sexta-feira, 17 de outubro de 2008

DO TEU CORAÇÃO DE ANGOLA


Há dias tive uma inesperada conversa com um amigo acerca da descolonização. Trinta e quatro anos depois do 25 de Abril ainda em Portugal se fala sobre os países africanos, que outrora foram colónias de Portugal. E fala-se, porque muitos dos portugueses de hoje, já foram cabo-verdianos, são-tomenses, guineenses, moçambicanos e angolanos, em tempos anteriores a 1974. Mas porque eram brancos, filhos de portugueses, viram as suas vidas sofrerem rudes golpes, ao serem obrigados a abandonarem o chão que os viu nascer, sem perceberem porquê.
Lembro-me muito bem do enorme fluxo de retornados, que a partir de 1975, começou a chegar a Portugal. Foram tempos muitos difíceis para eles, e para nós, os portugueses que nunca haviam saído da metrópole. Nós, de África tínhamos medo, porque era lá que iam morrer os nossos filhos, pais ou irmãos, enquanto soldados do exército português. Para os «eles», África era uma terra de beleza, porque era a sua terra.
Com o passar do tempo, nós, dos retornados, começámos a desconfiar, porque criou-se a ideia de que a eles estavam destinados os empregos que a nós faziam falta.
Nem uns nem outros tinham culpa. Culpada foi a estrutura mental, o pensamento que coordenava o país, que criou a figura do retornado.
O amigo com quem há dias tive a conversa sobre a descolonização foi retornado. Nasceu em Angola. 1974 foi encontrá-lo com cinco anos de idade.
Nos anos subsequentes ao 25 de Abril falei com muitas pessoas que tinham vindo das ex-colónias; há muitos anos que este tema não era assunto das minhas conversas...até hás alguns dias. E nunca senti a dimensão daqueles dramas, como me foi dado sentir com a conversa que entabuei com o meu querido amigo.
Falaste comigo como nunca antes havias falado. A tua expressão transmitia sofrimento, a dor de se deixar a terra que se ama, o partir para um mundo que para nós não tem qualquer sentido, o reconhecer agora o quanto os teus pais terão sofrido, por terem sido obrigados a deixarem tudo quanto haviam construído, o peso das recordações dolorosas, retratos de uma vida de amargura, sem nada de errado teres feito para a mereceres.
E impressionou-me o teu despertar para o maiombe angolano, apenas porque ouviste um simples som, que despertou em ti a canção da selva, essa canção que guardas no teu coração, esse coração de Angola.
Sensibilizou-me a memória que, carinhosamente guardas, do pequeno «Cabinda», o miúdo angolano que tiveste vontade de trazer para Portugal há meia dúzia de anos, quando foste feliz a trabalhar algum tempo na terra do teu coração.
Honraste-me com as lágrimas que vi aflorarem aos teus olhos, ao constares-me tudo isto, porque sei perfeitamente que só perante um teu verdadeiro amigo a tua alma se solta, e deixa escapar livremente a nobreza que guardas ciosamente.
Meu muito grande e querido amigo...de Angola.

2 comentários:

MM disse...

Caro poeta,

Não sou contemporâneo do fluxo dos retornados, mas reconheço que marcaram uma fase da nossa História.

Na minha família, os meus avós são retornados e o meu pai nasceu em Moçambique.

Escuto sempre com grande atenção as suas histórias sobre o continente africano e como era viver lá.

Pergunto-me se não estará de certa forma desaproveitada a experiência que tantos portugueses adquiriram em África, a qual parece não servir nem para alimentar culturalmente o país. É dado pouco tempo de antena a isso. Será tabu?

Votos de saúde e energia,

Marcelo Melo

poeta do penedo disse...

Caro Marcelo Melo, a figura do retornado, em 1975/1976, não era uma figura simpática para o Portugal daquele tempo.
O governo criou o IARN que subsidiava os retornados, e nós tínhamos a sensação de que o Estado se preocupava mais com os retornados do que com os «permanecidos».
Foram tempos de alguma tensão. Não me parece que a questão se tenha transformado em tabu. Se os retornados «caíram no esquecimento», talvez seja porque os permanecidos nunca tiveram a verdadeira noção do seu drama, e depressa a evolução da nossa sociedade delapidou essa lembrança.
Talvez seja porque os retornados, tendo de fazer pela vida, iniciando da estaca zero, talvez tenham também metido no fundo da sua memória as lembranças de tudo quanto foram obrigados a deixar para trás, para conseguirem alcançar uma plataforma de equilíbrio emocional.
Hoje, com a idade que tenho, compreendo melhor o difícil que terá sido, sentir o quanto era difícil dar um prato de sopa a um filho, depois de ter sido muito fácil oferecer-lhe um manjar.

briosas saudações meu caro amigo.