terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Á DESVENTURA LADRAM OS CÃES

...Percorrendo a distância despovoada que ia do Alto da Estrada à herdade, chegou o caminhante ao solar. Quatro torres erguidas aos céus davam-lhe uma aparência de fortaleza. Ao lhe perpassar este pensamento pela mente, ficou imóvel. Olhou fixamente a casa senhorial. Era decerto uma fortaleza bastante vulnerável. À visão do solar, o seu rosto escurecido pela barba espessa e negra, endurecera. O sangue corria-lhe forte nas veias, agitando os seus sentimentos. Que segredos em comum existiriam entre o solar e o caminhante?
Com a sua aparição dois cães começaram a ladrar furiosamente, pelo que surgiu um homem a averiguar a causa da agitação. Era o verruga. Detectando a presença do estranho, de imediato se dirigiu a ele ameaçadoramente, dizendo:
- Que queres daqui farrapeiro?
- Procuro trabalho - disse o caminhante sem denunciar medo - quero falar com o senhor Barreto Raposo.
- O “nhor” Barreto Raposo tem muitos cuidados para estar a perder tempo contigo. “Desparece” daqui antes que eu te empurre.
- Empurrar alto lá - respondeu o caminhante - só quero pedir trabalho. Não estou a ofender ninguém.
- Estás-me a ofender a mim, que já te disse para ires embora e “inda” aqui estás.
- Ainda não fiz ao que vim. Se o senhor Barreto Raposo não está, voltarei cá noutro dia.
- Não vai ser preciso - disse o fivelas que estando dentro do solar, ao som da discussão veio ver o que se passava - se è para pedires esmola já cá não devias estar.
O caminhante olhou para aquele homenzarrão que acabara de surgir.
- O senhor é que é o dono da herdade?
- Eu mesmo. Que queres?
- Venho pedir trabalho.
- Que sabes tu fazer? - perguntou o fivelas.
- Faço todos os trabalhos da lavoura.
- Bom, um par de braços nunca é demais. Se eu não gostar do que fazes vais embora. Como te chamas?
- Já me chamaram tanta coisa, que já esqueci o meu nome.
- Não me digas que vieste da mesma terra aqui do verruga e do meu outro empregado, o mouro, a terra onde não põem nomes aos homens.
- Não posso afiançar isso ao senhor Barreto Raposo, porque também já esqueci a terra onde nasci. Ando sozinho neste mundo. Preciso de trabalho para poder comer uma côdea de pão.
- Se queres comer essa côdea tens de mostrar o que vales. Vai para aquele casario ali mais abaixo e procura lá um buraco para ficares. Lá moram os jornaleiros da minha herdade. Mas ouve Zé Ninguém, nada de graças nas minhas terras. O mouro e o verruga conhecem algumas habilidades que não são muito do gosto daqueles que me desagradam. Percebes?
- Pode o senhor Barreto Raposo ficar descansado, que este seu criado apenas se vai preocupar em o servir bem.
- Pois que assim seja Zé Ninguém. Pergunta por lá onde fica o pasto sul. Quero-te lá ao romper do dia. Alguém te há-de dizer o que deves fazer.
- Muito agradecido fico senhor Barreto Raposo. Com sua licença cá vou.
E o caminhante dirigiu-se para o casario, doendo-lhe a mão direita da força com que apertara o bordão. Aquele diálogo extenuara-o. Era humilde mas não ignorante. Sabia perfeitamente quando era tratado sem o mínimo de respeito. “Zé Ninguém” chamara-lhe o outro. E não se enganava. Perdera tudo na vida. Mas a dignidade, essa havia de a recuperar. Não podia morrer sem ser de novo um homem honrado.
Apreciando a paisagem, o caminhante chegou ao casario. Três porcos foçavam num charco. Um cão ladrava à sua passagem. Muito ladram os cães aos desventurados da vida! Uma mulher surgiu à porta de uma das casas. Ficou com ar assustado ao vê-lo. Toda ela estava coberta de preto.
- Procura alguém? - perguntou a mulher.
- Sou um novo jornaleiro cá da herdade. Procuro um sítio para ficar.
- Vá à seara, para o lado daqueles carvalhos. Lá encontrará alguns homens. Fale com o meu marido, o Daniel Matias, que ele há-de ajudá-lo.
- Obrigado santinha. Que Deus a guarde.
E o caminhante seguiu pela direcção que Lucinda, pois era dela que se tratava, lhe indicou...(em continuação- pág. 80, ex. XXVI)

