmara Municipal, levantar um pequeno monumento à memória do povo aveirense da segunda década do Séc. XIX, pelo acto heróico de que foram protagonistas, acaso a história interesse ás nossas actuais vidas.
E também à memória dos seis aveirenses enforcados e decapitados na Praça Nova, no Porto, em 1829.
Aos seus nomes a glória.
Seria bom que este desejo de há século e meio não fosse esquecido. Eles merecem-no.
Fareleira Gomes.


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

AVEIRO, 16 DE MAIO DE 1828 (PARTE III)












Através da perspectiva do António Henriques, são apresentadas quatro fotografias do monumento funerário, existente no Cemitério Central de Aveiro, em memória dos seis mártires da liberdade. O António Henriques tirou as fotografias por volta das onze da manhã. Deparámo-nos com um pormenor que muito nos sensibilizou: havia poucas horas, alguém depositara no monumento cravos brancos, que estavam fresquíssimos, como se pode ver numa das fotografias. Alguém a quem, decerto, aquele monumento ainda muito diz. Não poderia a nossa chegada ter sido mais oportuna.
No monumento existem duas inscrições (ambas de 1865), onde se pode ler o seguinte:

1ª- «Os ossos aqui têm a alma. Seis ilustres varões por quem, fremente, a liberdade chora. Atroz delírio. Neles puniu o esforço independente e heróis os fez as palmas do martírio. Fique a sua lembrança eternamente nos nossos corações, na pátria história. Paz aos seus restos. Aos seus nomes glória».

2ª- «7 de Maio de 1829
Francisco Manuel Gravito da Veiga e Lima
Manuel Luís Nogueira
Clemente de Melo Soares de Freitas
Francisco Silvério de Carvalho de Magalhães Serrão

9 de Outubro de 1829
Clemente de Morais Sarmento
João Henriques Ferreira»


D. Miguel enviou tropas, que saindo de Lisboa, marcharam para o Porto, comandadas por um excelente estratega militar, o General Póvoas. Por seu turno, D. Carlota Joaquina enviou ordens, ordens de sangue...fazer muito sangue, cortar cabeças... a primeira a do Desembargador Joaquim José de Queiroz.
E após renhidos combates entre tropas fiéis a D. Miguel, e as hostes liberais, tendo por mentor o Desembargador Joaquim José de Queiroz, de Aveiro, numa antevisão da guerra civil que estava para chegar, os liberais foram derrotados.
Alguns dos cabecilhas da revolta conseguiram fugir para a Galiza. Entre eles figurou o Desembargador, que na fuga, se uniu a muitos dos soldados do Batalhão de Caçadores 10, recusando a fuga no navio britânico Belfast, que o aguardava ao largo do Porto.
No entanto, a alguns dos responsáveis revolucionários aveirenses, lhes não foi possível alcançarem porto seguro. Foram eles: Francisco Manuel Gravito da Veiga e Lima, Manuel Luís Nogueira, Clemente de Melo Soares de Freitas, FRancisco Silvério de Carvalho de Magalhães Serrão, Clemente de Morais Sarmento e João Henriques Ferreira. A estes seis lhes ficou reservado o patíbulo, no qual, no ano seguinte, os seus corpos baloiçaram.
Seguidamente, e por ordem de D. Carlota Joaquina, foram as suas cabeças decepadas e enviadas para Aveiro, onde foram espetadas em estacas e exibidas nas ruas da cidade, para exemplo de todos. Por este horrível acto, ficou a revolta de Aveiro conhecida como «A Revolta dos Cabeças Cortadas».
Para sempre pendeu a condenação à morte do Desembargador Joaquim José de Queiroz, julgado pela Alçada régia, que ainda aguarda cumprimento. (continua em próxima edição).




terça-feira, 30 de setembro de 2008

AVEIRO, 16 DE MAIO DE 1828 (II PARTE)

Na fotografia, tirada pelo António Henriques (este foi o melhor plano possível), é apresentada a placa da Rua Batalhão Caçadores 10, que em letras já muito sumidas, como sumida está a memória dos aveirenses, diz o seguinte: «Batalhão de Caçadores 10, a primeira unidade militar que levantou o grito de revolta contra a tirania absolutista em 1828»




