segunda-feira, 19 de abril de 2010

UM TRONO PARA UMA SACERDOTISA





...Apenas haviam passado três noites sobre a primeira estadia do faraó no templo de Amon-Rá, e já ele regressava. Tal visita surpreendeu, pela positiva, o Sumo-Sacerdote Masahemba. Era sinal de que o faraó se sentira bem no templo por si orientado.
Masahemba foi receber o faraó, como era seu dever, e com muita satisfação cumpria esta sua obrigação. Mas notou que o faraó não o encarava com um semblante de simpatia.
- Sumo-Sacerdote, tens preparadas as sacerdotisas para me acompanharem nas preces, tal como mostrei ser essa a minha vontade?
- As sacerdotisas estão sempre prontas para o culto ao tabernáculo, divino senhor- respondeu Masahemba.
- Pois muito bem, elas que me façam companhia na minha preparação para a oração.
- Não será conveniente, divino senhor, que esse trabalho seja feito em harmonia contigo mesmo, em isolamento?
- Não, Sumo-Sacerdote. Eu hoje preciso do apoio das sacerdotisas. Enquanto tu te vais preparar para o teu ritual de oração, eu reflectirei sobre quem sou, na companhia das três sacerdotisas.
- Se é essa a tua vontade, assim se fará, divino senhor.
Pouco tempo depois, o Sumo-Sacerdote Masahemba deixava o faraó na companhia das três sacerdotisas, na sala de reflexão, enquanto ele se dirigia ao tanque sagrado, onde se iria purificar.
Havia algo de estranho. O faraó, assim que entrara, mal encarado… diga-se, logo se quis dirigir para a sala de reflexão, exigindo de imediato a presença das sacerdotisas. Parecia que viera ao templo, não para orar, mas para despachar quanto antes algo que tinha de fazer. Bem profunda teria de ser a sua purificação naquele dia, pois os fluidos trazidos pelo faraó eram espessos e pegajosos.
No momento em que o Sumo-Sacerdote se dirigia para o tanque sagrado, encontrava-se o faraó com as três sacerdotisas na sala de reflexão. Vendo que Masahemba desaparecera, o faraó disse:
- Apenas quero ficar na companhia de Nefertiti. Vocês as duas retirem-se.
As duas restantes sacerdotisas nem pestanejaram. De cabeça baixa, em sinal de respeito e submissão, de imediato abandonaram aquela sala. Tiveram o ímpeto de irem avisar o Sumo-Sacerdote do que se estava a passar, mas não o podiam interromper, de forma alguma, enquanto ele estivesse a executar as suas abluções. Assim, resolveram aguardar no átrio pelo surgimento de Masahemba.
Na sala de reflexão, o faraó reflectia; mas o objectivo da sua reflexão não era encontrar-se consigo mesmo; bem pelo contrário, buscava a forma correcta de ir ao encontro da sacerdotisa Nefertiti, sem ofender a sua susceptibilidade de serva de Amon-Rá, mas ao mesmo tempo tentando despertar a mulher que existia nela.
A sacerdotisa estava ajoelhada no chão, de cabeça baixa e mãos postas junto aos joelhos. A sua túnica branca, de uma transparência perturbadora, fazia adivinhar as sedutoras formas do seu corpo, bem como os seus segredos.
De pé, em silêncio, o faraó admirava aquela mulher com cabelos cor do fogo. Nunca vira nada assim. Nefertiti nascera para ser rainha… havia de ser a sua rainha.
O faraó estava hesitante. Não sabia qual a forma correcta de iniciar a sua conversação. Mas, por Horus, ele era faraó! A sua mente superiorizava-se a qualquer mente de outro homem, no Egipto. Avançou para a sacerdotisa.
- Em que pensas, Nefertiti ?- perguntou o faraó.
- Eu não penso, divino senhor, eu oro.
- Então, por um momento, desliga-te dos deuses e presta atenção ao teu faraó, que é o teu deus na terra.
- Não posso, divino senhor. A minha vida é completamente canalizada para Amon.
- Falso Nefertit, isso é falso!- ripostou o faraó com alguma ira – acima de tudo és uma mulher; uma mulher que se predispôs a servir um deus, mas que nunca deixou de ser uma mulher. Diz-me Nefertiti, como te alimentas?
- Comendo, divino senhor- respondeu a sacerdotisa um pouco embaraçada.
- E que comes tu?- perguntou-lhe o faraó.
- Pão, aves, peixe…
- Ah, então tu alimentas-te com comida de gente!- disse o faraó com ironia- na tua alimentação vales-te dos recursos dos humanos. Não terá medo Amon-Rá de que sejas contaminada com alguma impureza, que venha nos alimentos, tal como o são, muitas vezes, os meros mortais? Se és um pertence divino, porque razão não te alimenta Amon-Rá com a sua própria comida?
- Divino senhor, diz-me onde foi que procedi mal, que de imediato me corrigirei.
- Desculpa Nefertiti, não percebi o que queres dizer com isso- disse o faraó com semblante de uma certa angústia, enquanto colocava as suas mãos nos ombros da sacerdotisa, que mantinha a cabeça baixa.
- Sinto ira nas tuas palavras, divino senhor. Estás zangado comigo e eu preciso de saber onde foi que errei, para corrigir o meu erro.
- Não Nefertiti, eu não estou zangado contigo; aliás, eu não conseguiria estar zangado contigo. Eu estou zangado com a convicção que te incutiram na mente, de que és propriedade de Amon-Rá. Sê-lo-ás em relação a todos os homens, mas não em relação ao faraó, não para Amenhotep, o quarto, que sou eu. Eu sou um deus feito homem, senhor do Alto e Baixo Egipto. Sei muito bem que és uma sacerdotisa! Conheço perfeitamente qual a tua função; mas essa função terminará, se for essa a vontade do teu faraó, pois que também ele é deus. Mas isso apenas ocorrerá se for esse o teu desejo.
- Divino senhor, nunca me foi dado saber que o faraó tivesse uma sacerdotisa.
- Não Nefertiti, o faraó não tem nenhuma sacerdotisa. Mas este faraó que te fala necessita de uma rainha...(em continuação, pág.19, ex. VII)

in A CAUSA DE MASSIFTONRÁ

Novembro/2005

2 comentários:

poeta do inverno. disse...

estranhamente, caro poeta, esta cena pode está se repetindo com muitos que abandonam a face humana de si para servir ao que chamamos deus. muitas vezes nossos desejos são maiores e despertamos em outros sentimentos que não podemos comresponder, quem sabe a verdade?
eu é que não desejaria ser o faraó.
saudaçoes...

Poeta do Penedo disse...

Caro poeta do inverno
o meu caro amigo não gostaria de ser faraó, ou não gostaria de ser este faraó? Na realidade, se não gostaria de ser este faraó, acho que estaria a tomar uma decisão correcta, porque pelo que me é dado ver, este faraó parece querer arranjar lenha para se queimar.
Com amizade