in QUANDO UM ANJO PECA

Março/1998

11 comentários:

poeta do inverno. disse...

este texto fez me lembrar de um outro que eu escrevi, não foi de certa forma sobre o mesmo tema, mas foi sobre os pedintes ou mendigos das ruas da minha querida cidade, pessoas perdidas que vieram de outras cidades e acabaram por ver seus sonhos destruidos pela grande metropole, alguns tambem destruiram-se sozinhos entregando se a tristeza, a violencia e outros problemas...esta sociedade é muito injusta e nos tambem somos injustos conosco, quando deixamos que tudo seja resolvida pelos nossos politicos ou pelo destino, falo principalmente do brasil.

Poeta do Penedo disse...

Meu caro porta do inverno
todas as sociedades criam pedintes, mesmo as mais evoluídas, pessoas sem eira nem beira. Aqui em Portugal damos-lhe o nome dos «sem abrigo». São histórias dramáticas,que têm a sua génese em muitos tipos de circunstâncias, a maioria das vezes ligadas ao consumo de estupefacientes, mas algumas vezes desilusões, frustrações, dramas pessoais que empurram as pessoas para vielas sem saída, pelo menos elas assim pensa.
E este nosso «pedinte», como lhe chamou, não foge à regra. Também a sua «mendicidade» tem uma razão de ser. Com o tempo talvez a venhamos a saber.
Este caminhante, caminha sozinho, no ano de 1922, como se pode ler em textos já publicados.
Com um abraço

Poeta do Penedo disse...

peço perdão pelo tratamento, no comentário acima. Um lapso infeliz, meu caríssimo poeta do inverno.

MM disse...

Caro Poeta do Penedo,

A nossa sociedade potencia a ascensão e queda dos "zés ninguéns",
gente que ao contrário do exemplo do texto não faz do trabalho o selo de afirmação, ou porque não tem oportunidade de se revelar nessa vertente ou porque simplesmente não sabe o que isso é. O jet set televisivo encaixa bem nesta descrição.

Por outro lado, permita-me recordar os casos de portugueses que foram atraídos para trabalhar em Espanha e mesmo na Holanda (se não estou em erro) e que se viram tratados como "zés ninguéns", em suma como gente de segunda ou de terceira.

Quando ao comentário do poeta do inverno, julgo que seria pertinente investigar e identificar os fenómenos sociais que geram pedintes, sobretudo aqueles que transcendem o universo da precaridade económica

Amistosamente,

Marcelo Melo
www.3vial.blogspot.com

MM disse...

CONVITE

Caro Poeta do Penedo,

Presumindo que já se apercebeu da existência de uma secção no meu blogue 3vial dedicada a textos de pessoas que deliberei designar por "Amigos do 3vial", teria um imenso prazer em poder contar com uma composição da sua autoria na qualidade de Amigo do 3vial.

Seria excelente poder receber um texto seu!

Caso aceite o meu convite,passo a enunciar as condições que costumo sugerir aos participantes:

1. Desejavelmente, gostaria que o texto tivesse à volta de 300-320 palavras.

2. O título deverá principar pela palavra "Sobre" seguindo-se a identificação do tema do texto.

3. Peço permissão para encontrar uma foto no site worth1000.com que ilustre de algum modo a composição criada.

Finalmente, e mais especificamente para o meu caro Poeta do Penedo, gostaria que me esclarecesse que se pretende que o apresente pelo seu nome próprio ou como Poeta do Penedo.

