domingo, 7 de setembro de 2014

FOI COMETIDA UMA INFÂMIA Á NOSSA IDENTIDADE HISTÓRICA

Por estes dias, um estúpido, um senil jovem de 26 anos, em Guimarães, partiu a espada da estátua do nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, e andou a passear-se com ela durante algum tempo, até ter sido detido pela policia e presente a tribunal. A estátua, que ostenta perto de nove séculos de história e independência, lá está, mutilada, como mutilada se encontra a imagem da nossa soberania.
Este acto é demonstrativo do que se pressente, no viver e pensar de uma grande percentagem da população portuguesa, que nenhuma ligação, nenhum orgulho, nenhum interesse demonstra pela história do seu povo. E quem não se rala, nem tem qualquer preocupação em perceber quem é, e porque razão o é, como pode pensar em conceber o seu futuro?
Talvez por todas estas razões, depois de termos sido bravos combatentes, ao cairmos agora numa passividade sufocante, seja possível que em Portugal se multipliquem os agravos á democracia, de toda a ordem.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

PROJECTO ARGUS, PROMESSA DE UM BOM LIVRO, ENQUANTO A GUERRA ACONTECE

...No 61 da Rua Frei Tomé de Jesus o silêncio imperava. Catarina encontrava-se no seu quarto, embrenhada na fabulosa e sedutora imaginação de um autor desconhecido, que fosse quem fosse, escrevera o livro « Contacto ». Ela lia deitada na cama, bem aconchegada pelo calor macio dos cobertores, caricia muito ansiada num Novembro muito frio.
         Era Sábado à noite. Só ela estava em casa. Os pais tinham ido passar a noite a uma quintarola de pessoas amigas, nos arredores de Coimbra, lá para os lados de S. Martinho do Bispo. Claro está que a tinham convidado, mas não, aquela pequena quinta não a seduzia em nada. No seu quarto, no seu pequeno grande mundo, sentia-se muito feliz. Ali residiam as suas tristezas, as suas alegrias, os seus gostos e desgostos, as suas certezas e incertezas, os seus pensamentos sérios, os seus devaneios, o amor de Álvaro expresso nas cartas escritas por ele, que ali no seu quarto guardava. Havia quatro dias que não recebia nem uma letrinha dele. Como isso a fazia sentir-se vazia! Decerto que tivera qualquer coisa para fazer, que o obrigava a afastar-se de uma folha de papel. Como estava a ser tola! Era claro que ele não estava em Angola para escrever cartas, mas... que malvadez o Estado fazia aos casais apaixonados, quando  arrancava os namorados dos braços um do outro e os afastavam por distâncias inimagináveis, durante eternidades, que os angustiavam, desgastavam e envelheciam. Catarina tomou uma expressão de preocupação. Seria possível que Álvaro viesse mais velho? Bem, mais velho viria!  Devia também vir mais tisnado, bronzeado pelo sol africano. Mas vinha mais maduro, mais homem. Deus permitisse que não viesse transformado num durão, como já ouvira muitas histórias de rapazes, que após cumprirem o serviço militar no Ultramar, vinham metamorfoseados em pessoas de coração frio, sem sentimentos de ternura, sempre prontos para uma boa briga. Mas não, com Álvaro tinha a certeza de que nada disso se iria passar, porque ele tinha a capacidade natural de conjugar harmoniosamente o verdadeiro homem que havia em si, com a delicadeza de espirito, a sensibilidade às coisas belas, o saber dar e receber amor.
         O livro mantinha-o aberto, virado com as páginas para baixo, poisado no ventre. A mente divagara um pouco, sinal de que o cansaço e o sono reclamavam aquele momento. Pegou no livro de capa preta e leu de novo as últimas linhas da penúltima página a que chegara. Era a página 80.- « ...anómala fonte rádio intermitente em ascensão recta 18h 34m, declinação mais 38 graus 41 minutos, descoberta por exploração sistemática do céu pelo Argus... ». Sem dúvida o projecto Argus detectara qualquer coisa no céu. O romance prometia. Olhando para o relógio reparou que já passava da uma hora da manhã. Fechou o livro, tendo o cuidado de colocar o marcador de papel amarelo na página 80, e poisou-o na mesinha de cabeceira. Seguidamente embrenhou-se no calor dos cobertores, deixou que toda a cama a envolvesse, apagou a luz e imperceptivelmente começou a escorregar para o mundo dos sonhos, o mundo onde muito se faz sem que disso se tenha consciência...(em continuação, pág. 86- ex. XXVI)

