sábado, 17 de outubro de 2009

O AMOR, O NATAL E UMA FIGUEIRA

...D. Vitoriana procurou o filho e encontrou-o na sala, junto à lareira acesa, conversando com um tio, irmão do Doutor Sebastião.
- Américo, filho, seria muita ralação para ti se fosses acompanhar a Luísa até casa ? Sabes, já é noite.
Ò providencial noite!
Américo sentiu um vazio no estômago. Que pretendia Deus fazer, ao dar-lhe aquela oportunidade, de por alguns momentos poder estar a sós com Luísa? Seria um teste? Um teste à sua capacidade de poder penetrar naquele espírito inexpugnável? Talvez Luísa não fosse assim tão inacessível. Por um ou outro momento, Américo suspeitara haver naquele olhar uma candura, que antes lhe não conseguía reconhecer. Era Natal. Com certeza o Menino Jesus condoera-se desta criatura apaixonada e intercedera por Américo Afonso junto de Deus, Seu Pai.
Estas reflexões perpassaram a mente do jovem advogado, levando o tempo que ele demorou a refazer-se da surpresa causada pela pergunta da mãe.
- A minha mãe refere-se à Luísa Avilar?
- Américo, pois a quem há-de ser? Conheces aqui outra Luísa?
- Não minha mãe... pensei que... olhe, não pensei nada.
- Mas vai filho, faz-me esse obséquio.
- É claro que vou. Não há-de a rapariga ir por esses caminhos, cheia de frio.
- Bom, não é bem o frio que me preocupa.
- Pois, eu sei minha mãe. Mas que está frio, está!
- O cunhado deu de beber ao Américo? - perguntou D.Vitoriana.
- Não, ele apenas bebeu um cálice de Porto - respondeu o irmão do Doutor Sebastião.
- Parece que estás esquisito rapaz - disse D. Vitoriana ao filho.
- Talvez tenha enchido demais o cálice - respondeu Américo.
- Então anda se fazes o favor, que se faz tarde. - E os dois, mãe e filho, dirigiram-se à cozinha onde Luísa os esperava. Ali chegados D. Vitoriana disse:
- Esperem aqui um pouco que me lembrei agora mesmo de uma coisa.
Ali, entre a porta da cozinha e a porta de saída, o mundo parou para Américo e Luísa. Os dois atraíam-se sofredoramente. E na atrapalhação de um desejo escondido, recalcado, queriam quebrar aquele silêncio opressivo, provocado pela súbita ausência de D. Vitoriana. Ali estavam, como duas múmias, ela olhando para o chão e tomando um súbito interesse por um botão do casaco de lã que ameaçava cair, e ele, vigiando a janela próxima, vendo o reflexo do seu rosto no vidro da janela, iluminado pela luz das velas, admirando a sua expressão facial denunciadora de mortificante ansiedade. Para salvação dos dois, aquela animada conversa foi interrompida com o regresso de D. Vitoriana. Trazia nas mãos dois saquinhos de pano.
- Pensei que se tinham ido embora. Não vos ouvia - disse D. Vitoriana.
- Que tenho eu para falar com o senhor Doutor Américo? - perguntou Luísa.
A esta pergunta Américo olhou muito sério para Luísa e D. Vitoriana encolheu os ombros.
- Bem Luísa - disse a senhora - estão aqui dois saquinhos para os teus filhos. Vai uma boneca de porcelana para a tua Rosa e um peão para o Carlos. Pões na chaminé. Prenda do Menino Jesus. Tive pena de hoje os não poderes trazer, mas como viste o movimento foi muito.
- Muito obrigada senhora D. Vitoriana. O Menino Jesus lá lhes há-de entregar estes presentinhos.
- Dá cumprimentos nossos aos teus pais. Boas Festas para todos.
- Muito obrigada senhora D. Vitoriana. Também uma santa noite para todos vós.
E finalmente a porta de saída foi aberta. A noite estava realmente fria. Mas era uma benção para os rostos escaldantes de Luísa e Américo.
Luísa tentava apressar o passo. Américo fazia por o retardar. No ar havia o cheiro de lenha queimada em lareiras domésticas. Muitas chaminés expeliam o fumo com sabor a Natal. Aqui e ali divisavam-se janelas iluminadas por velas que alimentavam chamas aconchegadoras, mais brilhantes do que nunca, que sorriam àquela abençoada escuridão. Era noite de Natal.
- A Luísa gosta do Natal? - perguntou Américo, interrompendo finalmente o silêncio.
- Gosto sim senhor Doutor. O Natal é a época do amor entre os homens.
- Acha o amor bonito?
Luísa considerou a pergunta perigosa. Cautelosamente respondeu:
- Para quem der valor ao amor acho que o deve achar bonito.
- E a Luísa dá valor ao amor?
- Já fui casada senhor Doutor. Estava apaixonada pelo meu marido.
- Conseguirá a Luísa apaixonar-se de novo?
- Senhor Doutor Américo, essa pergunta é muito despropositada. Na minha posição não posso ter este tipo de conversas com o Senhor Doutor.
- Luísa, peço-lhe, não me trate mais por senhor doutor. Sinto-me ficar a léguas de si.
- Mas é falta de respeito da minha parte se o tratar de outra maneira.
- E quem foi que lhe disse que eu quero de si esse tipo de respeito, frio, distante, sem nada de íntimo?
- Íntimo? - perguntou Luísa, dando força a uma palavra carregada de intenção.
Américo estancou o passo. Suavemente agarrou um braço de Luísa, pelo que esta também parou. O céu estava paradisiacamente estrelado. O frio fazia-os aproximarem-se um do outro. Uma grande figueira, havia muito plantada à beira do caminho, era testemunha deste jogo de vontades, do alvorecer daquilo que de mais belo existe na criação.
- Sim, íntimo, pessoal, um sentimento partilhado a dois.
- Senhor Doutor...
- Então Luísa, o que lhe pedi?
- Senhor Américo...
- Retire o senhor!
- Américo? - perguntou Luísa.
- Américo! - respondeu Américo.
- Pois seja. Américo, eu não devia estar aqui consigo. Sei que não há nada de mal, mas um homem e uma mulher no meio da noite...
- Luísa - interrompeu Américo - eu amo-a. A sua beleza, a sua bondade e a lealdade para com a memória do seu marido, desfizeram alguns preconceitos que eu tinha sobre o casamento. Desculpe-me a franqueza, mas este fogo que há muito me consome tinha de o partilhar consigo.
Luísa chorava baixinho...(em continuação- pág. 66)

