sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

NA AURORA DE 2010

Estas são as primeiras palavras que escrevo no ano de 2010, que tem neste momento 55 minutos de existência. Completar-se-á este ano um século sobre a implantação da República em Portugal, depois de 767 anos de monarquia. Um século depois, pergunto: valeu a pena?
O «reviralho», que muito contribuiu para que o sentimento republicano ganhasse força na sociedade portuguesa do final do século XIX, em que o partido do governo passava para a oposição, e a oposição passava a ser governo, e seguidamente se assistia ao inverso, repetidas vezes, e o país mantinha-se imutável, na cauda da Europa, tem uma nova versão, modernizada, é certo, mas igualmente ineficaz. Vivemos o reviralho do século XXI. A coisa joga-se entre o PS e o PSD, mas estando um ou outro, os resultados práticos são os mesmos- o enorme crescimento do país!
Com tantos ultrajes à decência moral, que têm acontecido ultimamente, por vezes considero que faço uma má gestão deste espaço. Mas eu vivo num penedo por onde passa a poesia coimbrã, o penedo da saudade. Não é a política que me move. Nunca foi e nunca o será. Se o tivesse sido, hoje, provavelmente, quem sabe, poderia muito bem ser uma figura do Estado. Por essa razão não quero transformar este pedaço de mim numa coisa árida.
Sou, com muito orgulho, um jovem de Abril. A 25 de Abril de 1974, pelas ruas da minha adorada Coimbra, enrouqueci de tanto gritar as palavras de ordem da liberdade. Uma persistentemente me persegue: O Povo Unido Jamais Será Vencido. Onde pára esse ideal? Foi para isto que o 25 de Abril foi feito? Que povo é esse que jamais será vencido? Apenas 35 anos depois quem somos nós? Que coisa horrível, torpe, facínora, criminosa é esta que dá pelo nome de BPN e BPP? Esta fraude, corrupção, o que lhe queiram chamar está muito acima do meu limitado entendimento. Não tenho a verdadeira noção do que aquilo é, nem quero ter, para evitar uma vergonha maior. Mas tive uma pequena noção, quando ouvi, há uns tempos, um comentador na televisão dizer que o caso Alves dos Reis, comparado com o caso BPN era uma brincadeira. Deu para perceber a profunda gravidade da situação.
Na minha triste ingenuidade, há 35 anos, eu, fazendo parte do povo, estava convencido que ao depormos o fascismo,nos iamos tornar invencíveis- unidos jamais iriamos ser vencidos. Era novo demais para saber que a lei do dinheiro está acima de qualquer coisa, principalmente em países em que os lobos vestem o fato e a gravata de inocentes e honestas ovelhas, escondendo o nefasto parasitismo que lhes empapa a alma. E parece que não há lei que os detenha.
2143- data em que Portugal completará mil anos como país independente. Iremos comemorar essa data, ou, pelo contrário, vamos deixar que a alcateia nos parasite e esvazie a nossa vitalidade, a ponto de chegados a essa data nada sermos, nada termos para comemorar?
Desculpem este disparate. O que se pode esperar de um ano que apenas tem uma hora de vida?

14 comentários:

Paula disse...

Esperemos que 2010 seja melhor. Se não conseguirmos isto em termos gerais,pelo menos que seja para nós e para os que nos rodeiam...

A evolução, o progresso acarreta todos estes aspectos que referiu, nomeadamente o esquecimento de objectivos por parte de muitos, especialmente de quem governa...os "tachos", as "cunhas" acabam sempre por prevalecer...
Porém, quem lutou de coração aberto jamais esquecerá a sua causa...

Um abraço!

Poeta do Penedo disse...

Paula
Tenhamos então esperança de que a Causa se mantenha viva nos corações dos que lutaram por ela, e nos corações dos seus descendentes, para que, através dessa energia provenha a força necessária à nossa sociedade, para que colectivamente nos consciencializemos que uma depuração é urgente. Evoluimos para uma sociedade de livre expressão, em que os jovens já não enfrentam a guerra do ultramar, mas nada democrática, pois a democracia não abrange somente a liberdade de expressão. A justiça social é talvez a sua mais forte reivindicação, e nesse particular somos uma sociedade tremendamente injusta. O fosso entre ricos e pobres chegou aos níveis da outra senhora, se é que os não ultrapassou já.
Tenhamos pois esperança.
Com amizade.

Manuel Cardoso disse...