in Visitados
Novembro/1999
        


sábado, 16 de agosto de 2014

SOLDADO MILHÕES, EM ARMENTIÉRES...ESSE HERÓI ESQUECIDO

Durante uma semana, no mês passado, nos programas da manhã, a Rádio Renascença dedicou pequenas rubricas ao centenário da eclosão da I Grande Guerra, que aconteceu no dia 28 de Julho de 1914. E fê-lo, com a sensibilidade histórica de quem respeita a memória dos seus combatentes.
E confesso que enriqueceu os meus conhecimentos sobre o envolvimento de Portugal neste conflito, através do Corpo Expedicionário Português. E conseguiu-o, porque muito embora há muito que dedique a minha atenção á última batalha em que tropas portuguesas se viram envolvidas- a Batalha de La Lys, também conhecida por Armentiéres, nos pântanos da Flandres, em 9 de Abril de 1918, eu nunca tinha ouvido citar o nome de um herói nacional, completamente esquecido, do qual, esta semana a Rádio Renascença trouxe a memória á luz do dia- o soldado Aníbal Augusto Milhais, que ficou conhecido como o «Soldado Milhões».
O Soldado Milhões, nesse trágico dia 9 de Abril de 1918, em que vários milhares de soldados portugueses sucumbiram á avalanche alemã, completamente sozinho na sua trincheira, apenas acompanhado pela sua metralhadora Lewis, enfrentou as colunas alemãs, retardando o seu avanço, o que permitiu a retirada a muitos seus camaradas portugueses e também a soldados ingleses, para as posições defensivas. Deambulando pelas trincheiras, o Soldado Milhões salvou ainda um médico escocês de morrer afogado num pântano no local da batalha, médico este que deu conta do heroísmo do nosso soldado, natural de Valongo- Murça, em Trás-Os-Montes, ao exército aliado.
O Comandante Ferreira do Amaral diria, mais tarde, que o Soldado Aníbal Milhais, embora sendo «Milhais», valia por Milhões, daí a sua alcunha.
O Soldado Milhões é o único militar português, sem qualquer patente, ainda hoje, condecorado com a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, por bravura demonstrada no campo de batalha.
Aníbal Augusto Milhais faleceu a 3 de Junho de 1970.

De um outro português, 96 anos depois, merece bem esta simples homenagem.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

PELO POVO CHORAM OS CARVALHOS

...Era já noite quando o mouro abandonou o solar. Mais uma vez, entre o fivelas e o mouro ficara selada uma sentença de morte. Entre os dois ficou ainda a convicção de que o pobre povo é destituído de ideias. Erro deles! O povo tem sempre a bolsa vazia, o que não obriga a ter vazia a mente. O povo sofre, o povo chora, mas o povo pensa. E quando o povo, esporadicamente, ultrapassa a barreira do pensamento, quando transforma ideias em actos, surgem as revoluções. Dizia o padre José Soares que " numa boa ou má política está a sorte de um povo". E na vontade do povo está a sorte dos políticos.
Em contraste com as mentes perversas daqueles dois homens, que dominavam toda a herdade Vila de Ló, a natureza corria meiga. Naquele principio de Novembro de 1922, o Outono deleitava as pessoas com a maciez do ar. Mesmo na dura labuta da lavoura os homens deixavam-se envolver pelas carícias outonais, pelos sorrisos que a natureza lhes enviava. Viver a mãe natureza, respirar a mãe natureza, tornava de uma certa forma  menos penosa a tarefa de à mãe natureza resgatar o pão.