in QUANDO UM ANJO PECA

Março/1998

3 comentários:

Gibson Azevedo disse...

Êita Poeta! Tu bens sabes descrever um colóquio amoroso - situação basilar para sobrevivência da humanidade.
Muito denso o clima deste interlúdio (musical, só nas mentes) em plena noite de Natal... E bem que, todas as cúmplices intenções entre pessoas apaixonadas, pudessem ser assim, com entusiasmos e sofreguidão, confessadas. Nada mais simples... Nada mais belo!
Continue Caro amigo, está bonito.

MCG disse...

Não se deve corrigir o mestre, mas este texto, onde os aromas se misturam com os sentimentos, e o frio gélido da noite acalma a intensa chama dos dois enamorados, pertence á maravilhosa obra "Quando Um Anjo Peca"!
Perdoas?
Beijo

Poeta do Penedo disse...

Caro Gibson
Nos sentimentos humanos não deveria haver transformação. Dizem uns que é inevitável, pois que a evolução abrange tudo. Pois eu, relativamente aos sentimentos, adoraria que Portugal regredisse. Tenho muitas saudades do valor do respeito, da ingenuidade natural das coisas. Esta noite de Natal foi a mais bela que eu alguma vez vivi em toda a minha vida.
Um grande abraço.

MCG

Como não havia de perdoar?
Não só perdoo, como agradeço pela chamada de atenção.
Já fiz a devida correcção. E deixa-me que te diga- «onde os aromas se misturam com os sentimentos, e o frio gélido da noite acalma a intensa chama dos dois enamorados» é uma belíssima definição para esta noite de Natal.
Obrigado.
Um beijo