quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

DUAS BALADAS TRISTES: ROSSILHÃO E OLIVENÇA

...Portugal, o país a que pertence o meu grupo espiritual, começou por ser constituído por gente de rija tempera, desde o mais humilde servo ao mais ilustre senhor. E todos estavam impregnados de um forte sentimento nacional, defensores acérrimos da terra que era a sua, como o comprova a história.
Descoberto meio mundo por este pequeno país ibérico, que é o nosso Portugal, em que a sua força não residia no território (que é actualmente tão grande como o era nesse tempo de enorme reputação internacional), mas antes na vontade férrea de vencer das suas gentes, e no formidável espírito empreendedor dos seus governantes, subitamente algo aconteceu que nos foi tornando lentos de raciocínio, nada crentes nas nossas potencialidades como povo, transformando-nos tão pequenos como pequeno é o país. E essa infeliz mutação, uma vez mais no meu sempre questionável ponto de vista, deu-se na infeliz campanha de Álcacer-Quibir, no reinado de D. Sebastião. O país foi de tal forma ferido, que ainda hoje, passados que são quatrocentos e vinte e oito anos, se fala, mesmo que por graça seja, que se aguarda que D. Sebastião regresse numa manhã de nevoeiro, para trazer a esperança ao país.
O povo nunca mais foi o mesmo. As inteligências governativas tornaram-se muito pouco perspicazes, más gestoras do universo português. E fomos decaindo, decaindo. De grande potência no mundo, passámos a país mundialmente ignorado. Este meu pequeno devaneio acontece na relação directa das minhas recordações, enquanto português que fui, na minha última vivência carnal.
Em resultado da execução do rei francês Luís XVI, a coroa espanhola escandalizou-se com esse acto de barbárie, pelo que resolveu afrouxar os ânimos aos revoltosos franceses. Para tal convenceu a coroa portuguesa a embarcar nessa aventura, pelo que a rainha D. Maria I, já então não muito senhora das suas faculdades mentais, mandou um grupo expedicionário, que incorporado no exército espanhol, foi combater o exército revoltoso francês, na que ficou chamada « a campanha de Rossilhão», que teve lugar no ano de 1794. Foi uma completa vitória para o exército francês, derrota total para Portugal e Espanha. Dado o mérito dos políticos portugueses daquela época, que não entendo como o não perceberam, Espanha, depois da derrota, negociou a paz com a França, mas a França não quis ficar em paz com Portugal, ou se ficasse, seria na condição de Portugal fechar os seus portos aos navios ingleses, que por seu turno andavam em guerra com França. Não esqueçamos que por essa época os Estados Unidos haviam alcançado a sua independência da coroa britânica, com o auxílio da França. Que França nos teria feito frente no tempo dos reis D. Afonso Henriques, D. João I, D. João II ou D. Manuel I?
Portugal, pequeno que era, pequenino ficou. A França e a Espanha agigantaram-se e nós… mediocridade das mediocridades, perdemos a cidade de Olivença para os Espanhóis, na que ficou chamada e inofensiva «guerra das laranjas», ainda em resultado da nova aliança franco-espanhola, não tendo sido sequer levado em conta o facto de o príncipe D. João, herdeiro do trono de Portugal, estar casado com a infanta Carlota Joaquina, filha dos reis de Espanha.
Portugal terminava mal o século Dezoito e começaria pior ainda o século Dezanove.
A diplomacia portuguesa caiu numa inércia constrangedora, apesar dos políticos portugueses pressentirem o que aí vinha. E veio!
A esta distância temporal de todos esses acontecimentos, revela-nos a história quão fracos foram os nossos políticos e diplomatas do início do século XIX. Enquanto se faziam convenções entre Portugal e França, que iludiam os portugueses na falsa certeza de que esses acordos de paz eram para ser cumpridos, a França, conjuntamente com Espanha, arquitectava o plano de invasão de Portugal. Não tínhamos qualquer crédito. Apenas um mérito nos pode ser reconhecido: o de não termos cedido ás exigências do governo francês, de fecharmos os nossos portos aos navios britânicos e de não termos confiscado os bens aos súbditos ingleses residentes em Portugal. O nosso país soube ser leal à sua antiga aliança com a coroa inglesa. Nesse particular, Portugal foi bem português. A Inglaterra, pressentindo o que se preparava, em 1806 enviou uma esquadra a Portugal para negociar a forma como iria decorrer o apoio militar e politico ao nosso país, num provável confronto contra a França. Nessa época eu era ainda uma frágil criança. Não tinha consciência do terror que estava prestes a abater-se sobre o meu reino; e o povo também o não sabia.
Um general francês que dois anos antes estivera em Portugal desempenhando o cargo de embaixador francês, o general Junot, rebentando pelas costuras de cinismo e hipocrisia, invadiu Portugal em 1807 à frente de um poderoso exército. Através de um tratado que se realizara pouco tempo antes, em Fontainebleau, a terra lusa tinha o seu destino traçado: ser dividida em três partes - uma a ser oferecida ao rei da Etrúria, outra parte para a coroa espanhola e a terceira parte para ficar em poder do grande Napoleão, chefe supremo da França do início do século XIX.
Quantos sacrifícios passaste, Afonso Henriques, para conseguires fazer do Condado Portucalense um país, um reino orgulhoso de si, do povo que o constituía, que veio a criar páginas belas de relatos heróicos, onde, do orgulho nacional sobressaiam nomes como Egas Moniz, D. Nuno Álvares Pereira O Condestável, D. João I, D. João II, D. Manuel I, o Infante D. Henrique, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Luís Vaz de Camões… próximos estavam os tempos em que iria ser necessário recordarmos os grandes acontecimentos da nossa história, como a batalha de S. Mamede, a batalha de Aljubarrota ou a revolução de 1640, e neles obtermos o alento necessário para fazermos frente à ignomínia que aí vinha, porque caso contrário, Afonso Henriques, o teu sonho de fazer deste pequeno território ibérico um país livre, ir-se-ia esfumar ao fim de seiscentos e sessenta e quatro anos...(em continuação- pág. 6- ex. II)

