quinta-feira, 9 de abril de 2020

CRÓNICA DOS DIAS PARADOS


Ao iniciar-se este ano de 2020, no Ocidente, muito longe estava eu de imaginar que, logo a seguir, Ocidente e Oriente iriam ver cair as barreiras  geográficas e culturais, para todos no mesmo momento enfrentarem globalmente um mesmo inimigo. Essa realidade, que estava apenas a meio mês de distância, se ma tivessem colocado, teria pensado que essa mesma hipótese apenas existia na mente de um lunático, de um alienado, a não ser que o mundo viesse a ser alvo de um ataque alienígena.

            A natureza é uma colossal potência!

            Comecei este ano de 2020 a acompanhar atentamente as notícias que nos chegavam da Austrália, as quais já acompanhava pelos telejornais desde Setembro de 2019. No início deste ano o que de diferente nos chegou, além das imagens terríveis daqueles incêndios dantescos (fruto também das alterações climáticas), que consumiam as vastidões australianas, foi a notícia do número de mortos. Nas televisões a Austrália abria os telejornais.

            No dia 3 de Janeiro fui surpreendido com a notícia do ataque dos Estados Unidos ao Irão, em território iraquiano, um ataque cirúrgico, pois teve por alvo apenas a morte do general iraniano Qasem Soleimani, considerado um perigosíssimo terrorista pelos Estados Unidos, que então se encontrava em Bagdade, ataque que foi bem sucedido. Perante esta notícia fiquei bastante apreensivo, pois que pressentia que o Irão iria retaliar, e isso acontecendo, poderia dar origem a uma escalada grave de conflito. Aconteceu apenas um esboço disso já que não houve tempo para mais.

No dia 5 de Janeiro segui pela televisão, com imenso regozijo, os preparativos de partida do nosso Navio Escola Sagres numa viagem de circum-navegação, fazendo o mesmo trajecto que o nosso navegador Fernão de Magalhães fez há 500 anos, tendo por objectivo final encontrar-se na capital japonesa- Tóquio, aquando da realização dos jogos olímpicos deste ano, preparativos que tiveram por momento maior uma cerimónia presidida pelo nosso Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que proferiu um discurso patrioticamente emocionado.

E enquanto estas questões de alto nível aconteciam, e captavam a minha atenção, outras de muito menor monta também tinham lugar nas notícias e também sensibilizavam o meu sentido crítico, como a daquela condutora de Viana do Castelo, que em 6 de Janeiro, após ter provocado um acidente de viação, acusou uma TAS de 3,5g/l no sangue, ou no dia 9 de Janeiro a notícia da morte na cadeia de alta segurança de Monsanto do marroquino do Estado Islâmico que, há dois anos, através da internet, num apartamento de um prédio localizado no Bairro do Liceu, onde resido, recrutava operacionais para o Estado Islâmico, tendo sido preso em Paris, ou ainda a notícia do dia 17 de Janeiro, em que se informava que uma mulher, durante uma sessão de poder parental, num tribunal de menores português, atacou a juíza ao murro e ao pontapé…até que  chegou aquela notícia, no dia 21 de Janeiro, em que se dizia que no mercado de uma cidade chinesa, Whuan, um vírus de gripe desconhecido, proveniente de morcegos, começara a infectar humanos, estando a provocar uma epidemia na cidade.

Pois, com toda a espécie de bicharada que comem por lá, pensei eu, é natural que aconteçam destas coisas. Como diria o falecido António Feio, só comem mosquedo. Mas a epidemia começou a crescer e eu comecei a perder a vontade de fazer humor com a questão.

Depois aconteceu naquele dia, em finais de Janeiro, que uma chinesa de Whuan veio a uma reunião de trabalho à Alemanha. E na reunião infectou dois homens, que se tornaram dos primeiros infectados do tal vírus da gripe da China, o coronavírus COVID 19, na Europa. E aí a epidemia alastrou-se para a Europa e rapidamente para todo o mundo, crescendo de epidemia para pandemia.

E as notícias da Austrália e da morte do general iraniano dissolveram-se no caldo do COVID 19, e o nosso Navio Escola Sagres interrompeu a sua viagem de circum-navegação e deu meia-volta, de regresso a Portugal, pois nenhum porto do mundo o receberia, por um lado, e por outro porque o Japão se viu na necessidade de adiar os jogos olímpicos para o próximo ano.

E o vírus começou a apertar o cerco, paralisando o mundo, semeando o medo… e matando, com forte incidência em Espanha e Itália, e nós fomos obrigados a confinarmo-nos nas nossas casas, observando, ao longe, pela televisão, o mundo parado e vazio, enquanto pelas nossas janelas observávamos nas nossas ruas o mesmíssimo cenário.

Os dias, entretanto, têm-se arrastado devagar, numa vivência doméstica, tendo por agitação apenas e só as imagens e notícias que as televisões nos têm oferecido.

Nestes dias parados tomei consciência de que as preocupações que mais me afectam, as relacionadas com a acção deste vírus, me põem ao mesmo nível daquele ser humano que eu julgava que vivia num outro planeta que não o meu, tal era a diferença de vida entre nós. Mas afinal cheguei à conclusão de que esses, imensamente ilustres e famosos, são tão humanos como eu, no fundo tão vulneráveis aos ataques da natureza como eu, partilhando comigo, neste preciso momento,  os mesmos receios. Por estes dias o mundo ficou bem mais pequeno.

Olhando pela minha janela, em que, muito calmamente, observo as deliciosas árvores da minha rua, agora mergulhada em silêncio, vejo e ouço as rolas e os melros poisados nos seus ramos, desfrutando do conforto e segurança que aquelas árvores lhes oferecem, e penso o excelente que seria a humanidade aproveitar esta forte e abrupta desaceleração da actividade quotidiana, para reflectir, ao ver a poluição mundial a cair a pique, e pensar em aproveitar essa «calçadeira» para ressurgir com uma nova filosofia de vida, de forma a ajudar o planeta a recuperar de todas as nefastas agressões ambientais, reaprendendo assim a apreciar o canto de rolas e melros nas árvores das nossas ruas, no fundo amando genuinamente a natureza, que por estes dias tem andado zangada connosco.




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