Possuído por um profundo sentimento de revolta, por ver que a monarquia absoluta estava de regresso a Portugal, com a dissolução da câmara de deputados em Lisboa, na qual tivera assento, o Desembargador Joaquim José de Queiroz, na sua casa no Lugar de Verdemilho, em Aveiro, planeou um golpe que travasse os intuitos absolutistas do infante D. Miguel, agora regente do reino de Portugal, e da sua mãe, a rainha viúva D. Carlota Joaquina.
Nesse sentido reuniu-se com proeminentes personalidades aveirenses, de forma a persuadi-los a integrarem um movimento de cariz revolucionário. Á causa aderiu também o Batalhão de Caçadores 10, de Aveiro.
Em pouco mais de dois meses, do planeamento se passou à acção.
Assim, no dia 16 de Maio de 1828, em Aveiro, que como cidade já contava sessenta e nove anos, pela manhã, os aveirenses foram acordados com os sinos a tocarem a rebate. A população veio para as ruas e aglomerando-se a todo o comprimento do canal central, gritaram bem alto «vivas » à infanta D. Maria (futura rainha D. Maria II), e morras a D. Miguel e à rainha megera D. Carlota Joaquina, numa corajosa ostentação de desagravo aos ideais absolutistas, e de total lealdade ao pensamento liberal. O povo viu então o Batalhão de Caçadores 10 embarcar em moliceiros e outros barcos, com destino a Ovar. Muito do povo embarcou com os militares do batalhão de Aveiro.
Chegados a Ovar, marcharam para o Porto, onde outras unidades militares se juntaram ao Batalhão de Caçadores 10, tendo sido criado um governo provisório de índole liberal.
As cartas tinham sido lançadas. O liberalismo marchava triunfantemente.
No entanto, a loucura que a revolta levou ao sangue que, forte, corria nas veias, retirou esclarecimento ás mentes, que assim subestimaram o poder da reacção absolutista.
Para o liberalismo se implementar eram exigidos mártires, e esses ainda não existiam. Não estava longe a sua hora. (continua em próxima edição)

sábado, 27 de setembro de 2008

AVEIRO, 16 DE MAIO DE 1828


Talvez por, neste nosso país que é Portugal, me sentir privilegiado, por pertencer ao grupo dos portugueses vivos que viveram a nossa revolução de Abril, no meu caso, na minha querida cidade de Coimbra,
é que decidi escrever sobre esta data,


que algo trouxe a esta maravilhosa cidade de Aveiro, há 180 anos. Pedi então ao meu amigo António Henriques que se munisse da sua máquina e partíssemos em busca da história, pedido a que ele acedeu pronta e entusiasticamente. E das catacumbas da história desenterrámos o registo fotográfico que se vai apresentando. Pode parecer tétrico o que em Aveiro existe que se relacione com a questão, mas é precisamente o que existe. Nada mais!
Corria o ano de 1828. D. João VI, rei de Portugal, falecera havia dois anos. O sucessor directo ao trono, D. Pedro IV, acumulava o trono do Brasil, ao qual dera a independência havia seis anos. Portugal estava entregue à regência de sua irmã, a infanta D. Isabel Maria. No entanto, o seu governo carecia de uma mão firme, para colocar ordem nos seus ministros liberais, entusiasmados com as mudanças implementadas pela recente Carta Constitucional ainda do tempo do falecido monarca D. João VI. Nesse sentido, D. Pedro IV, do Brasil, resolveu chamar ao reino o seu irmão, o infante D. Miguel, que se encontrava exilado na Áustria, ainda por ordem do já falecido pai de ambos, depois dos fracassados golpes absolutistas que ficaram conhecidos como «Vilafrancada» e «Abrilada».
E assim, em Fevereiro de 1828, D. Miguel chegou a Portugal, com a obrigação primeira de jurar a Carta Constitucional, que fez...mas jurou falso. E a primeira prova das suas verdadeiras intenções, aconteceu em Março desse ano, um mês depois de ter chegado a Portugal, ao dissolver em Lisboa a câmara de deputados.
Nessa câmara, em representação de Aveiro, tinha assento, como deputado, o Desembargador Joaquim José de Queiroz, com uma prestação bastante activa, que em muito se chocou contra o cariz profundamente absolutista da rainha viúva, D. Carlota Joaquina.
Câmara dissolvida, deputados recolhidos às suas respectivas regiões. O Desembargador Joaquim José de Queiroz regressou a Aveiro, à sua casa do Lugar de Verdemilho. No entanto, ultrajado com tão vil acto, corria-lhe nas veias o sangue apressado. (continua)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