A mesma mãe natureza que por abandono do homem fizera nascer junto aos seis carvalhos, existentes bem pertinho do Casal das Rãs, um espesso silvado, pintado aqui e ali pelo despontar medroso de uma esquiva rosa ou tímido cravo, memórias antigas do labor de um dedicado jardineiro. E se se estiver bem atento, talvez se adivinhe que os seis carvalhos choram quando o vento outonal desliza pelos ramos nus. Choram os carvalhos a memória do jardineiro. Choram os carvalhos a memória de Vila de Ló...( em continuação, pág. 115, ex. XLII)

in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

sexta-feira, 25 de julho de 2014

VII JANELA SOBRE O MEU PAÍS- O FAROL DA BARRA

Saindo de Aveiro, em direcção ao Atlântico, e percorridos dez quilómetros, encontramos as praias da Costa Nova e da Barra. E é nesta última que vamos encontrar uma pérola de construção civil, dos finais do Séc. XIX: o Farol da Barra.
O Farol da Barra foi construído entre 1885 e 1893, tendo sido electrificado em 1936.
Com os seus 62 metros de altura, é o farol mais alto de Portugal, o 2º maior da Península Ibérica, sendo o 21º mais alto do mundo.
Tem um alcance luminoso de 43 kms.

Sabe muito bem uma bica, tomada numa bela noite de verão, numa esplanada de café, sob a presença vigilante deste portentoso farol, ali, a meia dúzia de metros.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

PROMESSA DE MORTE

...O mouro ia deveras agitado. Ruminava ameaças. As esporas que possuía na base das botas de montar feriam os flancos do cavalo que montava. Ao chegar à herdade, o pobre animal sangrava das feridas provocadas pelos bicos aguçados das esporas. Aquele sangue era o reflexo da raiva que consumia o mouro. A curta distância que separava o casario trabalhador do solar, fora percorrida pelo mouro num galope veloz, alimentado por instintos sanguinários.
Chegado ao solar o mouro desmontou e dirigiu-se em passos largos e rápidos à porta principal, na qual bateu brutalmente com os punhos cerrados.
- Patrão, ó patrão, venha cá fora - clamava o mouro furiosamente.
Chegava o fim da tarde de mais um dia de Outono. Corriam os primeiros dias de Novembro. Barreto Raposo encontrava-se no escritório, fazendo contas, utilizando uma aritmética muito própria, constituída por símbolos que só ele sabia decifrar. Necessidades de quem nunca aprendera o significado de letras e números. Possuído por uma grande cobiça e uma incomensurável ambição, Barreto Raposo foi obrigado a criar o seu próprio sistema aritmético, para assim poder gerir os seus bens, muitas vezes os frutos da sua esperteza maldosa, do seu mau carácter, sem ter de recorrer a ninguém, para não correr o risco de dar a conhecer a sua deplorável conduta. Ouviu os batimentos de desespero, reconheceu a voz do mouro e atravessou o comprido corredor.
- O que é que se passa mouro? - abriu a porta e deparou com o seu capataz de feições alteradas, olhar mais frio do que nunca, espuma branca e nojenta aos cantos da boca.
- Eu mato-os a todos - dizia o mouro.
- A quem é que tu matas? - perguntou o fivelas, curioso.
- Aquela reles da Lucinda, o padre e o zarolho.
- Não estou a perceber - dizia o Barreto Raposo - pareces um bezerro tresmalhado. Põe-me as ideias no sítio e explica-te. Pelo que vejo há aí história.
- E das grandes patrão.
- Conta-me o que se passou.
- Vinha eu de passar uma vista de olhos pela herdade. Encaminhava-me já para aqui. Ao passar pela casa do Daniel ouvi a mulher dele a chorar e a rir ao mesmo tempo. Achei aquilo muito sem "trambelhos". Desmontei e quando me aproximava da casa saiu-me ela como doida, a dizer que havia de contar ao marido, que o menino dela estava vivo há doze anos...
- Disseste há doze anos?
- Foi o que eu ouvi ela dizer.
- Eh raio! Há doze anos tomei eu conta da herdade. Também me fica uma pulga atrás da orelha. E que mais?
- Ela quando me viu chamou-me belzebu. Eu ia-me a ela quando de dentro da casa apareceu o padre.
- O padre?
- Foi verdade. Logo ali me disse uma lengalenga. Não percebi nada mas ficou-me a ideia de que o padreco esteve a mangar de mim. Subiu-me cá o nervoso, que com duas das minhas o pus em sentido. Mas para ajudar à festa apareceu também o zarolho que se pôs a defender o padre e a ameaçar-me.
- E porque é que logo na altura não lhe ensinaste algumas das tuas habilidades?
- Deixei isso para um outro dia, para quando me possa desforrar bem à minha maneira - disse o mouro, escondendo do Barreto Raposo as apreensões que sentira quando teve vontade de atacar o António Avilar.
- Tu tens razão mouro. Aí há história. O padre já estava em Alfeizerão quando eu para cá vim. Segundo me parece ele era muito amigo do fidalgote. Falar-se aí nalguma coisa que aconteceu há doze anos, estando o padre misturado com o povinho, cheira-me a esturro. Haverá por aqui qualquer coisa que eu desconheça?
- Ó patrão, se houvesse eu já sabia.
- Talvez sim, talvez não. As cabeças vazias dos «pobretas» por vezes conseguem pensar. Se tens andado atento, põe-te mais atento ainda. Mas nada de fazeres qualquer coisa contra a Lucinda ou o padre. Não me estavas a ajudar em nada. Já reparei que a Lucinda é muito estimada pelas gentes de cá e com respeito ao padre, desse nem se fala.
- E o zarolho patrão? Esse também se fica a rir?
- Não, a esse podes tu chegar-lhe com força. Se quiseres manda-o desta para melhor. Não me agradam aqueles que provocam o meu capataz.

