terça-feira, 1 de julho de 2008

APOLO 11

Era uma vez um miúdo de treze anos, que vivia numa casinha pequena, encarrapitada no alto de uma enorme escadaria, em Coselhas, Coimbra. Vivia ele então o verão de 1969.
Naquela casinha viviam com ele três pessoas: o pai, uma senhora que vivia com o pai, sem no entanto estar casada com ele, e a filha dessa senhora, que tinha então dezassete anos. Esse miúdo não era feliz...não, não era. Era até muito infeliz, infelicidade grande demais para a sua pouca idade. O seu pai não se apercebia da sua enorme infelicidade, porque o desprezo de que o miúdo era vítima era-lhe muito bem escondido, e o miúdo, inocente, não tinha capacidade para transmitir ao pai o quanto sofria. No entanto, naquela casa, tinha um amigo, o seu gato «Corredor», que o ajudava a suportar as humilhações a que era sujeito pela dita senhora, a «D. Obscura», e pela sua filha. Naquela casa era um miúdo sem direitos, descriminado, tal como a Gata Borralheira. Um dia, ao chegar a casa, vindo das aulas, encontrou o seu querido gato morto. Fora envenenado.
Mas o miúdo estava atento ao que se passava no mundo. Por essa razão ouviu dizer que o homem se preparava para ir à lua. Conforme podia, ia seguindo as notícias sobre esse tema. O seu interesse sobre a questão, deu-lhe a oportunidade de saber que o homem iria aterrar na lua no dia 21 de Julho. A televisão portuguesa iria dar em directo a aterragem. O miúdo preparou-se e montou uma esquema para, sem que na sua casa o percebessem, poder assistir em directo àquele momento fascinante. Dormia na sala, num sofá que lhe servia de cama, onde se encontrava uma pequena televisão. Nessa noite deitou-se, tendo o Corredor por dentro do lençól,e fingiu que adormecera. Quando sentiu que a casa estava em total silêncio e que todos dormiam, o miúdo levantou-se, dirigiu-se à janela da sala, movimentando-se cuidadosamente para não fazer qualquer tipo de barulho e abriu-a.
A noite estava escaldante. Acendeu a televisão, pondo o som ao mínimo, mas de forma a poder ouvir o que se dizia. O jornalista que comentava as imagens era o José Mensurado. O miúdo ficou pregado ao ecrã. Da nave orbital, em que seguiam três astronautas, era já bem distinta a superfície lunar. A nave aproximava-se rapidamente da superfície do satélite da Terra.
E então, pelas 3 horas da madrugada do dia 21 de Julho de 1969, o miúdo viu um outro aparelho, um módulo lunar, desprender-se da nave e descer em direcção à superfície lunar. Era ocupada por dois dos três astronautas. O módulo descia na vertical. Umas enormes pernas sairam do aparelho, dando-lhe a forma de um aranhiço, e poisou muito suavemente. ouviam-se nitidamente as vozes dos astronautas. O miúdo correu para a janela, esquecendo do lugar em que estava, olhou para o céu e viu a lua. Naquela bola brilhante, naquele preciso momento, estavam dois homens. Aos olhos do miúdo afloraram-se-lhe umas lágrimas de emoção. Voltou à televisão. Uma escotilha abriu-se, surgiram umas escadas de dentro do aparelho, e um astronauta, com o seu formidável fato espacial, desceu as escadas, e muito cuidadosamente, colocou um pé no solo lunar. Neil Armstrong tornava-se o primeiro homem a pisar solo lunar, o Mar da Tranquilidade. E disse então uma frase, na sua voz transformada pela distância, que o miúdo considerou ser de uma beleza infinita: «um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade». Depois desceu o segundo astronauta, Edward Aldrin. E os dois saltaram, leves como duas penas, pela imensa superfície da lua. Cada salto que davam, elevava-os a uma altura extraordinária. O miúdo estava extasiado.
Hoje em dia o miúdo tem cinquenta e dois anos e anda por aí. Na sua memória guardou aquele verão de 1969, o mais infeliz da sua vida, mas na carinhosa recordação do seu grande amigo Corredor, guarda também na memória aquele postigo de muita felicidade, que se lhe abriu, naquela noite quente de Julho.
Sempre que se fala do homem na lua, o homem de 52 anos recorda, com orgulho, que na época em que foi miúdo, e contra todas as adversidades, lutou por assistir, e conseguiu ver em directo a missão da Apolo 11 a concluir a enorme Odisseia no espaço.
Porque foi corajoso, mereceu o prémio: o de fazer parte dos homens, a nível planetário, que em directo viram o primeiro ser humano a pôr os pés na lua.
Apolo 11 é para o homem de 52 anos significado de tanta coisa...

4 comentários:

Tz disse...

Parabens pelo sítio, caro e grande amigo. Tal como o Apolo 11, espero que também o Mondego nos continue a levar pela vida, sempre olhando um pelo outro e tendo encontros ocasionais que conferem muito prazer. Este fã dedicado pessou a ter este sítio nos favoritos. O amigo já o era à muito tempo. Abraço. Tz

João disse...

Tocou-me profundamente esta história real do menino que hoje tem 52 anos. E que grande menino me saíste. Está lindo!!!!

Um abraço


João Varela

anita disse...

Oh Coimbra! Só mesmo quem a viveu...Como é que vim parar a este blog? a ver alguns comentários num outro, sobre a série da RTP 1 " Conta-me como foi"..curioso!
e eu que só conhecia a faceta de pai sempre presente nos teinos e jogos de Hoquei da equipa dos nossos filhos...
A história do menino que já era poeta, é emocionante. Parabens!

Poeta do Penedo disse...

viva Anita
foi com dificuldade que percebi quem a Anita é. Mas como assistente social, ligada ao hóquei, apenas conheci uma, mãe de um colega do meu filho, ficou deslindado o mistério.
Coimbra é a minha saudade e um dos meus orgulhos.
Todos nós transportamos o nosso passado. No meu, Apolo 11 significa um dos momentos mais emocionantes da minha vida, e, sem dúvida nenhuma, também o mais triste.
Obrigado pela sua visita. Regresse, que será sempre bem vinda.
Um abraço.