CONJUNTO TEYA


A minha juventude deu-me a conhecer gente que me fez extremamente feliz. Gente como os meus colegas de palco no grupo de teatro amador «Os Tibúrcios», a que já fiz alusão, ou gente como a rapaziada que comigo foi cúmplice em alguns muito bons momentos de palco...na música.
Refiro-me concretamente ao conjunto «Teya», da Cortiçada, ali bem pertinho de Campo de Besteiros, no Concelho de Tondela.
Corria o ano de 1977. Tinha eu então 21 anos de idade. Embora eu não fosse o baterista efectivo do grupo, foi comigo à bateria que o Teya colocou no seu reportório musicas dos Credence Clearwater Revival e do Carlos Santana. E tentámos tocar Deep Purple. E digo «tentámos», porque Deep Purple é sinónimo de Júpiter, se Júpiter tivesse sido o deus da música.
Com o Fernando Ferreira nos teclados, o Altino na viola ritmo, solo e voz, e o Carlos Ferreira no baixo, puxando pelos amplificadores Farfisa e puxando por mim, e eu por eles, vimos deliciados a receptividade do público. Fizemos furor.
Era uma época em que ainda se não sabia o que era uma mesa de mistura, pelo menos ao nível do nosso grupo, um conjunto não muito abastado. Cada instrumento tinha a sua amplificação individualizada de todos os outros. Para a voz existia uma amplificação própria. E claro, a bateria era pura acústica. As baquetes tinham de ser duras nas peles. O pé precisava de ser rijo no bombo. O meu bombo era bem audível.
O Teya fez escola naquela região. Os que hoje estão na casa dos cinquenta, e que ainda por ali vivem, recordam com saudade o conjunto que lhes fazia agitar o sangue nas veias. Ainda hoje, quando recordo o Teya, sinto o batimento cardíaco acelerar.
Se há coisas de que me orgulho, uma delas é de ter conseguido com que aqueles musicos extraordinários me tivessem aceitado no seu seio, é a de ter tocado, com sucesso, NO TEYA.

sábado, 20 de setembro de 2008

MANHÃ DE HISTÓRIA

Acabei de chegar a casa. Na companhia do meu amigo António Henriques, ele munido da máquina fotográfica e eu do roteiro mental, percorremos alguns locais de Aveiro, em busca de quatro pontos específicos, espalhados por Aveiro, interligados entre si por uma data histórica, triste, mas heróica, que nos fala de liberdade e morte. Uma data, um acontecimento, barbaramente esquecido, que hoje tentámos desenterrar das fundações profundas da história, e que, brevemente, traremos à luz do dia e ao conhecimento dos homens, dos aveirenses, que sem qualquer respeito pela memória colectiva e local, o esqueceram.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O DESPERTAR DO APELO ÁS LETRAS


Tudo na vida tem um principio. A própria vida teve um principio. E cada um de nós tem um momento certo, o primeiro, que deu início ao desencadear dos segundos, esses milhões, que nos trouxeram até a este preciso momento. O meu primeiro segundo, aconteceu algures, nas primeiras horas do dia 30 de Abril de 1956.
Mais fácil é para nós determinarmos o momento exacto do nosso nascimento, do que definir o primeiro momento dos muitos nascimentos que em nós aconteceram. Porque em nós muitas coisas nasceram, entretanto.
Por uma casualidade, sei o momento certo em que em mim nasceu o amor pelas letras, muito embora o já tivesse, inconscientemente.
Foi num dia da primavera de 1973. Frequentava então o antigo 4º ano dos liceus, no Liceu D. João III, em Coimbra. Existia um professor de português, orientador de todos os professores daquela disciplina no liceu, e que por sinal era o meu professor de português- o Dr. Margarido. E o Dr. Margarido, não sei porque razão, resolveu dar o mesmo tema a todas as turmas do 4º ano
para que fosse feita uma redacção. Já não me lembro qual era o tema. O que recordo, com muito orgulho, é que a minha redacção foi a que teve a melhor nota do liceu.
Para um adolescente, que eu era, este acontecimento teve uma importância crucial para a minha vida. Não que dele viesse a obter algum proveito económico, que a vida não me levou por esse caminho, mas preencheu-me o ego, e fez-me ver que, se calhar, não tinha sido uma mera casualidade o facto de eu ter redigido a melhor redacção. A tal ponto me deu força, que um mês depois eu estava a criai o meu primeiro livro- O Primeiro Amor da Adolescência, era o seu título. Perdi-lhe o rasto, mas não mais o esqueci. Eram oitenta páginas, que demoraram três meses a ser escritas.
Não mais me desliguei da lapiseira e do papel. No entanto, por varíadissimas razões, a chama da escrita criativa apagou-se do meu intelecto. Até aos meus quarenta anos. Aí senti uma pressão enorme a crescer, a qual tinha de libertar. Em Dezembro de 1996 comecei a escrever...e não mais parei. Os meus mundos, tenho-os visto ganhar consistência. As personagens têm-se multiplicado. Hoje são uma multidão que me acompanha e exige mais companhia. Editar?
Em Portugal, os autores pertencem a uma elite da qual eu me encontro a uma incomensurável distância. Sou um anónimo sem a obsessão de se tornar conhecido. Acredito profundamente que um dia irá existir um descendente meu, que se irá envolver com editoras, tendo por base os romances que vou compondo.
Por agora, do meu trabalho, na solidão do meu canto, obtenho a enorme felicidade que sinto na interacção que mantenho com o António Avilar, ou o Álvaro Santa Cruz, o Serôdio Velasquez, o Masahemba, ou ainda o doutor Joaquim Lopes, a Maria Clara, o Jack Horn ou o Mão de Mula, algumas das muitas personagens que me fazem rir, chorar...sentir-me realizado!
Obrigado Dr. Margarido.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