- Ah rico patrãozinho, que a falar assim nunca a língua se lhe tolha. Pois àquele hei-de eu tratar da saúde, pode o patrão ficar descansado...(em continuação, pág. 115- ex. XLI)

in Quando Um Anjo Peca
Março/1998

terça-feira, 8 de julho de 2014

FILIPE VI DE ESPANHA- UM TESTE Á NOSSA IDENTIDADE HISTÓRICA

Nunca me passou pela cabeça que, um dia, fosse possível conviver com o regresso de um Filipe ao trono de Espanha. Mas ele aí está! Filipe VI, o segundo Filipe depois do Filipe IV de Espanha, Filipe III de Portugal.


Nos nossos actuais 871 anos de história como país independente, muitos têm sido os momentos de forte tensão e guerra com o país vizinho, do qual nos tornámos independentes em 1143- a Espanha. Ficam sempre resquícios. O ditado popular «de Espanha nem bom vento nem bom casamento» é sintomático disso. O dia 14 de Agosto de 1385, nos campos de Aljubarrota e o dia 1 de Dezembro de 1640, em Lisboa, são duas datas que bem nos diferenciam de Espanha.

Quando ainda existe a questão de Olivença por resolver, uma cidade que nos foi roubada por Espanha, em 1801, na sequência da patética «guerra das laranjas», no pronúncio das Invasões Francesas, eis que a história no mês passado me bateu no coração, ao ouvir que um novo Filipe iria ocupar, em breve, o trono de Espanha.

É curioso que isto acontece, quando em Portugal, uns idiotas a quem, infelizmente lhes foi dado poderes de governação, pretendem desvalorizar a memória desse dia de raça bem portuguesa, o 1º de Dezembro de 1640.

E ontem Filipe VI de Espanha pisou terra portuguesa. Não sei se, porventura, algum resquicío histórico, dos muitos, dos imensos, que existem por essas pedras mudas, terá vibrado, terá tocado as sirenes de alerta. Apenas sei que eu não me senti muito confortável com a visita. O rei até tem cara de boa pessoa. A história que o antecede é que lhe não é nada simpática.

Seria interessante saber quantos portugueses pensaram nesta questão. Não é que ela tenha alguma relevância prática, mas que é um teste á relação que temos com a nossa identidade histórica, disso não tenho qualquer dúvida.