Caro Poeta, as tuas palavras fizeram-me pensar.
Tal como tu, sou um fervoroso admirador e seguidor dos ideais de Abril. Na minha actividade profissional, como professor de História, faço um esforço continuado para inculcar nos jovens esta ideia que muitos querem apagar: 25 de Abril Sempre! Vivi ainda parte do regime anterior e sei o que aquilo era! Não podemos deixar esquecer nunca!
No entanto, tal como tu, vivo na margem da desilusão como tu vives na do Mondego.
Dou comigo à beirinha da revolta interior perante tanto desperdício.
Hoje em dia, despediçamos a liberdade e brincamos ao saudosismo;
desperdiçamos a solidariedade e brincamos às campanhas de Popotas e afins;
desperdiçamos a justiça social e brincamos aos subsídios;
desperdiçamos a independência e brincamos às normas e às tetas da Europa;
como diria o velho Eça, desperdiçamos Portugal, meu amigo, desperdiçamos Portugal!

No entanto, caro Poeta, eu disse que vivo na margem da desilusão. E porquê na margem?
Porque a vida é muito mais que isso; muito mais que amargura e desencanto. Os livros são um refúgio.Penso que quem lê foge sempre de alguma coisa; eu fujo do que me causa desilusão. Não desisto, como disse acima, de defender Abril; mas não vale a pena a desilusão; não vale a pena lamentar. A vida, para lá deste país na margem da estupidez, para lá até dos livros, continua a ser bela.
Muito bela mesmo.
Um grande 2010 para ti e para o teu belíssimo blog.
Um abraço!

Poeta do Penedo disse...

Meu caro Manuel Cardoso
Temo-nos encontrado varíadissimas vezes no Viajar Pela Leitura, pela que a tua presença não me tem passado despercebida. Tenho visitado o teu blogue que considero extremamente interessante, onde noto um alto nível de conhecimentos literários, e não só, pelo que me preparava este ano para tentar comentar, com um minímo de qualidade, as tuas publicações.
Considera as tuas palavras como um grande estímulo para mim. Já calculava que fosses professor de história. Porquê? Talvez porque a forma como te exprimes a considere muito parecida com a maneira de estar de um dos meus filhos, que está a tirar o curso de arqueologia.
Pois é. Sinto-me um previlegiado por no meu tempo ter Portugal vivido uma revolução. E porque a viv, tal como tu, e recordando o que Abril significou para todos nós, naquela altura, sinto-me como que atraiçoado hoje em dia. Acho que em Portugal as revoluções são uma espécie de uma montanha que vai parindo ratos. A única que na verdade teve a capacidade de alterar Portugal foi a de 1640. E agora com essa ideia de se quererem eliminar feriados, algumas mentes acharam por bem que um feriado que deveria ser eliminado seria o 1º de Dezembro, que nenhum significado tem para Portugal, segundo alguns.
Quando para um povo a sua história tem este significado, algo vai mal, muito mal.
Tenhamos fé nos tempos que se aproximam. Eu faço tudo para acreditar. Eu quero acreditar que vamos ainda ser capazes. Acreditemos pois que alguém verdadeiramente capaz um dia chegará ao poder e colocará Portugal na senda do desenvolvimento, do verdadeiro desenvolvimento, respeitando assim os ideais de liberdade daquela arrebatadora primavera de 1974, em que, forçosamente terá de passar por uma maior justiça social.
Agradeço profundamente o teu comentário.
Um abraço

Manuel Cardoso disse...

Meu caro Poeta, eu já "desconfiava" que quando começassemos a conversar, iamos ter muito para esmiúçar :)
Dado o adiantado da hora, prometo para amanhã uma resposta à altura :)
Para já, só duas notas:
1- Obrigado pelos elogios; opiniões como a tua, podes crer, contam!
2- Tenho um ponto comum com o teu filho: a paixão pela arqueologia; sou professor de história mas fiz mestrado em Arqueologia, embora agora prefira "escavar" os livros ;)

poeta do inverno disse...

o esquecimento de muitos e triste para a geração atual onde parece que tudo se resume no momento e nada mais...mas que nossa terra seja este ano movida por ideias diferentes ao menos resta me esta esperança...
um abraço

Manuel Cardoso disse...