CORAL INFANTIL VERA CRUZ



Ao chegar a Aveiro, em 1985, trazia comigo uma grande saudade: dar continuidade à minha actividade de musico. A última vez que me vira envolvido pelas vibrações de um amplificador, e que sentira nas mãos a resistência da pele de uma tarola, já fazia três anos. Por um capricho do destino (ou talvez não), fui, pouco a pouco, me dirigindo para o local de onde surgiria a oportunidade de voltar a tocar. Demorou quatro longos anos, mas aconteceu. Conheci o Tó Zé e a Elsa. E palavra puxa palavra chegámos à conclusão que tínhamos algo em comum- o gosto pela execução musical. No entanto, não concebíamos formar um grupo musical. Esse não era um projecto viável. E foi nessa base que criámos algo muito mais enriquecedor. Fundámos o Coral Infantil Vera Cruz. Conseguimos convencer pais, que tivessem filhos em idade escolar, que já soubessem ler, a experimentar porem os seus filhos a cantar. E, evidentemente, que a ideia agradasse ás crianças. E em pouco tempo tínhamos um grupo de cerca de trinta crianças, com quem poderíamos trabalhar. Enquanto escolhíamos os miúdos, fazendo uma pré selecção, tratámos de encontrar uma teclista e um guitarrista. E ela apareceu. Aí tinhamos nós então o grupo formado- o Tó Zé na viola baixo (substituído várias vezes pelo Nuno Albuquerque ou pelo Carlos Ferreira), e nas teclas, o Nando na viola ritmo e solo, a Paula nos teclados (posteriormente substituída definitivamente pelo Pedro), a Elsa como maestrina e eu na bateria.
O nosso objectivo era, e foi plenamente conseguido, fazermos letras para as adaptar a várias músicas. E as músicas foram surgindo. Tocámos temas da pop, reggae, rock, blue e country, e músicas de natal. A Elsa escreveu algumas músicas inéditas.
A Elsa Martins, uma compositora extraordinária, uma ilustre desconhecida.
Fizemos ainda um medley composto por músicas do cancioneiro aveirense-13 minutos ininterruptos de música popular da ria e dos moliceiros, que muitas horas de ensaio nos levou, até estar pronto a ser apresentado.
A nossa primeira actuação aconteceu no dia 20 de Dezembro de 1989, e a última no dia 17 de Junho de 1995. Foram cinco anos e meio de espectáculos deliciosos, momentos de muita magia. Já por muito menos vi imensa publicidade.
Considero que o Coral Infantil merece ser recordado neste meu espaço, não só pelo óptimo trabalho que todos executámos, mas, principalmente, pela dedicação e empenho que todas as nossas crianças tiveram, tanto nas incontáveis horas de ensaio, como no entusiasmo que sempre demonstraram em palco.
Essas crianças, hoje homens e mulheres, com variadíssimas actividades, a quem perdi o rasto a quase todas.
Homens e mulheres, que sei recordarão com saudade, com carinho, e decerto um brilhosinho nos olhos, o Coral Infantil Vera Cruz, ao qual deram alma.
A todos, por onde quer que andais, o meu obrigado pelo brilho que emprestaram ás horas que eu, sentado atrás da tarola, vivi, marcando o ritmo e o compasso do encanto que de vós emanava.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

CIDADE AGRESTE


vida agreste, vida sem cor, esta cidade
que me seduz e embala, me amortalha
e sufoca o pensamento de ansiedade
me dá horizontes de muralha

em ti vejo alegres corações
que passam, felizes cantando
carregados de imensas emoções
sorrindo, mordazes, amando

porque razão me és tão hostil
serei eu filha de um vento norte
que a mim trouxe angústias mil
gélido, pai de pouca sorte

ou então presença que a ti perturba
por ser apenas eu, sem heranças, mas sem donos
que se distingue nesta envolvente turba
que acordada, permanece em profundos sonos

ir-me-ei embora um dia, cidade minha
quando do meu peito a solidão se afaste
e no meu rosto surja o porte de rainha
vencida a turba, que a meus pés se arraste

mundo não falta, onde eu me torne ardente
me perturbe de amor, e me faça calma
aí serei eu, aí serei gente
lugar de sonho, o reino da alma

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

NA TERRA MÉDIA, COM OS HOBBITS


Presentemente faço algo que nunca tinha feito antes: leio um livro depois de ter visto o filme baseado nesse livro. Condiciona-me, pois retira-me a faculdade de eu criar as minhas próprias imagens, sob a orientação do autor. Leio, e na minha mente surgem as imagens respectivas àquela passagem, existentes no filme; as personagens não têm o rosto que o meu imaginário lhes poderia dar, mas antes o rosto que surge na película. Em contrapartida, a obra ganha consistência, pois embora o filme seja soberbo, o livro ainda o é mais. Refiro-me à obra «O Senhor dos Anéis», e estou a ler- A Irmandade do Anel.
Já li, provavelmente, algumas centenas de livros e nunca me surgiu este título. Desconhecia-o por completo, até surgir o filme.
Mas o que na verdade pretendo realçar não é a obra em si, que nada tenho para acrescentar, mas reflectir um pouco sobre o autor, e no tempo em que a trilogia foi escrita.