in ALMA DE LIBERAL

Junho/2009

próxima edição estimada para finais de Março/2010

9 comentários:

Teresa Fidalgo disse...

Se assim me tivessem contado a nossa história, tinha, a seu tempo, gostado de a estudar.

Bem haja por isso, talvez agora venha a aprender algo de interessante!

MM disse...

Caro Poeta,

Confesso-me um muito modesto conhecedor da História de Portugal. Tal como em qualquer relato dessa natureza, a beleza de um relato de História estará tanto nos factos históricos que refere como na destreza do narrador para os encadear numa narrativa. Este texto não é pesado, embora seja rico em referências.

Permita-me de igual modo assinalar que até onde alcança a minha percepção, a imagem de D.Sebastião não figura no seio da nossa geração senão ocasionalmente. A esperança continua a ser uma matéria relevante no entendimento da mentalidade portuguesa, mas acho que D. Sebastião é remetido cada vez mais para o universo do simbolismo e para patamares culturais mais exigentes.

Finalmente, sinto-me compelido a discordar da ideia de que Portugal tenha passado de grande potência a país mundialmente ignorado. Para mim, os outros ganharam porque eram maiores, mais fortes no que se poderá designar por Maratona. Portugal ganhou os 200 Metros Barreiras com esforço, e a determinada altura achou que estaria em condições de ganhar a Maratona.

Talvez aí tenha falhado o autoconhecimento e tenhamos primado pelo orgulho e convencimento.

No dias de hoje, com a globalização, país algum é ignorado totalmente. Os fortes continuam a dominar, mas os pequenos têm tempo de antena como jamais tiveram -parece-me.

Ainda agora se está a falar do Haiti, que pela sua dimensão e seguindo a mesma lógica deveria ser mais ignorado que nós. E não é. Não lhe parece?

Cordialmente,

Marcelo Melo
www.3vial.blogspot.com

Poeta do Penedo disse...

Cara Teresa Fidalgo
a forma apelativa ou não como a história nos é ministrada, depende muito da capacidade de comunicação de quem no-la ensina. Pessoalmente, nesta questão tive bastante sorte, pois sempre encontrei professores que me ensinaram história de forma apaixonada e entusiasmante. Talvez por isso o meu grande interesse pela nossa história.
Se contribuir, de alguma forma, para o enriquecimento do seu gosto pela história do nosso povo, então já valeu a pena!
Obrigado.

Poeta do Penedo disse...