Há um livrinho excelente do filósofo José Gil que explica bem esta alma portuguesa. "Chama-se Portugal Hoje, o medo de existir".
Nós, portugueses, temos medo. Somos um povo de medricas que, no café, disparata contra tudo e todos mas depois tem medo de "assinar por baixo". Ou seja, temos muita treta mas na prática temos medo de nos comprometer. Vamos para o café dizer mal do Sócrates ou do Cavaco mas na hora de verdade...
Dizemos mal do patrão mas só durante o fim de semana; na segunda feira lá estamos nós a lamber botas!
Mas, na opinião de José Gil que eu subscrevo, isto ainda é herança salazarista: absorvemos o medo, como se nos tivesse entrado nos genes.
Na minha opinião há um traço caracteristico da nossa triste alma que é ainda mais notório do que esse: a nossa mania do saudosismo e do messianismo. Passamos a vida à espera de um Salvador da Pátria, de alguém que venha salvar o país de todas as desgraças. Ainda acreditamos (pobres tolos) que um primeiro ministro ou um Presidente são capazes de "endireitar isto" (herança de Salazar também?). Depois, juntamos a este messianismo bacoco uma coisa ainda mais pateta: o saudosismo. Como abominamos o presente acreditamos que no passado é que foi bom: quando o Benfica ganhava campeonatos, quando havia "ordem e respeito", quando havia fartura das colónias, quando "Africa era nossa" e nem nos lembramos que nesses tempos idos também havia misérias. Veja-se um qualquer Durão Barroso; quando cá esteve farta-mo-nos de dizer mal dele. Mas agora que está "nas Europas" já dizemos que, "esse sim"...
Quer dizer, só estamos bem onde não estamos! Esta coisa do saudosismo mete-me impressão. Se nunca fomos ricos (tirando uns aninhos de pimenta da India e outros de ouro brasileiro), se sempre fomos os tesos da Europa, temos saudades de quê??? De D. Sebastião! Valha-me Deus, que país é este que fez um mito de um rei que se aventurou como um tolo em África sacrificando milhares de almas, perante exércitos muito superiores ao seu?
Há um livro que li há muitos anos sobre estas questões e que ainda hei-de tentar reler: "O labirinto da saudade" do Eduardo Lourenço. Talvez conheças; é um dos primeiros ensaios dele.

Poeta do Penedo disse...

Poeta do Inverno
esse é um enorme desejo, que vendo-se concretizado, em muito auxiliaria o desenvolvimento dos nossos países. Pelo menos em Portugal, um dos nossos mais sérios inimigos é a nossa mentalidade colectiva. Não sei se o Brasil sofre desse mal,mas levando em conta que por aí estivemos 322 anos, é natural que dela existam ainda alguns vestígios. Ser português é bom. Eu adoro ser português. De forma alguma quereria outra nacionalidade, mas não por isso que hei-de deixar de reconhecer o nosso maior defeito.
Um abraço.

Poeta do Penedo disse...

Caro Manuel Cardoso
Não há dúvida de que temos muito em comum.
Eu penso que como país não começámos nada mal. Há muitos que hoje em dia dizem que a culpa de tudo isto é do D. Afonso Henriques. Se não se lhe tivesse metido na cabeça tornar independente este pequenito e paupérrimo pedaço de chão, hoje viveríamos muito melhor. Mas, se assim fosse, o mundo não teria tido oportunidade de conhecer um grande povo.
Depois avançámos por aí fora, tivemos as nossas convulsões, mas continuámos a bater o pé aos espanhóis em Aljubarrota, batalha que se me afigura de um imenso romantismo (não sei onde posso eu encontrar romantismo numa batalha, mas é o que sinto), bem como na enorme figura do Santo Condestável. Avançámos mais meio século e eis-nos na grande epopeia. Como foi possível que tão pobres, tão pequenos (como hoje) tenhamos conseguido fazer o que fizemos. Transportando os Descobrimentos para a actualidade, seria como se Portugal, de repente, tivesse capacidade para fazer de nós astronautas e víssemos uma nave portuguesa poisar na lua (Está lá a bandeira americana feita por uma portuguesa de Vagos..ena...ena, que porreiro).
Mas o tempo das vacas gordas, em questão de mentalidade, terminou em 1578. Álcacer-Quibir mutilou-nos até hoje. Definhámos na nossa auto estima. Esquecemos a boa gestão dos nossos recursos. Nem ouro do Brasil, nem o de Angola, nem os diamantes, nada nos tem valido. E para aumentar este deserto, os políticos também aderiram à coisa. Ontem mencionaste o Eça. Pois eu sou um fervoroso leitor do nosso, provavelmente, maior escritor de todos os tempos. E vem-me muitas vezes à ideia a sua obra hilariante, tão pouco conhecida, felizmente muitíssimo bem retratada pela RTP há alguns anos, numa excelente série- O Conde de Abranhos, em que o Eça faz uma sátira acutilante, e incrivelmente actual sobre a classe politica. E coloca os deputados da Assembléia num bordel de luxo, onde se inclui a figura ridícula do grande politico Alípio Abranhos, onde em determinado passo eles, deputados, têm dúvidas se serão deputados ou homens deputedos. Como obra é divinal. Como obra que tem cem anos, cheia de sinistra actualidade, é aterrador.
Mas, e em comunhão contigo, os portugueses ainda não perceberam que o Estado não são só os senhores dos ministérios. O Estado também passa por nós, o povo. E o povo quer lá saber do desenvolvimento do país. Apenas se preocupa em ganhar mais (uma legítima reivindicação), mas abstém-se mentalmente de todas as suas obrigações morais para com o país.
Todos temos responsabilidades nesta situação. Por exemplo, temos um gravíssimo problema à porta: a fraca natalidade vai ter reflexos muito negativos daqui a alguns anos. Mas muitos portugueses ainda não entenderam que esta é a razão para as medidas nada simpáticas que foram tomadas- prolongar o tempo de actividade laboral. E não me venham dizer que o Estado não promove a natalidade, porque nota-se que os casais com maior poder de compra são os que têm menos filhos, ou não têm mesmo nenhum.
Enfim, meu caro Manuel Cardoso, isto está um nó bravo. Tenhamos esperança para 2010. Um ano muito feliz para ti.
Com amizade
Fareleira Gomes