John Ronald Reuel Tolkien iniciou a elaboração esta obra quando tinha 44 anos de idade. O mundo estava então no ano de 1936 e preparava-se para assistir ao mais mortal conflito armado, que o mundo jamais viu- a II Guerra Mundial. Portanto, e tendo em conta o que o autor escreveu como introdução ao livro, eu estou a ler, neste momento, palavras que foram escritas por volta de 1937/1938, dado ter terminado A Irmandade do Anel em 1939. As Duas Torres e O Regresso do Rei foram escritos no período compreendido entre 1939 e 1946, no decurso de todo o conflito. Isto é extraordinário. Como foi possível que um homem, vivendo num país bombardeado, tenha tido a alucinante capacidade para se desprender da terrível realidade, e criar uma obra fabulosa, tanto de estilo como de imaginação.
Falecido em 1973, Tolkien não teve a alegria de ver a sua obra na tela, dominando por algum tempo todas as salas de cinema do mundo. Impressionou-me saber que O Senhor dos Anéis, com cerca de 70 anos de existência, foi contemporâneo e rivalizou com Harry Potter, acabadinho de chegar ao mundo.
Se Tolkien criou o Frodo e o Gandalf numa fase conturbada do mundo, e logicamente, da sua própria vida, também J.K. Rowling, sua compatriota, concebeu Harry Potter, quando em Portugal iniciava um processo de divórcio, o que leva a supor que as dificuldades da vida aguçam o talento.
Tolkien, um homem maduro, professor de inglês arcaico na Universidade de Oxford, que viveu duas guerras mundiais, foi iluminado por uma inspiração que não está acessível a todos os talentosos: a de imaginar a imaginação.
Tolkien é o exemplo perfeito de como pode ser belo não deixarmos apagar-se a criança que existe em cada um de nós.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

NELSON ÉVORA, VANESSA FERNANDES, OBRIGADO!!!



A estes dois atletas portugueses, eu, como português, agradeço por terem tido a capacidade de acreditarem em si mesmos, e assim, levarem a bandeira portuguesa a duas cerimónias protocolares nos Jogos Olímpicos de Pequim.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Á BOCA DE CENA







OS TIBÚRCIOS


Foi durante os anos de 1975, 1976 e 1977, que eu tive o ensejo de sentir a emoção que se vive à boca de cena. Em Alfeizerão, terra que havia pouco tempo me acolhera no seu seio, fui encontrar um grupo de jovens dinâmicos, que respirando o recente sopro de liberdade, se lançaram na aventura de criarem um grupo de teatro amador. Cheguei a tempo de integrar esse grupo. É com imenso orgulho que aqui recordo que eu, bem como a minha mulher (que praticamente conheci em palco), fizemos parte do elenco do grupo de teatro amador- Os Tibúrcios.
Levámos à cena, no curto tempo de vida do nosso grupo, as peças- «O Crime da Aldeia Velha», de Bernardo de Santareno e «A Forja», de Alves Redol.
Nunca mais esqueci o roçar por mim do pano das banbinelas, o calor dos projectores, cuja luz sobre nós incidia, a mágica cor das luzes da ribalta, a cumplicidade com o «ponto», desgraçado, que tanto trabalho tinha, a nossa já grande capacidade de improvisação quando éramos vítimas de «brancas», por força da nervoseira que nos possuía, o nosso espírito de grupo, os votos de «merda para o espectáculo», momentos antes de de se abrir o pano, para dar sorte, e muito especialmente o sussurro da plateia, esse silêncio atemorizador e ao mesmo tempo desejado, que no final se transformava numa explosão de ovações. Momentos guardados para toda uma vida.
Moliére, que saudades tenho das tuas três pancadas!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

