terça-feira, 28 de outubro de 2008

QUANDO UM OLHAR SE TORNA ARTE

Há mais de mil anos já me chamei Alavarium. Era eu então um pedaço de terra à esquina do oceano, sem qualquer valor. Era minha dona a Condessa Mumadona Dias, que por achar em mim pouco préstimo, doou-me aos frades de Guimarães. Passei a ser um couto, onde em mim esgravatavam umas ervas. Mas eu escondia uma riqueza, que embora se encontrasse a céu aberto, ninguém via.
Veio então o ano de 1143 e eu tornei-me portuguesa...mas mantive-me um couto.
Um homem, de nome Dinis, rei deste Portugal, teve a visão suficiente para descobrir em mim a riqueza quieta, que a céu aberto se encontrava e que ninguém via, excepto ele- o sal.
Deixei de ser couto e passei a pertencer à coroa de Portugal.
Nasceram os marnotos e a paisagem de mim alterou-se. Eu e os marnotos casá-mos e nasceram as salinas, e todo o horizonte em mim se vestiu de branco.
Fui-me tornando cada vez mais importante.
Passaram alguns séculos. E eu, quando julgava que ia cair de novo no esquecimento, porque o rei agora acabara de matar o meu mais distinto representante- o meu duque, eis senão que esse rei, de nome José, me elevou à categoria de cidade, em 1759.
Desde então tenho crescido e tornado bela. Igual a mim não existe outra em Portugal.
Há poucos dias, neste ano de 2008, vi um homem a tirar-me fotografias. Claro, já me tiraram fotografias milhares de homens, que a minha beleza, sei-o bem, é deveras cativante. Mas porque era de noite, despertou-me a curiosidade ver aquele homem, envolvido pelas sombras, de olhar brilhante, a veia a pulsar de sentimento artistico, com a câmara apontada para a velha Rua dos Arcos, lançando um olhar lânguido ás águas paradas da minha ria.
Segui-lhe os passos. Entrei-lhe em casa. Roubei-lhe o sentimento que a sua retina captou no momento em que, no meio da noite, por mim e em mim fazia arte.
Chamo-me agora Aveiro
a cidade portuguesa dos canais, onde os artistas, à noite, confessando os seus amores aos meus velhos e adorados moliceiros, me amam e assim ainda mais bela me fazem.

2 comentários:

Monteiro disse...

é sempre um prazer colaborar contigo, sempre que precisares da minha humilde colaboração, "apita", estou sempre ao dispor de pessoas que admiro, que respeitam e me respeitam e com quem se pode ter uma conversa civilizada e extra profissional e acima de tudo com um minimo de cultura geral(percebes não é??)
Sem querer ser presunçoso ou imodesto, mas tu expressas-te pelo dom da palavra (escrita entenda-se) e eu expresso-me por uma paixão antiga, só agora revelada que é a fotografia e quero-te agradecer, por escolheres trabalhos meus, porque eu chamo-lhe trabalhos, :) para ilustrares o teu magnifico espaço, obrigado Amigo Poeta.

Poeta do Penedo disse...

Alguns anos depois descubro o teu comentário. Pode ter sido tudo menos falta de consideração. Obrigado pelas tuas simpáticas palavras. Na verdade tens arte no olhar. Mantém-te perspicaz. Um abraço.