poeta do inverno disse...

neste pais chamado brasil alguns problemas não são vistos como coletivos aqui pode se dizer que somos individuais, mais mesmo assim somos um pais unido em seus ideais principalmente se ferem os ideais da patria, mas o problema é que rapidamente esquecemos tudo.

Gibson Azevedo disse...

Pois bem, meu caro poeta, a velha monarquia portuguesa, como outras em outras partes do mundo, ruiu por por incompetência dos seus gestores; carcomida e decadente desintegrou-se em cinzas, sem que para isto, os que a elas se opuseram, tenham feito um esforço acima de suas capacidades. Não! Caíram - Feudos e empórios dinásticos - vítimas de suas próprias tibiezas!...
Quanto ao vosso envolvimento, nos verdes anos da juventude, em porfias políticas e afins, não é de causar surpreza; pois que, é comum aos homens ainda em formação, indignar-se, sobremaneira, com as velhas práticas administrativa. É uma pena que essas frustrações se repitam quase a cada geração.
Senão vejamos:
Enviu-lhe, a propósito, um poema de um destacado Senador do Império do Brasil (2º Império), Francisco Otaviano, que resume e justifica perfeitamente os nossos excessos da adolescência e frustrados sentimentos posteriores de desengano, tão bem expostos na matéria acima:



(Ilusões da Vida)

Quem passou pela vida em branca nuvem

E em placido repouso adormeceu;

Quem nao sentiu o frio da desgraca,

Quem passou pela vida e nao sofreu;

Foi espectro de homem, nao foi homem,

So passou pela vida, nao viveu.



Francisco Otaviano.



Grande abraço.

Poeta do Penedo disse...

caro poeta do inverno
Se os problemas não são assumidos por todos, é porque algo vai mal na democracia. E isto nada tem a ver o patriotismo. Por aqui, continuamos a ser patriotas, mesmo os que apregoam que o não são, mas isso não impede que não existam injustiças sociais. Existem. E profundas. A questão está em saber distribuir melhor a riqueza. Mas a ganância é muita, que se opõe determinantemente a uma maior equidade.
Com amizade

Poeta do Penedo disse...

Meu caro Gibson
Não é o facto da monarquia ter caído que me apoquenta. Eu sou republicano, porque quando nasci o meu país era uma república. Ninguém me perguntou qual a minha opinião. Temos repúblicas de sucesso e monarquias também, que ainda se mantém. O que me impressiona é o facto de um regime ser derrubado com a promessa de que a vida do povo vai melhorar, e depois se volta a cair na tremenda injustiça social. O povo saiu à rua em 1910 não para defender o ideal de ter um presidente, antes pela promessa de mais pão. O povo saiu à rua em 1974, não só para terminar com a guerra do ultramar, não só para aspirar à democracia, à liberdade de expressão, mas também na esperança de que, com a democracia chegasse uma maior igualdade entre os homens. Sintoma disso foram os saneamentos, a reforma agrária, A TERRA É DE QUEM A TRABALHA, diziam as palavras de ordem. 35 anos depois tudo uma utopia. Independentemente dos progressos que se fazem notar, o fosso entre classes continua abismal.
O poema que nos apresentou é maravilhoso e profundo. Queiramos ou não, o sofrimento do homem é o sal da vida. É a escola que nos ensina a enfrentar as adversidades. talvez por essa razão grandes obras poéticas tenham sido edificadas sobre corações mutilados de tristeza.
Com grande amizade.

poeta do inverno disse...

caro poeta do penedo veja que a imprenssa internacional nos mostra um pouco como este pais é injisto concordo e muito contigo.