AFINAL ACONTECEU

Quando se tem 52 anos de idade, existem memórias de momentos ou situações vividas, que já se podem contar por três dezenas de anos o espaço de tempo que nos já separam delas. E é já tanto esse tempo, que acontece perguntar-me a mim próprio se realmente aconteceram, ou não será fruto da minha imaginação.
No já distante ano de 1977, frequentava eu o 2º ano do Curso Complementar dos Liceus. Preparava-me para fazer o Propedêutico; e tinha o sonho de seguir veterinária. Residia então em Alfeizerão. Como pretendia seguir para veterinária, consegui ser assistente do Dr. Vasconcelos, médico-veterinário na Quinta do Gorjão, em Alfeizerão (naquela época). Como que iniciei ali o meu estágio, mesmo antes de ter começado a licenciatura (que por circunstâncias da vida acabei por não fazer). Por tal razão começou a correr na aldeia que eu era veterinário, ou que tinha aspirações a tal. Auxiliava eu o Dr. Vasconcelos havia talvez uns três meses, quando a um Sábado do início da Primavera desse ano de 1977, encontrando-me eu em casa, bateram à porta, perguntando pelo doutor veterinário. A minha mãe ficou espantada e respondeu que ali não vivia nenhum veterinário. Mas a pessoa insistia que era ali sim senhor. A minha mãe, sabendo da minha acção junto do Dr. Vasconcelos, chamou-me então. Era para me dirigir à quinta do Gorjão, porque uma porca tinha ido à cobrição, morrera enquanto era coberta, e precisavam de saber se a porca podia ou não ser consumida. Os meus pais olharam para mim com desconfiança- vê lá rapaz o que vais fazer. E lá fui eu, num 2 cavalos, interiormente muito satisfeito por estar a ser considerado veterinário, mas apreensivo, pois não sabia o que havia de fazer à vida.
Lá chegado, levaram-me atá à porca, cuja carcaça se encontrava rodeada por três ou quatro pessoas.
E agora que fazemos, senhor doutor?
Mas que doutor? Eu não era doutor nenhum!
Não era o que se dizia pelas redondezas. Sempre a trabalhar com o Dr. Vasconcelos!!
Bem, alguma coisa tinha de ser feita. Pedi então que abrissem a bicha, para poder chegar a alguma conclusão, se é que seria capaz de tal. Pedi que me expusessem os pulmões, o que fizeram. E foi então que reparei que os pulmões da porca apresentavam muitas bolhas de líquido, algumas delas rebentadas. Recorrendo aos meus elementares conhecimentos da forma como funciona o organismo de qualquer mamífero, conclui que: 1º- a porca sofria de uma doença pulmonar, a julgar por aquelas bolhas que nos pulmões não deveriam existir; 2º- no esforço da cobrição, o animal morrera, provavelmente ao facto de algumas daquelas bolhas terem rebentado; 3º- o sangue, passando pelos pulmões, efectuando ali a troca gasosa, libertando o dióxido de carbono e recebendo o oxigénio, inevitavelmente, fora contaminado pelo líquido estranho ao organismo, existente nas bolhas, e como tal, contaminara a estrutura celular do animal, enchendo assim de toxinas toda a carne. O animal não estava próprio para consumo. Foi esse o meu veredicto...que foi respeitado, e a porca enterrada.
Na segunda feira seguinte, ao encontrar-me com o Dr. Vasconcelos, contei-lhe a minha odisseia, tendo-me ele dito então que eu acertara em cheio, pois a carne da porca estava mesmo contaminada, tendo a causa da morte, e baseado nas informações que lhe transmiti, sido uma congestão pulmonar, tendo-me dado os parabéns pela conclusão a que cheguei, e rindo-se pelo facto de eu ter sido considerado veterinário.
Esta recordação acompanha-me há 31 anos. Tantos anos, e sendo eu o único protagonista conhecido, que me interroguei já se não seria imaginação minha.
Até há três dias, em que, em Alfeizerão, me encontrei com o meu velho amigo Paulino, a quem não via há muitos anos. que ao ver-me disse: «Olha o senhor doutor!», tendo-me abraçado. Eu não percebi a exclamação, porque não sou doutor nenhum, e fiz-lhe essa observação.
- Então pá, não te lembras daquele dia em que foste chamado à Quinta do Gorjão, para dizeres se a porca que tinha morrido na cobrição se podia ou não comer?
- O quê? Ó Paulino, então tu estavas lá?
- Pois estava. Fui eu que abri a porca que tu mandas-te abrir. Não te lembras?
Olhem-me como a vida é, e como se encarrega de dissipar dúvidas. Afinal aconteceu!!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

