terça-feira, 13 de janeiro de 2009

EÇA DE QUEIROZ E O PANTEÃO NACIONAL

























Definição de Panteão: monumento funerário, onde são sepultados os restos mortais de vultos que se notabilizaram em várias áreas, numa determinada sociedade.
No caso português, para o Panteão Nacional foi escolhida a Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, a partir do ano de 1916. Nele repousam os restos mortais de Almeida Garrett, João de Deus, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro, Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Óscar Carmona, Sidónio Pais, Humberto Delgado e Amália Rodrigues. Destes dez, quatro foram escritores, cinco foram políticos e a musa portuguesa do fado.
E eu pergunto: que é feito do expoente máximo das letras em Portugal?
Há quantas gerações «Os Maias» são obra obrigatória no ensino, neste país?
Se o Estado considera que a obra de Eça de Queiroz é fundamental para a literatura portuguesa, porque razão o omite do símbolo máximo da memória nacional?
Há muito que coloco esta questão a mim próprio, e mais intrigado fiquei, quando vi no dia 19 de Setembro de 2007 serem transladados para o Panteão Nacional os restos mortais de Aquilino Ribeiro, que tanta celeuma originou. Não que considere injusta a notabilidade que se deu a Aquilino Ribeiro. É decerto um nome enorme na literatura portuguesa. Considero é ser de uma torpe injustiça não se dar esse relevo à mente talentosa, profundamente crítica e satírica de Eça de Queiroz, o escritor que introduziu o realismo em Portugal.
Existem acontecimentos na história que podem deixar profundas marcas. E quando o poder é ostensivamente afrontado, tal acto poderá ter repercussões que se manifestam pelos tempos fora, como ondas galopantes, que batem a areia, como recordação permanente. Refiro-me objectivamente à revolta de Aveiro, em 16 de Maio de 1828, quando o Desembargador Joaquim José de Queiroz chefiou a primeira rebelião contra o poder absoluto de D. Miguel.
Eça de Queiroz foi neto do Desembargador Joaquim José de Queiroz.
Apenas uma relação que surgiu nesta mente de um simples e anónimo cidadão.
È que alguém de direito deve ter uma explicação para o facto de os restos mortais de Eça de Queiroz não se encontrarem sepultados no Panteão Nacional.
Encontram-se no minúsculo cemitério da povoação que a sua talentosa pena criou, que por tão universal ser, a conseguiu transferir da ficção para a realidade - Tormes.

7 comentários:

MM disse...

Caro poeta,

Concordo com esta sua asserção. Eça representa muito para a nossa literatura, merece mais profundo reconhecimento, sem dúvida.

Permita-me acrescentar algo. O problema do reconhecimento dos autores nacionais transcende o exemplo de Eça. No meu entender é gritante a forma como o nosso prémio Nobel não é reconhecido e vorazmente lido enquanto expoente literário conteporâneo.

Nem a confirmação estrangeira do valor nacional nos faz estimar autores como Saramago ou Lobo Antunes, pessoas que deveriam ser tão estimadas como Eusébio ou Cristiano Ronaldo são.

Eis aqui exposta uma fraqueza da nossa cultura, ou falta dela.

Marcelo Melo

poeta do penedo disse...

Embora reconheça o valor reconhecido ao escritor António Lobo Antunes, pessoalmente não gosto do estilo. Considero a sua escrita bastante deprimente. De qualidade, mas deprimente. Talvez reflexo do síndroma de guerra, aliado às experiências vivênciadas na sua vida profissional. Pelo menos foi foi com essa convicção com que fiquei, depois de ter seguido atenciosamente uma entrevista que deu na RTP.
Relativamente ao nosso Prémio Nobel, considero que José Saramago é vítima de uma enorme inveja. É que para os intelectuais da nossa praça, não lhes é admissível que alguém, sem formação superior, se lhes sobreponha a eles, donos do pensamento português. Suponho que num dos seus posts, já uma vez se aflorou esta questão.
A nossa sociedade tem muito a aprender com sociedades verdadeiramente desenvolvidas.
Cumprimentos

MM disse...

Caro poeta,

Para lhe ser sincero, nunca li nada de Lobo de Antunes. De Saramago li o suficiente para desejar ler ainda mais e achar que consigo percebê-lo.

Entristece-me ver tão pouco enfoque sobre ele.

Enquanto leitor, Saramago é uma referência, enquanto redactor, uma utopia.

Marcelo Melo

Paula disse...

Concordo consigo poeta. Eça devia lá estar.
Mas o certo é que nem tudo é justo.

poeta do penedo disse...

Paula

Nem tudo é justo, mas existem certas injustiças, que por serem tão gritantemente grotescas, se não deveriam cometer.
Se em quase novecentos anos de história existe alguém que, nas letras deve ser colocado no patamar mais alto do orgulho nacional, esse alguém é Eça de Queiroz.
Mas...porque sempre foi filho de mãe incógnita

outro universal nome da nossa cultura, diria: «perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha».

Anónimo disse...

É patetico o que acontece à memória do maior escritor português. Se existe um panteão em um ambiente que o enobrece aos justos, como uma antiga igreja, deveria, com muita justiça, Eça de Queiroz encabeçar a lista dos eternamente pranteados nestes claustros mausoléus. Talvez a Igreja Católica, vingativa como tem demostrado ser ao longo dos séculos, não o tenha perdoado por ter concebido e publicado o impagável " O Crime do padre Amaro"; quando colocou a nú toda uma hipocrisia velada que existia e ainda existe, em muitas, senão em todas, dessas agremiações cristãs.
Não vejo outro motivo para este descaso. Se melindro alguns sentimentos de pessoas religiosas, paciência, estou distante, talvez por isto eu enxergue melhor o contorno das evidências.
Este erro de memória no mundo das letras portuguêsas, precisa ser urgentemente reparado.
Abraços fraternos de Gibson.

Gibson Azevedo disse...

Aconteceu o mesmo erro no domínio da cibernética.
O anônimo sou eu: Gibson Azevedo da Costa.
Abraços.