Tenha a liberdade de me enviar o texto para o meu email, que poderá encontrar na página do meu perfil, no 3vial.

Reforço novamente o meu desejo de contar com a sua presença na lista de pessoas que são Amigas do meu blogue e que por isso são minhas amigas.

Com amizade,

Marcelo Melo
www.3vial.blogspot.com

Poeta do Penedo disse...

Caro Marcelo Melo
o Zé Ninguém português, e provavelmente o universal, deve a sua sua existência, presumo eu, essencialmente porque coabita com uma permanente inadaptabilidade à sociedade em que está inserido. Essa inaptidão social trouxe-a do berço e fá-lo ser um péssimo gestor da sua vida. De qualquer forma existe um outro tipo de Zé Ninguém, que não deve à inaptidão o seu mau viver, antes vítima de golpes baixos que a vida lhe deu, mas porque sabe como se faz para se ter uma vida digna, consegue atingir a regeneração.
Relativamente ao seu convite, pois será com imenso prazer que escreverei um texto (não sabendo para quando, pois escrever para o 3vial não se pode fazer levianamente). Irei pensar no assunto a abordar. Mas desde já fica a promessa de que vai chegar brevemente. Para questões do dia a dia assino Jorge Gomes. Para os meus escritos assino Fareleira Gomes, sendo pois este segundo nome o que gostaria que colocasse para minha apresentação.
Obrigado pelo convite, que me entusiasmou.
Com amizade.

poeta do inverno. disse...

meu carissimo eu é que tenho que pedir perdão por não ter entendido o texto... carissimo acho que o marcelo deve mesmo ter uma razão em seu comentario.
com abraços e retratações ou desculpas.

Teresa Fidalgo disse...

... A verdade é que, para muitos, uma pessoa não vale por aquilo que é, mas por aquilo que tem... Foi assim no passado, mas continua a ser assim no presente!!!

Este nosso herói (o desventurado da vida), parece que já teve riqueza... e que a perdeu...
O tratamento que agora recebe, habitual a quem nada tem, poderá fazê-lo, e a nós também, reflectir sobre a forma como seres humanos se dirigem a outros, e como se sentem no direito de os humilhar!

Felizmente para ele, apenas perdeu os bens mareriais, não a dignidade!

A ver como corre a sua história... Estarei atenta a isso!

Mais uma vez, um excelente texto!

Saudações :)

Gibson Azevedo disse...

Bom começo de drama ou seria trama? Saber-se-á ao ler-se a continuação, o enredo, alguma razia talvez, deste fantástico folhetim, que nos apresenta o surpreendente Fareleira Gomes. Êita poeta! Estás estorinhando maravilhosamente. Se estás!...
E os perros? Sempre ladram...

Grande abraço cá do Brasil.

Poeta do Penedo disse...

Cara Teresa Fidalgo
é como diz. Os bens materiais, nesta sociedade de consumo desenfreado, são a grande imagem de marca, relegando para segundo e terceiro planos os bens morais.
Recordemos que este «nosso herói» está a entrar numa herdade tomada de assalto,em Alfeizerão,por um grupo de criminosos, dias depois da implantação da república, pelo homem que o acabou de receber, o Barreto Raposo, altura em que dali foi roubado um de dois gémeos.
E que um dos homens que integrou esse grupo, o António Avilar, viu-se obrigado a fugir, tendo-se alistado no exército, onde veio a incorporar o Corpo Expedicionário Português, presente na trágica manhã de 9 de Abril de 1918 na Flandres- Armentiéres.
Briosas saudações

Poeta do Penedo disse...

Meu caríssimo Gibson
obrigado pelas suas palavras extremamente simpáticas. Adorei a expressão «estorinhando». Estamos na mesma ambiência daquela noite de natal, lembra-se? Daquele romance junto à figueira velha.
Estorinhando me entretenho.
No Brasil, os perros também ladram à passagem da desgraça?

Com amizade