ALFEIZERÃO, A MOURA DO OCIDENTE



No dia em que deixei de viver em Coimbra, 14 de Agosto de 1974, foi o dia em que conheci Alfeizerão. Dia triste, pois abandonava a minha cidade natal; no entanto, dia que se veio a revelar pródigo em enriquecimento, pois foi nele que se iniciou o processo da minha inserção numa nova sociedade, que começou por me chamar de «bimbo». Mas toda uma juventude muito agradável me aguardava. Se existiam tendências, que em Coimbra eu sentia existirem em mim, foi em Alfeizerão que tive a felicidade de as ver despontarem: a musica e o teatro.
Naquela época, Alfeizerão inseria-se na província da Estremadura. Hoje encontra-se na Região do Oeste. É como uma encruzilhada: está praticamente à mesma distância (14 kms) de Alcobaça, Nazaré e Caldas da Rainha. Percorrem-se apenas três quilómetros e alcançamos a bela praia de S. Martinho do Porto.
Na minha memória, Alfeizerão merece que eu me lembre dela, pois o que pensava vir a ser um cenário de imensa tristeza (a minha Coimbra ficara para trás), revelou-se-me, afinal, um período de muito enriquecimento pessoal.
Em Alfeizerão existe um castelo, um castelo mouro! Mas não há quem se interesse por isso. Nem o Prof. José Hermano Saraiva lhe fez uma visita. O castelo encontra-se numa colina, para poente, à entrada da vila, de quem vem da praia. Mas para o viajante, que bem vê a colina, ali lhe surge apenas uma mata cerrada. Nessa mata se esconde o castelo, que ainda apresenta restos dos torreões bem circulares. Sei bem que aquela colina muito tem para revelar, porque nela passei muitas horas, na companhia de outros jovens, fazendo as únicas (suponho eu) explorações que ali se fizeram. Começaram a surgir artefactos. Tivemos a responsabilidade de pararmos, e deixar que arqueólogos verdadeiros viessem. Nunca vieram. Todos os alfeizerenses sabem que a colina ,nas traseiras da igreja, é muito rica em história. Quais são, em Portugal, as localidades que se podem gabar de poder apresentar um monumento tão antigo, que resistiu à reconquista cristã?
Embora ninguém o saiba, é o castelo de Alfeizerão o seu ex-libris.
Não é por acaso, que no seu brasão, se apresenta uma meia lua árabe.
Para quem se interesse por estas coisas, talvez se interrogue porque razão aquele símbolo tão árabe, está presente no brasão de uma vila portuguesa, europeia?!
Quem por essa questão se interessar, que o pergunte à moura encantada, que certas noites surge ainda no castelo. Apenas precisa ter paciência...e alguma coragem, porque, pelo relatos que correm, essa moura, princesa do castelo, traída pelo seu amor, um cavaleiro templário, não tem os cristãos em grande conta!

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

NA VIELA

fotografia gentilmente cedida pelo António Henriques, amigo de muitas e boas horas.


