sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O NINDA

...Ao longe avistava-se o verde denso da floresta equatorial. Naquela imensa clareira, onde o maciço arvoredo fora rasgado, estava situado o aquartelamento do Ninda. Camaratas feitas de madeira perfilavam-se longitudinalmente sobre quatro linhas imaginárias, formando um rectângulo com as dimensões de um campo de futebol. No lado interior das camaratas estendia-se a parada, onde os militares faziam as suas formaturas diárias. No lado exterior era a vastidão de Angola, a área onde o perigo espreitava a qualquer momento, onde uma mira traiçoeira podia apontar a qualquer um. A cerca de cinquenta metros das camaratas existia uma vala que circundava todo o aquartelamento, com um metro e meio de profundidade por dois metros de largura. Tinha aquela vala por objectivo dificultar o acesso ao aquartelamento. Acompanhando toda a linha interior da vala, era visível a arrepiante vedação defensiva em arame farpado. Para reforçar a defesa, em toda a volta do aquartelamento rectangular, foram construídos seis abrigos, feitos de tábuas e argamassa, envoltos com pilhas de sacos de areia. No interior de cada abrigo posicionava-se uma sentinela, que permanentemente vigiava a exuberante floresta. De um desses abrigos, numa noite, partira um alerta. Uma rajada de metralhadora avisara toda a companhia ali aquartelada que do lado de fora existia perigo.
Fora uma bela noite de luar. Um soldado, que acabara de sonhar com um beijo macio e ardente da sua distante namorada, percepção essa trazida por aquela lua brilhante, desassossegadora do coração dos homens, viu subitamente alguns vultos mancharem a luz azulada do luar. Firmou bem a visão e a audição. Sentindo que havia movimento a aproximar-se da vala, não hesitou. A sua G3 cuspiu fogo e anunciou a chegada dos «turras» , o inimigo, o «in». De imediato a noite no exterior do arame farpado se encheu de inúmeros pontos vermelhos de fogo. As Kalachnikov terroristas disparavam .
Por entre vozes de comando e berros de surpresa e aflição, a companhia corria pela parada térrea, aparentemente atarantada. Mas a defesa estava montada e pré concebida. Apenas no Ninda haviam explodido duas granadas, lançadas pelas bazucas inimigas, e já a companhia dava a sua resposta. Muitos « very-lights » foram lançados. Iluminando na sua queda lenta de pára-quedas toda a área envolvente do aquartelamento, as luzes da noite afugentaram os inimigos para mais longe, para a protecção da floresta. Mas o ataque continuou, pois as armas soviéticas do «in» tinham um longo alcance. Balas e granadas fustigaram o Ninda por um período que aos soldados portugueses pareceu eterno. Rastejando, colados ao chão, oprimidos pela humidade e o calor, tentavam ser imunes ao fogo terrorista, ao mesmo tempo que tentavam o mais possível serem dissuasivos. Depois, a calma regressara. As balas deixaram de zumbir e assobiar. As granadas pararam de espalhar o seu enxame mortífero. Lentamente a companhia recompunha-se do ataque. O soldado que sonhara com a namorada, mantinha-se deitado, espreitando pela pequenina abertura do abrigo, protegido pelos sacos de areia. No meio da sua história de amor, fora acordado, quem sabe, se por alguma farpa do deus Marte, e tivera tempo e discernimento para dar o alerta. Sabia agora que tudo na vida tinha o seu espaço e o seu tempo. Ali, no seio daquela floresta bela, luxuriante, fervilhante de vida, mas também inóspita, traiçoeira, perigosa e letal, não havia lugar para o amor, porque o amor è doçura, carinho, suavidade, vida. E ali era a guerra. E na guerra só existe brutalidade, bestialidade, e o perigo sempre eminente de perder a vida e ganhar a morte. Como escaldava o cano da G3 daquele jovem soldado...(em continuação- pág. 54, ex. IX)

in VISITADOS

Novembro/1999

5 comentários:

poeta do inverno. disse...

é triste perceber que hoje estas cenas ainda acontecem em lugares como oriente medio, a guerra nunca foi e nunca sera uma forma de reaver a paz, como disse o presidente dos estados unidos em seu primeiro discursso de 2010 a mudança não será facil, estranho mas sei que nada tem a ver com este texto mas acho que para o eua a mudança deve começar com a volta dos soldados que sofrem na guerra...
com saudações.

poeta do inverno. disse...

o amor é mesmo a unica forma de salvar a humanidade do caos.

Poeta do Penedo disse...

Caro poeta do inverno
embora hoje em dia a guerra do ultramar tenha caído no esquecimento da sociedade civil portuguesa, ela mantém-se bem viva em muitos lares portugueses, porque ainda existem muitos milhares de combatentes que fazem parte activa do seu tecido social, porque ainda existem muitas coroas de flores que se depositam em campas, que foram feitas em Angola, Moçambique e Guiné. Ao mesmo tempo que soldados americanos eram enviados para o Vietname, também Portugal enviava os seus para África. Se hoje os países de expressão portuguesa em África são independentes, não foi a guerra que lhes deu a independência. Como bem diz, a guerra nada resolveu.
O amor é o sal da vida. Deveria ser na guerra que ele deveria ter maior expressão, mas assim não é, como o constatou aquele soldado que se encontrava de sentinela ao aquartelamento do Ninda.
Com amizade.

Mari Amorim disse...

POETA,
prazeirosamente atravessei o oceano,para agradecer suas visitas tão queridas,adorei esclarecer a dúvida que eu tinha,sobre o que significava,Um futrica do Mondego,lí no banner do blog e achei lindo mesmo,outra coisa de se vc não se importar é claro,me dizer seu nome.
Texto maravilhoso,
bjs
Boas energias
Mari

Poeta do Penedo disse...

Amiga Mari
Pois eu me chamo Fareleira Gomes. É sempre com enorme prazer que visito o seu blogue, tão poético, tão cheio de boas energias. Futrica é uma figura tradicional coimbrã, que já não se utiliza, pois caiu em desuso. Vem do século XVII esta figura. Corresponde aos dias de hoje a um operário. Mas como em tudo na minha querida cidade de Coimbra, também esta figura se revestiu de poesia. O texto que apresento refere-se à guerra do ultramar, a guerra coloneal. Embora esta cena seja fantasiada, cenas como esta aconteceram mesmo, e muito piores ainda, que roubaram a vida a milhares de jovens portugueses. O Ninda existiu mesmo.
Com amizade.