Meu caro Marcelo Melo
pessoalmente considero que D. Sebastião foi um dos piores reis da nossa história monárquica, tão mau como D. Fernando. Com o seu espírito aventureiro, extremamente irresponsável, arquitectando uma espécie de cruzada completamente fora de tempo, arrastou o país para o abismo.
Em relação à sua discordância, também discordo de si, nesta questão. Inquestionavelmente Portugal foi uma grande potência nos séculos XV e XVI. Internacionalmente muito mais poderoso do que é hoje. É evidente que não sou professor de história para lho poder explicar. Nessa matéria talvez o nosso amigo Manuel Cardoso tenha uma palavra a dizer. Mas esta é a percepção que tenho. Éramos influentes.
Os outros foram mais fortes porque não tiveram um desastre chamado Álcacer-Quibir. Perder a independência tem-nos acarretado a pagar pesadas facturas.
Considero que, se não somos agora, pelo menos já fomos um país ignorado. Não me esqueço de muitas crónicas que li, em que no estrangeiro, o cidadão comum não sabia que país essa esse chamado Portugal, ou se tinha ouvido mencionar esse nome, julgava-o uma província de Espanha. A adesão à CEE ajudou a anular essa imagem.
Sim, tenho estado zangado com o mundo, principalmente com a Europa, pelo desprezo a que temos estado votados. A nossa história não é condizente com essa condição.
Muito feliz por o ter por cá.
Com amizade

poeta do inverno. disse...

caro poeta
este é umbelo relato da historia deportugal, um relato poético constriido com a leveza e ao mesmo tempo sem deixar que se perca o fato historico importante...apesar de não muito conhecer a historia portuguesa, admiro em certas vezesencontrar relatos sobre a vida desta nação que de alguma forma teve influência no brasil, tanto que agora estou lendo um romance que documenta uma epoca desta historia portuguesa e brasileira... mas espero poder continuar lendo os relatos poéticos-historicos de um bom português.
com amizade.

Poeta do Penedo disse...

meu caro amigo poeta do inverno
as suas palavras encantaram-me. Na realidade este período da história de Portugal corresponde ao alvorecer do Brasil como nação independente. Aí deixámos a língua e muito do nosso romantismo, que vocês, brasileiros, souberam transformar em delícia. Por isso sois um povo deliciosamente artístico.
Na realidade você tem razão. Considero-me um bom português, que se orgulha profundamente da sua lusitaniedade...um português orgulhoso da terra que o viu nascer- a velha Aeminium- Coimbra, a cidade da tradição e do encanto.
Com um grande abraço.

Teresa Fidalgo disse...

Acrescentando, apenas, um ponto no que respeita ao gosto pela história: Quando li "A Voz dos Deuses" de João Aguiar, fiquei a saber muitíssimo mais sobre os lusitanos, e concretamente sobre Viriato (óbvio que sob a prespectiva do autor), do que através de todos os estudos (obrigatórios) que até então tinha realizado. Aliás, tornei-me admiradora do herói, e pesquisadora do assunto e temas relaccionados. Parece que a minha "alma" ficou a fazer parte daquele povo (do nosso povo) e da sua "alma".
Com os seus relatos, tenho o mesmo tipo de sentimentos (que podem ser bons ou maus), ou seja, que o meu passado está necessáriamente colado à vivência dos nossos antepassados e que isso, de uma forma ou de outra, mais ou menos remotamente fizeram de mim a pessoa que eu sou.

(como diz: cordiais saudações)

Poeta do Penedo disse...

Cara Teresa Fidalgo
a verdade da história reside precisamente no que acabou de escrever. Geralmente estuda-se a história numa perspectiva de distanciamento temporal, não lhe atribuindo qualquer sentimento pessoal. Esquecemo-nos, entretanto,de que esses acontecimentos foram vividos não só pelo nosso povo em geral, mas também por nossos familiares em particular, pessoas que carregavam os genes que nós carregamos. Pelas minhas, contas não errarei em muito, se disser que as invasões francesas foram vividos pelos meus avós de 5ª geração. Tudo o que fez deles homens, de bom e de mau, que vivenciou esse terror, está neste momento vivo em mim, colaborando para que eu seja o homem que sou.
Briosas saudações.

MM disse...

Caro Poeta do Penedo,

Revisito-o neste texto porque ao vizualizar um vídeo do youtube subordinado ao "declínio dos impérios", de imediato recordei este seu texto e aquilo que havia comentado consigo.

Deixo-lhe o endereço, esperando não o maçar com o tempo dispendido na sua vizualização:

http://www.youtube.com/watch?v=EwOA8AfeHM4

Amistosamente,

Marcelo Melo
www.3vial.blogspot.com