Durante muitos anos vivi na viela. Se ás ruas das cidades chamamos artérias, por analogia aquela não passava de um vaso sanguíneo. Estreita, feia, definitivamente não me seduzia. De um e outro lado do vaso, dispunham-se as casitas, pequenas, comprimidas, quase se tocando. Quantas vezes, as vizinhas, à janela, tagarelavam de um e outro lado da viela, em voz baixa, sobre as questões sociais do dia, que ao vaso diziam respeito. Todos nos conhecíamos. Era quase um gueto, embutido na grande cidade. Conhecermo-nos bem uns aos outros tinha as suas desvantagens, pois não era possível existir grande privacidade, mas também se encontravam vantagens, pois nós, os da viela, éramos uma família.
Não me seduzia, mas era a minha casa. E foi-o durante muitos anos. Foi na viela que nasci e cresci. Não tinha espaço para jogar à bola, nem chão para o prego, pois no empedrado nem o mais hábil conseguía espetá-lo. À carica também não se podia jogar, pois em cima das pedras era impossível impulsionar as latichas de forma correcta, sem que fizessem ricochete e se desviassem da rota pretendida. Para brincar, nós, os garotos da viela, tínhamos de ir para um descampado existente ali perto. Com os anos, o chão do vaso deixou de me criar problemas, pois os meus interesses passaram a ser outros, que transpunham a fronteira do meu exíguo espaço.
Arranjei um emprego numa tipografia. Alcancei a minha independência económica, muito embora parte da minha féria a entregasse à mãe.
Passaram-se quatro anos. Na tipografia ganhara o meu espaço. Devagarinho, ao ritmo da vida, encontrei-me com a categoria profissional de tipógrafo linótopista. Trabalhava com um linótipo, máquina enorme, que ao mesmo tempo que derretia barras de chumbo, transformava o chumbo derretido em letras, as letras que eu ia escrevendo no enorme teclado. Ganhara o meu lugar na tipografia. Tornara-me necessário.
E foi por essa altura que um dia vi um miúdo na viela, encostado à parede velha de umas das casas. Era desconhecido. Tinha um olhar triste. Vendo que eu o observava, desviou o olhar para o chão, envergonhado, querendo passar despercebido. Algo não estava bem com aquele cachopo. Meti conversa com ele. Tinha doze anos, já fizera a quarta classe, mas ficara órfão de pai recentemente. Começava o miúdo a conhecer o rosto da miséria. Como podia eu ir para a minha casa sossegado, sabendo da existência daquele drama, que fora encalhar na viela, sem que nada fizesse para o minimizar, que o destino fizera com que se atravessasse no meu caminho? Nesse mesmo dia falei com o meu patrão. Era um bom homem, o senhor Agostinho. E imediatamente se disponibilizou a arranjar lugar para o miúdo. Foi para mim uma grande felicidade ver, no momento em que lhe dei a notícia, observar a esperança a tomar conta daquele olhar até ali tão triste e desalentado. Se a tristeza tem de ter um lugar para existir, não pode ser, certamente, no olhar de uma criança.
Dois anos passaram e era um regalo ver o rapazito, muito dedicado, progredir no conhecimento dos assuntos relacionados com a profissão de tipógrafo.
Entretanto chegou o meu tempo de cumprir o serviço militar. Mobilizado para a Guiné, de lá regressei, fazendo parte da lista dos deficientes das Forças Armadas. Uma granada roubara-me o meu braço direito. Cheguei a Portugal meses depois do 25 de Abril. Zangado com a vida e com a minha sociedade, que não me acolhera com o respeito que eu sentia merecer, não quis regressar à minha cidade. Com a minha deficiência, originada na estúpida guerra, não havia lugar para mim na tipografia que um dia eu amei.
Passei a viver da mísera pensão que o meu país me ofereceu, como recompensa por lhe ter entregue a minha juventude, e de biscates que aqui e ali fui fazendo, e que as minhas limitações me permitiam fazer.
Muitos anos se passaram. Um dia, não há muito tempo, já perto dos sessenta, inscrevi-me numa excursão patrocinada por uma colectividade onde passava os meus dias. E inscrevi-me, porque essa excursão tinha como destino uma visita à minha cidade.
Tudo mudara. Praticamente que a não reconhecia. Os excursionistas tiveram três horas de liberdade, para irem onde bem entendessem. E eu, claro, enquanto os outros se deliciavam em visitar este ou aquele local, eu fui em busca da minha antiga viela. Deus meu, como tão depressa a encontrei. Mas daquele vaso, que foi a minha casa trinta e tal anos antes, apenas duas coisas não tinham mudado: a sua pouca largura e o empedrado do chão. Tudo o resto era diferente. Casas bonitas, muito comércio. Deliciei-me a pisar aquelas pedras, as mesmas que uma vez pisara, quando era jovem. A dado momento da minha visita imobilizei-me. À minha frente revelava-se uma bonita montra, a montra de uma tipografia. Tudo tão moderno, tão belo. E lá estava o meu velhinho linótipo, agora reduzido a uma belíssima maqueta. Fiquei-me ali a apreciá-la, recordando momentos tão antigos. Foi quando fui acordado por uma voz, que me dizia:
- é bonita essa maqueta, não é? Também a adoro.
Eu olhei para a pessoa que me dirigia a palavra. Era um senhor aparentando os seus quarenta e tal anos de idade.
- É sim, é muito bonito aquele pequenino linótipo.
- Ah, mas o senhor sabe que a maqueta é uma representação de um linótipo.
- Claro que sei. Há muito anos fui linótopista. E agora reparo que esta tipografia se chama «Agostinho». É engraçado, porque o dono da tipografia onde trabalhei se chamava Agostinho.
- E se não for indiscrição, onde se situava essa tipografia?- perguntou-me o senhor.
- Aqui na cidade.
- Então o senhor já morou nesta cidade?
- Já- respondi eu, com profunda amargura.
- E, se não for indiscrição da minha parte, onde morava?
- Onde? Aqui mesmo, nesta viela.
Senti que o senhor me colocava uma mão no ombro. Olhei para ele. Tinha os olhos marejados de lágrimas.
- Não me conhece?- perguntou-me ele, com a voz embargada.
- Não- respondi eu, confuso.
- Conhece sim! Eu sou o rapazito que o senhor levou pela mão, para a tipografia do senhor Agostinho. Ele já morreu há bastantes anos. Agora eu sou o dono da tipografia. Por onde tem andado? Que foi que a Guiné lhe fez?
- O que vê!
- Meu querido amigo, hoje regressou a casa. Venha, entre na sua tipografia.
Entrei.
A esperança que há muitos anos eu vira surgir no olhar daquele miúdo, sentia-a surgir agora no meu.
E a camionete da excursão, regressou ao seu local de origem, com um passageiro a menos.
Se aquele miúdo alguma coisa me devia, acabava de saldar a sua dívida, trinta e tal anos depois.
A minha vida recuperou a felicidade perdida, no mesmo local em que começara: na viela!

terça-feira, 29 de julho de 2008

PERCUSSÃO, COMPASSOS NUMA VIDA





Um jovem militar

um maduro cidadão do mundo.

Mafra, 1978- fanfarra da Escola Prática de Infantaria

Aveiro, 2005- baterista do Grupo Voces Carmeli

Dois momentos na vida de um homem, separados já por 27 anos.

Um bombo, uma tarola

A juventude que o levou à meia idade, transportando-o no tempo certo, no contra tempo, no compasso e ritmo, que sempre lhe embelezaram a vida.

Um jovem cidadão do mundo

um maduro militar

Tanto faz! De uma forma ou de outra, o homem continua a ser o mesmo.