sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

CORRECTO E AFIRMATIVO

Nos últimos dias de 2009 estive num pequeno lugar, encarrapitado no cume de um monte, chamado Antas, ás portas das Caldas da Rainha. Ali travei conhecimento com um senhor simpático,chamado Manuel Bento. O senhor Manuel Bento, homem baixinho, um típico português do antigamente, que faz de tudo um pouco, uma espécie de homem dos sete ofícios, que também trata caprichosa e carinhosamente a sua horta e lavra o seu pedaço de chão, onde se inclui a verdejante vinha, anda aí pelos sessenta e tal. Em dia frio, com o natal a despontar, a lareira crepitava deliciosamente, e pelo meio de dois dedos de conversa, a saborear a doçura tradicional e nostálgica da velhoz e do belharaco, lá se bebeu um copo da bela pinga palheta que o meu anfitrião orgulhosamente me ofereceu, saída ainda de pipa de madeira, com sabor a Portugal invernoso.
Durante a conversa que mantivemos, o senhor Manuel Bento, de quando em vez, usava a expressão «correcto e afirmativo». Aquilo soava-me a linguagem militar. Com vontade de lhe perguntar porque razão repetia tantas vezes a expressão, mas sem o fazer, obviamente, como que me lendo a mente, o senhor Manuel Bento explicou-me que se habituara a usá-la. Durante dois anos servira-lhe como código. Como código? Sim, um código pelo qual se ficava a saber que uma coisa tinha sido bem compreendida, explicou-me ele. E onde fora usado essa código? Angola, entre 1967 e 1969. E depois afeiçoara-se ao código, que o começou a usar no seu dia-a-dia. Já lá vão 41 anos!
O encontro com o senhor Manuel Bento fez-me reflectir. Quem diria, quem adivinharia que na figura daquele homem de aspecto frágil repousa um guerrilheiro português?
Este encontro, caso o não soubesse, provou-me que por aí, por esse Portugal, no mais recôndito lugar, podemos dar de caras com um desses heróis, envergando a roupagem de um simples agricultor.
Neste preciso momento, na faixa etária compreendida entre os 56 e os 70 anos, vive a juventude que entre 1961 e 1974 não teve direito a ser jovem. São os milhares de soldados, que na guerra do ultramar aprenderam a ser homens. Foram para África quase meninos e de lá vieram martirizados veteranos. São as milhares de namoradas e esposas desses soldados, que durante anos enviaram mensagens de esperança e de amor nos aerogramas- os «bate-estradas» na gíria militar, e rezavam preces em sufocos de alma, muitas preces... são as milhares de viúvas cujas preces não foram ouvidas.
Mas nós, 35 anos depois, não pensamos nestas coisas. A guerra do ultramar, a guerra colonial, como agora se lhe chama, pois proferir a palavra «ultramar» é quase uma heresia, é apenas história. Mas não é! Ainda vive, pois que os seus protagonistas ainda são gente.
Gente desiludida por certo, por sentir que no país que amam, e pelo qual tanto sofreram, não existe por eles o menor apego, a menor consideração, a mais singela homenagem.
Ao senhor Manuel Bento e aos muitos milhares, como ele, portugueses como eu, que em Angola, Moçambique e Guiné ofereceram a juventude e a vida a todos nós, eu presto a minha enorme e emocionada homenagem.
A sociedade portuguesa tem uma abissal divida para com os combatentes do ultramar.

4 comentários:

poeta do inverno disse...

não somente em Portugal mas em outros países há pessoas muito importantes que lutaram com todas as forças por suas nações e acabaram apenas com paginas dos livros de historia ou talvez nem chegou a isto, no Brasil muitos tentam resgatar a memoria daqueles que lutaram contra a ditadura militar...mas pode se ver que estamos longe de estabelecer um dialogo com a nossa memoria sem de certa forma abandonar partes importantes.

Poeta do Penedo disse...

Caro poeta do inverno
Quando, em qualquer país do mundo, palavras como as suas são proferidas por um jovem como você, é sinal de que nem tudo está mal nessa sociedade. Há pessoas atentas, e quando essa atenção vem de jovens, está a ser prestada uma homenagem aos heróis incógnitos desse mesmo país. Você acabou de prestar uma homenagem aos heróis brasileiros que sofreram ás mãos da ditadura. Por cá também os temos. E esses são mais lembrados do que as muitas dezenas de milhares de homens que, ao serviço do fascismo, apenas e só cumpriram um dever patriótico que então lhes foi imposto. Muitos milhares mutilados no corpo e na alma, outros tanto deram a própria vida por uma terra que nunca foi a sua. Naquela época era um dever patriótico lutar no ultramar. Era uma guerra injusta? Decerto que sim, mas era o Portugal que tínhamos.
Com amizade

Mari Amorim disse...

AS INDAGAÇÕES
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
Mário Quintana
Saudades
Boas energias
Mari

Poeta do Penedo disse...

Mari
porventura indagamos mais do que julgamos. A vida é uma procura constante.
com votos de uma óptima semana, um abraço amigo.